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Fandom: Naruto

Criado: 21/07/2026

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Onde o Silêncio Encontra o Caos

O som abafado da chuva batendo contra o vidro da janela da sala era o único ruído que competia com a melodia suave de uma playlist de jazz que Lis havia selecionado. A casa, um refúgio de tons terrosos, prateleiras abarrotadas de livros e vasos de plantas com nomes próprios — como a samambaia "Gertrudes" que pendia graciosamente perto da varanda —, exalava o aroma de baunilha de uma vela aromática recém-acesa.

Lis estava na cozinha, concentrada em uma missão de extrema importância: testar uma receita de biscoitos de lavanda que vira em um blog de culinária alternativa. Ela usava um dos moletons cinzas de Itachi, que ficava enorme em seu corpo, as mangas dobradas várias vezes para não tocarem na massa. O piercing na sobrancelha brilhava sob a luz da coifa enquanto ela cantarolava, distraída, uma música que não saía da sua cabeça desde a manhã.

Ela olhou para o relógio de pulso que, ironicamente, pertencia a Itachi e que ela havia "emprestado" permanentemente. Eram quase sete da noite.

— Ele está atrasado cinco minutos — murmurou para si mesma, polvilhando açúcar sobre a bancada. — Ou eu que estou ansiosa demais? Provavelmente os dois.

Quase como se tivesse sido invocado pelo pensamento, o som da chave girando na fechadura ecoou pelo corredor. Lis sorriu imediatamente, limpando as mãos sujas de farinha no avental antes de correr em direção à entrada.

Itachi Uchiha cruzou a soleira da porta com a expressão serena de sempre, embora os ombros levemente caídos entregassem o cansaço de um dia inteiro ouvindo as dores alheias no consultório. Ele vestia um sobretudo escuro sobre a camisa social cinza, e o cabelo preto estava preso em um rabo de cavalo baixo, perfeitamente alinhado.

— Cheguei — disse ele, a voz baixa e aveludada preenchendo o espaço.

Antes que ele pudesse sequer pousar a maleta, Lis já estava em seu campo de visão, envolvendo o pescoço dele em um abraço apertado. Itachi soltou um suspiro de alívio, fechando os olhos e retribuindo o gesto com a calma que lhe era característica. Ele inspirou o perfume dela — uma mistura de baunilha, farinha e aquele cheiro doce que era só de Lis.

— Você está cheirando a jardim e confeitaria — comentou Itachi, afastando-se apenas o suficiente para depositar um beijo casto na testa dela.

— E você está cheirando a... seriedade e café frio — ela brincou, puxando-o pela mão para dentro. — Tira esse casaco. Eu fiz biscoitos. E não, eu não queimei o fundo dessa vez, antes que você pergunte com esse seu olhar de julgamento clínico.

Itachi soltou uma risada curta, aquele som raro que só Lis conseguia extrair com tanta facilidade.

— Eu não disse nada, Lis.

— Mas pensou. Eu vi o micro-movimento na sua sobrancelha esquerda. Eu moro com um psicólogo, Itachi, eu aprendo essas coisas.

Enquanto Itachi seguia seu ritual habitual de conferir se a porta estava trancada e organizar os sapatos no suporte com uma precisão quase cirúrgica, Lis voltou para a cozinha. Ela adorava observar as manias dele. A forma como ele passava a mão no cabelo comprido quando estava mudando o "chip" do trabalho para o de casa, ou como ele automaticamente alinhava os livros que ela deixava tortos na mesa de centro enquanto passava por eles.

Itachi entrou na cozinha e parou por um momento, observando a desordem criativa que Lis havia instalado ali. Havia potes de diferentes tamanhos, farinha espalhada e uma planta nova — um pequeno cacto em um vaso com formato de dinossauro — ocupando um espaço perto da pia.

— Outra? — perguntou ele, apontando para o cacto.

— O nome dele é Barnabé. Ele estava se sentindo sozinho na loja, Itachi. Você, como psicólogo, deveria entender a importância do pertencimento social.

— Entendo — ele respondeu, aproximando-se dela por trás e envolvendo sua cintura, apoiando o queixo no ombro da namorada. — Só espero que o Barnabé não precise de terapia de grupo com a Gertrudes.

Lis riu, inclinando a cabeça para trás para beijar a bochecha dele.

— O Sasuke e o Naruto vêm para o jantar? — perguntou ela, voltando a atenção para o forno.

— Sasuke me mandou uma mensagem dizendo que o Naruto conseguiu a proeza de derrubar o tripé da câmera dentro da banheira. Eles vão atrasar um pouco porque o Naruto está tentando secar o equipamento com um secador de cabelo enquanto o Sasuke tenta não cometer um fratricídio.

— Típico — Lis deu de ombros. — Sakura e Karin também vêm. A Karin disse que tem uma fofoca "vital" para contar e que, se não contar hoje, ela entra em combustão espontânea.

Itachi suspirou, mas havia um brilho de satisfação em seus olhos negros.

— Então a noite será barulhenta.

— Você ama o barulho, Uchiha. Admita. Sua vida era um deserto de silêncio antes de eu chegar com minha trupe de nômades caóticos.

— Eu admito que minha vida era mais organizada — provocou ele, apertando levemente a cintura dela. — Mas também admito que era muito menos interessante.

O jantar foi exatamente como Itachi previra: uma explosão de energias contrastantes.

Naruto chegou primeiro, praticamente derrubando a porta com sua animação habitual, carregando um fardo de refrigerantes e uma energia que parecia carregar as baterias da casa. Sasuke vinha logo atrás, com uma expressão de quem preferia estar em qualquer lugar, exceto ali, mas cujos olhos buscavam os de Itachi com um respeito silencioso e profundo.

— Lis! Que cheiro é esse? — Naruto exclamou, indo direto para a cozinha e tentando roubar um biscoito antes da hora.

— Tira a mão, Naruto! — Lis deu um tapa leve nos dedos dele. — É para a sobremesa.

— Você é muito cruel para alguém tão pequena — reclamou o loiro, abraçando-a logo em seguida. — E aí, Teme, vai ficar parado aí com cara de paisagem ou vai ajudar a arrumar a mesa?

Sasuke revirou os olhos, mas já estava pegando os pratos que Itachi estendia para ele.

— Eu não sei por que ainda aceito vir aqui — resmungou Sasuke, embora tenha se sentado exatamente no seu lugar de costume, ao lado de Itachi.

— Porque você nos ama — Lis respondeu da cozinha. — E porque o Itachi fez o molho de tomate que você gosta.

— Ela tem um ponto, Sasuke — comentou Itachi, servindo vinho para o irmão com um sorriso discreto.

Logo, Sakura e Karin chegaram, completando o grupo. Sakura trazia consigo a aura de calma que apenas uma médica acostumada a plantões caóticos poderia ter, enquanto Karin já entrou reclamando de um cliente que queria um vestido "com a cor do pôr do sol, mas sem o laranja".

— Eu juro, Sakura, se eu tiver que ouvir mais uma vez sobre tons conceituais, eu vou costurar a boca daquela modelo — Karin disparou, sentando-se à mesa e já pegando a taça de vinho que Sakura, preventivamente, já havia enchido.

— Calma, Karin. Você está em um ambiente seguro agora — Lis brincou, sentando-se ao lado de Itachi.

A conversa fluía como um rio caudaloso. Naruto contava sobre suas últimas fotos, gesticulando tanto que quase derrubou o vinho de Sasuke três vezes. Karin e Sakura discutiam sobre a nova decoração do apartamento delas, com Karin tentando convencer a todos de que uma parede roxa era "essencial para a criatividade", enquanto Sakura mantinha a voz da razão, defendendo o branco clássico.

Itachi, como sempre, falava pouco. Ele observava. Via a forma como Naruto, apesar de toda a bagunça, sempre garantia que Sasuke tivesse o melhor pedaço da comida. Notava como Sakura tocava o braço de Karin para acalmá-la quando a ruiva se exaltava demais. E, principalmente, sentia o calor do corpo de Lis ao seu lado.

Em certo momento, Lis começou a contar sobre sua última tentativa de montar uma estante de livros sozinha, o que resultou em uma peça de mobília que parecia a Torre de Pisa.

— Eu segui o manual! — ela exclamou, fazendo um bico dramático. — O problema é que o manual estava em sueco ou algo assim.

— Lis, o manual tinha apenas desenhos — pontuou Sasuke, com seu tom seco habitual. — Eu vi as fotos que você mandou para o grupo. Você montou a base de cabeça para baixo.

— Detalhes técnicos, Sasuke! — ela rebateu, jogando um guardanapo nele. — O que importa é a intenção artística.

— A intenção artística quase causou um traumatismo craniano no Barnabé — Itachi comentou calmamente, levando a taça aos lábios.

A mesa explodiu em risadas. Lis olhou para Itachi, fingindo estar ofendida, mas seus olhos brilhavam. Ela adorava quando ele entrava nas brincadeiras, usando seu humor ácido e inteligente para desarmá-la.

Depois que todos foram embora, deixando para trás o rastro de uma noite feliz e algumas louças que Itachi insistiu em lavar imediatamente — a desorganização pós-festa era algo que ele não conseguia ignorar —, o silêncio finalmente retornou à casa. Mas não era um silêncio vazio. Era um silêncio preenchido pelo eco das risadas.

Lis estava sentada no balcão da cozinha, observando Itachi secar as mãos com o pano de prato. Ele se aproximou dela, ficando entre suas pernas enquanto ela permanecia elevada no balcão.

— Você está cansado? — ela perguntou, passando os dedos pelos fios negros que haviam escapado do elástico dele.

— Um pouco. Mas foi uma boa noite.

— Você gosta quando eles vêm, não gosta? Mesmo que o Naruto fale pelos cotovelos e a Karin tente redecorar nossa sala mentalmente.

Itachi sorriu, um sorriso genuíno e relaxado que ele reservava apenas para aqueles quatro cantos de parede.

— Gosto. Eles trazem uma vida que eu não sabia que precisava. E você é o centro disso tudo, Lis.

Ele a puxou para um abraço, as mãos grandes e firmes descansando na base de suas costas. Lis suspirou, afundando o rosto no pescoço dele.

— Às vezes eu acho que sou demais para você — ela sussurrou, a voz abafada pelo tecido da camisa dele. — Eu sou barulhenta, eu compro plantas demais, eu roubo suas roupas e eu nunca sei onde deixei as chaves do carro.

Itachi se afastou um pouco, apenas o suficiente para olhar nos olhos castanhos dela. Sua expressão era séria, mas infinitamente doce.

— Você não é demais, Lis. Você é a medida exata. O meu trabalho é ouvir o caos do mundo o dia todo. Aqui, com você, o caos é diferente. É um caos que faz sentido. É o que me mantém humano.

Ele a beijou então. Foi um beijo lento, profundo, que carregava a promessa de cinco anos de história e a certeza de muitos outros pela frente. As mãos de Lis subiram para o cabelo dele, soltando o elástico e deixando que os fios lisos caíssem sobre seus ombros.

Itachi a pegou no colo com facilidade, fazendo-a soltar uma pequena exclamação de surpresa e riso.

— O que você está fazendo, Uchiha?

— Conferindo as portas antes de dormir — ele disse, embora tenha começado a caminhar na direção oposta à porta de entrada, rumo ao quarto deles.

— O quarto é para lá, gênio da psicologia.

— Eu sei exatamente para onde estou indo.

No quarto, a luz do luar filtrava-se pelas cortinas finas. Itachi a deitou na cama com cuidado, mas não se afastou. Ele a cercou com seu corpo, os olhos negros fixos nos dela com uma intensidade que sempre fazia o coração de Lis acelerar.

— Você sabe que eu te amo, não sabe? — ele perguntou, a voz quase um sussurro enquanto sua mão percorria a tatuagem de aranha no pescoço dela, um contraste marcante com a pele clara.

— Sei — ela respondeu, puxando-o para mais perto pela gola da camisa. — Mas gosto de ouvir. Especialmente quando você diz com essa voz de "vou te analisar agora".

— Eu não estou te analisando, Lis — ele murmurou, aproximando os lábios do ouvido dela, fazendo-a estremecer. — Eu estou te sentindo.

O que se seguiu foi uma dança de familiaridade e paixão. Não havia pressa. Itachi explorava cada tatuagem, cada piercing, cada curva do corpo de Lis com a paciência de quem conhecia cada detalhe, mas ainda assim descobria algo novo a cada toque. Ele era metódico em seu carinho, garantindo que ela sentisse cada grama de sua devoção.

Lis, por outro lado, era fogo e urgência. Suas mãos percorriam as costas magras e definidas de Itachi, puxando-o para si, ditando um ritmo que ele acompanhava com maestria. Entre sussurros e respirações curtas, o mundo lá fora — a fortuna da família dela, os traumas dos pacientes dele, as expectativas da sociedade — deixava de existir. Ali, naquele espaço sagrado, eles eram apenas dois seres humanos encontrando abrigo um no outro.

Horas depois, quando a respiração de ambos já havia voltado ao normal e o sono começava a se aproximar, Lis estava aninhada no peito de Itachi. Ele fazia carinho no cabelo cacheado dela, um movimento rítmico e inconsciente.

— Itachi? — ela chamou baixinho.

— Hum?

— Obrigada por não se importar com o Barnabé.

Ele soltou uma risada baixa, o peito vibrando contra a bochecha dela.

— Eu me importo. Só acho que ele precisa de um lugar melhor no sol. Amanhã eu mudo o vaso de lugar.

Lis sorriu, fechando os olhos. Ela sabia que, na manhã seguinte, acordaria com o cheiro de café fresco que ele prepararia, encontraria suas roupas organizadas e, provavelmente, ouviria alguma provocação irônica sobre como ela chutava enquanto dormia.

Era uma vida simples. Longe dos holofotes da alta sociedade que ela abandonara e muito além da frieza que o sobrenome Uchiha costumava carregar.

Para Itachi, Lis era o lar que ele nunca achou que mereceria. Para Lis, Itachi era a paz que o dinheiro nunca pôde comprar.

E, no silêncio daquela noite chuvosa, ambos sabiam que não precisavam de mais nada.

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