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Fandom: Nenhum

Criado: 20/07/2026

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Entre a Agulha e a Sapatilha

O estúdio de tatuagem de Emanuel, localizado no coração luxuoso da cidade, era um santuário de minimalismo e sofisticação. O cheiro de tinta, álcool e couro caro permeava o ar. Aos 25 anos, Emanuel já era um nome lendário no mercado, um império construído com mãos firmes e uma visão artística implacável. Mas, naquela tarde, sua mente não estava focada no traçado complexo que desenhava na pele de um cliente. Seus olhos escuros e cansados voltavam-se repetidamente para o celular sobre a bancada de metal.

Ele era um homem de silêncios, de controle. Mas manter o equilíbrio entre as duas mulheres que amava exigia mais do que apenas habilidade técnica; exigia uma inteligência emocional que, às vezes, sentia que estava se esgotando.

— Terminamos por hoje — disse Emanuel, limpando o excesso de tinta da tatuagem finalizada. Sua voz era profunda, transmitindo aquela estabilidade que todos ao seu redor buscavam.

Assim que o cliente saiu, a porta da sala privativa se abriu e uma explosão de perfume importado e confiança entrou. Sara, com seus cinco meses de gestação, parecia uma rainha que não pedia permissão para ocupar seu trono. O vestido justo e curto de seda destacava a barriga redonda, mas não diminuía em nada sua aura provocante. As unhas impecáveis, o cabelo loiro platinado perfeitamente modelado e o brilho nos olhos mostravam que, mesmo grávida, ela não perderia sua essência.

— Você está com aquela cara de quem está tentando resolver um problema de física quântica, Manu — Sara disse, aproximando-se e sentando-se no colo dele, sem se importar com o avental manchado. — É a Duda, não é?

Emanuel suspirou, as mãos grandes encontrando automaticamente a cintura de Sara, o toque possessivo e protetor.

— Ela está sendo teimosa — ele murmurou, encostando a testa no ombro dela. — O médico foi claro, Sara. Você precisa de repouso absoluto por causa dessa pressão. A casa de campo é o único lugar onde vou ter paz sabendo que você está segura com a enfermeira. E eu não vou ficar um mês longe da Eduarda.

Sara riu, um som anasalado e irônico, mas não desprovido de carinho. Ela não via Eduarda como uma rival. Para ela, a menina de vinte anos era como uma joia delicada que Emanuel precisava para não quebrar sob o peso da própria responsabilidade. Sara amava Emanuel o suficiente para saber que ele era um homem de dois corações, e ela tinha espaço de sobra no dela para aceitar a "pequena bailarina".

— Ela é tímida, meu amor. Tem medo de atrapalhar, de ser um fardo. E, claro, tem aquela obsessão fofa com o ballet e a faculdade — Sara deu de ombros, brincando com o colar de ouro no pescoço dele. — Mas nós dois sabemos quem manda aqui. Se você quer ela lá, ela vai estar lá. Eu mesma falo com ela se precisar.

— Não — Emanuel cortou, o tom de voz ficando mais rígido, o lado controlador vindo à tona. — Eu resolvo com ela. Vou buscá-la na academia agora.


O conservatório de dança era o oposto do mundo de Emanuel. Era feito de luz, música clássica suave e o som rítmico de sapatilhas batendo no chão de madeira. Eduarda estava terminando de dar aula para uma turma de crianças. Ela parecia uma visão etérea: o coque levemente desfeito, o corpo esguio envolto em um collant rosa pálido e uma saia de tule transparente. Sua pele era clara, seus traços finos e sua expressão carregava aquela doçura melancólica que sempre desarmava Emanuel.

Quando ela o viu encostado no batente da porta, um sorriso tímido iluminou seu rosto, mas logo foi substituído por uma sombra de preocupação. Ela sabia por que ele estava ali.

— Emanuel... — ela murmurou, aproximando-se dele após dispensar as alunas. Ela se aninhou no peito dele, buscando o calor e a segurança que só ele provia. — Eu já disse que não posso.

Emanuel envolveu-a em seus braços, sentindo a fragilidade dela contra sua estrutura sólida. Ele beijou o topo da cabeça dela, sentindo o cheiro de lavanda e suor leve.

— Duda, não foi um convite. As malas já estão sendo feitas.

Eduarda se afastou um pouco, os olhos grandes e castanhos brilhando com uma mistura de ansiedade e resistência.

— Eu tenho provas, Manu! E as aulas de ballet... eu não posso simplesmente sumir por um mês. O que meus pais vão pensar? O que a diretora da escola vai dizer?

— Seus pais já sabem e concordam que você precisa de um descanso — Emanuel disse com uma calma que não admitia réplicas. — Eu já conversei com eles. Eles são modernos, Duda. Sabem que você está segura comigo e com a Sara. Quanto à faculdade, você pode estudar da biblioteca da casa de campo. Eu já providenciei internet de alta velocidade e tudo o que você precisar.

— Você não pode simplesmente decidir a minha vida assim — ela disse, a voz subindo meio tom, o que para ela era o equivalente a um grito. — Eu não sou uma das suas empresas.

Emanuel deu um passo à frente, fechando o espaço entre eles. Sua presença era imponente, mas seus olhos mostravam o cansaço da preocupação.

— A Sara está grávida, Eduarda. Valentina precisa que a mãe dela esteja calma. E eu preciso que você esteja lá para que eu fique calmo. Você acha que eu vou conseguir trabalhar ou cuidar dela sabendo que você está aqui sozinha, se matando de ensaiar até tarde? — Ele segurou o rosto dela com as duas mãos. — Eu quero minhas duas mulheres sob o meu teto. Ponto final.

Eduarda mordeu o lábio inferior, a postura cedendo. Ela odiava conflitos, e a intensidade de Emanuel sempre a vencia. Além disso, a menção à Sara e ao bebê sempre amolecia seu coração. Ela gostava de Sara, apesar de se sentir intimidada pela exuberância e pela liberdade da loira.

— A Sara... ela realmente quer que eu vá? — perguntou em voz baixa, a insegurança transparecendo. — Eu não quero incomodar o descanso dela.

— Ela não para de perguntar quando você vai chegar para ajudá-la a escolher as roupas do enxoval que chegaram por entrega — Emanuel mentiu levemente, sabendo que Sara provavelmente queria era alguém para fofocar enquanto comia morangos com chantilly. — Ela precisa de você, Duda. E eu também.


A viagem para a casa de campo foi silenciosa, mas carregada de uma expectativa doméstica estranha e reconfortante. A propriedade era vasta, cercada por montanhas e um verde infinito. Quando o carro parou em frente à mansão de pedra e vidro, Sara já estava na varanda, usando um robe de seda vermelho que deixava pouco para a imaginação, segurando um copo de suco.

— Finalmente! — Sara exclamou, descendo os degraus com uma agilidade que desafiava seu estado. Ela foi direto até Eduarda, que acabava de sair do carro, e a envolveu em um abraço apertado. — Olhe só para você, está mais magra? Emanuel, você não está alimentando a menina direito?

— Sara, deixe ela respirar — Emanuel resmungou, embora um pequeno sorriso de satisfação surgisse no canto de sua boca ao ver a interação.

— Deixe de ser chato, Manu — Sara rebateu, piscando para Eduarda. — Venha, Duda. A enfermeira já preparou o seu quarto ao lado do nosso. Eu mandei colocarem aquelas flores brancas que você gosta.

Eduarda sorriu, sentindo a tensão deixar seus ombros. O jeito expansivo de Sara, embora às vezes vulgar aos olhos dos outros, para ela era um escudo. Sara falava o que Eduarda não tinha coragem de dizer.

— Obrigada, Sara. Como está a Valentina? — Eduarda perguntou, estendendo a mão timidamente para tocar a barriga da outra.

— Chutando como uma jogadora de futebol — Sara riu, guiando-a para dentro. — Acho que ela sentiu falta da sua voz mansa. Essa casa é muito silenciosa só com o Emanuel e o mau humor dele.

Emanuel ficou para trás por um momento, observando as duas entrarem. Ele sentiu o peso do estresse diminuir. Ali, naquele refúgio, ele tinha o controle. Ele tinha a doçura de Eduarda para equilibrar sua rigidez e a força de Sara para desafiar sua lógica.

Mais tarde, após o jantar, o cenário era de uma paz quase irreal. Emanuel estava sentado no sofá de couro da sala de estar, com o notebook no colo, resolvendo pendências de seus estúdios na Europa. Sara estava deitada com a cabeça em seu colo, lendo uma revista de moda e comentando sobre como as tendências da estação eram "pobres". Eduarda, por sua vez, estava sentada no tapete felpudo aos pés deles, com seus livros de anatomia aplicada à dança espalhados, mas sua cabeça estava encostada no joelho de Emanuel.

— Eu ainda acho que vou me arrepender de ter faltado às aulas de amanhã — Eduarda murmurou, fechando os olhos enquanto sentia a mão de Emanuel acariciar seu cabelo de forma distraída.

— Você não vai — Emanuel disse, o tom de voz baixo e firme. — Amanhã de manhã, vou montar uma barra de ballet para você na varanda envidraçada. Você vai poder praticar olhando para o vale.

Eduarda olhou para cima, os olhos brilhando.

— Sério?

— Eu já mandei trazerem o equipamento — ele confirmou. — Se é para você ficar aqui, que seja com tudo o que você precisa.

Sara soltou uma risadinha, sem tirar os olhos da revista.

— Viu, Duda? Ele é um ogro, mas é um ogro providente. Agora, pare de se preocupar com o ballet e me ajude a decidir: esse berço de ouro é demais ou é apenas o básico para a minha filha?

Eduarda se inclinou para olhar a foto na revista, rindo suavemente da extravagância de Sara.

— Acho que a Valentina vai preferir algo mais... macio, Sara.

— Bobagem. Ela é filha de um magnata da tatuagem e de uma rainha do comércio. Ela vai querer brilho — Sara declarou, mas logo soltou um gemido baixo, levando a mão à base das costas.

Instantaneamente, o clima mudou. Emanuel fechou o notebook e Eduarda se ajoelhou ao lado de Sara.

— O que foi? — Emanuel perguntou, a rigidez voltando à sua postura. — A enfermeira...

— Calma, controlador — Sara disse, respirando fundo e sorrindo para acalmá-los. — Foi só um chute mais forte. Ela está agitada.

Eduarda colocou a mão pequena e fria sobre a barriga de Sara, e Emanuel cobriu a mão de Eduarda com a sua, sentindo o movimento da vida que crescia ali dentro. Naquele momento, as inseguranças de Eduarda, o estresse de Emanuel e a impulsividade de Sara pareciam fundir-se em algo sólido.

— Ela vai ser linda — Eduarda sussurrou, emocionada.

— Vai ser um problema — Emanuel corrigiu, embora seus olhos estivessem úmidos. — Três mulheres para eu cuidar. Vou acabar ficando grisalho antes dos trinta.

— Você adora isso — Sara provocou, puxando o rosto dele para um beijo rápido e cheio de batom. — Admita, Manu. Você não saberia o que fazer se não tivesse a gente para mandar em você.

Emanuel não respondeu. Ele apenas puxou Eduarda para cima, acomodando-a entre ele e Sara no sofá. O silêncio da noite na montanha era quebrado apenas pelo som da lareira e pela respiração coordenada dos três. Ali, entre a força e a delicadeza, Emanuel sabia que, apesar de todo o caos e das complicações de seu estilo de vida, ele tinha exatamente o que precisava. O mundo lá fora podia não entender, mas dentro daquelas paredes, a lógica era ditada pelo coração, e o dele estava finalmente em paz.

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