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Medo

Fandom: Sombra e ossos

Criado: 20/07/2026

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O Reflexo de um Olhar Devoto

A neve caía suavemente sobre as torres de Os Alta, cobrindo o Pequeno Palácio com um manto de silêncio e brancura. Dentro dos muros aquecidos, Clara observava os flocos dançarem através da janela de vidro duplo, sentindo um calor que não vinha apenas das lareiras acesas. Ela ainda não conseguia se acostumar com a sensação de segurança que aquele lugar — e especialmente ele — lhe proporcionava.

Por anos, Clara se acostumou a ser invisível, ou pior, a ser o alvo de risinhos abafados nos corredores. O peso de seu corpo sempre pareceu ser o único detalhe que as pessoas notavam, ignorando a alma que pulsava por trás de suas curvas e o segredo que ela carregava nas pontas dos dedos. Mas com Aleksander era diferente.

Sentiu mãos grandes e firmes pousarem em seus ombros, e o aroma de sândalo e fumaça a envolveu. Ela não precisou se virar para saber que o Darkling estava ali.

— Você parece perdida em pensamentos, minha luz — sussurrou ele perto de seu ouvido, a voz como veludo sobre seda.

Clara sentiu o rosto esquentar, um sorriso tímido surgindo em seus lábios.

— Estava apenas pensando em como tudo mudou — respondeu ela, virando-se para encará-lo. — Às vezes tenho medo de acordar e descobrir que tudo isso é um sonho. Que você é um sonho.

Aleksander inclinou a cabeça, os olhos escuros brilhando com uma intensidade que faria qualquer general recuar, mas que para Clara era puro devaneio. Ele estendeu a mão, afastando uma mecha de cabelo do rosto dela com uma delicadeza quase reverente.

— Se for um sonho, eu garantirei que nunca precisemos acordar — disse ele, baixando o olhar para os lábios dela antes de voltar aos olhos. — Você merece o mundo, Clara. E eu pretendo entregá-lo a você em uma bandeja de ouro.

Ele se ajoelhou diante dela, sem se importar com o tecido fino de seu kefta negro tocando o chão frio. Com cuidado, ele pegou a mão dela e beijou os nós dos dedos, um gesto de submissão que sempre deixava Clara sem fôlego. Para o resto de Ravka, ele era o temido Invocador das Sombras; para ela, ele era apenas Aleksander, o homem que parecia viver para servi-la.

— O que você deseja hoje? — perguntou ele, olhando-a de baixo para cima. — Quer passear pelos jardins? Ou prefere que eu peça aos cozinheiros que preparem aqueles bolinhos de mel que você tanto gosta?

— Aleksander, você não precisa fazer isso — protestou ela, embora seu coração batesse forte de alegria. — Você é o General do Segundo Exército. Tem coisas mais importantes para fazer do que me mimar.

— Nada é mais importante do que o seu bem-estar — interrompeu ele, a voz firme, mas doce. — Cada minuto que passo longe de você é um minuto desperdiçado. Deixe-me cuidar de você, Clara. Deixe-me mostrar o quanto você é preciosa.

Ele se levantou e a conduziu até a poltrona de veludo, acomodando-a como se ela fosse feita de porcelana fina. Clara sentou-se, sentindo-se a rainha de um reino que ela nunca pediu, mas que ele insistia em construir ao redor dela.

Enquanto Aleksander se afastava para servir uma xícara de chá, Clara olhou para as próprias mãos. O poder que ela escondia — a capacidade de manipular a energia vital, de curar ou destruir com um toque — pulsava sob sua pele. Ela nunca contara a ninguém, exceto a uma velha criada que já havia partido. Mas Aleksander parecia saber que havia algo especial nela, mesmo sem saber exatamente o quê. Ou assim ela acreditava.

Atrás dela, de costas para a luz, a expressão de Aleksander mudou por um breve milésimo de segundo. O brilho de adoração em seus olhos deu lugar a uma frieza calculista, uma sombra de impaciência que ele rapidamente suprimiu. Ele precisava que ela confiasse nele plenamente. Precisava que o amor dela fosse tão absoluto que, quando chegasse o momento de exigir o uso daquele poder latente que ele sentia emanar dela como um farol, ela não hesitaria.

— Aqui está — disse ele, voltando com o chá, o sorriso perfeito de volta ao lugar. — Com a quantidade exata de açúcar, como você gosta.

— Obrigada — murmurou ela, pegando a xícara. — Você é bom demais para mim.

— Eu sou apenas o que você me faz ser — respondeu ele, sentando-se no tapete aos pés dela, apoiando os braços nos joelhos dela. — Você me humaniza, Clara. Sem você, eu seria apenas sombras.

Clara sentiu uma lágrima de emoção brotar em seus olhos. Ela esticou a mão e acariciou o cabelo negro dele, sentindo os fios sedosos entre os dedos.

— Às vezes eu me pergunto o que você viu em mim — confessou ela, a insegurança de uma vida inteira aflorando em sua voz. — Eu não sou como as outras mulheres da corte. Eu não sou elegante, eu não sou... magra.

Aleksander segurou a mão dela, interrompendo o carinho para olhar fixamente em seus olhos.

— As mulheres da corte são como flores de papel: bonitas de longe, mas sem vida e sem alma — disse ele com um desprezo fingido pelas outras, mas com uma intensidade real que a convenceu. — Você é real. Suas curvas são o mapa da minha felicidade, Clara. Cada detalhe seu é perfeito para mim. Nunca deixe que as vozes ignorantes daqueles que não entendem a verdadeira beleza afetem você. Você é a minha luz. Literalmente e figuradamente.

O coração de Clara saltou. Ela se sentia tão amada, tão protegida. Pela primeira vez na vida, ela não sentia necessidade de se esconder. Aleksander a fazia sentir que o mundo era pequeno demais para a grandeza dela.

— Eu te amo tanto — sussurrou ela.

— E eu sou seu — respondeu ele, inclinando-se para beijar a testa dela. — Sempre.

Ele permaneceu ali, naquela posição de adoração, enquanto ela bebia o chá. Internamente, a mente de Aleksander trabalhava em dobro. Ele já havia plantado as sementes da dependência. Em breve, os rumores que ele mesmo incentivava sobre a "beleza fora dos padrões" de Clara seriam usados para isolá-la ainda mais, tornando-o o único porto seguro dela.

— Aleksander? — chamou ela, interrompendo o silêncio confortável.

— Sim, querida?

— Você acha que... algum dia... eu poderei ser útil para Ravka? — perguntou ela, tateando o terreno. — Eu sinto que tenho algo dentro de mim. Uma força.

Os olhos de Aleksander brilharam com uma antecipação predatória, mas ele manteve a voz suave.

— Eu tenho certeza de que você tem dons extraordinários, Clara. Mas não se preocupe com Ravka agora. O mundo é cruel e tentaria usar você. Deixe que eu a proteja. Quando chegar a hora, se você sentir que está pronta para mostrar ao mundo quem realmente é, eu estarei ao seu lado, segurando sua mão.

— Você faria isso? — perguntou ela, os olhos brilhando de esperança.

— Eu faria qualquer coisa por você — afirmou ele, levantando-se e puxando-a para um abraço apertado. — Eu enfrentaria os deuses e os homens se eles tentassem tirar você de mim.

Clara afundou o rosto no peito dele, sentindo as batidas ritmadas do coração de Aleksander. Ela não conseguia ver o sorriso sombrio que se formava nos lábios dele acima de sua cabeça. Para ela, aquele abraço era o lugar mais seguro do mundo. Para ele, era apenas a confirmação de que sua peça de xadrez mais valiosa estava exatamente onde ele queria: completamente entregue e pronta para o sacrifício final.

— O que quer fazer agora? — perguntou ele, afastando-se apenas o suficiente para olhar o rosto dela. — Posso cancelar a reunião com os generais. Eles podem esperar. Você não.

— Não, não quero atrapalhar seus deveres — disse ela, embora a oferta a fizesse se sentir incrivelmente importante.

— Você nunca atrapalha — insistiu ele, pegando a mão dela e levando-a aos lábios novamente. — Mas, se você insiste... que tal se eu pedisse para trazerem o jantar aqui, apenas para nós dois? Sem olhares, sem julgamentos. Apenas eu e minha rainha.

— Eu adoraria — respondeu Clara, sentindo-se a mulher mais sortuda de toda a Ravka.

Aleksander curvou-se em uma reverência exagerada, um "cachorrinho" perfeito obedecendo ao menor desejo de sua dona, antes de caminhar em direção à porta. Antes de sair, ele parou e olhou para trás, lançando-lhe um olhar carregado de uma promessa de devoção eterna.

— Eu volto logo — prometeu ele.

Assim que a porta se fechou e ele se viu sozinho no corredor frio, a expressão de Aleksander endureceu instantaneamente. Ele limpou a mão onde o toque dela havia permanecido, um gesto mecânico e desprovido de emoção.

— Falta pouco — murmurou ele para as sombras que pareciam se curvar à sua passagem. — Continue amando, Clara. Continue confiando. Quanto mais alto você voar no seu amor, mais útil será a queda.

Mas, dentro do quarto, Clara ainda sorria para a porta fechada, tocando o próprio coração, sem saber que o homem que ela amava era o arquiteto da sua futura ruína. Para ela, o inverno nunca fora tão quente. Para ele, a primavera do seu plano estava apenas começando a florescer.

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