
Reader x Dobby o elfo doméstico
Fandom: Harry Potter
Criado: 20/07/2026
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O Aroma da Canela e o Brilho de um Olhar Verde
O castelo de Hogwarts era muito maior do que as histórias que seus pais contavam podiam descrever. Para S/N, cada corredor de pedra parecia sussurrar sobre sua própria inadequação. Ela caminhava com os dedos entrelaçados, apertando as mãos com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. A ansiedade era uma névoa espessa em seu peito. Ser um aborto em uma família de bruxos era como ser um livro com as páginas em branco em uma biblioteca infinita; você pertencia ao lugar, mas não tinha utilidade.
Ou era o que ela pensava até receber a carta de Alvo Dumbledore.
— Cozinhas... cozinhas... — sussurrou ela, a voz melodiosa falhando pelo nervosismo. — Perto do quadro da fruteira. Preciso fazer cócegas na pera.
S/N parou diante da enorme pintura de uma natureza-morta. Ela olhou para os lados, temendo que algum aluno ou, pior, algum professor como aquele homem alto e severo de vestes pretas que passara por ela mais cedo, a visse ali. Com um movimento hesitante, ela esticou o dedo e acariciou a grande pera verde. O fruto soltou uma risadinha aguda e, num estalo mágico, transformou-se em uma maçaneta de ouro.
Ao abrir a porta, o calor a atingiu primeiro. Era um calor acolhedor, carregado com o cheiro de pão fresco, canela e ensopado de carne. O lugar era vasto, com tetos altos e quatro mesas idênticas às do Salão Principal posicionadas exatamente abaixo delas. E havia centenas de pequenas figuras se movendo com uma velocidade frenética.
S/N deu um passo para dentro, sentindo-se uma gigante desajeitada. Sua força física sempre fora um problema; ela já havia quebrado três maçanetas em casa apenas por estar com pressa. Ela tentou sorrir, aquele sorriso que praticava no espelho para parecer amigável, mas seus lábios tremiam.
— Com licença... — começou ela, mas sua voz foi abafada pelo tilintar de centenas de pratos de prata.
— Uma humana! — guinchou um elfo doméstico que passava carregando uma pilha de bandejas maior que ele mesmo. — Uma humana nas cozinhas!
Em questão de segundos, o caos organizado parou. Dezenas de pares de olhos grandes, como pires, voltaram-se para ela. S/N sentiu o rosto arder. Ela queria desaparecer, fundir-se às sombras das panelas de cobre.
— Eu... eu sou a nova funcionária de limpeza — disse ela, as mãos escondidas nos bolsos do avental. — O Diretor Dumbledore me mandou procurar por Dobby.
Um movimento súbito ocorreu perto do fogo. Um elfo que se destacava dos outros — não apenas pelo sorriso largo, mas pelas vestimentas excêntricas que incluíam vários gorros de lã sobrepostos e meias de cores berrantes que não combinavam — correu em sua direção.
— Harry Potter não disse que uma dama viria! — exclamou o elfo, parando diante dela com uma reverência tão profunda que seu nariz comprido quase tocou o chão de pedra. — Dobby está muito honrado! Dobby é o elfo que a senhorita procura!
S/N piscou, encantada. Havia algo na energia daquele pequeno ser que acalmou instantaneamente sua ansiedade.
— Oh, olá, Dobby. Eu sou S/N. É um prazer conhecer você.
— A senhorita disse "prazer"! — Dobby olhou para os outros elfos, que observavam a cena com desconfiança. — Uma humana educada! Dobby ouviu falar que a senhorita ajudará com o trabalho pesado.
— Sim, eu... eu não tenho magia — confessou ela, baixando o tom de voz, esperando o costumeiro olhar de desprezo que recebia dos bruxos "puros". — Mas sou forte. Posso esfregar o chão, carregar os caldeirões, o que vocês precisarem.
— Dobby é um elfo livre! — proclamou ele, estufando o peito por baixo de um colete minúsculo. — E Dobby sabe o que é ser diferente. Não se preocupe, senhorita S/N. Hogwarts é um lugar para todos que têm o coração bom.
Dobby começou a guiá-la pela cozinha, apresentando-a aos outros. Havia Winky, que parecia estar cochilando perto de uma garrafa de cerveja amanteigada e apenas soltou um soluço em resposta, e outros elfos como Hokey e diversos nomes que S/N tentava memorizar desesperadamente. A maioria dos elfos domésticos de Hogwarts era tímida e olhava para S/N com uma mistura de medo e curiosidade. Eles não estavam acostumados a uma humana que se oferecesse para lavar a louça com as próprias mãos.
— A senhorita pode começar com as mesas de preparação — sugeriu Dobby, apontando para enormes blocos de madeira que precisavam ser raspados e limpos para o jantar. — Os alunos descem em duas horas para o lanche da tarde.
S/N assentiu vigorosamente. Ela pegou um balde de água quente e um escovão. Ao aplicar a primeira força no movimento de limpeza, o estalo da madeira ecoou.
— Oh, céus! — exclamou ela, vendo que quase arrancara uma lasca do carvalho. — Desculpe, eu... às vezes eu não controlo minha força.
Dobby, que estava polindo um bule de chá por perto, olhou para a marca na mesa e depois para os braços de S/N. Seus olhos verdes brilharam com algo que não era apenas surpresa.
— A senhorita é muito poderosa! — disse ele, maravilhado. — Dobby nunca viu uma humana tão forte sem usar varinha. É um dom, senhorita S/N!
Ela sentiu o coração aquecer. Ninguém nunca chamara sua força de "dom"; era sempre um "problema" ou uma "grosseria".
As horas passaram e o trabalho era exaustivo, mas S/N sentia-se útil pela primeira vez em anos. Ela limpava com uma velocidade que deixava os outros elfos boquiabertos. Quando a fome finalmente bateu — aquela fome voraz que sempre vinha após o esforço físico —, ela tentou ignorar, mas seu estômago soltou um ronco que pareceu o rugido de um dragão faminto.
— A senhorita precisa comer! — Dobby apareceu como se tivesse aparatado (e provavelmente tinha). Ele trazia um prato empilhado com tortinhas de rins, fatias de pão com mel e uma caneca de suco de abóbora.
— Oh, Dobby, eu não posso parar agora, ainda falta...
— Dobby insiste! — Ele colocou o prato em um canto limpo da bancada. — Um trabalhador feliz é um trabalhador alimentado. Dobby também gosta de comer enquanto trabalha.
S/N sentou-se e começou a comer com uma vontade que faria Rony Weasley parecer um amador. Dobby ficou por perto, fingindo organizar uns panos de prato, mas seus olhos não saíam dela. Ele observava a maneira como ela sorria ao saborear o mel, e como seus olhos brilhavam quando um dos gatos de Hogwarts, um felino cinzento e peludo, se aproximou dela.
S/N, sem perceber que estava sendo observada, começou a cantarolar baixinho enquanto acariciava o gato com uma mão e comia com a outra. Era uma melodia antiga, uma canção de ninar que sua mãe cantava. Sua voz era doce, como o som de harpas ao longe.
Dobby parou o que estava fazendo. Ele nunca ouvira nada tão bonito. Para um elfo que passara a maior parte da vida ouvindo gritos e ordens cruéis dos Malfoy, aquela voz era como um bálsamo. Ele sentiu algo estranho em seu peito, um calor que não vinha dos fogões da cozinha.
— A senhorita canta como um anjo — sussurrou Dobby.
S/N deu um pulo, quase derrubando a caneca de suco. O rosto dela ficou instantaneamente vermelho.
— Você ouviu? — perguntou ela, escondendo o rosto atrás das mãos. — Por favor, não conte a ninguém! Eu morro de vergonha.
— Dobby guardará o segredo — prometeu ele, aproximando-se e colocando uma mão pequena e trêmula sobre o braço dela. — Mas a senhorita não deveria ter vergonha de algo tão maravilhoso.
A semana passou e uma rotina se estabeleceu. S/N tornou-se a "gigante gentil" das cozinhas. Ela trazia pequenos presentes para os elfos: pedaços de fitas coloridas que achava pelo castelo, flores prensadas em livros para Winky, e para Dobby, ela fizera algo especial.
— Para mim? — perguntou Dobby, olhando para o pequeno objeto nas mãos de S/N.
Era uma meia tricotada à mão. Não era perfeita; alguns pontos estavam frouxos por causa da força de S/N, e ela era de um tom de amarelo canário com pequenas flores bordadas na borda.
— Eu sei que você gosta de meias — disse ela, timidamente. — E eu fiz este artesanato para agradecer por ser tão paciente comigo. Você é meu melhor amigo aqui, Dobby.
Dobby pegou a meia como se fosse feita de ouro puro. Seus grandes olhos verdes encheram-se de lágrimas.
— S/N deu uma meia para Dobby... — ele soluçou. — Mas Dobby já é livre! Dobby não precisa de meias para ser livre agora... mas Dobby quer esta meia mais do que qualquer coisa no mundo!
Ele a vestiu imediatamente, mesmo que já estivesse usando outras duas por baixo.
— Ficou linda — disse ela, sorrindo e esticando a mão para limpar uma lágrima do rosto do elfo.
O toque dela foi suave. Dobby fechou os olhos, sentindo a pele quente contra a sua. Ele era um elfo, e ela era uma humana. No mundo dos bruxos, havia barreiras, leis e preconceitos. Mas ali, sob a luz das tochas e o cheiro de alecrim, Dobby sentia que morreria por ela. Ele não entendia bem o que era o amor dos humanos — aquele que ele lia nos livros de romance que S/N deixava espalhados pela cozinha —, mas ele sabia que queria estar perto dela para sempre.
No entanto, a paz em Hogwarts era sempre frágil.
Uma noite, enquanto S/N terminava de polir as grandes chaleiras de prata, um estrondo ecoou nos corredores acima. Não era o som de passos de alunos, mas algo pesado, metálico e carregado de malícia.
— O que foi isso? — perguntou S/N, largando o pano.
Dobby ficou tenso, suas orelhas pontudas girando em direção à porta.
— Algo está errado, senhorita S/N. Muito errado.
A porta da cozinha foi escancarada. Não era um elfo, mas um vulto alto, usando uma máscara de prata que brilhava sob a luz do fogo. Um Comensal da Morte. Ele parecia ter entrado pelas passagens secretas, buscando uma rota de fuga ou talvez um lugar para causar terror.
— Ora, ora... o que temos aqui? — a voz do homem era arrastada e cruel. — Uma trouxa imunda escondida nas cozinhas? E um elfo traidor?
S/N sentiu o medo paralisá-la por um segundo. Sua ansiedade gritava em sua mente para correr, para se esconder. Mas então ela olhou para baixo e viu Dobby. O pequeno elfo estava na frente dela, os braços abertos, tentando protegê-la com seu pequeno corpo.
— O senhor não vai tocar na senhorita S/N! — gritou Dobby, os dedos estalando com faíscas de magia.
O bruxo riu e ergueu a varinha.
— Crucio!
Dobby foi atingido e caiu no chão, contorcendo-se em dor.
Algo dentro de S/N quebrou. Não foi uma maçaneta ou uma mesa de madeira. Foi a barreira da sua timidez. O amor que ela sentia por aquele pequeno ser, a única criatura que a fizera se sentir especial em trinta e quatro anos, transformou seu medo em uma fúria bruta.
— Deixe... ele... em paz! — rugiu ela.
S/N avançou. Ela não tinha varinha, não tinha feitiços. Mas ela tinha a força de dez homens. Antes que o Comensal da Morte pudesse reagir, ela agarrou o braço dele. O som do osso quebrando foi nítido no silêncio da cozinha. Com um grito de dor, o homem deixou a varinha cair. S/N não parou; ela o levantou pelo colarinho e o arremessou contra a parede de pedra com tanta força que o reboco rachou.
O bruxo desabou, inconsciente.
S/N caiu de joelhos ao lado de Dobby, tremendo violentamente.
— Dobby! Dobby, fale comigo!
O elfo abriu os olhos devagar. A dor do feitiço estava passando, substituída por um espanto absoluto.
— A senhorita... a senhorita salvou Dobby — sussurrou ele. — A senhorita enfrentou um bruxo das trevas por Dobby.
— Eu nunca deixaria ninguém machucar você — disse ela, soluçando e puxando-o para um abraço apertado.
Dobby enterrou o rosto no avental dela, sentindo o cheiro de sabão e canela. Ele percebeu, naquele momento, que S/N não era apenas uma humana boba ou uma trabalhadora manual. Ela era sua heroína.
— Dobby acha... — começou ele, a voz abafada — que Dobby gostaria de ficar com a senhorita para sempre. Se a senhorita aceitar um elfo como seu... seu companheiro de trabalho.
S/N sorriu entre as lágrimas, beijando o topo da cabeça dele, logo acima dos vários gorros de lã.
— Eu adoraria, Dobby.
Ela ainda era boba demais para perceber que, nos olhos verdes do elfo, não havia apenas gratidão, mas uma adoração romântica que desafiava as leis da natureza. E Dobby, por sua vez, estava perfeitamente feliz em esperar o tempo que fosse necessário para que seu "grande amor" percebesse que o coração de um elfo livre batia inteiramente por ela.
Enquanto os outros elfos saíam de seus esconderijos para amarrar o intruso, S/N e Dobby permaneceram ali, sentados no chão da cozinha, um segurando a mão do outro, enquanto o sol começava a nascer sobre as torres de Hogwarts, prometendo um novo dia onde, finalmente, nenhum dos dois estaria sozinho.
