
Problemas
Fandom: Alien stage
Criado: 20/07/2026
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Entre Cadernos, Caos e Segredos de Família
O sol de meio-dia batia implacável contra as janelas de vidro da cantina, criando reflexos dourados que pareciam irritar Till mais do que o normal. Ele descontava sua frustração no purê de batatas, mexendo a comida com uma agressividade que sugeria que o almoço era seu pior inimigo. Seu cabelo cinza estava mais bagunçado que o habitual, e as olheiras sob os olhos verdes denunciavam mais uma noite em claro tentando compor alguma coisa no violão ou simplesmente odiando o sistema escolar.
— Se você continuar encarando esse prato assim, ele vai acabar criando vida e te pedindo desculpas — comentou Ivan, sentando-se à mesa com a elegância irritante de quem não parecia sofrer com o calor.
Ivan era o oposto do caos de Till. Com seu corte social impecável, a pele pálida que nunca parecia queimar sob o sol e aquela expressão de quem sabia de algo que você não sabia, ele era o tipo de pessoa que atraía olhares sem fazer esforço. Ele abriu um pacote de balas de goma, jogando uma vermelha para o alto e pegando com a boca.
— Vai se ferrar, Ivan — resmungou Till, embora não houvesse real veneno em sua voz. Eram amigos, afinal, unidos pela estranha dinâmica de sobreviver ao ensino médio.
— Onde estão os veteranos? — Ivan perguntou, olhando ao redor. — Minha querida irmã já deveria estar aqui para me dizer o quanto eu sou um estorvo na vida dela.
— Falando no diabo... — Till apontou com o queixo para a entrada do refeitório.
Hyuna vinha na frente, caminhando com aquela confiança de quem era a dona da escola. Seus cabelos marrons longos balançavam enquanto ela ria de algo, os olhos azuis brilhando de animação. Logo atrás, Sua mantinha um passo mais contido. Ela era pequena, pálida como o irmão, com o cabelo preto curto e a franja milimetricamente cortada acima dos olhos roxos profundos. Carregava um livro grosso contra o peito, parecendo querer estar em qualquer lugar, menos ali.
Fechando o grupo, Luka caminhava com a postura ereta de um aluno nota dez. O loiro ajeitou os óculos de aro fino, o olhar amarelo claro focado em um papel que segurava.
— Parem tudo! — Hyuna exclamou assim que chegou à mesa, batendo as mãos na superfície de plástico. — Eu tenho o plano definitivo para o próximo fim de semana. E ninguém tem o direito de dizer não.
Sua revirou os olhos, sentando-se ao lado de Ivan e empurrando o braço dele para ter espaço.
— Não encosta em mim, Ivan — disse ela, o tom frio, mas era o "frio" habitual entre os dois.
— Também senti sua falta, maninha — Ivan sorriu, oferecendo uma bala. Ela recusou com um olhar mortal.
— Voltando ao que interessa — Hyuna continuou, ignorando a briga familiar. — Festa. Casa enorme, longe da cidade, sem vizinhos chatos, sem pais, e com estoque de bebida que daria para abastecer um navio. O som vai estar no talo até o amanhecer.
— Você sabe que a gente não tem idade legal para metade do que você acabou de descrever, certo? — Luka interveio, cruzando os braços. — Além disso, casas "afastadas" são o cenário perfeito para filmes de terror.
— Ah, Luka, não seja tão nerd! — Hyuna deu um tapinha no ombro dele. — Vai ser épico. Vai ter gente de todas as escolas da região. E como a casa é gigante, tem quarto de sobra para quem quiser... bom, você sabe. Privacidade.
Till deu de ombros, finalmente deixando o purê de lado.
— Se tiver música boa, eu tô dentro. Qualquer coisa é melhor do que ficar em casa ouvindo meu pai reclamar das minhas notas.
— Eu vou — Ivan disse prontamente, já imaginando o entretenimento que seria ver as pessoas bêbadas. — Adoro um caos generalizado. E você, Sua?
Sua suspirou, abrindo o livro na página marcada.
— Eu passo. Prefiro terminar minha leitura.
— Nada disso! — Hyuna a abraçou pelo pescoço, quase derrubando o livro da garota. — Você vai sim. Eu não vou ficar lá sem minha melhor amiga para comentar sobre como as pessoas são idiotas. Por favor, Suazinha!
— Não me chama assim — Sua resmungou, mas o brilho nos olhos de Hyuna era difícil de combater. — Tá. Eu vou. Mas se alguém vomitar no meu sapato, eu vou embora na mesma hora.
— Fechado! — Hyuna comemorou. — E você, Luka? Não ouse me deixar na mão.
Luka suspirou, limpando as lentes dos óculos com a ponta da camisa. Ele parecia estar calculando os riscos de uma intoxicação alimentar versus a pressão social de seus amigos.
— Tudo bem, eu vou. Mas vou levar meu carro, caso eu decida que a diversão acabou mais cedo para mim.
— Perfeito! — Hyuna bateu palmas.
— Na verdade — Luka começou, guardando o papel que carregava no bolso da calça —, eu estava pensando em levar minha irmã também. Ela voltou para a cidade faz pouco tempo e acho que seria bom ela se enturmar.
Houve um silêncio súbito na mesa. Ivan parou de mastigar sua bala. Till franziu a testa. Até Sua tirou os olhos do livro.
— Você tem uma irmã? — Till perguntou, a voz carregada de choque.
— Desde quando? — Ivan completou, os olhos pretos arregalados. — A gente se conhece há anos e você nunca mencionou que não era filho único.
Luka deu um sorriso de lado, algo raro e quase misterioso.
— É que ela estudava fora, em um colégio interno. Ela é um pouco... diferente de mim. Mas sim, eu tenho uma irmã.
— E por que o mistério? — Hyuna perguntou, curiosa. — Ela é tipo você? Toda certinha e preocupada com o boletim?
— Não exatamente — Luka respondeu de forma vaga, levantando-se quando o sinal tocou, anunciando o fim do intervalo. — Vocês vão conhecê-la na festa. Ela vai gostar de vocês. Ou vai se divertir às custas de vocês. Com ela, nunca se sabe.
O grupo se dispersou para as salas, mas o assunto da irmã misteriosa de Luka permaneceu no ar. Especialmente para Sua, que não conseguia entender como alguém tão metódico como Luka poderia esconder um detalhe familiar daqueles por tanto tempo.
O restante da semana passou como um borrão de aulas de física e treinos de música. A expectativa para a festa crescia, alimentada pelos boatos que circulavam nos corredores. Na sexta-feira, o clima na escola era elétrico.
Na saída, o grupo se reuniu perto do portão principal. Ivan estava contando para Till sobre um novo doce japonês que tinha comprado, enquanto Hyuna revisava a rota para a tal casa afastada no GPS do celular.
— Onde está o Luka? — Sua perguntou, olhando para o relógio. — Ele disse que nos encontraria aqui para combinarmos o horário.
— Ele mandou mensagem — Hyuna disse, mostrando a tela. — Disse que teve que buscar a irmã no ensaio e que nos vê direto na festa amanhã. Ele vai levar ela no carro dele.
— Eu ainda não consigo processar que o Luka tem uma irmã — Till comentou, ajeitando a mochila nas costas. — Imagina se for uma versão feminina dele? Dois Lukas falando sobre álgebra e regras de trânsito. Que pesadelo.
— Eu duvido — Ivan interveio, com seu sorriso de canto. — O jeito que ele falou... parecia que ela era o tipo que causa problemas. Eu gosto de gente que causa problemas.
Sua não disse nada, mas sentiu uma pontada estranha de curiosidade. Ela sempre se sentiu um pouco deslocada, mesmo entre seus amigos. Ivan era expansivo demais, Hyuna era intensa demais, Till era revoltado demais e Luka era lógico demais. Ela vivia naquele meio-termo de frieza e observação. A ideia de alguém novo, alguém que Luka descreveu como "diferente", era intrigante.
No dia seguinte, a preparação foi caótica. Hyuna passou na casa de Sua para ajudá-la (ou forçá-la) a escolher uma roupa que não fosse apenas um moletom preto.
— Você tem que estar incrível, Sua! — Hyuna exclamou, jogando uma saia sobre a cama. — É uma festa na floresta, basicamente. Pense no mistério! Pense na estética!
— Eu só quero não ser picada por mosquitos, Hyuna — Sua respondeu, mas acabou cedendo e vestindo uma blusa de gola alta escura que realçava seu tom de pele pálido e o roxo de seus olhos.
Quando finalmente chegaram ao local da festa, a descrição de Hyuna não fazia justiça à realidade. Era uma mansão de arquitetura moderna, cercada por árvores altas e isolada de qualquer outra civilização. Luzes coloridas piscavam através das enormes janelas de vidro e o grave do som fazia o chão vibrar antes mesmo de saírem do carro.
— Ok, isso é maior do que eu pensei — Till admitiu, saindo do banco de trás e olhando para a multidão que já se aglomerava na entrada.
— Vamos entrar logo! — Hyuna puxou Sua e Till pelos braços, enquanto Ivan seguia logo atrás, já de olho na mesa de bebidas.
O interior da casa era um labirinto de luzes neon, fumaça de gelo seco e cheiro de álcool. Adolescentes de várias escolas dançavam na sala principal, enquanto outros se espalhavam pelas varandas e escadarias.
— Ali está o Luka! — Ivan gritou por cima da música, apontando para um canto mais reservado perto da piscina interna.
Luka estava lá, segurando um copo de plástico com o que parecia ser apenas refrigerante. Ele parecia deslocado, mas mantinha sua elegância habitual. No entanto, ele não estava sozinho.
Ao lado dele, encostada na parede com uma postura relaxada e quase predatória, estava uma garota que parou o coração de Sua por um segundo.
Ela era um pouco mais alta que Sua, com uma pele de tom natural que brilhava sob as luzes roxas do ambiente. O que mais chamava a atenção, porém, era o cabelo: longo, de um rosa vibrante que transicionava para um azul profundo nas pontas, caindo em ondas bagunçadas sobre os ombros. Seus olhos eram de um amarelo dourado intenso, que pareciam brilhar com uma inteligência travessa.
Ela usava uma expressão fechada, quase entediada, mas havia algo em seu olhar que era magnético.
— Pessoal, finalmente — Luka disse quando o grupo se aproximou. — Esta é a minha irmã, Mizi.
A garota se desencostou da parede, e um sorriso lento e de canto começou a se formar em seus lábios. Ela olhou para cada um deles, mas seus olhos demoraram um pouco mais em Sua.
— Então esses são os amigos famosos do meu irmão — disse Mizi.
A voz dela atingiu o grupo como um choque elétrico. Não era apenas uma voz bonita; era profunda, rouca na medida certa e assustadoramente sedutora. Era o tipo de voz que fazia a espinha de qualquer um estremecer, carregada de uma confiança que beirava o perigo.
Till pareceu perder as palavras por um momento. Ivan, pela primeira vez na vida, esqueceu de fazer um comentário sarcástico.
— Prazer, sou a Hyuna — a morena foi a primeira a se recuperar, estendendo a mão. — O Luka não disse que você era... bem, você.
Mizi soltou uma risada curta, um som que pareceu vibrar no peito de Sua.
— Ele tende a omitir as partes interessantes da vida dele — Mizi disse, seu olhar dourado voltando-se para Sua. — E você? Tem nome ou só fica aí me encarando com esses olhos roxos bonitos?
Sua sentiu o rosto esquentar, uma reação que raramente tinha. Ela pigarreou, tentando manter sua fachada de indiferença.
— Eu sou a Sua. E eu não estava encarando. Só estava... observando.
Mizi deu um passo à frente, diminuindo a distância entre elas. O perfume dela era uma mistura de algo doce com o frescor da noite.
— Observando, é? — Mizi inclinou a cabeça, o olhar sedutor e zombeteiro. — Gosto de observadores. Eles costumam ver o que os outros deixam passar.
Luka pigarreou, parecendo levemente desconfortável com a interação.
— Mizi, não assuste meus amigos no primeiro minuto.
— Eu não estou assustando ninguém, Luka — Mizi respondeu, sem tirar os olhos de Sua. — Só estou sendo amigável. Não é, Sua?
Sua sentiu que aquela festa, que antes parecia apenas um evento barulhento e desnecessário, tinha acabado de se tornar o lugar mais perigoso — e interessante — em que ela já esteve.
— É — Sua respondeu, a voz um pouco mais firme. — Amigável.
Mizi sorriu, e dessa vez foi um sorriso completo, revelando uma fileira de dentes perfeitos e uma expressão que prometia que a noite estava apenas começando.
— Ótimo. Porque eu ouvi dizer que essa casa tem muitos lugares para explorar. E eu detesto ficar parada.
Hyuna, percebendo a tensão elétrica no ar, sorriu de orelha a orelha.
— Bom, a noite é uma criança e a bebida é liberada. Vamos fazer essa festa valer a pena!
Enquanto o grupo se movia em direção à pista de dança, Sua sentiu a mão de Mizi roçar levemente em seu braço. Foi um toque rápido, quase acidental, mas que deixou uma trilha de calor na pele pálida da garota.
A irmã de Luka era, definitivamente, tudo o que eles não esperavam. E Sua sabia que, a partir daquele momento, sua vida escolar calma e previsível estava prestes a ser completamente destruída. E, pela primeira vez, ela não se importava nem um pouco.
