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Fandom: Descendentes 5

Criado: 20/07/2026

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O Reflexo Quebrado da Rainha

O silêncio no Castelo de Copas nunca era realmente silencioso. Havia sempre o tique-taque frenético de mil relógios, o som metálico das armaduras dos guardas e o eco distante de ordens sendo gritadas. Mas, nos aposentos privados da Rainha Bridget, o ar parecia ter se solidificado.

Maddox estava parado diante da grande janela de vidro vermelho, observando o jardim de rosas que ele mesmo ajudara a cultivar — ou melhor, que ele ajudara a manter sob o controle rígido dela. Suas mãos, sempre ágeis com engrenagens e fórmulas, tremiam levemente. Ele não precisava de magia para saber o que estava acontecendo. Ele era o Chapeleiro da Rainha, o seu artífice, o seu marido. Ele conhecia cada batida do coração de Bridget, cada mudança em seu tom de voz.

E, nos últimos meses, o coração dela parecia bater em um ritmo que ele não conseguia mais seguir.

Ele se virou lentamente quando ouviu o som da seda arrastando pelo chão de mármore. Bridget entrou no quarto. Ela ainda usava a coroa, mas seus ombros estavam caídos, uma visão rara para a monarca que exigia perfeição absoluta de todos ao seu redor.

— Você está atrasado para o chá, Maddox — disse ela, sem olhar diretamente para ele. Sua voz era doce, mas carregava o peso de uma sentença.

— Eu estava ocupado, minha rainha — respondeu ele, aproximando-se com passos rápidos, quase desesperados. — Estava ajustando o cronômetro do seu novo cetro. Eu queria que ele fosse perfeito. Como você.

Bridget finalmente levantou os olhos. Não havia o brilho de admiração que costumava existir ali. Havia apenas uma exaustão profunda, uma frieza que Maddox sentia como uma facada no peito.

— O perfeccionismo é uma prisão, Maddox — ela murmurou, caminhando até a escrivaninha de ébano. — Às vezes, as coisas simplesmente quebram. E não importa o quanto você tente consertar as engrenagens, a máquina parou de funcionar.

Maddox sentiu o estômago revirar. Ele viu o pedaço de pergaminho oficial sobre a mesa. Ele não precisava ler as palavras para saber o que significavam. Divórcio. Anulação. Separação.

— O que é isso, Bridget? — perguntou ele, embora sua voz soasse como um sussurro estrangulado.

— Nós já conversamos sobre isso, de certa forma — disse ela, mantendo a voz firme, a postura de rainha assumindo o controle. — O nosso tempo juntos... ele serviu ao seu propósito. Mas eu preciso de clareza para governar o País das Maravilhas. E a nossa dinâmica, esse caos constante... está me sufocando.

Maddox soltou uma risada seca, quase maníaca, que ecoou pelas paredes altas.

— Sufocando? — Ele deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela. — Eu dediquei cada segundo dos últimos dois anos a você! Eu construí as defesas deste castelo, eu eliminei aqueles que ousavam rir pelas suas costas, eu transformei o seu medo em poder! Como você pode dizer que eu te sufoco quando eu sou o ar que você respira?

Bridget recuou um passo, seus olhos brilhando com uma mistura de irritação e pena.

— Esse é o problema, Maddox. Você não quer ser o meu marido. Você quer ser a minha sombra. Você quer que eu dependa de você para cada pequena decisão, para cada suspiro. Eu sou a Rainha de Copas. Eu não pertenço a ninguém.

— Você pertence a mim! — gritou ele, perdendo o controle. — Nós fizemos um pacto. Na alegria e na loucura. Você me prometeu!

Ele avançou e agarrou o pergaminho sobre a mesa, rasgando-o em pedaços minúsculos antes que ela pudesse reagir. O papel picado caiu no chão como neve suja.

— Eu não vou assinar nada — declarou ele, os olhos arregalados, a respiração ofegante. — Você não pode me descartar como se eu fosse um relógio velho que perdeu a mola principal. Eu sou o único que realmente te entende, Bridget. O único que ama a sua escuridão tanto quanto a sua luz.

— Maddox, pare com isso — ordenou ela, sua voz subindo de tom, a autoridade real voltando à tona. — Isso é patético. Eu já tomei minha decisão. Outro documento será redigido amanhã. Você deixará o castelo ao amanhecer.

Maddox sentiu o mundo girar. A ideia de viver fora daquelas paredes, longe da presença dela, era insuportável. Ele não tinha uma identidade sem Bridget. Ele era o Chapeleiro dela. Sem a rainha, ele era apenas um homem louco perdido no tempo.

Ele caiu de joelhos aos pés dela, agarrando a bainha de seu vestido vermelho.

— Por favor... Bridget, meu amor... eu mudo. Eu posso mudar. Eu serei mais silencioso, eu serei mais útil. Não me mande embora. O que vai ser de mim sem você?

Bridget olhou para baixo, e por um momento, as feições endurecidas da rainha vacilaram. Ela viu o homem que um dia a fizera rir nos jardins da escola, o gênio excêntrico que prometera protegê-la de toda a dor do mundo. Mas então, ela lembrou-se das manipulações, das vezes em que ele a isolou de seus conselheiros, das crises de ciúmes que terminavam em vidros quebrados e promessas vazias.

— Você se tornou algo que eu não consigo mais controlar, Maddox — disse ela, puxando o vestido de suas mãos. — E eu não permito que nada no meu reino esteja fora do meu controle. Especialmente os meus próprios sentimentos.

— Eu fiz isso por você! — exclamou ele, levantando-se, a tristeza sendo rapidamente substituída por uma fúria tóxica. — Eu te moldei! Se não fosse por mim, você ainda seria aquela garota fraca e ingênua que todos pisavam. Eu te dei espinhos, Bridget! Eu te ensinei que é melhor ser temida do que amada!

— E veja onde isso nos levou — retrucou ela, aproximando-se dele até que seus narizes quase se tocassem. — Você criou um monstro, Maddox? Pois bem. Agora o monstro está mandando você sair.

— Não. — Ele balançou a cabeça, um sorriso distorcido surgindo em seus lábios. — Você não entende. Você não pode se livrar de mim. Eu conheço todos os seus segredos. Eu sei onde os corpos estão enterrados — literalmente. Eu sei como sua mente funciona. Se você me expulsar, eu destruirei tudo o que construímos. Eu contarei ao conselho sobre as suas instabilidades. Eu farei com que cada súdito saiba que a Rainha de Copas é apenas uma farsa mantida por um chapeleiro louco.

Bridget sentiu o sangue ferver. A audácia dele era incomparável.

— Você está me ameaçando? — perguntou ela, a voz perigosamente baixa.

— Estou protegendo o que é meu — respondeu ele, sua obsessão brilhando nos olhos como um fogo doentio. — Você é minha, Bridget. Cada fibra do seu ser. Eu não vou assinar divórcio nenhum. Eu não vou a lugar nenhum. Nós vamos ficar nesta sala, e nós vamos jantar, e amanhã nós vamos fingir que nada disso aconteceu. Porque você precisa de mim. Você é incompleta sem a minha devoção.

Ele estendeu a mão para acariciar o rosto dela, mas Bridget desviou o rosto com nojo.

— O que você sente não é amor, Maddox. É uma doença.

— Se for uma doença, então eu espero que seja contagiosa — disse ele, dando um passo atrás e recuperando uma compostura assustadora. — Vá para a cama, querida. O dia foi longo. Eu vou pedir aos criados que limpem essa bagunça de papel. E amanhã... amanhã tomaremos chá como sempre fazemos. Às seis em ponto. Nem um segundo antes, nem um segundo depois.

Bridget observou-o caminhar em direção à porta. Ele parou no batente e olhou por cima do ombro.

— E Bridget? — Ele sorriu, um gesto que não alcançava seus olhos vazios. — Não tente fugir. Eu ajustei as fechaduras do castelo esta tarde. Só a minha chave mestre funciona agora. Para sua segurança, é claro.

Ele saiu, fechando a porta pesada de carvalho atrás de si. Bridget ouviu o som metálico da chave girando na fechadura externa.

Ela caminhou até a janela e olhou para o céu vermelho do País das Maravilhas. Ela era a rainha mais poderosa que o reino já vira, mas, naquele momento, sentia-se como uma prisioneira em sua própria torre de marfim.

Maddox, no corredor, encostou a testa na porta fria. Ele conseguia ouvir a respiração dela do outro lado. Ele fechou os olhos, sentindo uma onda de euforia misturada com um desespero sufocante.

— Eu te amo, Bridget — sussurrou ele para a madeira inanimada. — E um dia, você vai me agradecer por não deixar você me deixar.

Ele apertou a chave em sua mão até que o metal cortasse sua palma. O sangue começou a pingar no tapete caro, mas ele não se importou. No mundo de Maddox, a dor era apenas o preço que se pagava para manter a perfeição. E ele estava disposto a pagar qualquer preço para garantir que o relógio do casamento deles nunca parasse de bater, mesmo que tivesse que quebrar todas as engrenagens para isso.

Ele começou a descer as escadas, cantarolando uma melodia distorcida, planejando o chá da manhã seguinte. Ele precisaria de rosas novas. Rosas brancas pintadas de vermelho. Exatamente como o coração dela, que ele jurara manter sob seu comando para sempre.

Lá dentro do quarto, Bridget apertou os punhos, os olhos fixos na maçaneta que não girava. A batalha pelo seu trono era constante, mas a batalha pela sua liberdade estava apenas começando. E ela sabia que, para derrotar um homem que não tinha nada a perder exceto ela, ela teria que ser mais impiedosa do que jamais imaginara.

— Corte as cabeças — murmurou ela para o vazio, a frase que Maddox tanto a incentivara a usar agora voltando-se contra a imagem dele em sua mente. — Começando pela dele.

O jogo no País das Maravilhas tinha mudado. E, desta vez, as regras seriam escritas com o sangue de quem ousasse tentar prender a Rainha. Maddox achava que a tinha sob controle, mas ele esquecera uma lição fundamental que ele mesmo ensinara: uma rainha acuada é a criatura mais perigosa de todos os reinos.

O tique-taque dos relógios continuava, implacável, marcando o início de uma guerra doméstica que abalaria as fundações de Copas. Maddox sorria no escuro, enquanto Bridget planejava na luz das velas.

O divórcio não seria assinado. Seria conquistado.

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