
D72
Fandom: Record of ragnarok
Criado: 23/07/2026
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O Espelho Quebrado do Imperador
A arena do Valhalla, geralmente um palco de sangue e glória, estava mergulhada em um silêncio sepulcral. No centro do coliseu, uma tela colossal, manifestada pela magia de Odin, começou a tremeluzir. Deuses e humanos, sentados em lados opostos, observavam com expressões que variavam entre a confusão e a apreensão.
Qin Shi Huang, o Imperador da China, mantinha sua postura habitual: sentado em um trono improvisado no camarote dos humanos, com a venda sobre os olhos e um sorriso confiante que desafiava a própria lógica. Ao seu lado, Hades, o Rei do Submundo, observava o humano com uma intensidade analítica. Havia algo na aura de Qin que intrigava o deus grego — uma mistura de soberania absoluta e uma dor silenciosa que apenas alguém familiarizado com o peso de uma coroa poderia notar.
— O que é isso, Brunhilde? Algum tipo de tortura psicológica antes da próxima rodada? — questionou Zeus, acariciando a barba com um brilho malicioso nos olhos.
— As memórias de um rei são o alicerce de seu império — respondeu a Valquíria, embora sua voz vacilasse. — Mas algumas memórias são cicatrizes que nem mesmo o tempo apaga.
A imagem na tela se estabilizou.
O cenário era um palácio opulento da China antiga. Luzes de lanternas de seda banhavam o salão em tons quentes de dourado e carmesim. Um Qin adolescente, ainda sem a venda, mas já exibindo a elegância nata, caminhava ao lado de seu pai, o Imperador. A sinestesia toque-espelho o fazia estremecer ocasionalmente; ele sentia o cansaço dos servos e a falsa alegria dos cortesãos como se fossem seus.
Um ministro influente aproximou-se, trazendo consigo seu filho, um homem de ombros largos e olhar possessivo.
— Majestade — disse o ministro com uma reverência ensaiada —, meu filho deseja pedir a mão do príncipe em união. Seria o selo definitivo para a lealdade de nossas províncias.
O jovem Qin sentiu um arrepio gélido. Ele olhou para o pai, buscando um refúgio, um "não" que o protegesse. Mas o Imperador, focado na estabilidade do trono, apenas fez um sinal sutil com a cabeça. Um comando silencioso.
— Eu... eu aceito — murmurou o jovem Qin, a voz falhando enquanto a dor da resignação de seu próprio coração o atingia como um soco.
A cena saltou no tempo. Cinco anos haviam se passado.
O Qin na tela agora era um homem, mas não o imperador radiante que todos conheciam na arena. Ele estava em um aposento privado, segurando uma criança pequena, uma menina com os mesmos olhos brilhantes que os dele.
Na arena, o Qin real endureceu a mandíbula. O sorriso não vacilou, mas seus dedos cravaram-se nos braços do trono. Hades, sentado a poucos metros, notou o tremor quase imperceptível nas mãos do humano.
— Ele parece diferente — comentou Sasaki Kojiro, limpando o suor da testa. — Menos... brilhante.
— A dor de um rei não é apenas a que ele sente, é a que ele esconde — sussurrou Buda, mastigando um doce com menos entusiasmo que o habitual.
Na tela, a porta do quarto se abriu com um estrondo. O marido de Qin entrou, exalando o cheiro acre de vinho e autoridade mal direcionada. Antes da filha nascer, ele era apenas verbalmente agressivo, um carcereiro de palavras. Mas algo mudara.
— Onde está o jantar? — rosnou o homem.
— Eu estava colocando nossa filha para dormir — respondeu Qin, sua voz mantendo uma dignidade que parecia irritar o agressor.
O homem avançou e desferiu um tapa violento no rosto de Qin. Devido à sua sinestesia, Qin sentiu o impacto duas vezes: o golpe físico e a intenção cruel por trás dele. Ele não revidou. Ele não podia. Não ali.
A imagem cortou para o dia seguinte. Qin chegou em casa e encontrou a filha chorando baixinho em um canto. Ao levantar a túnica da menina, viu marcas roxas em seus braços pequenos.
O silêncio na arena do Valhalla tornou-se pesado. Jack, o Estripador, inclinou a cabeça, seus olhos captando as cores da agonia que emanavam da tela. Até mesmo os deuses mais belicosos, como Thor e Shiva, pareciam desconfortáveis.
— Quem fez isso, minha pequena? — perguntou o Qin da tela, a voz carregada de um amor desesperado.
— O papai... — soluçou a criança. — Ele disse que eu era fraca como você.
Qin Shi Huang fechou os olhos por um momento. Ele a abraçou, sussurrando promessas de segurança enquanto seu rosto se transformava. A gentileza oculta deu lugar à fúria de um imperador que finalmente entendera que seu sacrifício pessoal não era mais suficiente.
Quando o marido entrou na cozinha momentos depois, Qin estava lá. Sozinho.
— Vá embora — disse Qin. Não era um pedido. Era um decreto.
O homem riu, uma risada seca e desdenhosa.
— Você está me expulsando da minha própria casa, "majestade"?
— Saia agora — repetiu Qin, os olhos fixos nos dele. — E nunca mais toque nela.
— Eu vou embora — disse o homem, dando um passo à frente, a sombra cobrindo Qin —, mas vou levar a menina. Ela é minha propriedade, assim como você.
— Você não vai tocar nela! — gritou Qin, a voz ecoando pelas paredes de pedra.
O homem, muito maior e mais pesado, avançou com a intenção clara de esmagar a resistência de Qin. O imperador, percebendo que a força física não estava a seu favor, recuou. O pânico começou a subir por sua garganta. Ele virou-se para correr, mas sentiu um puxão violento.
— Ah! — Qin soltou um grito curto quando o homem o agarrou pelos cabelos, jogando sua cabeça para trás.
Em um ato de puro instinto de sobrevivência, Qin cravou os dentes no braço do agressor. O homem urrou de dor e soltou o aperto por um segundo. Qin não perdeu tempo. Suas mãos tatearam freneticamente os bolsos da túnica até sentirem o metal frio. A chave.
Ele correu para o corredor, trancando a porta do quarto onde a filha estava, seu coração martelando contra as costelas como um pássaro enjaulado. Ele virou o corredor, tentando encontrar uma saída, mas o terror cegava seus sentidos. De repente, ele colidiu contra algo sólido.
O peito do homem.
— Achou que podia fugir? — O agressor o segurou pelo pescoço, empurrando-o contra a parede da cozinha.
— Por favor... — implorou Qin, a arrogância real completamente desintegrada sob o peso do medo. — Apenas vá embora. Deixe-nos em paz!
— Eu vou matar vocês dois — rosnou o homem, a mão apertando a garganta de Qin até que o mundo começasse a escurecer. — Se você não for meu, não será de ninguém.
O homem avançou para o golpe final, mas Qin, em um movimento desesperado, tateou a bancada atrás de si. Seus dedos envolveram o cabo de uma faca de cozinha.
O impacto foi seco.
O agressor parou. Seus olhos se arregalaram, olhando para baixo, onde a lâmina estava enterrada em seu peito. Qin soltou a faca, recuando enquanto o corpo caía pesadamente no chão.
O silêncio que se seguiu na tela foi interrompido apenas pelos soluços convulsivos de Qin. Ele caiu de joelhos na poça de sangue que se espalhava, chorando não pelo homem que matara, mas pela inocência que nunca recuperaria.
Na arena, os espectadores estavam imóveis. Hades olhou para Qin Shi Huang. O imperador humano ainda mantinha o sorriso, mas uma única lágrima escorria por baixo da venda.
— Então é isso que você esconde sob essa coroa — murmurou Hades, sua voz carregada de um respeito sombrio. — A dor de ter que se tornar um monstro para proteger o que ama.
Na tela, Qin começou a agir mecanicamente. Ele limpou o sangue do chão com panos velhos, seus movimentos eram trêmulos, mas precisos. Ele lavou o rosto, arrumou o cabelo desgrenhado e trocou a túnica manchada. Ele precisava ser o rei novamente. Ele precisava ser o porto seguro.
Ele entrou no quarto da filha. A menina estava encolhida na cama, os olhos arregalados.
— O papai foi embora? — perguntou ela.
— Sim — disse Qin, sentando-se ao lado dela e forçando o sorriso mais gentil que já havia dado. — Ele foi para muito longe. Ele nunca mais vai voltar.
Ele deitou-se ao lado dela. A pequena criança abraçou o pai com força, escondendo o rosto em seu peito. Qin a envolveu com seus braços, olhando para o teto enquanto a escuridão da noite os envolvia.
A tela se apagou.
A arena permaneceu em silêncio por um longo tempo. Brunhilde desviou o olhar, incapaz de encarar Qin.
— Um rei... — começou Raiden Tameemon, a voz rouca — carrega fardos que ninguém mais consegue ver.
— Ele não é apenas um arrogante — disse Nikola Tesla, ajustando seus óculos. — Ele é um sobrevivente que transformou sua dor em uma armadura.
Hades levantou-se de seu assento. Ele caminhou até a beirada do camarote dos deuses e olhou diretamente para Qin Shi Huang.
— Imperador da China — chamou Hades.
Qin inclinou a cabeça levemente, o sorriso ainda no lugar, desafiador.
— Onde eu me sento, é o meu trono, Rei do Submundo. Espero que tenha gostado do espetáculo.
Hades não respondeu com desdém. Ele colocou a mão sobre o peito, em uma saudação nobre.
— Eu vi muitos reis passarem pelo meu domínio — disse Hades solenemente. — Muitos alegavam grandeza, mas poucos possuíam a força para carregar o pecado da proteção. Você não luta por arrogância, Qin Shi Huang. Você luta porque prometeu que ninguém mais sentiria a dor que você sentiu.
Qin Shi Huang permaneceu em silêncio por um momento. Ele levou a mão à venda, ajustando-a.
— Um rei deve proteger seu povo — respondeu Qin, a voz firme como o aço. — E o meu povo começa com aqueles que não podem se defender.
Lá embaixo, na arena, a próxima batalha se aproximava. Mas, por um breve instante, a linha entre deus e humano havia desaparecido, restando apenas o reconhecimento entre dois governantes que sabiam exatamente o preço de uma coroa.
Qin fechou os punhos sob as mangas longas de sua túnica. Ele ainda sentia o peso daquela faca em sua mão, o calor do sangue e o abraço de sua filha. E era por aquele abraço, por aquela paz conquistada no sangue, que ele caminharia até o fim do mundo.
— Vamos, Valquíria — disse Qin, levantando-se e caminhando em direção à saída do camarote. — Onde eu piso, o caminho se abre. E eu ainda tenho um povo para proteger.
