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A seleção

Fandom: A seleção

Criado: 18/07/2026

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RomanceDramaAngústiaDistopiaCenário CanônicoEstudo de PersonagemCiúmesDiscriminaçãoDor/ConfortoGravidez Não Planejada/IndesejadaSobrevivênciaUA (Universo Alternativo)
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O Peso das Coroas e o Silêncio das Criadas

O corredor leste do palácio sempre pareceu mais frio durante a madrugada, mas para Clara, ele costumava ser o caminho para o calor. Como uma Seis, sua vida era definida por horários, uniformes engomados e a invisibilidade que o serviço doméstico proporcionava. No entanto, entre as sombras das cortinas de veludo e as portas entreabertas do escritório real, ela havia encontrado algo que não estava nos manuais de etiqueta de Illéa: o coração de Maxon Schreave.

Clara ajustou o avental sobre suas curvas, sentindo o tecido apertado. Ela sabia que não possuía a elegância esguia das modelos que ilustravam os jornais, nem a delicadeza etérea das selecionadas que agora ocupavam o salão nobre. Ela era terra, era substância, era o riso fácil e o colo quente onde Maxon se escondia quando o peso da coroa de seu pai se tornava insuportável. Ou, pelo menos, ela era tudo isso até a Seleção começar.

Naquela manhã, o palácio fervilhava. O perfume de trinta e cinco garotas diferentes parecia impregnar até as paredes de pedra. Clara carregava uma bandeja de prata com o desjejum favorito de Maxon, mas seus passos eram lentos. Ela o viu antes de entrar no quarto. Ele estava na varanda, mas não estava sozinho. America Singer, a garota da Carolina que todos comentavam, estava ao lado dele. Eles riam.

Clara respirou fundo, sentindo uma pontada familiar no peito, e entrou no quarto após bater levemente.

— Com licença, Vossa Alteza. O desjejum.

Maxon virou-se rapidamente. Por um segundo, apenas um breve segundo, o brilho nos olhos dele mudou. O olhar de cumplicidade que eles compartilharam por meses tentou emergir, mas ele o sufocou tão rápido que Clara pensou ter imaginado.

— Ah, obrigado, Clara — disse ele, a voz polida, distante. — Pode deixar sobre a mesa.

— Sim, senhor — respondeu ela, mantendo o olhar fixo na bandeja.

— Maxon, quem é ela? — America perguntou com uma curiosidade genuína, aproximando-se da mesa. — Ela tem um sorriso gentil.

Clara sentiu o sangue subir às bochechas. Ela não era uma peça de decoração, mas ali, sob o olhar da Selecionada, sentia-se como parte da mobília.

— É apenas a Clara — Maxon respondeu, e cada palavra foi como um grão de areia em uma ferida aberta. — Uma das nossas melhores funcionárias.

— Prazer, Clara — disse America, estendendo a mão.

Clara hesitou, olhando para a mão da garota e depois para Maxon. Ele parecia tenso, os dedos tamborilando nervosamente no parapeito da varanda. Ele não queria que America visse nada além de um príncipe e sua criada. Ele não queria que a "favorita" suspeitasse que, semanas atrás, ele havia jurado que, não importava quem viesse para o palácio, Clara seria sua âncora.

— O prazer é meu, senhorita Singer — Clara respondeu com uma reverência perfeita, ignorando a mão estendida. — Com licença.

Ela saiu do quarto sem olhar para trás. O corredor, que antes era o cenário de sussurros apaixonados, agora parecia um túnel sem fim. Ela se encostou na parede fria assim que dobrou a esquina, pressionando as mãos contra o estômago.

"Ele prometeu", ela pensou, fechando os olhos com força. "Ele prometeu que nunca me deixaria de lado."

Mas promessas de príncipes eram moedas de vidro no mundo real.

Horas mais tarde, Clara estava polindo as pratarias na sala de jantar secundária quando ouviu passos apressados. Ela não precisava olhar para saber quem era. O ritmo daquela caminhada estava gravado em sua memória.

— Clara! — Maxon chamou, entrando na sala e fechando a porta atrás de si.

Ela continuou esfregando o castiçal de prata com uma precisão cirúrgica.

— Vossa Alteza precisa de algo? — perguntou ela, o tom de voz desprovido de qualquer emoção que não fosse o profissionalismo.

— Por favor, não fale assim comigo. — Ele se aproximou, tentando tocar o ombro dela, mas Clara se esquivou sutilmente para pegar outro pano. — Eu sinto muito por hoje cedo. Eu só... eu não podia deixar a America desconfiar. Você sabe como as coisas estão tensas com o Jornal Oficial e meu pai vigiando cada passo.

— A senhorita Singer parece ser uma pessoa adorável, senhor — disse Clara, finalmente erguendo os olhos. — O senhor parece muito preocupado com a opinião dela. É natural. Ela é uma das candidatas à sua mão. Eu sou apenas a Seis que limpa o seu quarto.

— Você sabe que é muito mais do que isso! — Maxon exclamou, a frustração transparecendo em seu rosto. — Clara, eu amo o jeito que você me entende. Eu amo o fato de que, com você, eu não preciso ser o Príncipe Herdeiro.

Clara soltou um riso amargo, curto e sem alegria.

— Mas o senhor é o Príncipe Herdeiro, Maxon. E agora, o senhor está agindo como um. O senhor me disse que nada mudaria, mas hoje o senhor me tratou como se eu fosse invisível. Ou pior, como se tivesse vergonha de que eu estivesse no mesmo recinto que ela.

— Não é vergonha! — Ele deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. — É proteção. Se meu pai souber de nós, ele mandará você para as castas mais baixas, ou pior. E America... ela é diferente. Ela me desafia, ela me faz querer ser um rei melhor. Eu preciso que ela goste de mim, Clara.

— E para que ela goste do senhor, eu preciso deixar de existir? — Clara sentiu as lágrimas pinicarem seus olhos, mas recusou-se a deixá-las cair. Ela era gordinha, era uma Seis, era uma criada, mas possuía um orgulho que nenhuma coroa poderia comprar. — O senhor quer ter o seu bolo e comê-lo também, Maxon. Quer o conforto que eu te dou nas sombras e o brilho que ela te dá sob os holofotes.

— Não é assim...

— É exatamente assim — interrompeu ela, a voz firme apesar do tremor nas mãos. — A partir de hoje, eu serei exatamente o que o senhor disse a ela que eu sou: "apenas a Clara". Uma funcionária eficiente. Se o senhor deseja o respeito da senhorita Singer e o trono de Illéa, deve focar nisso.

— Clara, por favor... — Ele tentou segurar as mãos dela, mas ela recuou.

— O senhor tem um encontro com as selecionadas no jardim em dez minutos — disse ela, fazendo uma reverência profunda e impecável. — Não seria bom deixá-las esperando. Especialmente a senhorita Singer.

Ela passou por ele como uma rajada de vento frio. Maxon ficou parado no centro da sala de jantar, cercado pelo brilho da prata que Clara havia polido, sentindo-se subitamente muito mais pobre do que qualquer Seis.

Nos dias que se seguiram, Clara tornou-se um fantasma de eficiência. Ela nunca errava um pedido, nunca se atrasava, e nunca, sob hipótese alguma, olhava Maxon nos olhos por mais tempo do que o estritamente necessário para receber uma ordem.

Ela o via nos jardins, caminhando com as garotas. Via-o rindo com Marlee, conversando seriamente com Celeste e, cada vez mais frequente, buscando o olhar de America. Cada vez que os via juntos, uma parte de Clara se quebrava, mas ela recolhia os cacos e os escondia sob o uniforme cinza.

Uma noite, enquanto ela arrumava as toalhas no banheiro real, Maxon entrou. Ele parecia exausto, a gravata frouxa e o cabelo bagunçado.

— Clara, pare com isso — pediu ele, a voz rouca. — Esse silêncio está me matando. Sinto falta da sua voz. Sinto falta de como você não se importa com as regras.

Clara parou de dobrar a toalha e olhou para o reflexo dele no espelho. Ele parecia um menino perdido, mas ela não podia mais ser o seu mapa.

— O senhor fez sua escolha no momento em que a Seleção começou, Maxon — disse ela suavemente. — O senhor escolheu o dever. E eu escolhi a sobrevivência.

— Eu nunca quis te machucar.

— Mas machucou. — Ela se virou para encará-lo. — O senhor me prometeu o mundo, mas só pode me oferecer as sobras do seu tempo quando as câmeras estão desligadas. Eu valho mais do que sobras, Maxon. Mesmo sendo uma Seis. Mesmo não tendo o corpo que Illéa considera ideal. Eu tenho um coração que o senhor está pisoteando para conseguir o que quer.

Maxon baixou a cabeça, os ombros caindo.

— Eu não sei como consertar isso sem perder tudo.

— Talvez não tenha conserto — Clara respondeu, sentindo uma calma triste se apoderar dela. — O senhor quer ser um bom rei? Comece sendo um homem de palavra. Mas não comigo. Seja sincero com a garota que o senhor escolher. E quanto a mim... eu continuarei fazendo o meu trabalho.

— Você vai me odiar para sempre? — perguntou ele, levantando o olhar, buscando uma fresta de esperança.

Clara caminhou até a porta, mas parou antes de sair.

— Ódio exige muita energia, Vossa Alteza. Eu só estou cansada.

Ela fechou a porta atrás de si, deixando o príncipe sozinho em seu luxo silencioso. No corredor, ela encontrou Anne, uma das criadas de America, que carregava um vaso de flores.

— Você está bem, Clara? — Anne perguntou, notando a palidez da amiga.

Clara respirou fundo, ajeitou a postura e deu um sorriso profissional que não chegava aos olhos.

— Estou perfeitamente bem, Anne. Só temos muito trabalho pela frente. A Seleção está apenas começando, não é?

Ela seguiu seu caminho, os passos firmes ecoando no mármore. O coração de Clara podia estar em pedaços, mas ela ainda era a melhor funcionária daquele castelo. E, enquanto Maxon Schreave tentava decidir quem seria sua rainha, Clara finalmente decidia ser a dona de si mesma. O amor podia ter sido um sonho de verão, mas a realidade do outono exigia força. E força era algo que Clara tinha de sobra, escondida sob as camadas de seu uniforme e a dignidade de quem sabia que, no final das contas, nenhuma coroa era mais pesada do que a consciência de um homem que trai quem mais o amou.

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