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Descendentes

Fandom: Descendentes

Criado: 20/07/2026

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Entre Flores, Espinhos e Dezessete Madrigais

Luis Madrigal soltou um suspiro tão pesado que jurou ter sentido a fundação de Casita tremer de solidariedade, mesmo estando a quilômetros de distância de Encanto. Ele amava sua família. De verdade. Cada primo com seus dons peculiares, cada tia com seus mimos e cada irmão com sua energia inesgotável eram essenciais para quem ele era. Mas existia um limite para a paciência de um homem, e Luis sentia que o seu tinha sido ultrapassado em algum lugar entre a terceira e a quarta mala que teve de carregar para dentro do ônibus mágico.

Depois da loucura absoluta que foi a viagem no tempo para o País das Maravilhas — onde ele, de alguma forma, acabou ajudando a salvar a Rainha de Copas e a Cinderela de um destino terrível —, Luis esperava um pouco de paz. Em vez disso, recebeu uma convocação urgente. Sua mãe, Luísa Madrigal, a mulher que podia carregar pontes nas costas mas que desabava diante da menor preocupação com os filhos, não ficou nada feliz ao saber das "aventuras" do primogênito.

Foram semanas de negociações intensas. Luísa passou um mês inteiro tentando convencer a Abuela e o resto da família de que Luis não tinha perdido o juízo e que Auradon Prep ainda era o lugar mais seguro do mundo. No fim, a permissão veio, mas com um preço alto. Um preço que agora ocupava quase todos os assentos do transporte.

— Luis! O Juanito usou o dom dele para esconder meu sapato de novo! — gritou uma das filhas de Isabela, enquanto pequenas flores brotavam de seu cabelo em sinal de irritação.

— Luis, eu estou com fome. Quando vamos chegar? — perguntou um dos seis filhos de Mirabel, puxando a manga de sua camisa.

Luis fechou os olhos por um segundo, contando mentalmente até dez. Ele não era apenas um estudante veterano agora; ele fora promovido a babá oficial de dezessete Madrigais. Seus quatro irmãos mais novos, os sete primos por parte de Isabela e os seis por parte de Mirabel. E isso sem contar que, no mês que vem, os filhos de Dolores, Antônio e Camilo também chegariam. Era uma invasão.

— Juanito, devolva o sapato. Maria, coma uma maçã, chegaremos em uma hora — respondeu Luis, sua voz mantendo aquela calma hercúlea que herdara da mãe, embora por dentro ele quisesse apenas gritar.

Ele se encostou no banco, tentando ignorar o caos ao redor. Sua mente viajou para os "parceiros" de missão que deixara em Auradon. A relação com eles era... complicada. Ele ainda não confiava plenamente em Felix Facilier ou nos Gêmeos Smee. E Hazel Gancho? A garota era um problema ambulante. Luis sabia que havia algo mal resolvido entre Red e Chloe Charming. O "lance" dele com Red fora breve, uma faísca em meio ao perigo, mas o Madrigal não era cego. Ele via como Chloe olhava para Red, e como Red parecia dividida entre a culpa e o carinho. Agora, Hazel estava rondando Chloe como um tubarão, e Luis tinha certeza de que não era apenas por amizade.

O único que realmente parecia entendê-lo era Robie, filho de Robin Wood e Pink. Robie era pé no chão, alguém com quem Luis podia conversar sem sentir que estava prestes a cair em uma armadilha de vilão.

— Só quero meu quarto — sussurrou Luis para si mesmo. — Uma semana de sono. Sem magia, sem viagens no tempo e, definitivamente, sem filhos de vilões.


Enquanto o ônibus dos Madrigal cruzava a ponte mágica, em Auradon Prep, o clima era de pura ansiedade para um certo grupo.

Max Hatter, o filho do Chapeleiro Maluco, estava literalmente andando pelas paredes. Graças ao seu legado familiar, a gravidade era mais uma sugestão do que uma regra para ele quando estava nervoso.

— Ele não vem. Ele desistiu de nós. Ele percebeu que somos todos loucos e decidiu que viver em uma vila isolada nas montanhas é muito melhor do que lidar com a gente — Max falava rápido demais, as abas de seu chapéu tremendo.

Hazel Gancho, que estava polindo um de seus ganchos decorativos com uma expressão de tédio, revirou os olhos.

— Max, desça daí. Você está deixando o Felix tonto, e ele já tem problemas suficientes com aquelas sombras dele.

Felix Facilier, sentado em um canto com as pernas cruzadas, apenas assentiu, observando sua própria sombra brincar de cartas no chão.

— Ele volta, Max — disse Felix, com sua voz suave e arrastada. — O Madrigal é certinho demais para abandonar a escola no meio do semestre. Ele tem "senso de dever" escrito na testa.

— Faz três anos! — exclamou Max, saltando do teto e pousando suavemente no chão. — Três anos que eu sou apaixonado por aquele garoto e, justo quando finalmente temos uma aventura juntos, ele some por um mês! Eu achei que ele ia morrer no País das Maravilhas, e depois achei que a mãe dele ia matá-lo por ter ido pra lá.

Max parou, respirando fundo. Seus olhos brilhavam com uma mistura de determinação e desespero.

— Se ele passar por aquelas portas hoje, eu juro por todos os bules de chá do meu pai: eu vou conquistá-lo. Eu vou ser o namorado mais incrível que aquele colombiano já viu.

Hazel soltou uma risada curta e seca.

— Boa sorte com isso. Luis Madrigal é o garoto mais gentil da escola, mas ele olha para nós como se fôssemos experimentos de laboratório que deram errado. Ele não gosta de vilões, Max. Especialmente dos irritantes como você.

— Eu não sou um vilão! — protestou Max, ajeitando a gravata borboleta. — Sou apenas... excêntrico. E o Felix vai me ajudar, não vai?

Felix deu de ombros, um sorriso enigmático surgindo em seu rosto.

— Vou ajudar porque não aguento mais ouvir você falar dele. Mas prepare-se, Hatter. Conquistar um Madrigal é mais difícil do que roubar a varinha da Fada Madrinha.


O ônibus finalmente estacionou em frente à imponente fachada de Auradon Prep. Luis foi o primeiro a descer, respirando o ar fresco que não cheirava a arepas ou a flores tropicais pela primeira vez em semanas. Mas o alívio durou pouco.

— Certo, todos em fila! — ordenou Luis, virando-se para a horda de crianças e adolescentes que saíam do veículo. — Maria, solte o rabo do cavalo da estátua. Juanito, eu já disse para não ficar invisível agora, eu preciso contar vocês!

A confusão era generalizada. As malas pareciam ter vida própria, e o barulho era o suficiente para atrair a atenção de metade da escola.

— Luis! — Uma voz familiar chamou.

Luis olhou para cima e viu Robie correndo em sua direção. O amigo parecia ser a única âncora de sanidade naquele momento.

— Graças aos céus, Robie — disse Luis, apertando a mão do amigo. — Por favor, me diga que você reservou um lugar silencioso na biblioteca para mim pelos próximos três meses.

— Eu tentei, cara, mas a notícia da sua chegada se espalhou — Robie riu, olhando para a multidão de Madrigais. — Caramba, você trouxe a vila inteira?

— Quase isso. Sou a babá oficial agora — Luis suspirou, passando a mão pelo rosto.

Foi nesse momento que ele sentiu uma presença. Ou melhor, três.

Caminhando pelo gramado com uma confiança que ele achava irritante, lá estavam eles: Felix, Hazel e Max. Luis sentiu seus ombros ficarem tensos instantaneamente. Ele se lembrava de cada segundo no País das Maravilhas, e embora tivessem trabalhado juntos, ele ainda não conseguia esquecer as origens deles. Para Luis, que fora criado com uma moral rígida e a responsabilidade de ser o exemplo da família, os filhos dos vilões eram imprevisíveis e, na maioria das vezes, cansativos.

Max Hatter estava na frente, com um sorriso que parecia largo demais para o seu rosto.

— Luis! Você voltou! — Max exclamou, aproximando-se mais do que o espaço pessoal de Luis normalmente permitia. — O sol brilha mais forte hoje, não acha? Ou talvez seja apenas o reflexo da sua aura de perfeição.

Luis piscou, surpreso com a abordagem direta.

— Olá, Max. Felix. Hazel — ele cumprimentou, a voz polida, porém fria. — Sim, eu voltei. E como podem ver, estou um pouco ocupado.

Hazel olhou para os dezessete primos de Luis e soltou um assobio baixo.

— O que é isso? Um exército? Se eu soubesse que você tinha tantos reforços, teria pedido ajuda para lidar com a Chloe e a Red.

Luis estreitou os olhos ao ouvir o nome de Chloe.

— Como ela está? — perguntou ele, ignorando a provocação de Hazel.

— Magoada — respondeu Hazel, dando de ombros. — A Red é uma idiota emocional, e a Chloe é... bom, ela é uma Charming. Ela perdoa, mas o coração dela ainda está em pedaços. Eu estou apenas garantindo que ninguém pise nos cacos.

Luis sabia exatamente o que Hazel estava fazendo. Ela estava se aproveitando da vulnerabilidade de Chloe. Ele sentiu uma pontada de irritação.

— Só não piore as coisas, Hazel — avisou Luis.

— Oh, olhem só — interrompeu Max, tentando recuperar a atenção de Luis. — Você parece exausto, Luis. Que tal se eu ajudasse você com essas malas? Eu posso usar um pouco de mágica de chá para fazê-las flutuar!

— Não — disse Luis, de forma curta e grossa. — Sem mágica de chá, sem truques de sombras e sem ganchos. Eu tenho tudo sob controle.

— Você não parece ter nada sob controle — observou Felix, apontando para um dos primos pequenos de Luis que agora estava tentando escalar uma árvore com uma agilidade sobre-humana.

Luis soltou um gemido de frustração.

— Mateo! Desça daí agora!

— Deixe-me ajudar, Luis — insistiu Max, dando um passo à frente e tocando levemente no braço do Madrigal.

Luis recuou como se tivesse levado um choque. Ele olhou para Max, e por um momento, o filho do Chapeleiro viu algo nos olhos castanhos de Luis que não era apenas cansaço. Era uma barreira.

— Escutem bem — disse Luis, sua voz ganhando aquele tom de autoridade que ele usava para organizar as festas em Encanto. — Eu agradeço que tenhamos sobrevivido àquela missão. Mas eu não estou com paciência para jogos. Eu tenho dezessete pessoas para cuidar, uma faculdade para terminar e uma mãe que me mata se eu tirar uma nota baixa. Eu não preciso de distrações, e certamente não preciso de filhos de vilões tentando ser legais por algum motivo que eu desconheço.

O silêncio que se seguiu foi desconfortável. Robie olhou de um para o outro, sentindo a tensão. Max parecia ter levado um tapa físico, seu sorriso murchando pela primeira vez em anos.

— Luis, nós só... — Max começou, mas Luis o cortou.

— Robie, pode me ajudar a levar os menores para o check-in? — Luis perguntou, já se virando de costas para o trio.

— Claro, cara. Vamos lá.

Luis se afastou, guiando sua família para dentro do castelo de Auradon Prep sem olhar para trás. Ele não viu a expressão de dor no rosto de Max, nem o olhar calculista de Felix ou o suspiro de desprezo de Hazel.

— Eu avisei — disse Hazel, guardando seu gancho. — Ele é um Madrigal. Eles são feitos de dever e flores. Não há espaço para o País das Maravilhas ou para a Ilha dos Perdidos na cabeça dele.

Max Hatter apertou as abas de seu chapéu, os olhos fixos nas costas de Luis.

— Ele está cansado — murmurou Max, embora sua voz estivesse trêmula. — E ele tem razão. Nós somos irritantes.

— E então? Vai desistir? — perguntou Felix.

Max olhou para os amigos. A tristeza ainda estava lá, mas a loucura típica dos Hatter brilhou novamente.

— Desistir? Felix, meu pai tentou tomar chá com uma Rainha que queria cortar a cabeça dele todos os dias. A persistência está no meu sangue. Luis Madrigal pode não querer chegar perto de mim agora... mas eu vou fazer com que ele mude de ideia. Nem que eu tenha que aprender a carregar pontes também.

Hazel riu, desta vez de forma mais genuína.

— Você é um idiota, Hatter.

— Eu sou um Chapeleiro — corrigiu Max, começando a flutuar a poucos centímetros do chão enquanto caminhava em direção à escola. — E o chá está apenas começando a esquentar.

Enquanto isso, dentro de Auradon Prep, Luis Madrigal sentia um calafrio na espinha. Ele achava que o maior desafio do ano seria cuidar de seus primos, mas no fundo de sua mente, a imagem dos olhos ansiosos de Max Hatter persistia. Ele balançou a cabeça, tentando afastar o pensamento. Ele tinha uma família para proteger e uma reputação a manter. Ele não tinha tempo para corações partidos ou para a magia caótica de um certo filho de vilão.

Ou assim ele tentava se convencer enquanto subia as escadas, sentindo que, de alguma forma, o País das Maravilhas o seguira até em casa.

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