
You hate me?
Fandom: Alien stage
Criado: 21/07/2026
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O Brilho que Cega e o Silêncio que Sufoca
O sol do meio-dia batia implacável contra as janelas de vidro da sala do 3º ano C, mas o calor lá fora não era nada comparado à energia caótica que emanava do fundo da sala. O grupo, que se mantinha unido desde o 9º ano como uma espécie de anomalia social, ocupava as últimas fileiras.
Mizi estava sentada de lado em sua cadeira, rindo de algo que Hyuna havia acabado de dizer. Seus cabelos longos e cor-de-rosa, com as pontas tingidas de um azul vibrante, balançavam a cada movimento. Ela era, sem dúvida, o centro gravitacional da escola. Seus olhos amarelos, intensos e naturalmente sedutores, pareciam brilhar com uma diversão constante.
— Eu juro por Deus, Hyuna! — Mizi exclamou, limpando uma lágrima de riso no canto do olho. — Ele veio com um buquê de coxinhas. Coxinhas! Eu quase aceitei só pela comida, mas o coitado estava tremendo tanto que eu achei que ele ia ter um treco.
Hyuna, com sua aura descolada e os cabelos castanhos presos em um rabo de cavalo desleixado, deu um tapa na mesa, rindo.
— Pelo menos foi original. Melhor do que as cartas de amor anônimas que o Luka recebe e finge que não lê.
Luka, sentado logo atrás, ajeitou os óculos de aro fino sobre a ponte do nariz. Seus olhos amarelo-claros estavam fixos em um livro de física avançada, mas as pontas de suas orelhas ficaram levemente vermelhas ao ouvir o nome de Hyuna.
— Eu leio todas, Hyuna. Apenas prefiro focar no vestibular — mentiu ele, a voz calma ocultando o fato de que a única opinião que realmente lhe importava era a da garota morena à sua frente.
— Nerd — Ivan cantarolou, encostado na parede com a boca cheia de balas de goma. — Você devia viver mais, Luka. Olha o Till, por exemplo. Ele vive intensamente... intensamente odiando o mundo.
— Cala a boca, Ivan! — Till resmungou, sem levantar a cabeça dos rabiscos que fazia em seu caderno.
Till estava em seu estado natural: o cabelo cinza completamente bagunçado, a expressão de revolta permanente e as roupas pretas que gritavam "emo de 2005". Ele tentava se concentrar em seus desenhos, mas seus olhos verdes escapavam, de cinco em cinco segundos, para a nuca de Mizi. Era um segredo que todo mundo sabia, menos, talvez, a própria Mizi.
— O Till está de TPM hoje — Ivan continuou, sem saber a hora de fechar a matraca, como de costume. — Ou talvez ele só esteja triste porque a Mizi não notou que ele usou um shampoo diferente.
— Eu vou te matar, seu imbecil pálido! — Till explodiu, levantando-se e tentando alcançar o pescoço de Ivan, que apenas desviou rindo, exibindo sua altura superior e sua palidez quase fantasmagórica.
Enquanto o caos se instalava, uma figura permanecia em silêncio absoluto no canto. Sua, com seus cabelos pretos curtos e a franja fina cobrindo parte dos olhos roxos, observava a cena com uma melancolia que parecia fazer parte de sua pele. Ela era pequena, quase invisível quando queria, e sua frieza era, na verdade, um escudo.
Sua olhava para Mizi. Sempre para Mizi.
Ela se lembrava exatamente do momento em que o mundo mudou de cor. Foi no 9º ano, em um corredor barulhento, quando Mizi sorriu para ela pela primeira vez e perguntou se ela queria dividir um lanche. Naquele dia, Sua entendeu que estava perdida.
Mas o problema era o brilho de Mizi. Ela era radiante demais, "hétero" demais aos olhos de todos. Mizi era a garota que recebia declarações de todos os capitães de times e garotos populares da escola. Mesmo que ela desse fora em todos, a percepção geral era de que ela apenas "ainda não tinha encontrado o cara certo".
— Você está muito quieta, Sua — a voz de Mizi cortou os pensamentos da garota menor.
Sua piscou, saindo do transe. Mizi estava debruçada sobre a mesa dela, o rosto a poucos centímetros de distância. O perfume de morango e algo cítrico invadiu os sentidos de Sua, fazendo seu coração errar a batida.
— Só estou cansada — Sua respondeu, a voz baixa e monocórdica. — O Ivan não para de falar.
— Ele é um rádio quebrado, eu sei — Mizi riu, e o som era como música para Sua. — Mas não fica assim, não. Quer dar uma volta depois da aula? Vamos tomar um sorvete, só nós duas.
Sua sentiu um aperto no peito. Um convite que, para qualquer outra pessoa, seria apenas uma saída entre amigas, mas que para ela era uma tortura doce.
— Pode ser — disse Sua, tentando manter a expressão neutra, embora por dentro estivesse desmoronando.
— Ei! Eu também quero sorvete! — Ivan se meteu, tendo acabado de escapar de um soco de Till. — O Till paga!
— Eu não vou pagar nada para você, seu parasita! — Till gritou, o rosto vermelho.
— Ah, Till, não seja assim — Hyuna se levantou, espreguiçando-se e exibindo sua postura atlética. — Vamos todos. O Luka também vai, não é, Luka?
Luka levantou os olhos do livro, encontrando o olhar azul de Hyuna.
— Se você for... digo, se o grupo for, eu vou.
— Ótimo! — Mizi bateu palmas, animada. — Quanto mais gente, melhor!
Sua sentiu um leve desânimo. O "só nós duas" de Mizi havia evaporado em segundos. Mas ela já deveria estar acostumada. No mundo de Mizi, sempre havia gente. Sempre havia barulho. E Sua sempre seria apenas a amiga melancólica que observava das sombras.
O sinal tocou, anunciando o fim das aulas. O grupo começou a guardar o material, entre empurrões e piadas internas. Ivan conseguiu roubar o estojo de Till e saiu correndo pelo corredor, sendo perseguido pelo garoto de cabelo cinza que soltava todos os xingamentos possíveis.
Mizi se aproximou de Sua e passou o braço pelos ombros da amiga.
— Vamos? Você parece que vai desmaiar de tédio se ficar mais um minuto nessa sala.
— Eu estou bem, Mizi — Sua murmurou, sentindo o calor do corpo da outra contra o seu.
— Você é muito séria, Sua. Precisa relaxar mais — Mizi disse, apertando levemente o ombro dela. — Sabia que você fica fofa quando está distraída?
Sua sentiu o rosto esquentar e imediatamente baixou a cabeça, deixando a franja esconder seus olhos roxos. "Não faça isso", ela pensou. "Não me dê esperanças que você nem sabe que está dando".
Para Mizi, aquilo era apenas o jeito dela de ser "gente boa". Mizi era carinhosa com todo mundo. Ela era o tipo de pessoa que atraía amor sem esforço, enquanto Sua era o tipo que o guardava em um cofre trancado a sete chaves no fundo da alma.
Enquanto caminhavam em direção à saída, passaram por um grupo de rapazes do segundo ano. Um deles, visivelmente encorajado pelos amigos, deu um passo à frente, bloqueando o caminho de Mizi.
— Oi, Mizi... — o garoto começou, o rosto vermelho. — Eu queria saber se você não quer sair comigo no sábado. Eu tenho ingressos para aquele filme novo...
Mizi parou, mantendo o sorriso gentil, mas havia algo em seus olhos que apenas Sua conseguia ler: um cansaço profundo.
— Ah, sinto muito, de verdade — Mizi disse, a voz suave mas firme. — Eu já tenho planos com a minha família no sábado. Mas obrigada pelo convite!
O garoto murchou visivelmente, murmurou um "tudo bem" e voltou para os amigos. Assim que se afastaram o suficiente, Mizi soltou um suspiro longo.
— Todo dia a mesma coisa — ela murmurou para Sua, de forma que só ela pudesse ouvir.
— Você poderia dar uma chance para algum deles algum dia — Sua disse, as palavras saindo amargas como veneno em sua boca. — Eles são persistentes.
Mizi parou de andar e olhou para Sua. Por um momento, a máscara de "garota popular e alegre" caiu, revelando algo mais complexo.
— Nenhum deles me interessa, Sua. Nenhum mesmo.
— Por que não? Eles são o que todo mundo quer.
Mizi soltou uma risada curta, sem humor, e voltou a andar, puxando Sua consigo.
— Talvez o que "todo mundo quer" não seja o que eu quero. As pessoas assumem muitas coisas sobre mim só pela minha cara.
Sua ficou em silêncio. Ela queria perguntar o que Mizi queria, então. Queria perguntar se havia espaço para alguém como ela naquele mundo de cores vibrantes. Mas o medo era maior. O medo de que Mizi confirmasse sua heterossexualidade presumida era grande, mas o medo de que Mizi a rejeitasse como amiga era ainda pior.
Na sorveteria, o grupo se reuniu em uma mesa grande. Ivan estava tentando equilibrar cinco bolas de sorvete em uma casquinha, enquanto Till o observava com uma mistura de nojo e fascinação mal disfarçada.
— Se isso cair na minha calça, Ivan, eu juro que te enterro no pátio da escola — Till ameaçou, embora estivesse sentado bem mais perto de Ivan do que o necessário.
— Relaxa, estressado — Ivan disse, dando uma lambida enorme no sorvete. — Você quer um pouco? Está doce, igual a mim.
— Você é insuportável — Till resmungou, mas aceitou a colherada que Ivan ofereceu, o que fez Hyuna soltar uma risadinha abafada.
Luka estava sentado ao lado de Hyuna, tentando explicar a teoria da relatividade enquanto ela parecia mais interessada em roubar as batatas fritas que ele tinha pedido para acompanhar o milk-shake.
— E então, a luz se curva... — Luka dizia, gesticulando.
— Aham, entendi tudo — Hyuna disse, enfiando três batatas na boca. — Você é muito inteligente, Luka. É por isso que eu gosto de você por perto. Você limpa o meu cérebro da burrice do Ivan.
Luka quase engasgou com o próprio canudo, o rosto ficando da cor de um tomate.
Sua observava a dinâmica de longe, mesmo estando na mesa. Ela se sentia como uma espectadora de um filme que já tinha visto mil vezes. O amor não correspondido de Till, o flerte desajeitado de Luka, a provocação constante de Ivan. E, claro, Mizi.
Mizi estava sentada à sua frente, observando o grupo com um olhar carinhoso. De repente, ela esticou a mão sobre a mesa e tocou a mão de Sua, que estava pousada sobre o guardanapo.
— Você está muito longe de novo, Sua — Mizi sussurrou.
— Estou aqui — Sua respondeu, sentindo o toque como se fosse uma descarga elétrica.
— Não, não está. Seu corpo está aqui, mas sua mente está em outro lugar. No que você está pensando?
Sua olhou nos olhos amarelos de Mizi. Por um segundo, a barulhenta sorveteria desapareceu. Não havia Ivan, não havia Till, não havia vestibular ou expectativas. Havia apenas aquele olhar dourado que parecia querer desvendar todos os seus segredos.
— Estou pensando que o tempo passa rápido demais — Sua mentiu parcialmente. — Daqui a pouco o ano acaba e... não sei o que vai ser de nós.
Mizi apertou a mão de Sua com mais força.
— Nós vamos ficar juntas, Sua. Eu não vou deixar você sumir. Você é a minha pessoa favorita nesse grupo, sabia?
A frase atingiu Sua como um soco. "Minha pessoa favorita". Era uma frase tão carregada de significado, mas que Mizi poderia estar usando de forma platônica. A ambiguidade era a cela de Sua.
— Você diz isso para todo mundo — Sua rebateu, tentando manter o tom frio.
— Não, eu não digo — Mizi respondeu, e sua voz tinha uma seriedade que Sua raramente ouvia. — Eu só digo o que eu realmente sinto.
Antes que Sua pudesse processar aquilo, Ivan gritou porque seu sorvete finalmente havia caído, acertando em cheio o tênis de Till. A briga que se seguiu quebrou o momento, e Mizi voltou a rir, jogando um guardanapo em Ivan para ajudá-lo.
Sua recolheu a mão, sentindo o lugar onde Mizi a tocara formigar. Ela olhou para a amiga, que agora zoava Ivan junto com Hyuna. Mizi era o sol, e todos ao seu redor eram planetas orbitando sua luz.
Sua sabia que, para o resto da escola, Mizi era a deusa inalcançável, a garota perfeita que algum dia escolheria um príncipe à sua altura. Mas ali, naquele momento, observando o jeito que Mizi a olhava de soslaio enquanto ria, Sua se permitiu ter um pensamento perigoso.
Talvez, apenas talvez, o sol não estivesse procurando um príncipe. Talvez o sol estivesse apenas esperando que alguém tivesse coragem o suficiente para não se importar em se queimar.
Mas Sua ainda não tinha essa coragem. Por enquanto, o silêncio era seu único refúgio, e a melancolia, sua única companhia constante enquanto o 3º ano avançava, implacável, em direção ao fim.
