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Primeira vez

Fandom: Yellow jackets

Criado: 21/07/2026

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DramaAngústiaPsicológicoSombrioPós-ApocalípticoSobrevivênciaEstudo de PersonagemCiúmesTragédiaCenário Canônico
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O Sangue e a Tinta

O ar dentro da cabana estava pesado, saturado com o cheiro de mofo, suor seco e o desespero silencioso que se tornara o novo normal no deserto de Ontário. Mas para Jackie Taylor, o peso era diferente. Não era a fome que corroía seu estômago naquela tarde, mas as palavras que ela havia devorado. Palavras escritas com a caligrafia meticulosa de Shauna, registradas em páginas que nunca deveriam ter sido lidas por outros olhos.

Jackie estava sentada em um canto escuro, o diário fechado sobre o colo. O mundo lá fora estava se preparando para o "Doomcoming", uma tentativa patética de manter a sanidade através de um baile improvisado no meio do nada. Mas para Jackie, a música já havia parado. Jeff. A traição. A inveja. O ressentimento que Shauna nutria por ela, escondido sob camadas de sorrisos e servidão silenciosa.

Quando a porta da cabana rangeu, Jackie não precisou olhar para saber quem era. O cheiro de Shauna — uma mistura de sabão barato e algo metálico, selvagem — a precedia.

— Jackie? — A voz de Shauna era cautelosa. — Todo mundo já está lá fora. Lottie está distribuindo as coroas de flores. Você não vem?

Jackie finalmente levantou os olhos. Seus olhos azuis, outrora brilhantes e cheios de uma liderança inquestionável, pareciam agora duas poças de água estagnada.

— Eu li, Shauna.

O silêncio que se seguiu foi tão gélido quanto o inverno que se aproximava. Shauna estacou, os olhos castanhos fixos no caderno de capa colorida. Por um momento, a morena pareceu que ia desmoronar, mas então sua expressão endureceu, uma máscara de frieza que Jackie nunca tinha visto de perto.

— Você não tinha o direito — sussurrou Shauna.

— E você tinha? — Jackie riu, um som seco e sem vida. — Transar com o meu namorado? Escrever o quanto você me odeia enquanto segura o meu cabelo quando eu passo mal?

— Eu não odeio você — Shauna deu um passo à frente, as mãos tremendo. — É... é complicado.

— Não é não. É bem simples. Você queria a minha vida, e agora você tem. Ou o que sobrou dela. — Jackie se levantou, deixando o diário cair no chão com um baque surdo. — Sabe o que é mais engraçado? Eu sinto que vou morrer aqui. Eu sinto isso nos meus ossos, Shauna. E a única coisa que me atormenta agora, além da sua traição, é que eu vou morrer sem nunca ter sentido nada de verdade. Sem nunca ter sido... completa.

Shauna franziu a testa, a confusão nublando sua culpa.

— Do que você está falando?

— Eu vou morrer virgem, Shauna — Jackie disse, a voz subindo de tom, beirando a histeria. — Vou morrer sendo a "Jackie perfeita" que nunca chegou a viver. Que piada de mau gosto. Eu quero que acabe, mas eu não quero ir embora assim.

Shauna se aproximou mais, a tensão entre elas quase palpável. Ela podia ver a fragilidade de Jackie, a maneira como os ombros da loira tremiam sob o vestido de cetim amassado. A raiva de Shauna evaporou, substituída por um impulso sombrio e possessivo que ela não conseguia explicar.

— Você não precisa morrer assim — disse Shauna, a voz agora um sussurro rouco.

— E o que você sugere? Que eu vá lá fora e peça para o Travis? Ele está ocupado demais com a Natalie. — Jackie limpou uma lágrima solitária com as costas da mão.

Shauna hesitou por apenas um segundo. A floresta lá fora parecia sussurrar, as árvores balançando com o vento que trazia o som distante e distorcido das meninas rindo.

— Eu faço.

Jackie paralisou. Ela olhou para a melhor amiga — a pessoa que mais a amava e a que mais a tinha ferido.

— O quê? — perguntou Jackie, a voz falhando.

— Eu tiro a sua virgindade — Shauna repetiu, dando o passo final para entrar no espaço pessoal de Jackie. — Eu conheço você melhor do que qualquer um, Jackie. Melhor do que o Jeff. Se é para ser a sua primeira vez, que seja com alguém que realmente te veja. Mesmo que você me odeie agora.

Jackie olhou para os olhos castanhos de Shauna, procurando por deboche ou piedade. Não encontrou nenhum dos dois. Havia apenas uma fome crua e uma honestidade brutal.

— Você faria isso? — Jackie perguntou, a voz quase inaudível. — Mesmo depois de tudo?

— Especialmente depois de tudo — respondeu Shauna.

Sem dizer mais nada, Shauna estendeu a mão e tocou o rosto de Jackie. O contraste entre a pele pálida de Jackie e os dedos levemente calejados de Shauna era gritante. Jackie fechou os olhos, entregando-se ao toque. Ela não se importava mais com o diário, com Jeff ou com o fato de estarem perdidas na floresta. Ela só queria sentir que pertencia a algum lugar, mesmo que fosse ao abismo.

— Agora? — sussurrou Jackie.

— Agora.

Lá fora, o Doomcoming começava. O brilho das fogueiras filtrava-se pelas frestas da cabana, pintando as paredes de laranja e sombras dançantes. O som de tambores improvisados e gritos rituais criava uma trilha sonora surreal para o que acontecia ali dentro.

Shauna guiou Jackie até o colchão de palha no canto, o "leito" improvisado que dividiam há meses. Ela começou a desabotoar o vestido de Jackie com uma calma metódica, quase clínica, até que seus dedos roçaram a pele quente do ombro da amiga. O toque enviou um choque pelo corpo de ambas.

— Shauna... — Jackie arqueou o corpo, a respiração ficando curta.

— Shh — Shauna murmurou, inclinando-se para beijar a curva do pescoço de Jackie. — Apenas sinta.

O primeiro beijo não foi doce. Foi uma colisão de anos de repressão, segredos e uma conexão que transcendia a amizade comum. Tinha o gosto de sal e de algo selvagem. Jackie agarrou os cabelos escuros de Shauna, puxando-a para mais perto, querendo fundir-se à única âncora que ainda possuía naquele mundo em ruínas.

As mãos de Shauna exploravam o corpo de Jackie com uma familiaridade assustadora. Ela sabia exatamente onde Jackie era sensível, como se tivesse passado anos memorizando o mapa daquele corpo em seus sonhos. Quando ela se moveu para baixo, Jackie soltou um suspiro trêmulo, as unhas cravando-se nos ombros de Shauna.

— Olhe para mim — comandou Shauna, a voz carregada de uma autoridade nova.

Jackie abriu os olhos, a visão embaçada pelas lágrimas e pelo desejo. Ela viu Shauna — a verdadeira Shauna, sem a máscara de submissão. Havia uma intensidade predatória naqueles olhos castanhos, algo que Jackie sempre soube que existia, mas que nunca teve coragem de enfrentar.

— Eu estou aqui — disse Shauna, antes de mergulhar novamente.

O ato em si foi uma mistura de dor e uma libertação avassaladora. Para Jackie, era como se as correntes da "garota de ouro" de Nova Jersey estivessem finalmente se quebrando. Ela não era mais a rainha do baile, a namorada perfeita ou a filha exemplar. Ela era apenas carne, osso e um desejo desesperado de ser notada.

Shauna, por outro lado, sentia que estava finalmente reivindicando o que era dela. Se Jackie ia morrer — se todas elas iam morrer naquele lugar — ela queria que a última marca na alma de Jackie fosse a dela. Não a de Jeff, não a de ninguém.

— Shauna, por favor... — Jackie soluçou, o prazer tornando-se pesado demais para carregar sozinha.

Shauna subiu novamente, unindo seus lábios aos de Jackie enquanto se movia contra ela, encontrando um ritmo que as isolava do caos que reinava lá fora. Naquele momento, não havia deserto, não havia queda de avião e não havia fome. Havia apenas o calor da pele e a batida frenética de dois corações que se conheciam desde a infância.

Quando o clímax as atingiu, foi como uma queda livre. Jackie gritou contra a boca de Shauna, as lágrimas finalmente correndo livremente por seu rosto. Shauna a segurou com força, como se tentasse impedir que ela se despedaçasse.

Minutos depois, ou talvez horas — o tempo não fazia sentido ali —, elas ficaram deitadas em silêncio, os corpos entrelaçados sob o cobertor áspero. O som da festa lá fora tinha atingido um nível frenético, quase animal.

— Você ainda quer morrer? — Shauna perguntou, a voz rouca, os dedos traçando padrões invisíveis no braço de Jackie.

Jackie olhou para o teto da cabana, as sombras das chamas lá fora ainda dançando sobre elas.

— Eu não sei — admitiu Jackie. — Mas, pela primeira vez, eu sinto que realmente vivi algo.

Shauna se inclinou e beijou a testa de Jackie, um gesto de ternura que contrastava com a violência da hora anterior.

— Você não vai morrer, Jackie. Eu não vou deixar.

Jackie fechou os olhos, querendo acreditar naquela mentira. Ela sabia o que tinha lido no diário. Sabia que a Shauna que a amava era a mesma Shauna que a devorava em segredo, palavra por palavra, pensamento por pensamento.

— Me promete uma coisa — pediu Jackie, a voz fraca.

— O quê?

— Se as coisas ficarem ruins... se não houver saída... que seja você. Que seja a sua mão.

Shauna sentiu um aperto no peito, uma premonição sombria que a fez estremecer. Ela não respondeu com palavras, apenas apertou Jackie contra si, escondendo o rosto nos cabelos loiros da amiga.

Lá fora, o Doomcoming continuava. As meninas dançavam ao redor do fogo, as coroas de flores murchando sob o luar frio. Elas celebravam a vida em um lugar que só conhecia a morte. E dentro da cabana, entre o sangue da inocência perdida e a tinta das confissões traídas, Jackie e Shauna haviam selado um pacto que nem mesmo o inverno de Ontário seria capaz de apagar.

Jackie Taylor não morreria virgem. Mas ela agora pertencia a Shauna Shipman de uma forma que o mundo civilizado jamais entenderia. E enquanto o frio começava a rastejar por debaixo da porta, elas permaneceram juntas, dois fantasmas esperando pelo amanhecer que talvez nunca chegasse.

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