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Fandom: Naru

Criado: 21/07/2026

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O Silêncio que Grita

O aroma de café recém-passado costumava ser o perfume favorito de Lis. Era o cheiro da segurança, da rotina que ela e Itachi construíram ao longo de quatro anos. Mas, naquela manhã de sábado, o aroma parecia ácido, misturando-se à tensão que pairava na cozinha como uma névoa espessa.

Itachi estava parado junto à bancada de mármore, vestindo um robe de seda escura. Ele movia-se com a elegância contida de sempre, servindo o café na caneca favorita de Lis — uma peça de cerâmica preta que ele mesmo havia escolhido porque combinava com o estilo dela. Ele não disse "bom dia" com palavras; ele o disse ao colocar a bebida quente à frente dela, exatamente como ela gostava: forte e sem uma gota de açúcar.

Lis observou as mãos dele. Mãos de um advogado detalhista, dedos longos e firmes. Ela sentiu uma pontada de tristeza ao notar como aquelas mesmas mãos, tão cuidadosas com ela, eram passivas demais com os outros.

— Você dormiu pouco — comentou Itachi, a voz calma e aveludada quebrando o silêncio. Ele se sentou à frente dela, abrindo um tablet para ler as notícias do dia. — Ficou revirando na cama. Algum pesadelo?

Lis deu um gole no café, sentindo o calor queimar sua língua. Ela o encarou por cima da borda da caneca. Seus cabelos cacheados, com a raiz vermelha vibrante, estavam bagunçados, e o piercing em seu lábio brilhou sob a luz da cozinha.

— O pesadelo tem nome, Itachi — respondeu ela, o tom sarcástico cortando a polidez dele. — Chama-se notificação de madrugada.

Itachi não desviou os olhos da tela de imediato, mas Lis notou o leve tencionar de seus ombros.

— Se está falando da Izumi, ela teve um problema com o carro ontem à noite — disse ele, com uma racionalidade que chegava a ser insultante. — Ela não sabia para quem ligar.

Lis soltou uma risada seca, batendo a caneca na mesa.

— Um problema com o carro às duas da manhã? E ela liga para o ex-namorado de infância que está deitado ao lado da mulher com quem vive há quatro anos? — Ela se inclinou para frente. — Itachi, ela tem seguro. Ela tem pai, tem mãe, tem amigos. Ela ligou para você porque sabe que você atende. Ela ligou porque sabe que você não impõe limites.

— Eu não fui buscá-la, Lis — ele disse, finalmente fechando o tablet e olhando para ela com aquela paciência infinita que, naquele momento, a fazia querer gritar. — Eu apenas sugeri o número de um guincho 24 horas. Foi uma conversa puramente funcional.

— Não é sobre o guincho! — Lis se levantou, a frustração transbordando. — É sobre o fato de ela se sentir confortável o suficiente para invadir a nossa intimidade a essa hora. É sobre o fato de que, na semana passada, no jantar da empresa, ela passou a mão no seu braço o tempo todo e você agiu como se fosse uma mosca pousando ali. Você não a afastou. Você não disse "Izumi, por favor, não faça isso".

— Ela é uma velha amiga, Lis. É o jeito dela, expansivo. Eu não queria causar um espetáculo na frente dos meus sócios por algo tão irrelevante.

— Irrelevante para quem? — Lis caminhou até a janela, olhando para o jardim que ela cuidava com tanto esmero. As flores pareciam mais vivas do que o clima dentro daquela casa. — Para mim, não é irrelevante. Para mim, é desrespeitoso. Quando ela pergunta se você ainda usa aquele perfume "que ela adorava", ela não está sendo amigável. Ela está marcando território em cima do que é meu.

Itachi suspirou, levantando-se e caminhando até ela. Ele tentou envolver a cintura de Lis com os braços, um gesto que geralmente a acalmava, mas ela se esquivou.

— Você está sendo emocional demais sobre isso — ele murmurou, tentando usar a lógica como um escudo. — Eu estou aqui com você. Eu moro com você. Eu amo você. O que a Izumi faz ou deixa de fazer não muda o que sinto. Ignorar as infantilidades dela é a forma mais rápida de fazê-la parar. Se eu der importância, aí sim vira um problema.

Lis virou-se para ele, os olhos brilhando com lágrimas de raiva que ela se recusava a deixar cair.

— Esse é o seu erro, Itachi. Você acha que o silêncio resolve as coisas. Você acha que, se ignorar o incêndio, o fogo vai apagar sozinho por falta de atenção. Mas o que está queimando aqui não é a Izumi. Sou eu.

Ele franziu a testa, genuinamente confuso. Na mente racional de Itachi Uchiha, ele era o parceiro perfeito. Ele era fiel, provia, ouvia, cozinhava e nunca levantava a voz. Ele acreditava que, por não retribuir as investidas de Izumi, sua consciência estava limpa.

— Eu não entendo o que você quer que eu faça — admitiu ele, a voz ainda baixa. — Quer que eu seja rude com ela? Quer que eu crie um conflito desnecessário com alguém que faz parte do meu círculo social desde os cinco anos?

— Eu quero que você se posicione! — Lis disparou, a voz subindo um tom, quebrando a regra de ouro de Itachi contra gritarias. — Eu quero que você proteja o que temos. Quando você permite que ela te toque, que ela te mande mensagens impróprias, que ela desrespeite a minha presença, você está dizendo para ela — e para mim — que a minha paz de espírito vale menos do que o seu conforto de não ter que ter uma conversa difícil.

— Você está exagerando, Lis. É só ciúme.

Aquelas palavras foram o estopim. Lis sentiu o coração afundar. Não era ciúme; era a exaustão de lutar sozinha por um respeito que deveria ser automático.

— Ciúme? — Ela soltou uma gargalhada amarga, balançando a cabeça. — Você realmente não entende nada, não é? Eu sou herdeira de uma das famílias mais poderosas do país, Itachi. Eu tenho o mundo aos meus pés se eu quiser. Eu não tenho medo da Izumi. Ela não é uma ameaça para mim como mulher.

Ela deu um passo à frente, apontando o dedo para o peito dele.

— O problema nunca foi ela, Itachi! Ela não me deve porra nenhuma! Ela não prometeu me amar, ela não divide a cama comigo, ela não conhece os meus segredos. Quem me deve respeito é você!

Itachi permaneceu estático, o rosto impassível, embora seus olhos mostrassem uma leve surpresa com a agressividade dela.

— Eu nunca te desrespeitei — ele defendeu-se, a voz fria. — Nunca houve outra mulher.

— Desrespeito não é só enfiar o pau em alguém, Itachi! — Lis gritou, e a palavra chula ecoou na cozinha limpa e organizada, ferindo a sensibilidade dele. — Desrespeito é me deixar sentada em uma mesa de jantar parecendo uma idiota enquanto sua "amiguinha" flerta com você na minha cara e você finge que não está acontecendo nada. Desrespeito é me chamar de louca ou ciumenta quando eu aponto algo que me machuca.

Ela respirou fundo, tentando controlar o tremor nas mãos.

— Eu não quero que você brigue com ela. Eu só queria que, uma única vez na vida, você olhasse para ela e dissesse: "Izumi, eu namoro. Isso é inapropriado. Pare." Mas você não faz isso. Você prefere me ver chorar do que ver ela desconfortável.

— Isso não é verdade — ele disse, tentando se aproximar novamente. — Eu odeio ver você assim.

— Então por que você causa isso? — Ela o empurrou levemente quando ele tentou tocar seu ombro. — Toda vez que você se cala para "evitar o conflito" com ela, você inicia um conflito comigo. Você está trocando a minha segurança pela paz dela.

Itachi sentiu uma pontada de culpa, mas sua mente lógica rapidamente tentou descartá-la. Ele acreditava na boa intenção das pessoas. Ele via Izumi como alguém carente e nostálgica, não como alguém maliciosa. Para ele, Lis estava criando um monstro onde havia apenas um mal-entendido.

— Eu vou falar com ela, se isso te faz sentir melhor — ele disse, mas o tom era condescendente, como se estivesse cedendo a um capricho de uma criança birrenta. — Vou pedir para ela não ligar mais tarde. Satisfeita?

Lis olhou para ele e, pela primeira vez em quatro anos, sentiu um vazio onde deveria estar o amor. Não era a resposta que ela queria. Não era sobre "fazê-la se sentir melhor". Era sobre ele entender o que estava errado.

— Não precisa, Itachi — disse ela, a voz subitamente calma, o que era muito mais perigoso do que os gritos de antes. — Não faça isso por mim. Se você não sente que deve fazer por respeito a si mesmo e ao nosso relacionamento, então não tem valor nenhum.

Ela caminhou em direção à porta da cozinha, mas parou e olhou para trás.

— Você sabe o que mais dói? — perguntou ela, num sussurro quebrado.

Itachi ergueu os olhos, encontrando o olhar intenso e decepcionado de sua namorada.

— Não é ela dando em cima de você — ela continuou, com um sorriso triste que não chegava aos olhos. — É perceber que eu tenho que implorar pelo mínimo. É perceber que, para você, manter a fachada de homem educado e calmo é mais importante do que ser o homem que me protege.

Lis subiu as escadas, e o som de seus passos pesados foi substituído por um silêncio ensurdecedor.

Itachi ficou parado na cozinha. Ele olhou para a caneca de café de Lis, ainda pela metade. Ele sentiu uma pressão estranha no peito, algo que a lógica não conseguia explicar. Ele se sentou à mesa e tentou voltar a ler as notícias, mas as palavras pareciam embaralhadas.

"Ela está apenas estressada", ele pensou. "Amanhã ela acorda melhor e eu preparo aquele risoto que ela gosta."

Ele acreditava realmente que o problema desapareceria se ele apenas esperasse.

Mas, lá no fundo, uma parte dele — a parte que ele raramente consultava — sussurrava que, desta vez, o silêncio não seria o seu aliado.


As horas passaram. Itachi passou o dia no escritório doméstico, mergulhado em contratos e termos jurídicos. Era o seu refúgio. Ali, as regras eram claras. Se uma cláusula era violada, havia uma consequência. Não havia espaço para interpretações emocionais ou "segundas intenções" que ele tinha tanta dificuldade em ler.

Perto das sete da noite, ele ouviu o som de um carro saindo da garagem.

Ele franziu a testa. Lis não tinha mencionado que sairia. Ele desceu as escadas e encontrou a casa silenciosa. Na mesa da entrada, onde ela costumava deixar as chaves e a bolsa, não havia nada. Mas havia um envelope.

Itachi o abriu com cuidado. Não era uma carta de término, mas algo que doeu tanto quanto. Era um comprovante de reserva em um hotel boutique no centro da cidade, por tempo indeterminado. E, embaixo, um pequeno bilhete escrito com a caligrafia firme dela:

"Já que você gosta tanto de evitar conflitos, vou facilitar para você. Não haverá discussões esta noite. Nem amanhã. Vou ficar fora até que você decida se quer ser um namorado ou apenas um espectador da sua própria vida. Não me procure para dizer que 'ela é assim'. Só me procure quando você for capaz de dizer quem 'você' é nessa relação."

Itachi sentiu o peso da culpa finalmente desabar sobre ele. Não era uma culpa leve, era um fardo denso, sufocante. Ele caminhou até a sala de estar, que parecia vasta e fria sem a presença vibrante de Lis. Ele viu a manta que ela usava no sofá, dobrada com perfeição. Viu as plantas que ela regava todas as manhãs.

O silêncio que ele tanto amava agora parecia uma condenação.

Seu celular vibrou no bolso. Ele o pegou, esperando que fosse Lis.

Era uma mensagem de Izumi.

"Itachi, o guincho demorou uma eternidade! Acabei de chegar em casa. Fiquei tão assustada... você não quer vir aqui tomar um vinho para eu te agradecer por ter atendido? Prometo que não conto para a sua namorada brava kkk."

Itachi olhou para a tela. Pela primeira vez, a "boa intenção" que ele sempre atribuía a Izumi evaporou. Ele viu a manipulação. Viu o desrespeito explícito. Viu a forma como ela usava a amizade deles para cutucar a mulher que ele amava.

Ele sentiu uma náusea súbita. Lis tinha razão. Ele tinha sido um idiota. Um idiota educado, inteligente e racional, mas ainda assim, um idiota.

Seus dedos tremeram enquanto ele digitava a resposta.

— Izumi, não me mande mais mensagens. Nunca mais. O que você chama de brincadeira é um desrespeito à minha mulher e ao meu relacionamento. Eu fui omisso por tempo demais, mas isso acaba agora. Não me procure, seja por amizade ou por "emergências". Bloqueie meu número.

Ele não esperou a resposta. Bloqueou o contato dela imediatamente.

Mas, ao olhar para a sala vazia, ele percebeu que a ação que deveria ter sido feita meses atrás agora parecia pequena demais. Ele tinha apagado o cigarro, mas a floresta já estava em chamas.

Itachi pegou as chaves do carro e o casaco. Ele precisava encontrá-la. Ele precisava admitir que errou, não com a lógica de um advogado, mas com a vulnerabilidade de um homem que estava prestes a perder tudo o que realmente importava.

Ele dirigiu pela noite, as luzes da cidade passando como borrões. Sua mente, sempre tão organizada, era um caos de arrependimento. Ele lembrou de todas as vezes que Lis tentou falar e ele a calou com um "você está exagerando". Lembrou de como ela se afastava aos poucos, trocando a espontaneidade pela ironia, o carinho pelo isolamento.

Ao chegar ao hotel, ele teve que usar toda a sua influência e polidez para conseguir o número do quarto. Quando finalmente parou em frente à porta 402, seu coração batia com uma força que ele não sentia há anos.

Ele bateu. Uma, duas vezes.

A porta se abriu. Lis estava lá, vestindo uma camiseta larga de uma banda de rock, os olhos inchados, mas a expressão endurecida.

— O que você está fazendo aqui, Itachi? — ela perguntou, a voz sem emoção.

— Eu fiz o que você pediu — ele disse, a voz falhando pela primeira vez. — Eu cortei a Izumi. De forma definitiva.

Lis cruzou os braços, encostando-se no batente da porta.

— E você quer um troféu por fazer o mínimo, Itachi? Quer que eu te agradeça por finalmente respeitar o nosso namoro depois de eu ter que sair de casa para você me ouvir?

— Não — ele respondeu, dando um passo à frente, entrando no campo de visão dela. — Eu não quero agradecimentos. Eu quero pedir perdão. Eu fui um covarde, Lis. Eu usei a minha calma como uma desculpa para não agir. Eu invalidei o que você sentia porque era mais fácil do que admitir que eu estava falhando com você.

Ele buscou a mão dela, e desta vez ela não se afastou, embora não tenha apertado a dele de volta.

— Eu achei que, se eu não fizesse nada de errado, tudo ficaria bem. Mas eu percebi que não fazer nada também é um erro. Eu deixei você sozinha em uma briga que era nossa.

Lis olhou para as mãos unidas. O piercing em seu nariz captou a luz do corredor.

— Eu te amo, Itachi. Mas eu não posso viver em um relacionamento onde eu sou a única que coloca limites no mundo exterior. Eu não sou sua segurança, eu sou sua parceira.

— Eu sei — ele sussurrou, aproximando-se o suficiente para sentir o perfume de baunilha dela, o cheiro que ele quase perdeu. — Eu demorei para entender que o meu silêncio não era paz, era negligência. Me deixa te levar para casa? Me deixa provar que eu aprendi a falar quando for preciso?

Lis suspirou, o orgulho lutando contra o amor que ainda queimava em seu peito. Ela o observou por um longo tempo. Itachi parecia diferente. A máscara de advogado corporativo impecável tinha caído, deixando apenas o homem que, apesar de todos os defeitos, era o dono do seu coração.

— Se o meu celular tocar e for ela de novo, Itachi... — ela começou, o tom de aviso voltando.

— Não vai tocar — ele garantiu, a voz firme. — E, se qualquer outra pessoa tentar cruzar essa linha, você não vai precisar dizer uma palavra. Eu serei o primeiro a parar.

Lis finalmente apertou a mão dele. Não era um perdão total, ainda havia mágoa a ser curada, mas era um começo.

— Vamos para casa — disse ela. — Mas você vai fazer o jantar. E nada de música instrumental hoje. Eu quero ouvir rock alto.

Itachi sorriu, um gesto genuíno que iluminou seu rosto.

— O que você quiser, Lis. Absolutamente tudo o que você quiser.

Enquanto caminhavam para o elevador, Itachi entendeu que o amor não era apenas sobre os pequenos gestos de carinho ou a convivência pacífica. Era sobre estar disposto a entrar na arena e lutar, mesmo quando você odeia o barulho da batalha. Era sobre entender que, às vezes, a maior prova de lealdade não está no que você faz com a pessoa que ama, mas no que você está disposto a fazer contra quem tenta feri-la.

Ele nunca mais deixaria o silêncio falar por ele.

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