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Amor doentio

Fandom: Harry potter

Criado: 18/07/2026

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Sombras do Passado, Olhos do Presente

O ar do Salão Principal de Hogwarts parecia mais pesado do que o normal naquela manhã de outono de 1996. Para Clara Granger, o retorno ao seu tempo original não trouxe o alívio que ela esperava. Pelo contrário, a sensação de deslocamento era constante. Enquanto sua irmã mais nova, Hermione, discutia fervorosamente com Ron sobre os deveres de Transfiguração, Clara apenas mexia em seu mingau, sentindo um calafrio persistente na nuca.

Desde que retornara daquela viagem acidental aos anos 40, sua vida se tornara um labirinto de segredos. Ela se lembrava do rosto de Tom — não o monstro que o mundo bruxo temia, mas o rapaz brilhante, cruel e estranhamente magnético que ela conhecera na biblioteca de Hogwarts décadas atrás. Ela era apenas uma "trouxa" que caíra no lugar errado, uma anomalia que ele deveria ter desprezado, mas que ele acabou reivindicando com uma possessividade que a assombrava até hoje.

— Clara? Você está me ouvindo? — A voz de Hermione a trouxe de volta à realidade.

A irmã mais nova a observava com uma expressão de preocupação. Hermione sabia que algo havia acontecido durante o "desaparecimento" de Clara, mas a irmã mais velha nunca conseguira explicar a verdade. Como dizer que ela se apaixonara pelo homem que agora tentava destruir o mundo? Para Clara, Tom Riddle era apenas Tom. Ela não fazia ideia de que o Lord das Trevas e o rapaz de olhos frios eram a mesma pessoa.

— Desculpe, Mione. Eu só... não dormi bem — mentiu Clara, ajeitando as vestes que pareciam apertadas demais.

Ela sempre fora uma garota de curvas generosas, sentindo-se muitas vezes fora de lugar entre as silhuetas esguias das outras bruxas, mas Tom nunca parecera se importar. Pelo contrário, ele a olhava como se ela fosse algo a ser consumido.

— Você está sendo vigiada — sussurrou Ron, inclinando-se para a frente. — Snape não tira os olhos de você desde que as aulas começaram.

Clara olhou discretamente para a mesa dos professores. Lá estava Severus Snape, com sua expressão impenetrável e olhos negros que pareciam perfurar sua alma. Ele não apenas a observava; ele a monitorava. Cada passo que ela dava pelos corredores, cada conversa no pátio, parecia ser meticulosamente registrada pelo mestre de poções.

— Ele é assim com todo mundo que não é da Sonserina — tentou desconversar Clara, embora seu coração batesse mais rápido.

— Não desse jeito — insistiu Hermione. — Ele parece... estar esperando algo.

Clara terminou seu café apressadamente e se levantou. Ela precisava de ar. Precisava fugir daquele escrutínio. Mas, ao caminhar pelos corredores de pedra, a sensação de ser seguida não desapareceu. Era como se uma sombra invisível a estivesse abraçando, um eco de uma promessa feita em 1944.

“Você não pertence a este tempo, Clara. Mas onde quer que vá, você é minha.”

As palavras dele ecoavam em sua mente. Tom descobrira seu segredo antes dela partir. Ele descobrira que ela era do futuro, uma intrusa de sangue não-mágico, e em vez de matá-la, ele ficara obcecado.

Ao dobrar o corredor que levava às masmorras para sua aula extra de poções — uma exigência de Dumbledore para que ela "se recuperasse" do tempo perdido —, Clara foi interceptada.

— Senhorita Granger. — A voz de Snape era um estalido frio no corredor vazio.

— Professor Snape — respondeu ela, tentando manter a voz firme. — Estou a caminho da sala de aula.

Snape deu um passo à frente, sua capa negra flutuando como as asas de um morcego gigante. Ele a estudou por um longo momento, uma intensidade estranha em seu olhar. Ele tinha ordens claras. Ordens vindas diretamente de uma marca que queimava em seu braço esquerdo. O Lord das Trevas fora explícito: “Proteja-a. Vigie-a. Se um único fio de cabelo dela for tocado, você implorará pela morte.”

— O Diretor solicitou que eu a acompanhasse em suas revisões — disse Snape, sua voz arrastada. — No entanto, percebo que a senhorita tem o hábito de vagar por áreas... desprotegidas.

— Eu só estava indo para a aula, senhor — rebateu Clara, sentindo o suor frio nas mãos. — Por que o senhor está sempre me seguindo?

Snape estreitou os olhos. Ele via nela a vulnerabilidade que atraía monstros. Ele via o motivo da obsessão do seu mestre. Para o mundo, Voldemort era um ser sem capacidade de amar, mas Snape reconhecia a possessividade doentia quando a via. Não era amor; era propriedade.

— A segurança do castelo está comprometida, Granger — declarou Snape friamente. — Sugiro que não questione as precauções tomadas. Entre na sala. Agora.

Clara obedeceu, mas ao passar por ele, sentiu um cheiro familiar. Não era o cheiro de ervas e pergaminho de Snape. Por um breve segundo, o ar ao seu redor cheirou a ozônio e sândalo — o cheiro de Tom.

Ela se sentou em uma das bancadas do fundo, tentando se concentrar nos ingredientes à sua frente. No entanto, sua mente voava para o passado. Ela se lembrava da última noite com Tom, na Sala Precisa.

— Por que você me olha como se eu fosse desaparecer? — perguntara ela na época, enquanto ele acariciava seu rosto com uma delicadeza que escondia uma força bruta.

— Porque você é um enigma, Clara — respondera Tom, os olhos brilhando com uma inteligência perigosa. — E eu nunca deixo um enigma sem solução. Você acha que pode fugir de mim voltando para onde veio? O tempo é apenas uma barreira para os fracos.

Naquele momento, Clara não entendera. Ela achava que Tom era apenas um órfão talentoso e incompreendido. Ela não sabia dos horcruxes, não sabia dos assassinatos, não sabia que ele se tornaria o ser mais temido da história.

— Senhorita Granger! — O grito de Snape a sobressaltou. — A poção de Solução Redutora requer raízes de margarida picadas, não esmagadas. Sua mente parece estar em outro século.

— Desculpe, professor — murmurou ela, sentindo o rosto esquentar.

— Menos dez pontos para a Grifinória pela sua falta de atenção — disse ele, embora seus olhos transmitissem algo mais próximo da cautela do que do desprezo habitual.

Após a aula, Clara decidiu que precisava de respostas. Ela foi até a biblioteca, esperando encontrar algo nos registros antigos sobre o paradeiro de Tom Riddle. Ela sabia que ele era brilhante, que fora monitor-chefe. Certamente haveria fotos dele, registros de suas conquistas.

Enquanto percorria as prateleiras, ela sentiu novamente aquela pressão no ar. As luzes das velas oscilaram.

— Procurando por algo, Clara?

Ela deu um pulo, soltando o livro que segurava. Mas não havia ninguém ali. Apenas o silêncio da biblioteca e a sombra das estantes.

— Olá? — chamou ela, a voz trêmula.

Ninguém respondeu. Mas no chão, aberto na página onde o livro caíra, havia uma foto antiga de uma premiação de Hogwarts. No centro da imagem, um jovem alto, de cabelos escuros e um sorriso gélido que ela conhecia tão bem, olhava diretamente para a câmera. Ao lado dele, os outros alunos pareciam meros figurantes.

Ela tocou a imagem de Tom. O papel parecia quente sob seus dedos.

— Tom... — sussurrou ela.

De repente, uma mão pálida e de dedos longos se fechou sobre o livro, fechando-o com um estrondo. Clara soltou um grito curto e olhou para cima. Era Snape novamente.

— A biblioteca está fechando, senhorita Granger — disse ele. Sua voz estava mais baixa que o normal, quase um sussurro urgente. — E existem certas curiosidades que podem ser fatais.

— Eu só queria saber o que aconteceu com ele! — exclamou Clara, as lágrimas de frustração começando a surgir. — Ele era meu amigo. Eu o conheci, professor. Ele não era esse monstro que todos dizem que está voltando. Ele era apenas o Tom.

Snape sentiu um peso no estômago. A inocência dela era sua maior fraqueza. Se ela soubesse que o "Tom" que ela amava era o mesmo ser que ordenara que ele a vigiasse como um falcão, ela provavelmente perderia a sanidade.

— O homem que você conheceu morreu há muito tempo — disse Snape, sua voz carregada de uma amargura que Clara não entendeu. — Se é que ele algum dia existiu. Agora, volte para sua torre. E não saia de lá após o toque de recolher.

Clara saiu correndo, as lágrimas agora escorrendo livremente. Ela não acreditava nele. Tom não podia ter morrido. Ela sentia a presença dele. Ela sentia o olhar dele nela, constante e abrasador.

Ao chegar ao retrato da Mulher Gorda, ela parou para recuperar o fôlego. O corredor estava escuro, iluminado apenas por uma tocha distante. Foi então que ela viu.

Na parede de pedra, logo acima do retrato, as sombras pareciam se mover de forma antinatural. Elas se moldaram, se alongaram, até formarem a silhueta de um homem. Não era Snape. Era uma figura mais alta, mais imponente.

— Eu disse que a encontraria, Clara.

A voz não passou de um sussurro no vento, mas foi o suficiente para fazer o sangue dela congelar. Não era a voz de um jovem de dezesseis anos. Era uma voz fria, sibilante, carregada de um poder que ela nunca sentira antes.

— Tom? — perguntou ela para o vazio, o coração batendo contra as costelas.

A sombra pareceu se inclinar em sua direção, como se quisesse tocá-la.

— Você me pertence — continuou a voz. — Através dos anos, através do sangue. Ninguém a tirará de mim. Nem mesmo o tempo.

— Onde você está? Apareça! — implorou ela.

Mas a sombra se dissipou quando Hermione abriu o retrato por dentro.

— Clara? O que você está fazendo aí parada? Está pálida! — disse a irmã, puxando-a para dentro da segurança da sala comunal.

— Eu... eu achei que vi alguém — balbuciou Clara, olhando uma última vez para o corredor agora vazio.

Longe dali, em uma mansão fria e sombria, um homem de pele pálida e olhos que brilhavam com uma fúria vermelha sentava-se em seu trono. Ele fechou os olhos, concentrando-se na conexão que Snape fornecia através de seus relatórios mentais.

Ele podia vê-la. Podia ver o medo nos olhos dela, a forma como ela ainda usava o pequeno pingente que ele lhe dera — um objeto que ela pensava ser apenas uma joia, mas que era o seu vínculo eterno com ela.

Lord Voldemort não sentia amor, mas sentia uma fome insaciável por aquilo que considerava seu. Clara Granger era a única coisa em sua existência que ele não havia conquistado pela força, mas sim pela intriga do destino. E agora que ela estava de volta ao seu tempo, ele a manteria em uma gaiola de ouro, vigiada pelos seus olhos mais leais, até que chegasse o momento de buscá-la.

— Vigie-a bem, Severus — sibilou ele para o nada, um sorriso cruel curvando seus lábios finos. — Se ela chorar, eu quero saber. Se ela sorrir, eu quero saber por quê. Ela é o meu único pecado... e eu não pretendo me arrepender.

De volta ao dormitório, Clara deitou-se na cama, tremendo. Ela não sabia quem era Voldemort. Ela não sabia da guerra que estava batendo à porta. Mas, ao fechar os olhos, ela viu o rosto de Tom Riddle, e pela primeira vez, ela sentiu que o amor que eles compartilharam era, na verdade, uma corrente que a puxava para a escuridão.

Ela sentia-se vigiada. E o pior era que, em algum lugar profundo de sua alma, uma parte dela ainda desejava ser encontrada por aqueles olhos escuros e possessivos que a faziam sentir-se a única pessoa no mundo.

A caçada começara. E Clara Granger não tinha para onde correr.

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