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Fandom: Naruto

Criado: 21/07/2026

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Onde o Silêncio é o Maior Luxo

O som da chuva batendo contra a vidraça do apartamento era o único despertador que Lis aceitava com um sorriso, embora ainda estivesse longe de querer abrir os olhos. O quarto estava imerso naquele tom de cinza aconchegante que só as manhãs de outono em Tóquio proporcionavam. Ela se espremeu um pouco mais sob o edredom, buscando o calor que geralmente emanava do lado esquerdo da cama, mas encontrou apenas o lençol esticado e o cheiro suave de sândalo e amaciante.

Itachi já estava de pé.

Na cozinha, o som rítmico da água fervendo e o aroma inconfundível de grãos moídos na hora denunciavam a rotina dele. Lis sorriu sozinha, sentindo o metal frio de seus piercings contra o travesseiro. Ela rolou para o lado, esticando o braço para alcançar o moletom preto — três vezes o seu tamanho — que ele havia deixado pendurado na cadeira. Vestiu-o como se fosse uma armadura de conforto, deixando que as mangas cobrissem suas mãos tatuadas, e caminhou descalça até a cozinha.

Itachi estava de costas, concentrado. Ele vestia uma calça de moletom cinza e uma camiseta simples, os cabelos longos presos em um rabo de cavalo baixo, frouxo. Ele não precisou se virar para saber que ela estava ali.

— Bom dia, meu caos — disse ele, a voz rouca e calma, típica de quem acabou de despertar.

Lis envolveu a cintura dele com os braços, encostando o rosto em suas costas largas.

— Bom dia, Tachi. Por que você acorda tão cedo mesmo nos dias de folga? É um crime contra a humanidade.

Itachi soltou uma risada baixa, aquele som curto e seco que sempre fazia o coração de Lis dar um solavanco. Ele se virou dentro do abraço dela, segurando seu rosto com as mãos grandes e quentes. Seus polegares acariciaram as maçãs do rosto dela, logo abaixo dos olhos, com uma delicadeza que contrastava com sua estatura de 1,83m.

— Alguém precisa garantir que você tenha café decente antes de começar a reclamar do mundo — ele murmurou, inclinando-se para depositar um beijo demorado na testa dela.

— Eu não reclamo tanto assim — ela protestou, embora soubesse que era mentira. — E eu ia fazer panquecas hoje.

Itachi arqueou uma sobrancelha, um brilho divertido nos olhos escuros.

— Panquecas? Ou você ia começar a massa, se distrair com o gato, queimar o fundo da frigideira e acabar pedindo comida pelo aplicativo?

Lis inflou as bochechas, fazendo o piercing snake eyes em sua língua brilhar sob a luz da cozinha.

— Você é um péssimo paciente, sabia? Deveria apoiar meus delírios criativos.

— Sou seu marido, Lili, não seu paciente — ele corrigiu, servindo uma xícara de café para ela, mas não antes de adicionar uma quantidade generosa de leite e açúcar, exatamente como ela gostava. — No consultório eu sou pago para ouvir. Aqui, eu sou pago com o seu sorriso.

Ele entregou a xícara a ela e, como fazia todas as manhãs, começou a organizar os talheres que Lis havia deixado fora do lugar na noite anterior enquanto conversavam. Era o jeito dele de amar: em silêncio, através de atos que tornavam a vida dela mais leve.

O café estava perfeito. Lis sentou-se na bancada, observando-o. Ela amava cada detalhe dele, desde a forma como ele dobrava o pano de prato com precisão milimétrica até o jeito como ele olhava para "Sombra", o gato preto da casa, que agora se esfregava nas pernas de Itachi exigindo atenção.

— Sombra gosta mais de você do que de mim — Lis resmungou, bebericando o café. — Eu que compro os petiscos caros, mas é para você que ele faz esse charme.

— É a minha energia calma — Itachi respondeu, pegando o gato no colo e acariciando atrás das orelhas do animal. — Você é muito barulhenta para ele de manhã.

— Eu sou expressiva! É diferente.

O momento de paz, no entanto, foi interrompido pelo brilho insistente do celular de Lis sobre a mesa. Ela evitou olhar, mas as notificações não paravam. Desde que a notícia de que ela assumiria o controle das empresas da família — o império bilionário dos Hyuuga-Namikaze — vazara para a imprensa, seu telefone havia se tornado uma zona de guerra.

Itachi notou a mudança na postura dela. O brilho nos olhos de Lis diminuiu, e ela pareceu subitamente menor dentro do moletom dele.

— Eles não param, não é? — perguntou Itachi, deixando o gato no chão e aproximando-se dela.

— Meus pais querem que eu compareça ao jantar de gala da fundação na sexta-feira — Lis suspirou, deixando a xícara de lado. — Eles enviaram um motorista para buscar um vestido que já escolheram para mim. E... eles deixaram claro que você está convidado, mas "sugeriram" que talvez você se sinta deslocado.

Itachi permaneceu em silêncio por alguns segundos, processando a informação. Ele sabia o que aquilo significava. Para a família dela, ele era o "obstáculo" de classe média, o psicólogo clínico que não tinha ações na bolsa nem sobrenome em prédios comerciais.

— E o que você quer fazer, vida? — ele perguntou, sua voz mantendo a mesma calma imperturbável.

— Eu quero ficar aqui — ela disse, os olhos começando a marejar. — Quero ver comédia romântica ruim, comer pizza no sofá e fazer skincare em você até você dormir. Eu não quero ser a "Herdeira". Eu sou só a Lis. Sua Lis.

Itachi puxou-a para um abraço apertado. Lis escondeu o rosto no pescoço dele, onde o cheiro de café e sabonete era mais forte.

— Você sempre será apenas a minha Lis — ele sussurrou contra o cabelo cacheado dela. — Mas se você sente que precisa ir para encerrar esse ciclo ou para enfrentá-los, eu estarei lá. Vou usar o terno que você gosta, vou ouvir as conversas tediosas sobre o mercado financeiro e vou segurar sua mão o tempo todo.

Lis se afastou um pouco para encará-lo.

— Você odeia barulho, Tachi. E odeia desperdício. Aqueles jantares são a definição de barulho e desperdício.

Itachi deu um meio sorriso, aquele que raramente mostrava a alguém além dela.

— Eu aguento qualquer coisa por algumas horas, desde que no final da noite eu possa voltar para casa com você.


A noite do evento chegou com a sutileza de um furacão. O salão de festas do hotel cinco estrelas brilhava tanto que chegava a ofuscar. Homens em smokings sob medida e mulheres cobertas de diamantes circulavam como tubarões em um aquário de luxo.

Lis estava deslumbrante em um vestido de seda negra que contrastava com o vermelho vibrante da raiz de seu cabelo. Suas tatuagens nas mãos e no pescoço estavam à mostra, um ato de rebeldia silenciosa contra a estética "limpa" que seus pais tanto prezavam. Ao seu lado, Itachi era a personificação da elegância discreta. O terno preto caía perfeitamente em seus ombros largos, e seu semblante calmo agia como uma âncora para o nervosismo de Lis.

— Respire — ele murmurou perto do ouvido dela enquanto entravam. — Você está linda.

— Eu me sinto um peixe fora d'água — ela respondeu baixinho, apertando a mão dele.

Não demorou muito para que o círculo social se fechasse ao redor deles. O pai de Lis, um homem cujo aperto de mão era tão frio quanto seus negócios, aproximou-se com um grupo de investidores.

— Lis, querida, finalmente — disse ele, mal olhando para a filha antes de fixar os olhos em Itachi. — E você deve ser... o conselheiro da Lis, suponho?

O tom era carregado de desdém. Para o velho patriarca, Itachi não passava de um funcionário de luxo que sua filha havia decidido manter por perto.

— Sou o parceiro dela, senhor — Itachi respondeu com uma polidez gélida. Ele não se intimidou. Sua postura era ereta, e seu olhar, treinado para observar as nuances da psique humana, parecia ler as inseguranças escondidas sob o ego do sogro.

— Sim, claro. Ouvimos dizer que você tem uma... pequena clínica? — um dos investidores comentou, rindo de forma condescendente. — Deve ser um trabalho fascinante lidar com os problemas das pessoas comuns. Mas imagino que agora, com a responsabilidade que Lis terá, ela precise de alguém que entenda de números, não de sentimentos.

Lis sentiu o sangue ferver. Ela abriu a boca para retrucar, mas sentiu a pressão suave dos dedos de Itachi em sua mão. Ele a acalmou sem dizer uma palavra.

— Os números constroem os prédios, senhor — Itachi disse, sua voz cortando a conversa com uma clareza impressionante —, mas são os sentimentos e a saúde mental que impedem que as pessoas que moram neles desmoronem. Minha profissão me permite ver o que é real. E o que Lis e eu temos é a coisa mais real que já encontrei.

O silêncio que se seguiu foi desconfortável para todos, exceto para Itachi. Ele não estava ali para provar seu valor; ele sabia seu valor.

— Se nos dão licença — Lis disse, puxando Itachi para longe —, meu "caos" e eu temos coisas mais importantes para discutir. Como o fato de que o buffet serviu caviar, mas eu mataria por uma fatia de pizza de pepperoni agora mesmo.

Eles caminharam até a varanda do salão, longe dos flashes e das conversas artificiais. A chuva começou a cair lá fora, as gotas batendo no parapeito de mármore. Lis soltou um longo suspiro de alívio, encostando a cabeça no ombro de Itachi.

— Eu odeio isso aqui, Tachi. Odeio cada segundo.

— Eu sei — ele disse, passando o braço pela cintura dela e puxando-a para perto. — Mas você foi incrível. Você não deixou que eles apagassem quem você é.

— Eu só consegui porque você estava segurando minha mão — ela admitiu, olhando para ele com adoração. — Eles acham que você é "pouco" para mim. Eles não entendem que você é o único que me vê de verdade. Eles veem a herdeira do império. Você vê a garota que rouba seus moletons e dá nome para as samambaias.

Itachi sorriu, beijando o topo da cabeça dela.

— As samambaias precisam de nomes, Lis. Gertrudes e Astolfo ficariam muito tristes se fossem apenas "as plantas".

Lis soltou uma risada genuína, a primeira da noite.

— Eu te amo tanto, sabia?

— Eu também te amo, minha vida. Mais do que café puro e dias de silêncio.

Eles ficaram ali por um tempo, observando a chuva, dois mundos diferentes colidindo em uma harmonia perfeita. Lis sabia que a pressão da família não desapareceria da noite para o dia. Haveria mais jantares, mais fofocas em tabloides e mais tentativas de separá-los. Mas, enquanto ela tivesse o beijo de Itachi em sua testa e a segurança de sua mão segurando a dela, o império lá fora não passava de um castelo de cartas.

— Vamos embora? — ela sugeriu com um brilho travesso nos olhos. — Podemos fugir pelos fundos, passar em uma conveniência, comprar todos os doces que encontrarmos e ver aquele filme de romance clichê que você finge que não gosta, mas que eu sei que você chora no final.

Itachi fingiu uma expressão pensativa.

— Eu não choro. É apenas uma reação alérgica ao excesso de sentimentalismo.

— Sei. Suas alergias são bem pontuais, não é?

— Vamos logo, Lili — ele disse, sorrindo e conduzindo-a para fora da varanda. — Antes que eu mude de ideia e resolva analisar clinicamente por que você gosta tanto de filmes com finais impossíveis.


Horas mais tarde, o cenário era completamente diferente. O vestido de seda estava jogado em uma cadeira, substituído por um moletom de Itachi que chegava aos joelhos de Lis. O terno dele também fora abandonado, e agora ele estava sentado no sofá, com Lis aninhada entre suas pernas.

A sala estava iluminada apenas por alguns abajures e pelo brilho da TV. Sombra estava dormindo sobre os pés de Itachi, e o som da chuva continuava lá fora, mas agora era um som de paz, não de isolamento.

Lis estava concentrada, aplicando uma máscara facial de argila verde no rosto de Itachi. Ele permanecia imóvel, com uma paciência de santo, embora a sensação da argila secando fosse algo que ele claramente desaprovava em silêncio.

— Você está ficando lindo, Tachi — ela disse, cantarolando uma melodia qualquer enquanto espalhava o produto com um pincel.

— Eu sinto que minha pele está sendo cimentada — ele comentou, tentando não mover os lábios.

— É o preço da beleza. E você precisa relaxar, teve um dia longo enfrentando meus pais.

Itachi fechou os olhos, aproveitando o toque das mãos dela em seu rosto. Lis terminou a aplicação e sentou-se de frente para ele, admirando sua obra. Ela pegou o celular e tirou uma foto espontânea dele com a máscara verde e o gato no colo.

— Mais uma para o álbum secreto? — ele perguntou, sem abrir os olhos.

— Como você sabe do álbum? — ela arregalou os olhos, surpresa.

— Eu sou psicólogo, Lis. Observar é o que eu faço. E eu também sei que você trocou o papel de parede do meu celular semana passada para aquela foto nossa na livraria.

Lis riu, abraçando o pescoço dele, sem se importar com a argila que agora sujava seu moletom.

— Eu não troquei, eu apenas... atualizei o sistema.

Itachi envolveu-a em seus braços, segurando-a com firmeza. Naquele pequeno apartamento, longe dos jatos particulares e das contas bancárias astronômicas, Lis tinha tudo o que precisava. Ela tinha o homem que guardava seus bilhetes, que fazia seu café e que, acima de tudo, a amava pelo caos que ela era, e não pela ordem que o mundo esperava que ela mantivesse.

— Sabe, Tachi... — ela sussurrou, o sono começando a vencer. — Eles podem ficar com o império. Eu só quero o nosso reino de 60 metros quadrados.

Itachi não respondeu com palavras. Ele apenas apertou a mão dela, entrelaçando seus dedos, e permaneceu ali, protegendo o sono dela enquanto a chuva lá fora lavava o mundo. Ele era o porto seguro dela, e ela era a cor em seu mundo em tons de cinza. E, para ambos, isso valia mais do que qualquer fortuna que o nome Hyuuga ou Namikaze pudesse oferecer.

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