
Termino
Fandom: Vida pessoal
Criado: 19/07/2026
Tags
O Eco do Silêncio entre Fogões e Vassouras
A cozinha industrial do restaurante era um cenário de contrastes. O som metálico das panelas, o chiado da gordura quente e o aroma forte de temperos preenchiam o ar, mas, para Karinna, o som mais alto era o do próprio silêncio. Aos 18 anos, ela já dominava a agilidade necessária para ser uma auxiliar de cozinha eficiente, mas suas mãos, geralmente firmes ao picar legumes, tremiam levemente naquela manhã.
Do outro lado do balcão, na área de circulação, Karen passava o esfregão com uma determinação quase agressiva. Aos 22 anos, a maturidade de Karen sempre fora seu traço mais marcante, mas agora aquela seriedade estava voltada para o chão, evitando a todo custo encontrar os olhos de Karinna.
O término, ocorrido há apenas três dias, ainda latejava como uma ferida aberta. O motivo? O ciúme. O medo de perder uma à outra cresceu tanto que se tornou sufocante, transformando o amor em uma vigilância constante que culminou em uma explosão de palavras amargas e um adeus que nenhuma das duas queria realmente dizer.
— Karinna, agiliza esse mise en place! — gritou o chef, tirando a jovem de seus devaneios.
— Sim, chef! — respondeu ela, a voz saindo mais rouca do que o habitual.
Karen parou por um segundo ao ouvir a voz da ex-namorada. O coração deu um solavanco, mas ela apertou o cabo da vassoura e continuou seu trajeto. Trabalhar no mesmo lugar era uma tortura refinada. Cada vez que Karen entrava na cozinha para recolher o lixo ou limpar um derramamento, o ar parecia sumir.
No horário de descanso, o clima era ainda pior. Juliana, Janaína e Naty, as amigas em comum que presenciavam o desenrolar daquele drama, sentavam-se na mesa do refeitório tentando disfarçar o desconforto.
— Isso está insuportável — sussurrou Juliana, observando Karinna sentada em uma ponta da mesa e Karen na outra, ambas olhando para seus pratos como se estivessem estudando a composição molecular da comida.
— Elas estão sofrendo, dá para ver de longe — Janaína concordou, baixando o tom. — A Karen não deu um sorriso hoje, e a Karinna errou o sal do molho duas vezes.
Naty, que sempre fora a mais direta do grupo, resolveu que o silêncio precisava acabar.
— Karen, você vai mesmo fingir que a Karinna é uma parede? — Naty perguntou, sem rodeios.
Karen levantou o olhar, as olheiras denunciando noites mal dormidas.
— Eu não estou fingindo nada, Naty. Eu estou trabalhando. — A voz de Karen era fria, mas os dedos brincavam nervosamente com o guardanapo.
Do outro lado, Karinna sentiu o impacto das palavras. Ela se levantou bruscamente, a cadeira arrastando no chão com um ruído estridente.
— Com licença, perdi a fome — disse Karinna, saindo em direção aos fundos do restaurante, onde o estoque de secos ficava.
Juliana olhou para Karen com reprovação.
— Você sabe que ela te ama. E você está morrendo por dentro. Por que esse orgulho todo?
— Não é orgulho — rebateu Karen, sentindo os olhos marejarem. — É medo. Eu amo tanto aquela garota que sinto que vou quebrar se a gente tentar e der errado de novo. O ciúme me consome porque eu sinto que não sou o suficiente para ela.
— Você tem 22 anos, Karen, mas às vezes parece que tem 80 com esse peso que carrega — disse Janaína, segurando a mão da amiga. — O ciúme é o medo de perder, mas o silêncio é a certeza de que você já perdeu.
Enquanto isso, no estoque, Karinna tentava organizar as latas de tomate, mas as lágrimas embaçavam sua visão. Ela se lembrava de como tudo começou: Karen, com seu jeito decidido, dando o primeiro passo, convidando-a para sair após um turno exaustivo. Karinna, que sempre fora mais reservada, cedeu ao charme e à segurança que Karen transmitia. O relacionamento fora lindo, intenso, mas a juventude de ambas trouxe a insegurança de mãos dadas com a paixão.
A porta do estoque rangeu. Karinna secou o rosto rapidamente com a manga do uniforme.
— Eu disse que queria ficar sozinha — murmurou ela, sem se virar.
— As meninas não me deixaram em paz até eu vir aqui — disse a voz de Karen, suave e hesitante.
Karinna congelou. O som daquela voz era como um bálsamo e uma tortura ao mesmo tempo.
— Elas deveriam cuidar da vida delas — respondeu Karinna, finalmente se virando.
As duas ficaram paradas, separadas por um corredor de caixas de papelão. O elefante branco que habitava o relacionamento delas nos últimos dias parecia ocupar todo o espaço restante.
— Eu não consigo mais trabalhar assim — começou Karen, dando um passo à frente. — Esse gelo entre a gente está me matando. Eu olho para você e sinto que estou sufocando.
— Foi você quem disse que era melhor parar — lembrou Karinna, a voz trêmula. — Você disse que a gente se machucava demais.
— Eu disse isso porque estava com medo! — exclamou Karen, as lágrimas finalmente caindo. — Eu tenho um ciúme doentio porque eu olho para você, tão nova, tão cheia de vida, e acho que a qualquer momento você vai perceber que merece alguém melhor que uma faxineira que vive cansada.
Karinna deu um passo rápido, diminuindo a distância entre as duas.
— Você é idiota? — perguntou, com uma mistura de riso e choro. — Eu sou auxiliar de cozinha, Karen. Eu cheiro a cebola e alho o dia todo. E eu nunca, em nenhum momento, olhei para outra pessoa desde que você me deu aquele primeiro beijo atrás do balcão. O meu ciúme vem do mesmo lugar. Eu tenho medo de você se cansar da minha imaturidade.
— A gente é muito burra, né? — Karen soltou um riso fraco, limpando o rosto.
— Bastante — concordou Karinna.
O silêncio que se seguiu não era mais o silêncio frio do restaurante, mas um silêncio de reconhecimento. Karen estendeu a mão, tocando levemente o rosto de Karinna.
— Eu não quero mais o silêncio. Eu prefiro as nossas discussões bobas do que esse vazio. Mas a gente precisa mudar. A gente precisa confiar.
— Eu topo — disse Karinna, fechando os olhos ao sentir o toque de Karen. — Se você prometer que, da próxima vez que sentir ciúmes, vai falar comigo em vez de gritar que acabou.
— Eu prometo.
Nesse momento, a porta do estoque se abriu uma fresta. Três cabeças apareceram empilhadas: Juliana, Janaína e Naty.
— Já se beijaram ou a gente vai ter que trancar a porta por fora? — perguntou Naty, fazendo as duas se afastarem, rindo.
— Vocês não têm serviço, não? — Karen perguntou, embora o sorriso em seu rosto fosse o mais radiante que as amigas tinham visto em dias.
— Temos, mas a reconciliação do casal do ano era prioridade — brincou Juliana.
Karinna olhou para Karen e, sem se importar com as testemunhas ou com o fato de estarem em horário de serviço, puxou-a pela nuca e selou os lábios nos dela. Foi um beijo que carregava o perdão, a saudade e a promessa de um recomeço mais maduro.
— Agora voltem para o trabalho! — disse Janaína, rindo. — O chef já está perguntando das batatas.
As duas saíram do estoque de mãos dadas. A frieza que antes dominava o ambiente fora substituída por uma energia renovada. Karen voltou para seu esfregão e Karinna para seus fogões, mas, desta vez, sempre que seus olhos se cruzavam pelo salão, não havia mais silêncio ou medo. Havia a certeza de que o amor, quando é verdadeiro, sobrevive até às tempestades causadas pela própria insegurança.
O trabalho continuava pesado, o calor da cozinha era intenso e a rotina era exaustiva, mas para Karen e Karinna, tudo parecia mais leve. Elas aprenderam que a maturidade não vem com a idade, mas com a capacidade de olhar para o próprio erro e escolher, todos os dias, o caminho do diálogo em vez do muro do silêncio.
Ao final do turno, enquanto o restaurante fechava as portas, Karen esperou por Karinna na saída dos funcionários.
— Pronta para ir para casa? — perguntou Karen, entregando o capacete para a mais nova.
— Com você? Sempre — respondeu Karinna, abraçando a cintura de Karen antes de subirem na moto.
O elefante no meio da sala havia ido embora, deixando apenas o som do motor e a batida sincronizada de dois corações que, apesar de jovens, sabiam exatamente o que queriam: uma à outra.
