
Lute por isso
Fandom: Alien stage
Criado: 23/07/2026
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Entre Páginas e Devaneios Coloridos
O sol da tarde atravessava as janelas altas da sala de aula, criando padrões de luz sobre as classes de madeira. No fundo da sala, o grupo de sempre ocupava as últimas fileiras, formando uma espécie de reduto inabalável contra o tédio das lições de história.
Sua estava sentada em sua cadeira habitual, com um livro aberto sobre a mesa, mas seus olhos roxos não processavam uma única palavra impressa. Ela estava mergulhada em um mundo particular, umnde o som do giz no quadro negro era substituído pelo som de uma respiração ofegante e o cheiro de poeira era trocado pelo perfume doce e inebriante de Mizi.
Em sua mente, a cena era vívida. Ela imaginava Mizi — com aqueles cabelos longos e rosados cujas pontas azuis pareciam chamas frias — debruçada sobre ela. Imaginava os dedos ágeis de Mizi, aqueles mesmos dedos que tamborilavam na mesa durante as aulas, explorando seu corpo com uma urgência deliciosa. No devaneio, Mizi a beijava com uma fome que Sua nunca ousaria pedir em voz alta, sussurrando palavras de amor e desejo entre carícias íntimas que faziam o estômago de Sua dar voltas.
— Sua? Ei, Sua!
A voz de Till, rouca e levemente irritada como de costume, cortou o transe como uma navalha. Sua piscou, sentindo o rosto esquentar instantaneamente. Ela ajeitou a franja fina sobre a testa pálida e olhou para o lado, tentando recuperar a compostura fria e melancólica que era sua marca registrada.
— O que foi? — perguntou ela, a voz saindo mais baixa do que pretendia.
— O sinal já vai bater e você está aí olhando para o nada com cara de quem viu um fantasma — Till resmungou, passando a mão pelos cabelos cinzas bagunçados.
Ele olhou de relance para Mizi, que estava sentada duas fileiras à frente, rindo de algo que Ivan havia sussurrado. O olhar de Till era carregado de uma admiração óbvia e dolorosa, algo que todos no grupo percebiam, exceto, talvez, a própria Mizi.
Sua fechou o livro com um estalo seco. Ela sabia que Till gostava de Mizi. O problema era que ela também gostava. E o pior: Mizi tinha aquela "aura" de heterossexualidade inabalável. Em quatro anos de amizade, desde o nono ano, Mizi nunca tinha sido vista com ninguém, mas seu jeito descontraído, sua beleza estonteante e a forma como ela lidava com a atenção masculina davam a entender que o caminho para o coração dela seguia uma trilha que Sua não podia percorrer.
O sinal tocou, anunciando o intervalo. O grupo se moveu como um único organismo em direção ao pátio.
Sentados no banco de sempre, a dinâmica se estabeleceu rapidamente. Ivan, alto e pálido, devorava um pacote de balas enquanto provocava Mizi. Os dois eram melhores amigos, uma dupla dinâmica que parecia falar uma língua própria feita de piadas internas e zombarias.
— Você é um idiota, Ivan — Mizi riu, jogando a cabeça para trás.
Seus olhos amarelos, quase dourados, brilharam sob a luz do sol. Ela era, sem dúvida, a garota mais bonita da escola. Não era apenas a aparência; era a voz sedutora, o jeito de andar e a confiança que emanava. Quando ela queria ser charmosa, até o ar parecia ficar mais denso ao redor dela.
Ivan sorriu de lado, um sorriso cúmplice. Ele era o único que sabia a verdade: que Mizi não sentia o menor interesse por nenhum dos garotos que faziam fila para falar com ela. Mas ele guardava esse segredo como um tesouro, divertindo-se com a frustração alheia.
— Sou um idiota que sabe de tudo — rebateu Ivan, pegando mais uma bala. — Ao contrário do Till, que não sabe nem onde guardou o juízo.
— Cala a boca, boca de sacola! — Till rebateu, cruzando os braços sobre a camiseta de banda.
Hyuna, sempre descolada com seus longos cabelos castanhos, observava a cena com um sorriso de canto, enquanto Luka, o nerd loiro de óculos, tentava explicar a ela alguma teoria complexa sobre física quântica. Luka não escondia que era louco por Hyuna, e ela, por sua vez, parecia se divertir com a atenção dedicada dele.
A conversa foi interrompida quando um garoto de outra turma se aproximou. Ele parecia nervoso, ajeitando a gola da camisa antes de parar na frente de Mizi.
— Oi, Mizi... Eu queria saber se você não quer sair qualquer dia desses? — perguntou ele, a voz falhando levemente.
Mizi deu a ele aquele olhar. Aquele olhar dourado e meio sonolento que fazia qualquer um se sentir a pessoa mais importante do mundo por cinco segundos.
— Ah, obrigada pelo convite — disse ela, a voz saindo suave e melodiosa, mas com uma nota de desinteresse educado. — Mas eu estou bem ocupada com os estudos ultimamente. Quem sabe em outra vida?
O garoto se retirou, visivelmente murcho. Assim que ele se afastou o suficiente, o grupo começou a rir.
— Mais um para a contagem de corpos — brincou Hyuna. — Mizi, você é um perigo público. A escola inteira está aos seus pés e você simplesmente não liga.
— Eu só gosto de dormir, gente — Mizi espreguiçou-se, parecendo um gato luxuoso. — É muito esforço lidar com essas coisas.
Sua observava tudo em silêncio, sentindo o aperto familiar no peito. Mizi não ligava para os garotos, mas isso não significava que ela ligaria para Sua.
As horas passaram e o fim das aulas chegou. Enquanto a maioria dos alunos corria para fora dos portões, Sua seguiu para o seu refúgio: a biblioteca. O silêncio entre as estantes de livros era o único lugar onde ela conseguia organizar seus pensamentos melancólicos.
Ela estava sentada em uma mesa nos fundos, tentando focar em uma leitura de literatura, quando ouviu risadas vindas da entrada. Era Mizi. Ela sempre ia lá para conversar com a bibliotecária, uma senhora que parecia adorar as histórias engraçadas da garota de cabelos rosa.
Sua tentou se encolher atrás do livro, mas era tarde demais. Mizi a viu e caminhou em sua direção com passos leves.
— Sua! Sabia que ia te encontrar aqui — disse Mizi, sentando-se na cadeira à frente dela sem ser convidada.
— Oi, Mizi — respondeu Sua, tentando manter a voz firme. — Não deveria estar em casa?
— Ah, a casa é chata. Prefiro o silêncio daqui... e a sua companhia, claro.
Mizi apoiou o queixo nas mãos, olhando diretamente para Sua. De perto, a beleza dela era quase agressiva. O perfume de morango e algo cítrico atingiu o olfato de Sua, fazendo sua mente viajar de volta para o devaneio da aula de história.
— Você está muito quieta hoje — comentou Mizi, inclinando a cabeça. — Aconteceu alguma coisa?
— Nada. Só estou cansada — mentiu Sua.
Ela tentou olhar para o livro, mas seus olhos, traidores, acabaram pousando na boca de Mizi. Os lábios dela eram rosados, naturais, e se moviam levemente enquanto ela respirava. Sua ficou hipnotizada pela forma como o lábio inferior era um pouco mais cheio que o superior. Ela imaginou o gosto de Mizi, imaginou se ela seria tão doce quanto parecia.
Mizi percebeu o olhar fixo. Ela não desviou o rosto; pelo contrário, um pequeno sorriso satisfeito brincou nos cantos de sua boca. Ela sabia o efeito que causava, mas com Sua, havia algo diferente, uma tensão que ela não sentia com os garotos que a perseguiam.
— Meu rosto é mais interessante que o livro? — provocou Mizi, a voz baixando para um tom quase confidencial.
Sua sentiu o sangue subir para as bochechas.
— Eu... eu só estava pensando — gaguejou ela.
— Pensando em quê? — Mizi se inclinou um pouco mais para frente, encurtando a distância entre elas.
— Em nada que te interesse — Sua recuperou um pouco de sua frieza defensiva, fechando o livro e começando a guardar suas coisas na mochila.
— Você é sempre tão difícil, Sua — Mizi riu, mas não se afastou. — É por isso que eu gosto de ficar perto de você. Você não fica babando como os outros.
"Se você soubesse", pensou Sua, as mãos tremendo levemente ao puxar o zíper da mochila.
— Tenho que ir — disse Sua, levantando-se apressada.
— Espera, eu vou com você até o portão — Mizi levantou-se também, seguindo-a.
Caminharam pelo corredor vazio da escola. O silêncio entre elas não era desconfortável, mas para Sua, era carregado de palavras não ditas. Ela sentia o olhar de Mizi sobre si de vez em quando, um olhar curioso, quase analítico.
Na saída, o grupo ainda estava por perto. Ivan e Till pareciam estar no meio de uma discussão sobre qual doce era melhor, enquanto Luka tentava, sem sucesso, consertar um broche na jaqueta de Hyuna.
— Olha só quem apareceu — Ivan disse, guardando o segredo de Mizi atrás de um sorriso irônico. — A nerd e a popular.
— Cala a boca, Ivan — Mizi disse, dando um tapa leve no ombro dele. — Vamos, gente, estou com fome.
Enquanto o grupo começava a se dispersar em direção às suas casas, Sua ficou um pouco para trás. Ela olhou para Mizi, que caminhava à frente, rindo de algo que Hyuna disse. O sol poente batia no cabelo rosa e azul de Mizi, fazendo-a parecer uma pintura.
Sua suspirou, sentindo o peso daquela paixão silenciosa. No mundo de Mizi, ela era apenas a amiga fria e inteligente do nono ano. Mas no mundo de Sua, Mizi era o centro de cada pensamento, de cada desejo proibido e de cada sonho que ela nunca teria coragem de transformar em realidade. Pelo menos, era o que ela pensava, sem notar que Ivan a observava de longe com um olhar que dizia que ele sabia muito mais do que deixava transparecer.
