
71
Fandom: Record of ragnarok
Criado: 22/07/2026
Tags
O Segredo sob a Coroa: As Sombras de Xianyang
O Salão de Valhala estava mergulhado em um silêncio que beirava o desconforto. Deuses e humanos, separados por milênios de rancor e pelo sangue derramado na arena do Ragnarok, estavam reunidos diante de um imenso telão projetado pela tecnologia de Nikola Tesla, em colaboração com a magia de Odin. O objetivo era analisar as "essências" dos guerreiros, mas o que começou como uma busca por fraquezas táticas transformou-se em uma invasão de privacidade sem precedentes.
Hades, o Rei do Submundo, mantinha-se em pé, sua postura impecável e a bidente apoiada no chão. Seus olhos, afiados e analíticos, observavam a tela com uma calma que escondia sua curiosidade. Ao seu lado, Zeus mastigava uma maçã de forma ruidosa, enquanto Poseidon mantinha o olhar gélido, ignorando a "futilidade" da situação. Do lado da humanidade, Qin Shi Huang estava sentado em um trono improvisado, com a venda sobre os olhos e um sorriso enigmático, parecendo não se importar com o fato de que seu passado estava prestes a ser exposto.
— Vamos ver o que o "Primeiro Imperador" escondia antes de unificar a China — comentou Jack, o Estripador, ajustando seu monóculo com um brilho de diversão nos olhos.
A imagem na tela trepidou e, de repente, as cores ganharam vida.
O cenário não era um palácio de jade ou um campo de batalha. Era uma rua úmida, iluminada por lanternas de papel e luzes de neon arcaicas de uma metrópole que parecia pulsar com uma energia caótica. Um jovem Qin surgiu na tela. Ele não usava as vestes imperiais pesadas ou a armadura de batalha. Ele era... deslumbrante.
— Mas o que é isso? — exclamou Ares, quase derrubando sua taça de vinho.
O Qin na tela vestia uma calça boca de sino de cintura baixíssima, que abraçava seus quadris com uma ousadia que desafiava a gravidade. Uma blusa de mangas longas e tecido fino cobria seus braços, mas deixava o abdômen à mostra. Nos pés, saltos que o tornavam ainda mais imponente. Quando ele se virou para ajustar o cabelo, a câmera captou um detalhe que fez o salão inteiro arfar: uma tatuagem tribal negra, perfeitamente desenhada, adornava seu cóccix, sumindo para dentro do cós da calça.
— Ele tinha uma tatuagem... ali? — sussurrou Shiva, inclinando todas as quatro cabeças para ver melhor.
Hades estreitou os olhos. Havia uma sofisticação selvagem naquele jovem. O Imperador ao seu lado apenas soltou uma risadinha.
— Onde o Rei pisa, ele deixa sua marca — disse o Qin presente, sem se abalar.
Na tela, o jovem Qin entrou em uma espécie de taverna barulhenta, uma balada da época. Ele não estava ali para dançar, a princípio. Seus olhos procuravam algo. Ele se moveu pela multidão com a graça de um predador, ignorando os olhares de cobiça que recebia de homens e mulheres.
— Ele está procurando alguém — observou Hermes, cruzando os braços. — E não parece ser um inimigo político.
A câmera focou em um canto escuro da balada. Um homem, ricamente vestido, sussurrava no ouvido de uma cortesã, as mãos explorando o que não deveriam. O rosto do jovem Qin endureceu, mas não houve lágrimas. Houve apenas uma fúria fria e régia.
Ele caminhou até a mesa. O silêncio na tela foi absoluto quando ele parou diante do homem. Sem dizer uma palavra, Qin levou a mão à base do dedo anelar, puxou uma aliança de ouro e a jogou dentro da taça de vinho do sujeito.
— Acabou — disse o Qin da tela, sua voz projetando-se acima da música.
Ele se virou para a multidão, subiu em cima de uma cadeira e abriu os braços, um sorriso predatório surgindo em seu rosto.
— EU ESTOU SOLTEIRO! — gritou ele, a voz carregada de uma liberdade embriagadora.
O que se seguiu foi um borrão de imagens que fez até mesmo Buda levantar uma sobrancelha. O jovem imperador, em sua fase mais rebelde e "fogunta", entregou-se à noite. Ele foi visto beijando um nobre em um corredor escuro, depois rindo enquanto uma mulher belíssima beijava seu pescoço na pista de dança. Ele circulava entre os convidados como se o mundo fosse seu playground pessoal, sedutor e intocável.
— Ele realmente... aproveitava a vida — comentou Sasaki Kojiro, coçando a nuca, um pouco sem graça.
— Isso é um comportamento deplorável para um governante — murmurou Poseidon, embora seus olhos não tivessem saído da tela por um segundo sequer.
Hades, por outro lado, estava fascinado. Ele reconhecia aquela centelha. Era a mesma audácia que Qin mostrava na arena, mas despida de responsabilidade. Era a essência pura de um homem que sentia a dor do mundo através de sua sinestesia e decidia, por uma noite, afogar tudo em prazer e insolência.
A transição de tempo na tela foi rápida. A música alta deu lugar ao som dos grilos e ao silêncio da madrugada. Eram três da manhã.
O cenário agora era um sofá de veludo desgastado nos fundos da balada. Qin estava sentado de forma relaxada, uma perna cruzada sobre a outra. Ele segurava um cigarro de maconha entre os dedos finos, a fumaça subindo em espirais preguiçosas. Ele parecia exausto, mas estranhamente em paz. Sua roupa estava impecável, nem um fio de cabelo fora do lugar, apesar da noite frenética.
Uma jovem, identificada como Kimi, sua amiga e confidente da época, aproximou-se dele com uma expressão de cansaço.
— Qin, precisamos ir. Se o conselho descobrir que você sumiu de novo... — começou ela.
O jovem Qin exalou uma nuvem densa de fumaça diretamente no rosto dela, soltando uma risada melodiosa e travessa.
— O Rei vai quando o Rei decide, Kimi. E o Rei decidiu que o sol ainda demora a nascer.
— Você é impossível — respondeu ela, tossindo e rindo ao mesmo tempo.
A cena mudou para Qin retornando ao palácio pelas sombras. Ele se moveu com uma agilidade que deixaria os ninjas de Okita com inveja. Ele entrou em seus aposentos, despiu-se daquelas roupas escandalosas e mergulhou em uma banheira de água quente.
Minutos depois, ele emergiu. Vestiu o robe imperial, prendeu o cabelo com o adereço de ouro e sentou-se à sua mesa de trabalho. Um servo entrou, trazendo uma garrafa de cerâmica e uma pequena taça.
— Sua bebida matinal, Majestade — disse o servo, curvando-se.
Qin pegou a garrafa. Ele não serviu na taça. Ele bebeu diretamente do bico, um gole longo e profundo.
— Aquilo é cachaça pura? — perguntou Raiden, impressionado. — Ele nem piscou!
— Ele bebe isso como se fosse água — notou Zeus, intrigado. — E ele ainda era um garoto.
Na tela, o jovem Qin limpou o canto da boca com as costas da mão, seus olhos brilhando com uma inteligência afiada. A "sapecagem" da noite anterior havia sido guardada em uma caixa trancada dentro de sua alma. Ele era, novamente, o Imperador da China. O pilar de seu povo.
A gravação terminou, deixando o salão em um silêncio pensativo.
Qin Shi Huang, no presente, levantou-se de seu trono e ajustou a venda. Ele sentia os olhares de todos sobre si — choque, admiração, luxúria e, no caso de Hades, um respeito renovado.
— Bem — disse Qin, quebrando o silêncio —, parece que vocês conheceram um lado do trono que não costuma aparecer nos livros de história.
Hades deu um passo à frente, sua capa flutuando suavemente. Ele parou a poucos metros do imperador humano.
— Você é um homem de muitas faces, Qin Shi Huang — disse o Rei do Submundo, sua voz profunda ressoando pelo salão. — Eu o via apenas como um estrategista arrogante e um rei dedicado. Mas vejo que sua "realeza" nasce de uma liberdade que poucos deuses ousam experimentar.
Qin sorriu, aquele sorriso que desafiava o destino.
— Um Rei não é apenas aquele que governa, Hades. É aquele que não se deixa governar por ninguém. Nem pelas expectativas, nem pela moralidade alheia.
— E a tatuagem? — perguntou Brunhilde, cruzando os braços, tentando manter a compostura apesar do rubor em suas bochechas.
Qin virou-se levemente, olhando por cima do ombro na direção da valquíria.
— Quer ver de perto, valquíria? Infelizmente, esse é um tesouro que apenas aqueles que o Rei escolhe podem contemplar.
Hades soltou uma risada curta, algo raro para o senhor de Helheim. Ele sentia uma estranha conexão com aquele homem. Ambos carregavam o peso de seus reinos, ambos eram pilares para seus irmãos e súditos, mas Qin tinha algo que Hades sempre sacrificou em nome do dever: a capacidade de ser absolutamente, caoticamente humano.
— Você bebia escondido desde a adolescência — comentou Hermes, analisando suas notas. — Isso explica sua resistência ao veneno e às dores da sinestesia. Você anestesiava o corpo para proteger a mente.
Qin não respondeu de imediato. Ele caminhou até uma mesa próxima, onde havia uma jarra de vinho divino. Ele serviu uma taça e a estendeu para Hades.
— Beber para esquecer é para os fracos — disse Qin, seu tom subitamente sério. — Eu bebia para suportar o peso de sentir cada ferida do meu povo como se fosse minha. Aquela noite na balada... foi a única vez que as dores que eu sentia não eram de agonia, mas de prazer alheio.
Hades aceitou a taça, seus dedos roçando os de Qin por um breve momento. A energia entre os dois era palpável — um reconhecimento entre dois soberanos que entendiam o que significava viver nas sombras para que outros pudessem ver a luz.
— Você é um oponente digno, Qin Shi Huang — disse Hades, levantando a taça em um brinde silencioso. — E, devo admitir, sua escolha de vestimentas na juventude era... interessante.
— "Interessante" é uma palavra modesta, Rei do Submundo — provocou Qin, aproximando-se mais do que o protocolo permitia. — Eu diria que eu era magnífico.
— De fato — concordou Hades, seus olhos fixos nos de Qin, ignorando os deuses e humanos ao redor. — Magnífico.
O clima no salão mudou. A tensão do Ragnarok ainda estava lá, mas algo novo havia sido semeado. Entre o brilho das luzes de neon do passado de Qin e a seriedade do presente de Hades, havia o entendimento de que, por trás de cada coroa, há um homem que já queimou com o desejo de apenas ser livre.
Qin deu as costas ao telão, caminhando em direção à saída do salão com a arrogância de quem acabara de ganhar uma batalha sem disparar um único golpe.
— Próxima vez, Hades — disse ele, levantando a mão em um aceno —, eu te levo para conhecer as melhores tabernas de Helheim. Eu pago a primeira rodada.
Hades observou o imperador se afastar, um sorriso de canto aparecendo em seu rosto nobre.
— Vou cobrar essa promessa, Imperador da China.
Enquanto os outros guerreiros começavam a discutir as imagens que viram, Hades permaneceu em silêncio, guardando na memória a imagem do jovem de calças boca de sino e olhar indomável. O Ragnarok continuaria, o sangue voltaria a ser derramado, mas o Rei do Submundo agora sabia que seu adversário era muito mais do que um simples humano. Ele era uma tempestade que se recusava a ser domada.
