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Fandom: Naru
Criado: 21/07/2026
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O Silêncio Tem Gosto de Café e Cereja
O relógio de parede no consultório de Itachi Uchiha marcava exatamente dezoito horas. O som rítmico do ponteiro era o único ruído que preenchia a sala decorada em tons de bege e madeira clara. Ele fechou o prontuário do último paciente do dia, soltando um suspiro longo que parecia carregar o peso de cinco sessões consecutivas de traumas profundos e crises existenciais.
Itachi massageou as têmporas. Seus cabelos pretos, presos em um rabo de cavalo baixo e impecável, não tinham um fio fora do lugar, mas sua mente parecia um emaranhado de fios desencapados. Ser psicólogo clínico exigia uma compartimentação que, em dias como aquele, beirava o impossível.
Ele se levantou, ajeitando o paletó cinza chumbo, e caminhou até a janela. A cidade lá fora fervilhava. Pessoas correndo, carros buzinando, vidas acontecendo em uma velocidade que ele passava o dia tentando desacelerar para seus pacientes.
Seu celular vibrou sobre a mesa de carvalho. Uma notificação de mensagem.
“O psiquismo hoje foi pesado ou você só está fazendo drama intelectual sozinho no escuro? Vem logo, fiz café. E trouxe novidades da loja que vão fazer você ter um micro-AVC de vergonha. Beijo, L.”
Um meio sorriso, quase imperceptível para qualquer um que não o conhecesse bem, surgiu nos lábios de Itachi. Lis era a única pessoa no mundo capaz de usar termos como "psiquismo" e "micro-AVC" na mesma frase para provocá-lo.
Ele pegou as chaves, apagou as luzes e saiu. O trajeto até o apartamento que compartilhavam era o seu ritual de descompressão. No entanto, o verdadeiro interruptor para o seu "modo humano" só era acionado quando ele abria a porta de casa.
O cheiro de café fresco e algo doce — provavelmente as velas aromáticas que Lis insistia em testar — o atingiu imediatamente.
— Estou em casa — anunciou ele, deixando a pasta de couro no aparador da entrada.
— Na cozinha, "doutor"! — a voz dela ecoou, vibrante e cheia de energia, contrastando com o silêncio que ele habitara o dia todo.
Itachi caminhou até a cozinha e parou no batente da porta, observando-a. Lis estava de costas, usando um camisetão de uma banda de metal que ele nunca conseguia pronunciar o nome, os cabelos cacheados com mechas vermelhas presos no topo da cabeça de forma caótica. As tatuagens em seus braços pareciam brilhar sob a luz quente da cozinha.
Ela se virou, segurando duas canecas, e abriu um sorriso largo.
— Você está com aquela cara — disse ela, aproximando-se e entregando-lhe o café.
— Que cara? — Itachi deu um gole, sentindo o calor do líquido amargo descer pela garganta.
— De quem está tentando analisar o inconsciente da cafeteira. Relaxa esses ombros, Uchiha. O expediente acabou.
Ela se inclinou e deixou um beijo rápido no queixo dele, já que Itachi era consideravelmente mais alto. Ele a envolveu pela cintura com um braço, puxando-a para perto. O contraste entre a seriedade dele e a vivacidade dela era quase cômico, mas para Itachi, era o único equilíbrio que fazia sentido.
— O dia foi longo — admitiu ele, a voz rouca e cansada. — Muitos casos de repressão emocional.
Lis revirou os olhos, mas havia carinho no gesto.
— E você, como o bom mártir que é, absorveu tudo como uma esponja. Senta aí. Eu fiz sanduíches e tenho fofocas do submundo do varejo erótico para te contar.
Eles se sentaram à mesa pequena e organizada. Lis começou a falar sobre um novo fornecedor de lingeries sustentáveis e como uma cliente de setenta anos tinha ido à loja naquela tarde em busca de algo para "apimentar o jubileu de ouro".
— Ela foi incrível, Itachi — Lis dizia, gesticulando com as mãos. — No começo, ela estava morrendo de vergonha, mal conseguia olhar para os vibradores. Mas conversamos por uma hora. Não sobre os produtos, mas sobre como ela se sentia invisível depois de tanto tempo de casada. No final, ela saiu de lá com um conjunto de seda vermelha e um sorriso que valeu meu mês inteiro.
Itachi a observava. Ele admirava a facilidade com que Lis derrubava barreiras. Enquanto ele levava meses para fazer um paciente se abrir, ela conseguia o mesmo resultado entre prateleiras de brinquedos adultos e óleos de massagem.
— Você tem um dom, Lis — disse ele, seriamente. — Você valida o desejo das pessoas sem torná-lo um tabu clínico. Isso é terapêutico.
— Ih, lá vem ele me analisando de novo — ela brincou, apontando o dedo para ele. — Sem "psicologuês" na hora do jantar, lembra da regra?
— Não é análise, é constatação.
— Sei... — Ela mudou o tom, ficando um pouco mais séria. — Mas nem tudo é flores. Recebi um e-mail hoje da associação de moradores do prédio onde fica a loja.
Itachi arqueou uma sobrancelha, o instinto protetor despertando instantaneamente.
— O que eles querem agora?
— O de sempre. "Preocupação com a moral e os bons costumes". Falaram que a vitrine nova, aquela com a escultura abstrata, é "sugestiva demais" para as crianças que passam a caminho da escola. É ridículo, Itachi. É uma peça de arte em cerâmica.
— É preconceito disfarçado de zelo — Itachi colocou a caneca de lado, sua expressão tornando-se fria. — Eles não atacariam uma loja de doces se as crianças estivessem ficando diabéticas, mas atacam o seu negócio porque ele lida com a autonomia do corpo. Quer que eu revise a resposta jurídica para você?
Lis suspirou, apoiando o rosto nas mãos.
— Não precisa. Eu já respondi. Fui educada, mas firme. Só que... às vezes cansa, sabe? Ter que provar o tempo todo que eu não estou vendendo "pecado", mas sim autoestima. As pessoas me olham no elevador do prédio comercial como se eu fosse um tipo de criatura exótica.
Itachi esticou a mão sobre a mesa, cobrindo a mão dela. A pele de Lis estava fria, e ele a apertou suavemente.
— Eles olham porque você é autêntica, e a autenticidade assusta quem vive de aparências. Sua loja é um sucesso justamente porque você não se esconde.
Lis deu um sorriso pequeno, mas seus olhos ainda carregavam uma sombra de dúvida.
— E você? Como lida com isso?
— Com o quê?
— Com o fato de ser o "perfeito Itachi Uchiha", o psicólogo que todo mundo espera que tenha a vida resolvida, mas que namora a garota dos piercings que vende chicotes e algemas? — Ela soltou uma risadinha irônica, mas havia uma vulnerabilidade real na pergunta.
Itachi ficou em silêncio por alguns segundos. Ele pensou nos olhares de alguns colegas de profissão quando o viam com ela em eventos sociais. Pensou na pressão silenciosa de manter uma imagem de sobriedade absoluta.
— Eu passo o dia tentando entender as pessoas, Lis — ele disse, a voz baixa e firme. — Tento decifrar códigos, traumas e silêncios. É exaustivo. Com você... eu não preciso de um diagnóstico. Com você, eu só quero sentir. O que os outros pensam sobre a nossa combinação é apenas ruído estatístico.
Lis sentiu um nó na garganta. Ela se levantou e contornou a mesa, sentando-se no colo dele. Itachi a recebeu de braços abertos, escondendo o rosto na curva do pescoço dela, inspirando o cheiro de cereja e café.
— Você é muito brega quando quer, sabia? — sussurrou ela, acariciando os cabelos dele.
— É o efeito que você causa em mim.
— Bom saber. Porque eu comprei um filme de terror horrível, daqueles com tubarões fantasmas, e a gente vai assistir agora. E você não vai poder reclamar da falta de lógica do roteiro.
Itachi soltou uma risada baixa, um som raro que pertencia apenas a ela.
— Um tubarão fantasma? Isso desafia todas as leis da biologia e da física, Lis.
— Exatamente por isso. Menos cérebro, mais pipoca. Vamos.
Eles se mudaram para o sofá. Lis se aninhou sob as cobertas, enquanto Itachi tentava, sem sucesso, ignorar os furos no roteiro do filme. No meio da produção duvidosa, ele percebeu que Lis estava quieta demais.
Ao olhar para o lado, viu que ela encarava o teto, pensativa.
— O que foi? — perguntou ele, pausando o filme.
— Às vezes eu tenho medo — confessou ela, sem olhar para ele. — Medo de que, um dia, a sua paciência acabe. Que você se canse da bagunça, dos julgamentos, da minha impulsividade. Você é tão... estruturado.
Itachi desligou a TV completamente. O silêncio voltou a reinar, mas não era o silêncio pesado do consultório. Era um silêncio íntimo.
— Lis, olhe para mim.
Ela virou o rosto. Seus olhos escuros estavam levemente úmidos.
— Todo mundo acha que você é difícil de entender — disse ela, repetindo algo que já haviam conversado antes. — Mas eu acho que você só precisava de alguém que tivesse paciência para ficar. Eu tenho essa paciência. Mas e você? Você tem paciência para a minha tempestade?
Itachi segurou o rosto dela com as duas mãos. Seus polegares acariciaram as maçãs do rosto de Lis, passando por cima de um pequeno piercing que ela tinha perto da orelha.
— Minha vida inteira foi construída sobre o controle, Lis. Controle das minhas emoções, das minhas palavras, da minha carreira. Mas o controle é uma prisão solitária. Você é a única pessoa que me faz querer derrubar as paredes. Eu não quero uma vida estruturada se você não estiver nela para bagunçar os móveis.
Ele se aproximou, encostando a testa na dela.
— Você não é um problema a ser resolvido, Lis. Você é a solução para o tédio da minha perfeição.
Lis sorriu, as lágrimas finalmente caindo, mas acompanhadas de um riso aliviado.
— Droga, Uchiha. Você realmente é bom nisso. Devia cobrar por essas sessões de terapia particular.
— O pagamento é em espécie — brincou ele, aproximando-se para um beijo. — E eu aceito sanduíches e filmes de tubarão.
O beijo começou calmo, um selar de promessas renovadas, mas logo se tornou mais profundo, carregado da intensidade que ambos guardavam sob suas personas públicas. Itachi a apertou contra si, sentindo a pulsação dela contra a sua.
Ali, naquele apartamento, ele não era o terapeuta renomado e ela não era a lojista polêmica. Eram apenas dois adultos tentando navegar pelas complexidades de estarem vivos e apaixonados.
— Itachi? — chamou ela, entre beijos, enquanto ele a carregava em direção ao quarto.
— Hum?
— Amanhã você vai ter que me ajudar a montar um novo expositor na loja. É um manequim de látex de dois metros.
Itachi parou por um segundo, imaginando a cena e o que seus vizinhos pensariam se o vissem carregando aquilo.
— Lis...
— Sem reclamações! Você disse que queria bagunça.
Ele suspirou, derrotado e feliz ao mesmo tempo.
— Tudo bem. Mas eu escolho o café da manhã.
— Justo.
Enquanto as luzes da cidade continuavam a brilhar lá fora, entre julgamentos e rotinas cansativas, dentro daquele quarto o mundo era simples. Não havia análises, não havia preconceitos. Havia apenas o toque, o calor e a certeza de que, não importa o quão difícil fosse o dia, eles sempre teriam um ao outro para desaprender a ser o que o mundo esperava que fossem.
Porque, no fim das contas, Itachi Uchiha tinha aprendido a lição mais importante de sua vida com a mulher dos cabelos coloridos: a alma não precisa de cura quando encontra um lugar para chamar de lar.
