
Shanlan
Fandom: Mulan
Criado: 22/07/2026
Tags
O Lobo e a Fênix de Gelo
O frio não era apenas uma sensação física; era uma sentença de morte que se infiltrava pelos poros, transformando o sangue em cristais de gelo. Mulan sentia o peso da traição arder mais do que a ferida em seu flanco. Shang a havia deixado ali. Seus companheiros, aqueles que ela considerava irmãos de armas, haviam virado as costas, seguindo a ordem de um capitão cuja honra era rígida demais para aceitar a vida que ela havia salvado.
Ela estava caída na neve, a visão turva pelo branco infinito das montanhas Tung-Shao. Sua respiração vinha em espasmos curtos e dolorosos. A armadura, agora inútil, parecia pesar toneladas.
— Então é assim que termina... — sussurrou ela, as palavras sumindo no vento uivante.
Mulan fechou os olhos, esperando que a escuridão a levasse antes que os lobos a encontrassem. Mas o som que ecoou não foi o de um uivo. Foi o som de botas pesadas esmagando a crosta de gelo. Passos deliberados, lentos e predatórios.
Uma mão maciça e enluvada agarrou seu ombro, virando-a bruscamente. Mulan soltou um gemido de dor, tentando, por puro instinto, alcançar a adaga em sua cintura. Sua mão foi interceptada por dedos que pareciam feitos de ferro.
— O pequeno soldado da montanha ainda tem garras — uma voz profunda, rouca como pedra moída, ressoou acima dela.
Mulan forçou as pálpebras a se abrirem. A silhueta diante dela era colossal. Shan Yu. O líder dos Hunos parecia um demônio surgido da própria tempestade, com seus olhos amarelados brilhando com uma intensidade cruel e inteligente. Ele a observava como um predador observa uma presa curiosa.
Ele puxou a gola de sua túnica, rasgando o tecido para verificar a gravidade do ferimento, e foi então que ele parou. O tempo pareceu congelar. Shan Yu soltou um rosnado baixo, não de raiva, mas de pura surpresa. O peito enfaixado, as feições delicadas agora visíveis sem o capacete... a verdade era inegável.
— Uma mulher... — ele murmurou, a palavra carregada de um estranho fascínio. — Uma coisa tão pequena e raivosa... foi você quem destruiu o meu exército?
Mulan tentou cuspir nele, mas apenas um fio de sangue escorreu pelo canto de sua boca. Ela sustentou o olhar dele com um desafio que beirava a insanidade.
— Eu deveria te matar agora — disse ele, a mão subindo para o pescoço dela, apertando levemente.
Mas ele não o fez. Em vez disso, Shan Yu a levantou com uma facilidade desconcertante, jogando o corpo dela sobre o ombro musculoso. Mulan desmaiou antes que pudesse protestar.
Quando acordou, o cheiro de carne assada e fumaça de madeira atingiu seus sentidos. Ela estava deitada sobre peles grossas e quentes no fundo de uma caverna. A ferida em seu lado havia sido limpa e costurada rudemente.
Do outro lado do fogo, Shan Yu estava sentado, afiando sua espada curva. Ele estava sem a armadura pesada, revelando braços cobertos de cicatrizes e músculos que pareciam esculpidos em granito. Ele era bruto, imenso e, de uma forma sombria e perigosa, hipnótico.
— Acordou — constatou ele, sem desviar os olhos da lâmina. — Achei que a morte seria mais rápida em reivindicar alguém do seu tamanho.
— Por que me salvou? — a voz de Mulan saiu falha, mas carregada de veneno. — Você é o inimigo. Eu matei seus homens.
Shan Yu parou de afiar a espada e olhou para ela. O brilho do fogo dançava em suas pupilas.
— Eu admiro a força, não importa de onde ela venha — disse ele, levantando-se e caminhando em direção a ela. — Meus homens eram fracos se permitiram que uma única garota usasse a própria montanha contra eles. Você, por outro lado... você é uma estrategista. Uma guerreira.
Ele se ajoelhou ao lado dela, a presença dele ocupando todo o espaço ao redor. Sua mão grande tocou o rosto de Mulan, o polegar áspero traçando a linha de sua mandíbula. O toque era rude, mas havia uma estranha contenção nele.
— Seus amigos a deixaram para morrer como um cão — continuou ele, sua voz baixando para um tom quase carinhoso, embora mantivesse a aspereza. — O Império que você protegeu a descartou no momento em que descobriu quem você é.
Mulan sentiu uma onda de fúria e tristeza.
— Eles seguem a lei — disse ela, tentando se afastar do toque dele.
— Eles seguem o medo — rosnou Shan Yu, agarrando o queixo dela com firmeza, forçando-a a olhar nos olhos dele. — Eu não tenho medo de você, Mulan. Eu a vejo. Você é linda em sua destruição. E você é minha agora. Pelo direito de conquista e de vida.
— Eu não sou propriedade de ninguém — sibilou ela, os olhos brilhando com lágrimas de ódio. — Assim que eu puder andar, eu vou enfiar uma lâmina no seu coração.
Shan Yu soltou uma risada curta e gutural, um som que vibrou no peito de Mulan.
— Eu não esperava nada menos.
Os dias que se seguiram foram uma batalha de vontades. Shan Yu era um mestre da guerra e da sobrevivência. Ele a alimentava à força quando ela se recusava a comer, tratando-a com uma mistura de brutalidade e um cuidado estranhamente atento. Ele a observava treinar suas forças conforme a ferida cicatrizava, admirando a determinação dela em ignorar a dor.
Uma noite, a tempestade lá fora rugia com uma violência renovada. Dentro da caverna, o calor do fogo criava uma bolha de intimidade forçada. Mulan estava sentada, tentando costurar um rasgo em suas calças, quando sentiu a sombra dele sobre ela.
— Deixe isso — disse ele, tirando o tecido das mãos dela.
— Eu não preciso de ordens — retrucou ela, tentando recuperar o objeto.
Shan Yu a puxou pela cintura, trazendo-a para perto de seu corpo maciço. O contraste era absurdo; ela parecia frágil contra a imensidão dele, mas a energia que emanava dela era tão forte quanto a dele.
— Você está tremendo — observou ele, os dedos subindo pelas costas dela, por baixo da túnica.
— É o frio — mentiu ela, embora o calor que emanava da pele dele estivesse começando a afetar seus sentidos.
— Não é o frio — disse ele, inclinando-se, o hálito quente contra a orelha dela. — É o fogo que você carrega. Você quer se vingar deles, não quer? Daqueles que a abandonaram na neve.
Mulan fechou os olhos. A imagem de Shang virando as costas queimava em sua mente.
— Sim — admitiu ela, a voz um sussurro quebrado.
— Então use esse ódio — sussurrou Shan Yu, sua mão subindo para a nuca dela, puxando-a para um beijo que era tudo menos delicado.
Foi um choque de dentes e paixão bruta. Shan Yu era exigente, suas mãos grandes explorando o corpo dela com uma fome que ele claramente vinha contendo. Mulan, em vez de recuar, respondeu com a mesma intensidade. Havia algo de libertador em se entregar ao inimigo, em abraçar a escuridão que ele oferecia quando a luz a havia rejeitado.
Ele a deitou sobre as peles, seu peso sendo uma âncora bem-vinda.
— Você é uma criatura fascinante, Mulan — murmurou ele entre beijos que desciam pelo pescoço dela. — Tão pequena, e ainda assim capaz de incendiar o mundo.
— E você é um monstro — respondeu ela, puxando-o para mais perto, as unhas cravando-se nos ombros musculosos dele.
— Sim — ele sorriu, um brilho perigoso nos olhos. — Mas sou o monstro que a salvou. E sou o único que vai ajudá-la a queimar o que restou do seu passado.
Naquela noite, entre o calor das peles e o som do vento, a dinâmica entre o conquistador e a guerreira mudou para sempre. Mulan não era mais apenas uma sobrevivente; ela era uma fênix renascendo nas cinzas da guerra, e Shan Yu era o lobo que a guiaria através da carnificina que estava por vir.
— Eles vão pagar — disse ela, mais tarde, enquanto descansava o rosto contra o peito largo de Shan Yu, sentindo a batida estável do coração dele.
— Eles vão implorar por misericórdia — prometeu ele, passando a mão pelos cabelos negros dela com uma ternura inesperada. — E nós não daremos nenhuma.
Mulan sorriu no escuro. Ela era protetora com aqueles que amava, mas para aqueles que a traíram, ela seria a vingança encarnada. E com Shan Yu ao seu lado, o Império logo descobriria que haviam cometido o maior erro de sua história ao deixá-la viva na neve.
