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Fandom: Gorillaz
Criado: 19/07/2026
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O Pacto de Lama e Sangue em Essex
A chuva de Londres não era apenas água caindo do céu; era um insulto pessoal. Para Sthefany Pot, a embaixadora e a voz que carregava o Gorillaz nas costas, cada gota que arruinava seu casaco de grife parecia um atentado contra o sucesso da banda. Ela corria pelas calçadas escuras, o som de seus saltos agulha batendo contra o asfalto ecoando como metralhadoras. O objetivo era simples: chegar à reunião com os investidores, garantir o contrato e continuar a escalada rumo ao topo do mundo. Nada, absolutamente nada, ficaria em seu caminho.
— Inferno de clima! — resmungou ela, limpando uma gota de água que escorria pelo nariz fino. — Se eu perder essa reunião por causa de uma tempestade, eu juro que demito o meteorologista da BBC.
Sthefany era o epítome da autoconfiança. Aos 25 anos, ela sabia que era o sol em torno do qual o Gorillaz orbitava. O talento era dela, a imagem era dela, e a ambição... bem, a ambição era o que a mantinha viva. Ela avistou a esquina, os faróis de um carro iluminando a neblina densa à frente. Ela apertou o passo, mas o destino tinha um senso de humor distorcido.
O salto direito, uma peça caríssima de design italiano, encontrou perfeitamente a fresta de uma grade de bueiro. O metal frio prendeu o sapato com a tenacidade de uma armadilha de urso.
— Não, não, não! — Sthefany puxou o pé com força, mas o salto estava enterrado. — Agora não!
Ela se inclinou, tentando desesperadamente soltar a peça, sua mente já calculando o atraso. Foi quando o som de um motor desregulado e barulhento cortou o chiado da chuva. Luzes ofuscantes cresceram em sua visão periférica. O guincho de pneus velhos tentando encontrar aderência no asfalto molhado foi a última coisa que ela ouviu antes que o impacto a lançasse na escuridão profunda.
O despertar foi lento e doloroso. O cheiro de éter e desinfetante barato invadiu suas narinas antes mesmo que ela conseguisse abrir os olhos. Quando finalmente o fez, a luz fluorescente do hospital pareceu perfurar seu cérebro.
— Finalmente acordou, Srta. Pot — disse uma voz seca e oficial.
Sthefany piscou, tentando focar a visão. Ao lado de sua cama, dois policiais de uniforme azul escuro observavam-na com expressões que misturavam tédio e uma estranha resignação.
— Onde eu estou? E o meu sapato? — A voz dela saiu rouca, mas a arrogância habitual ainda estava lá. — Eu tenho uma banda para gerenciar. Eu não posso ficar deitada aqui.
— Você está no Hospital Geral de Londres — respondeu o policial mais velho, consultando uma prancheta. — Você foi atropelada por um veículo em alta velocidade. Honestamente, é um milagre estar inteira.
— Eu quero processar o motorista — Sthefany tentou se sentar, sentindo uma pontada aguda na costela. — Eu quero o nome dele, o endereço e a alma dele em uma bandeja de prata. Ele arruinou meu cronograma!
Os policiais trocaram um olhar desconfortável. O mais jovem pigarreou e apontou para a cadeira no canto escuro do quarto, que Sthefany ainda não havia notado.
— Sobre isso... — começou o oficial. — Devido a certas... complicações legais e à falta de leitos de recuperação assistida, o magistrado decidiu que você ficará sob os cuidados do indivíduo que a atingiu. Ele assumiu a responsabilidade total para evitar uma sentença imediata de prisão.
Sthefany virou a cabeça devagar, sentindo o pescoço estalar. Sentado na cadeira, com as pernas cruzadas e uma postura que exalava uma mistura de malícia e desconforto, estava um homem que parecia ter saído diretamente de um pesadelo de contracultura. A pele tinha um tom levemente esverdeado e doentio, o cabelo era um emaranhado escuro e desleixado, e ele usava uma jaqueta de couro que cheirava a cigarro e rituais de garagem.
Era Murdoc Niccals.
O nome ecoou na mente de Sthefany como um acorde dissonante. Murdoc Niccals: satanista autoproclamado, usuário de magias duvidosas, baixista de reputação infame e um homem cuja ficha criminal era mais longa que a discografia de muitas bandas veteranas. Ele era um fugitivo frequente, mestre em escapar da lei por entre as frestas da burocracia.
Ao perceber que ela o encarava, Murdoc deu um sorriso torto, revelando um dente de ouro que brilhou sob a luz clínica. Ele levantou a mão em um aceno hesitante, os dedos adornados com anéis de prata pesados.
— Er... oi, querida. Belo dia para um passeio, não? — Murdoc soltou uma risada nervosa que rapidamente se transformou em uma tosse seca. — Sinto muito pelo... incidente com o para-choque. O freio do Geep tem mente própria, sabe como é. Coisa de demônio.
Sthefany sentiu o sangue ferver. A egocêntrica vocalista do Gorillaz não podia acreditar no que estava ouvindo.
— Você? — ela sibilou, ignorando a dor. — Você me atropelou? Você tem ideia de quem eu sou? Eu sou a face da música moderna! Você é apenas um... um delinquente com problemas de higiene!
— Ora, vamos, não precisamos de nomes feios — Murdoc levantou-se, caminhando até a beira da cama com um gingado arrogante que nem mesmo a presença da polícia conseguia aplacar. — Eu sou Murdoc Niccals, uma lenda por direito próprio. E, tecnicamente, eu salvei sua vida ao te trazer para cá. O fato de eu ter sido a causa da sua vinda é apenas um detalhe técnico, um pequeno erro de percurso no grande esquema do universo.
O policial interveio, colocando-se entre os dois.
— Srta. Pot, o Sr. Niccals está sob vigilância, mas ele possui as instalações necessárias para sua recuperação em sua residência, os Kong Studios. É um acordo temporário até que você possa andar sem ajuda.
— Kong Studios? — Sthefany arqueou uma sobrancelha. — Aquele lugar mal-assombrado no meio do nada?
— É um estúdio de gravação de ponta, eu garanto! — Murdoc exclamou, recuperando um pouco de sua confiança habitual. — Tem isolamento acústico, equipamento vintage e... bem, alguns fantasmas, mas eles não cobram aluguel. Você é focada no sucesso, não é? Pense nisso como um retiro criativo forçado.
Sthefany respirou fundo, fechando os olhos por um momento. Ela pensou em sua carreira, nos contratos que precisavam ser assinados e na imagem da banda. Se a imprensa descobrisse que ela estava sendo cuidada por um criminoso como Murdoc, poderia ser um desastre marketing... ou, se bem jogado, a jogada de publicidade mais ousada da década.
— Eu aceito — disse ela, abrindo os olhos com um brilho frio e calculista. — Mas deixe uma coisa clara, Niccals. Se houver um único ritual satânico perto da minha sopa, eu mesma garanto que você apodreça na prisão.
Murdoc soltou uma gargalhada rouca, estendendo a mão como se esperasse um aperto, mas recuou ao ver o olhar mortal dela.
— Fechado, princesa. Você vai adorar o lugar. É um pouco... rústico, mas tem alma. Literalmente, em alguns cômodos.
— Vamos logo com isso — Sthefany tentou se mover, sentindo o corpo protestar. — Eu tenho uma banda para transformar em lenda, e não vou deixar um baixista de quinta categoria e um bueiro me pararem.
— Baixista de quinta? — Murdoc murmurou para si mesmo enquanto os enfermeiros entravam para preparar a transferência. — Ela tem garra, eu admito. Vai ser um prazer ver como ela lida com o que vive nas sombras do Kong.
Enquanto era colocada na cadeira de rodas, Sthefany já estava mentalmente revisando seus planos. Ela usaria o tempo no estúdio de Murdoc para compor o álbum que definiria a geração. Se ele tentasse qualquer gracinha mágica ou ilegal, ela o esmagaria com a mesma eficiência com que pretendia esmagar a concorrência.
Murdoc caminhava ao lado dela, cantarolando uma melodia sombria e olhando para os lados, verificando se não havia mais policiais à espreita. A parceria mais improvável e perigosa da indústria musical acabava de ser selada pela lama e pelo impacto de um pneu de Geep.
— Niccals? — chamou ela, enquanto passavam pelas portas automáticas do hospital em direção à noite chuvosa.
— Sim, meu anjo caído?
— Se eu encontrar uma mancha de óleo nos meus lençóis, eu te mato.
Murdoc sorriu, os olhos brilhando com uma diversão perversa.
— Bem-vinda à família, Sthefany Pot. Espero que você goste de café forte e de conversas com o além. Vai ser uma longa recuperação.
