
Perdidos no cretáceo
Fandom: Original
Criado: 21/07/2026
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O Eco do Silêncio
A umidade da Ilha Nublar parecia ter se transformado em algo sólido, uma massa de ar quente e pesada que se agarrava aos pulmões de Victor enquanto ele tentava não fazer barulho. O posto de observação avançado, uma estrutura de concreto e vidro reforçado encravada na encosta de uma colina, deveria ser um lugar seguro. Agora, era apenas uma gaiola de vidro com vista para o fim do mundo.
Lá fora, a selva não estava apenas viva; ela estava faminta. O rugido que ecoara minutos antes não fora um som de raiva, mas um chamado. Um anúncio de que as cercas elétricas eram agora meros monumentos à arrogância humana.
— A energia não vai voltar, Dante. Aceita logo — sussurrou Kael, a voz carregada de uma irritação que mal escondia o tremor em suas mãos. Ele estava encostado na parede de metal, os braços cruzados, observando o gênio da informática lutar com um terminal que insistia em exibir apenas estática.
— Se você calasse a boca e me deixasse processar os protocolos de redundância, talvez tivéssemos uma chance — rebateu Dante, sem desviar os olhos da tela trêmula. — O sistema principal caiu, mas os subnódulos ainda têm carga residual. Se eu conseguir abrir a porta sul, saímos daqui sem precisar passar pelo pátio principal.
— O pátio principal onde aquela... coisa... está jantando? — Maya interveio, andando de um lado para o outro como um animal enjaulado. Seus tênis de corrida não faziam som no piso de linóleo. — Ótima ideia. Vamos esperar aqui até sermos o desjejum.
— Ninguém vai ser desjejum de ninguém — Victor disse, sua voz soando calma, quase dissonante diante do caos. Ele estava sentado no chão, ao lado de Noah. O menino de treze anos abraçava os próprios joelhos, os olhos fixos em um guia de campo sobre dinossauros que parecia ser sua única âncora com a realidade. — Noah, olhe para mim. O que você ouviu lá fora?
Noah engoliu em seco, a garganta fazendo um som estalado no silêncio da sala.
— Não foi o T-Rex — o menino murmurou, a voz pequena, mas técnica. — O passo era mais leve. Três dedos. O som do impacto no solo é rítmico, não arrastado. Pode ser um Allossauro, ou algo menor e mais rápido. Eles estão circulando o prédio, Victor. Eu senti a vibração no vidro.
Kael soltou uma risada seca, sem humor.
— Ótimo. Temos um sommelier de monstros entre nós. Isso ajuda muito a não sermos comidos.
— Deixa ele em paz, Kael — Victor repreendeu suavemente, embora seus olhos estivessem fixos na penumbra do corredor que levava às escadas. — Ele sabe do que está falando. E você também está com medo, só está sendo um idiota para disfarçar.
Kael descruzou os braços e deu um passo na direção de Victor, a expressão fechada.
— Eu estou tentando manter a gente vivo, "Vic". Enquanto você está aí distribuindo abraços e empatia, tem predadores de duas toneladas aprendendo como abrir latas de conserva. E nós somos as conservas.
— Se for para alguém ficar para trás para distrair o que quer que esteja lá fora, eu vou — Victor disse, levantando-se lentamente. — Mas até lá, vamos trabalhar juntos.
— Ah, claro! O mártir ataca novamente — Kael bufou, aproximando-se o suficiente para que apenas Victor ouvisse. — Se você tentar se sacrificar de novo como fez na balsa, eu juro que eu mesmo te mato antes do dinossauro. Entendeu?
Victor sustentou o olhar intenso de Kael. Havia algo ali, uma eletricidade que não vinha dos geradores pifados da ilha, mas de anos de uma amizade que estava se transformando em algo doloroso e vital sob a pressão da morte iminente. Antes que pudesse responder, Luna, que estivera observando a floresta através da fresta das persianas, ergueu a mão.
— Silêncio — ela ordenou. A autoridade em sua voz fez até Dante parar de digitar.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. E, na Ilha Nublar, o silêncio nunca era um bom sinal. O som dos insetos tropicais havia cessado. O vento parecia ter parado de soprar entre as samambaias gigantes.
— O que foi? — Maya sussurrou, a mão já no trinco da mochila.
— Sumiu — disse Luna, os olhos cerrados. — O rastro de calor que eu estava tentando seguir visualmente pela movimentação das árvores. Parou.
— Talvez tenha ido embora? — sugeriu Dante, a esperança tingindo sua arrogância.
— Não — Noah respondeu, a voz trêmula. — Eles não vão embora quando sabem que a presa está encurralada. Eles esperam o ruído.
De repente, um som metálico ecoou vindo do teto. Tum. Tum. Tum.
Lento. Deliberado. O som de garras batendo contra o metal galvanizado das saídas de ventilação.
— Dante, a porta. Agora — a voz de Victor não era mais apenas calma; era um comando.
— Eu estou tentando! O código está criptografado pelo bloqueio de emergência da InGen! — Dante suava frio, os dedos voando pelas teclas.
— Esquece o computador! — Kael avançou e pegou um extintor de incêndio que estava preso à parede. — Maya, você é a mais rápida. Quando essa porta abrir, você corre para o jipe que vimos no acostamento. Não olha para trás. Luna, você fica com o Noah no meio. Victor e eu fechamos a retaguarda.
— Eu fico por último — Victor corrigiu imediatamente.
— Nem ferrando! — Kael rosnou.
Um estrondo violento sacudiu o teto de gesso. Pedaços de poeira e isolamento térmico caíram sobre a mesa de centro. Uma garra longa, curva e negra como obsidiana perfurou o forro, rasgando o material como se fosse papel.
— Abram a porta! — gritou Noah, escondendo-se atrás de Victor.
Dante deu um soco no teclado e, com um estalo hidráulico, a porta metálica que dava para a passarela externa deslizou alguns centímetros. Foi o suficiente.
— Vão! Vão! Vão! — Victor empurrou Noah e Luna em direção à abertura.
Maya disparou como um raio, sumindo na escuridão da noite lá fora, seguida por Dante, que tropeçava nos próprios pés. Luna segurava a mão de Noah com força, guiando o menino pelo vão estreito.
Victor parou por um segundo, olhando para cima. O teto estava cedendo. Ele viu um olho. Grande, amarelado, com uma pupila vertical que se contraiu ao focar nele. Não era apenas um animal; era uma inteligência fria, calculista. A criatura não estava apenas tentando entrar; ela estava observando a reação deles.
— Victor, move essa bunda agora! — Kael agarrou o colarinho da jaqueta de Victor e o puxou com uma força desesperada para fora, no exato momento em que o teto desabou por completo.
Eles caíram na passarela de metal, a chuva fina começando a cair, misturando-se ao suor e ao medo. Atrás deles, dentro da sala agora destruída, um vulto baixo e musculoso saltou dos escombros. Não era um dos gigantes. Era algo menor, coberto por uma penugem escura e eriçada, com braços longos que terminavam em garras serrilhadas.
— O que é aquilo? — gritou Dante, já a alguns metros de distância, perto da escadaria. — Aquilo não estava no catálogo do parque!
— É um protótipo — Noah gritou de volta, as lágrimas escorrendo pelo rosto enquanto corria. — Setor 4! Eles não deviam estar soltos!
A criatura soltou um guincho agudo, um som que parecia o metal sendo riscado, e saltou para a borda da passarela.
— Corram para as árvores! — Victor ordenou, vendo que o jipe estava mais longe do que imaginavam. — O jipe é um alvo fácil se não conseguirmos ligar rápido. A floresta é densa demais para algo desse tamanho correr em velocidade total!
Eles mergulharam na vegetação, o mundo transformando-se em um borrão de folhas úmidas e raízes traiçoeiras. O pânico era um motor potente, mas a selva era o domínio do inimigo.
Após o que pareceram horas de uma corrida cega, Victor sinalizou para que parassem sob a proteção de uma enorme figueira-brava, cujas raízes aéreas criavam uma espécie de caverna natural. Todos estavam ofegantes, o som da respiração pesada sendo o único ruído além da chuva que engrossava.
Maya estava agachada, os sentidos em alerta máximo. Luna imediatamente começou a examinar um arranhão no braço de Noah, enquanto Dante tentava, inutilmente, encontrar sinal em seu tablet.
Kael encostou-se no tronco da árvore, a poucos centímetros de Victor. Ele ainda segurava o extintor como se fosse uma clava.
— Você quase ficou lá dentro — Kael disse, a voz baixa, rouca de exaustão e fúria contida.
— Eu precisava garantir que o Noah saísse — Victor respondeu, tentando estabilizar a própria respiração. — Ele é só uma criança, Kael.
— E você tem dezessete anos, não é um escudo humano! — Kael deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Victor. A chuva escorria pelo rosto de Kael, colando o cabelo na testa. — Se você morrer, quem é que vai manter esse bando de malucos calmos? Quem é que vai me impedir de mandar o Dante para o inferno?
Victor olhou nos olhos de Kael e viu, por trás da raiva e do sarcasmo, um pavor absoluto. Não o medo dos dinossauros, mas o medo da perda.
— Você faria o mesmo — Victor sussurrou.
— Eu faria por você — Kael admitiu, a voz falhando por um milésimo de segundo antes de ele recuperar a postura defensiva. — Não confunda as coisas.
— Shhh! — Noah apontou para a escuridão entre as samambaias. — Ouçam.
O grupo congelou.
A chuva batia nas folhas, mas havia outro som. Um estalido rítmico. Click. Click. Click.
Não vinha de um animal grande. Vinha de vários pontos ao redor deles.
— Eles cercam a presa — sussurrou Noah, o rosto pálido sob a luz da lua que filtrava entre as nuvens. — Eles não atacam pela frente. Eles esperam você olhar para um lado...
— ...para atacar pelo outro — completou Luna, pegando um galho pesado do chão.
Victor olhou para Maya, que já estava em posição de largada, e para Dante, que parecia prestes a desmaiar. Ele então olhou para Kael. Sem dizer uma palavra, Kael estendeu a mão e apertou o ombro de Victor, um pacto silencioso selado no escuro.
As câmeras de segurança presas aos troncos das árvores, ainda operacionais por algum milagre da engenharia da InGen, giraram silenciosamente, focando no grupo. Em algum lugar, em uma sala de controle submersa em sombras, alguém — ou algo — os observava.
Um par de olhos brilhantes surgiu entre a folhagem, a meros três metros de distância. Depois outro. E outro.
Eles não eram apenas animais. Eram caçadores que tinham todo o tempo do mundo.
— No três — Victor murmurou, sua mão encontrando a de Noah para puxá-lo para perto. — Um... dois...
O primeiro salto veio da esquerda, um borrão de garras e dentes, quebrando o silêncio da floresta com um rugido que prometia apenas o esquecimento.
