
Uma ficada
Fandom: Magi
Criado: 19/07/2026
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Encontros Noturnos e Faíscas Inesperadas
O som da batida eletrônica reverberava no peito, uma pulsação constante que parecia ditar o ritmo frenético daquela noite carioca. O evento de lançamento da revista era um sucesso absoluto, mas para Manoela Garcia, o dever já estava cumprido. Ela havia circulado, apertado mãos estratégicas e deixado o nome da Garcia Intimates plantado na mente dos maiores nomes da moda. Agora, seu corpo pedia o silêncio do hotel e o conforto de um lençol de fios egípcios.
— Ana, eu pretendo ir embora, sabia? — gritou Manoela, inclinando-se para ser ouvida por cima do sintetizador que explodia nas caixas de som.
Ana Clara, que já segurava um drinque colorido e balançava o corpo no ritmo da música, arregalou os olhos em um desespero teatral. Ela segurou o braço da amiga, impedindo-a de dar meia-volta.
— Ai, pelo amor de Deus, né Maya! — Ana usou o apelido carinhoso, aproximando-se do ouvido de Manoela. — Você chegou hoje de viagem e já vai embora sem curtir nada? A Suécia te deixou gelada, é? Vamos aproveitar um pouco, vai! Só meia hora na pista, eu prometo!
Manoela revirou os olhos, mas o sorriso de lado entregava que ela estava cedendo. O Rio de Janeiro tinha esse magnetismo; era impossível ficar imune à energia daquela cidade por muito tempo.
— Meia hora, Ana Clara. Nem um minuto a mais — cedeu, rindo. — Mas antes, eu preciso de algo para beber. Vou até o bar.
— Te espero na pista! — Ana gritou, já se perdendo entre os convidados que dançavam.
Manoela caminhou com elegância através da multidão. O vestido que escolhera para a noite moldava seu corpo com perfeição, uma seda esmeralda que brilhava sob as luzes estroboscópicas. Ao se aproximar do balcão de mármore escura do bar, seu olhar foi imediatamente capturado por uma figura solitária sentada em uma das banquetas altas.
Era uma mulher loira, de uma beleza que parecia não pertencer àquele ambiente efêmero. Ela não estava dançando, nem tentando chamar atenção; apenas observava o copo de uísque à sua frente com uma intensidade quase magnética. Havia uma aura de mistério e uma pitada de tédio em seus ombros, algo que desafiava o brilho excessivo da festa.
Manoela sentiu um estalo de curiosidade. Ela se aproximou, ocupando a banqueta ao lado, e sinalizou para o barman.
— Um Gim Tônica, por favor. Com bastante gelo e uma rodela de pepino — pediu Manoela, mantendo o tom de voz firme, mas aveludado.
A loira ao lado desviou o olhar do copo e encarou Manoela. Os olhos eram afiados, inteligentes, e percorreram o rosto de Manoela com uma curiosidade técnica, quase como se estivesse ajustando o foco de uma lente.
— Escolha clássica — comentou a desconhecida. Sua voz era levemente rouca, o que causou um arrepio involuntário na nuca de Manoela.
Manoela virou-se levemente para ela, apoiando o cotovelo no balcão e exibindo um sorriso confiante.
— Eu prefiro o que é atemporal. O excesso de invenção costuma esconder a falta de qualidade, não acha?
A loira deu um meio sorriso, o primeiro sinal de que a conversa a interessava.
— Concordo plenamente. Sou fotógrafa, passo a vida tentando tirar o excesso para encontrar o que realmente importa na imagem.
— Uma purista, então — Manoela provocou, aceitando o drinque que o barman entregava. — Eu sou Manoela.
— Torres — respondeu a outra, estendendo a mão de forma decidida.
O aperto de mão foi firme. Manoela notou os dedos longos e a segurança com que Torres a tocava. Não havia hesitação ali.
— Só Torres? — perguntou Manoela, arqueando uma sobrancelha.
— É como me chamam no trabalho. E aqui, nesta festa, sinto que todo mundo é apenas um rótulo profissional. Então, por enquanto, sou apenas Torres. E você, Manoela, o que faz quando não está sendo "atemporal" em bares de luxo?
Manoela deu um gole em seu drinque, sentindo o frescor do gim. Ela não queria falar de negócios. Não queria ser a CEO da Garcia Intimates naquele momento. Queria apenas ser a mulher que acabara de encontrar uma presença fascinante no meio do caos.
— Eu construo sonhos — disse Manoela, com um brilho desafiador nos olhos. — Ou pelo menos tento dar às pessoas a confiança necessária para que elas os alcancem. Mas hoje, eu sou apenas alguém que fugiu do frio da Europa para descobrir se o Rio ainda sabe como surpreender.
Torres inclinou a cabeça, os fios loiros caindo sobre o ombro. Ela parecia analisar a luz que batia no rosto de Manoela, a forma como a sombra do cílio tocava a bochecha.
— E então? — perguntou Torres, baixando o tom de voz, tornando o ambiente entre as duas subitamente mais íntimo, apesar da música alta. — O Rio está cumprindo o papel dele?
Manoela sentiu o magnetismo aumentar. Havia uma tensão elétrica crescendo ali, uma conexão que ia muito além de palavras.
— Acho que a surpresa acabou de se sentar ao meu lado — afirmou Manoela, sem desviar o olhar.
Torres soltou uma risada curta, genuína.
— Você é direta. Gosto disso. Geralmente as pessoas dão voltas imensas antes de admitirem o que querem.
— A vida é curta demais para metáforas, Torres. Eu sei o que me agrada quando vejo. E você? O que vê quando olha para mim?
Torres deixou o copo de uísque de lado e aproximou-se um pouco mais. O perfume dela — algo que lembrava couro e sândalo — envolveu Manoela.
— Vejo uma composição perfeita — sussurrou Torres. — Luz e sombra no lugar certo. Mas sinto que a superfície é só o começo. Você tem um fogo que está tentando disfarçar com essa pose de elegância.
Manoela sentiu o coração acelerar. A audácia daquela mulher a desarmava de um jeito que poucas pessoas conseguiam.
— Talvez eu não esteja tentando disfarçar tanto assim — retrucou Manoela, a voz agora pouco mais que um sussurro.
O flerte evoluiu rápido. Elas conversaram sobre viagens, sobre a sensação de ser estrangeira em sua própria terra, e sobre como a arte era a única coisa que fazia sentido em um mundo barulhento. Manoela estava hipnotizada pela inteligência de Torres, e Torres parecia fascinada pela força que Manoela emanava.
A música ao fundo parecia desaparecer. O barman, as luzes, os convidados... tudo se tornou um borrão. Só existia aquele espaço de trinta centímetros entre elas.
— Este lugar está ficando pequeno — observou Torres, seus olhos fixos nos lábios de Manoela.
— Eu estava pensando exatamente a mesma coisa — respondeu Manoela. — E eu não sou muito fã de plateias.
— Eu conheço um lugar — disse Torres, levantando-se e estendendo a mão para Manoela. — Onde a luz é melhor e o silêncio é absoluto.
Manoela não pensou em Ana Clara, não pensou nos projetos da Garcia Intimates que a esperavam na manhã seguinte, nem no fato de que não sabia sequer o primeiro nome daquela mulher. Ela apenas colocou sua mão na de Torres e deixou-se guiar para fora do evento.
O trajeto no carro foi preenchido por um silêncio carregado de expectativa. As mãos se encontraram no banco de trás, os dedos se entrelaçando com uma urgência que denunciava o desejo contido. Quando o carro parou diante de um hotel boutique discreto na zona sul, não houve necessidade de perguntas.
Assim que a porta do quarto se fechou, a elegância deu lugar à paixão.
Torres prensou Manoela contra a porta, as mãos subindo pela seda do vestido esverdeado. O beijo foi profundo, faminto, misturando o gosto do gim e do uísque, mas principalmente o gosto da descoberta. Manoela passou as mãos pelos cabelos loiros de Torres, puxando-a para mais perto, sentindo a respiração ofegante da fotógrafa em seu pescoço.
— Você é ainda mais perigosa de perto — ofegou Torres, entre beijos que desciam pela clavícula de Manoela.
— E você fala demais — rebateu Manoela, antes de calá-la com um novo beijo, mais urgente.
As roupas foram deixadas pelo caminho, um rastro de seda e linho sobre o carpete luxuoso. Na penumbra do quarto, iluminado apenas pelas luzes distantes da cidade que entravam pela janela, elas se exploraram com a curiosidade de quem sabe que aquele momento é único.
Manoela descobriu que Torres tinha mãos firmes e precisas, mãos de quem sabia exatamente onde tocar para extrair a melhor reação. E Torres descobriu que, por trás da fachada de empresária controlada, Manoela era uma força da natureza, intensa e entregue.
O encontro foi uma dança de poder e entrega. Não havia nomes, não havia cargos, não havia o peso do passado ou a pressão do futuro. Eram apenas duas mulheres que, em meio ao caos de suas vidas ambiciosas, encontraram um refúgio de pele e desejo.
Horas depois, deitadas entre os lençóis bagunçados, o silêncio era confortável. Manoela observava o perfil de Torres contra a luz da lua. Havia algo naquela mulher que a intrigava profundamente, uma sensação de que aquele encontro não era apenas um acaso do destino.
— No que está pensando? — perguntou Torres, sem abrir os olhos, sentindo o olhar de Manoela sobre si.
— Em como a vida é irônica — respondeu Manoela, acariciando o ombro da loira. — Eu vim para o Rio para começar do zero, focada apenas no trabalho. E na primeira noite, encontro alguém que me faz esquecer até do meu próprio nome.
Torres abriu os olhos e sorriu, um sorriso suave que Manoela ainda não tinha visto.
— Às vezes, o melhor jeito de começar algo novo é perdendo o controle por um momento.
— Talvez você tenha razão, Torres.
— Eu sempre tenho razão sobre imagens e sensações, Manoela. É o meu trabalho.
Manoela riu, sentindo-se estranhamente leve. Ela sabia que, na manhã seguinte, o mundo real voltaria a cobrar seu preço. Ela teria reuniões, contratos para assinar e uma marca para erguer. Torres voltaria para suas lentes e sua busca pela perfeição solitária. Mas, ali, naquele quarto, o tempo parecia ter parado.
Nenhuma das duas sabia que, na pasta de couro sobre a mesa de Manoela, o nome de Giovanna Torres já estava marcado com um traço forte de caneta. Nenhuma das duas imaginava que a "Torres" do bar e a "Manoela" da festa eram, na verdade, as duas peças principais de um quebra-cabeça que estava prestes a se montar.
Por enquanto, elas eram apenas duas estranhas que compartilhavam o calor da noite carioca, sem saber que o destino já havia armado o próximo clique. E que, quando a luz do sol batesse no escritório da Garcia Intimates, o encontro profissional seria muito mais do que apenas negócios. Seria o início de algo que nenhuma delas conseguiria controlar.
