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Imortal love

Fandom: Estilhaça-me

Criado: 18/07/2026

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O Eco do Silêncio e o Peso do Ouro

O Setor 45 sempre fora um lugar de sombras, mas para Clara, os corredores de concreto e aço costumavam ter um brilho diferente. Esse brilho emanava do homem que governava aquele lugar com punhos de ferro e luvas de couro impecáveis. Aaron Warner era uma tempestade contida, um enigma que poucos ousavam tentar decifrar, mas Clara o conhecia. Ou, pelo menos, pensava que conhecia.

Ela trabalhava na ala administrativa do Restabelecimento, cuidando da logística de suprimentos, um cargo que a mantinha estrategicamente perto do gabinete dele. Clara não era como as soldados esguias ou as oficiais de olhar gélido. Ela tinha curvas suaves, um rosto redondo que costumava se iluminar com um sorriso e mãos que, nas raras noites de privacidade, Warner dizia serem o seu único refúgio de sanidade.

Mas o refúgio estava desmoronando.

Desde que Juliette Ferrars fora trazida de volta — a garota com o toque letal, a obsessão que Warner nunca escondeu totalmente —, o ar no Setor 45 havia mudado. E Clara sentia cada átomo dessa mudança.

Naquela noite, Clara estava em seu pequeno dormitório, tentando se concentrar nos relatórios de inventário, quando a porta se abriu sem aviso. Ela não precisou olhar para saber quem era. O perfume de sândalo e sabonete caro preencheu o ambiente antes mesmo que ele desse o primeiro passo.

— Você está atrasada com os relatórios de munição — disse Warner. A voz dele era fria, profissional, desprovida de qualquer vestígio da ternura que ele costumava demonstrar quando estavam sozinhos.

Clara levantou o olhar, encontrando os olhos verdes dele. Eles pareciam mais claros, mais distantes, como se ele estivesse olhando através dela para algo muito mais importante.

— Eu terminei há uma hora, Aaron. Estava esperando você vir buscar, ou me chamar, como costumava fazer.

Warner caminhou até a mesa dela, os dedos enluvados tamborilando sobre a superfície de metal. Ele não se inclinou para beijá-la. Ele nem sequer tocou em sua mão.

— As coisas estão agitadas. Juliette precisa de supervisão constante. O progresso dela é a prioridade absoluta do Restabelecimento agora.

— E eu? — A pergunta escapou antes que Clara pudesse contê-la. — Onde eu me encaixo nessa sua nova prioridade?

Warner finalmente focou o olhar nela, mas não havia calor ali. Apenas uma impaciência contida que doía mais do que um tapa.

— Você é uma funcionária valiosa, Clara. Seu trabalho é essencial para a manutenção desta base.

— Não fale comigo como se eu fosse apenas um número no seu sistema — disse ela, levantando-se. A cadeira arrastou-se ruidosamente pelo chão. — Nós tínhamos algo. Você me disse que eu era a única pessoa que via quem você realmente era. E agora, desde que ela chegou, eu me tornei invisível.

— Você está sendo dramática — rebateu ele, a voz baixando de tom, tornando-se perigosa. — Juliette é... diferente. Ela precisa de mim de uma forma que você nunca precisará. Ela é uma arma, um milagre e uma maldição, tudo em um só corpo.

— E eu sou apenas humana, não é? — Clara sentiu as lágrimas pinicarem seus olhos, mas recusou-se a deixá-las cair. — Eu sou apenas a garota que aquece sua cama e ouve seus pesadelos quando você não consegue dormir, mas que não tem utilidade estratégica no seu grande plano de guerra.

Warner deu um passo à frente, fechando a distância entre eles. Por um momento, Clara achou que ele a abraçaria, que o Aaron que ela amava voltaria por um instante. Mas ele apenas segurou o queixo dela com firmeza, forçando-a a olhar para ele.

— Não confunda minha distância com desinteresse, Clara. Eu ainda exijo sua lealdade. Eu ainda exijo sua presença.

— Presença para quê? — Ela tentou se soltar, mas ele não permitiu. — Para eu assistir você se arrastar aos pés de uma garota que tem medo da própria sombra? Para eu ser o seu plano B quando ela inevitavelmente te rejeitar de novo? Eu não quero mais isso, Aaron. Eu quero ir embora.

O aperto de Warner em seu queixo se intensificou por um segundo antes de ele soltá-la bruscamente. Ele se virou de costas, caminhando até a pequena janela que dava para o pátio cinzento do Setor 45.

— Você não vai a lugar nenhum — declarou ele, a voz agora como uma lâmina de gelo.

— Você não pode me manter aqui contra a minha vontade! — exclamou Clara, a voz embargada. — Eu peço demissão. Vou solicitar transferência para o Setor 30, ou talvez para a base civil.

Warner soltou uma risada curta e sem humor, um som seco que fez os pelos do braço de Clara se arrepiarem.

— Você acha que este é um emprego comum, Clara? Você acha que pode simplesmente entregar um formulário e caminhar para fora desses portões? Você sabe demais. Você me conhece demais.

— Eu não contaria seus segredos — sussurrou ela. — Você sabe que eu nunca te trairia.

— Eu sei que você não faria isso agora — disse ele, virando-se para encará-la novamente. — Mas o mundo lá fora é cruel, e as pessoas mudam sob tortura ou desespero. Além disso... eu não permito. O que é meu, permanece meu.

— Eu não sou um objeto, Aaron! Eu não sou uma das suas armas de estimação ou um território que você conquistou!

Warner caminhou lentamente em direção a ela. Dessa vez, ele não parou até que seus corpos estivessem quase se tocando. Ele era mais alto, mais imponente, e a aura de poder que ele exalava era quase sufocante. Ele estendeu a mão e, com uma lentidão torturante, acariciou a bochecha de Clara com o polegar.

— Você é a única coisa macia neste mundo de arestas afiadas, Clara. Você é o meu lembrete de que eu ainda tenho um pulso.

— Então por que me trata assim? — perguntou ela, uma lágrima finalmente escapando. — Por que me ignora nos corredores? Por que olha para Juliette como se ela fosse o sol e eu fosse apenas uma sombra?

— Porque ela é o sol — admitiu ele, com uma honestidade brutal que despedaçou o coração de Clara. — Ela é cegante, destrutiva e necessária. Mas o sol queima, Clara. E às vezes, eu preciso da sombra para sobreviver.

— Eu não vou ser sua sombra — disse ela, a voz firme apesar da dor. — Eu prefiro o nada a ser o seu consolo para quando o sol te queimar.

Warner inclinou a cabeça, estudando-a. Havia algo de possessivo e sombrio em seu olhar, uma centelha de loucura que ele costumava esconder muito bem.

— Você não entendeu ainda, não é? — Ele deslizou a mão para a nuca dela, puxando-a para mais perto, até que seus lábios estivessem a milímetros dos dela. — Eu não estou te dando uma escolha. Você vai continuar no seu posto. Você vai continuar vindo aqui quando eu chamar. E você nunca, jamais, tentará cruzar aqueles portões sem a minha permissão.

— Isso é um sequestro — sussurrou ela contra os lábios dele.

— Isso é preservação — corrigiu ele.

Ele a beijou então. Foi um beijo desesperado, possessivo e cheio de uma fúria silenciosa. Não havia o carinho de meses atrás, apenas a necessidade de marcar território, de garantir que, apesar de sua obsessão por Juliette, ele ainda detinha as rédeas da vida de Clara.

Quando ele se afastou, Clara estava ofegante, o coração batendo descompassado contra as costelas. Warner a olhou uma última vez, a máscara de frieza retornando ao seu rosto como se nunca tivesse saído.

— Volte ao trabalho, Clara. Quero os relatórios finais na minha mesa amanhã às seis da manhã. Pessoalmente.

Ele se virou e saiu do quarto, o som de suas botas ecoando pelo corredor até desaparecer no silêncio pesado da noite.

Clara desabou na cadeira, cobrindo o rosto com as mãos. Ela olhou para as paredes cinzas do dormitório, que agora pareciam mais com as de uma cela de prisão do que nunca. Ela amava um monstro, e o problema de amar um monstro não era apenas o medo de ser devorada, mas a percepção dolorosa de que, para ele, ela era apenas um tesouro trancado em um baú — algo para ser guardado, mas raramente apreciado à luz do dia.

Lá fora, em algum lugar daquela base, Juliette Ferrars era o centro do universo de Warner. Mas aqui, naquela sala pequena e claustrofóbica, Clara percebeu que sua própria liberdade havia se tornado o preço da obsessão dele.

— Eu vou sair daqui — sussurrou ela para a sala vazia, embora soubesse que as câmeras de segurança gravavam cada palavra. — Eu não sou sua sombra, Aaron. E um dia, você vai descobrir que nem tudo o que você tranca permanece sob seu controle.

Mas, enquanto olhava para a porta fechada, Clara sentiu o peso das correntes invisíveis que Warner havia colocado ao redor de sua vida. Ele não a amava como ela merecia, mas ele se recusava a perdê-la. E no mundo do Restabelecimento, o desejo de Aaron Warner era a única lei que importava.

Ela se levantou e caminhou até a mesa, pegando a caneta. Se ela ia lutar, precisaria de informações. Se ele a queria por perto porque ela sabia demais, ela usaria esse conhecimento para construir sua própria saída.

A guerra estava apenas começando, e Clara não seria apenas uma nota de rodapé na história de Juliette e Warner. Ela sobreviveria, mesmo que tivesse que queimar o próprio refúgio para encontrar a luz.

Horas depois, o sol começou a nascer, tingindo o céu de um laranja doentio sobre o Setor 45. Clara terminou o último relatório e organizou os papéis. Ela lavou o rosto, ajeitou o uniforme e respirou fundo.

Ela caminhou pelos corredores em direção ao gabinete de Warner. Ao passar pelo setor de treinamento, ela viu, através do vidro reforçado, a silhueta de Juliette. A garota parecia frágil, mas a forma como Warner estava parado ao lado dela, observando cada movimento com uma intensidade quase religiosa, dizia tudo o que Clara precisava saber.

Ela não parou para observar. Ela continuou andando até a porta do gabinete dele. O guarda na entrada apenas assentiu, permitindo sua passagem.

Warner estava sentado atrás de sua mesa de mogno, a luz da manhã destacando as linhas perfeitas de seu rosto. Ele nem sequer levantou os olhos quando ela entrou.

— Estão aqui — disse Clara, colocando os relatórios sobre a mesa.

— Ótimo — respondeu ele, a voz monótona. — Pode ir.

Clara hesitou por um segundo. Ela olhou para o homem que um dia a fizera sentir que o mundo não era um lugar tão terrível. Agora, ele parecia apenas mais uma parte da máquina de destruição.

— Aaron?

Ele levantou o olhar, uma sobrancelha arqueada.

— Sim?

— Não se esqueça de que sombras só existem enquanto há luz. Se você se perder demais no brilho dela, pode acabar ficando no escuro total.

Warner não respondeu de imediato. Ele apenas a observou sair, o olhar verde seguindo o movimento de seus quadris, a curva de seus ombros. Por um breve momento, a máscara dele vacilou, revelando uma rachadura de dúvida. Mas então, ele desviou o olhar para o monitor, onde o perfil de Juliette brilhava em dados e gráficos.

Clara fechou a porta atrás de si. O corredor estava frio, mas seu coração estava começando a arder com uma determinação que ela nunca soube que possuía. Ela não era uma arma, não era um milagre, e certamente não era Juliette. Mas ela era Clara. E isso, ela decidiu, seria o suficiente para derrubar as paredes que Warner construíra ao redor dela.

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