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Continuação amor sombrio

Fandom: Wednesday

Criado: 23/07/2026

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O Arquiteto do Abismo e a Sineta de Prata

A mansão Addams não apenas abrigava a escuridão; ela a respirava. Nas primeiras horas da manhã, antes que o sol ousasse profanar o horizonte de New Jersey com sua luz vulgar, a casa parecia se expandir, as vigas de carvalho gemendo como ossos em uma mesa de tortura. Wandinha estava em seu laboratório, um santuário de frascos de vidro soprado, ervas desidratadas e diagramas anatômicos que fariam um cirurgião veterano empalidecer.

Ela não dormira. O sono era uma interrupção ineficiente para uma mente que operava em frequências de puro cálculo. Em vez disso, ela passara as últimas quatro horas destilando uma solução de acônito e mercúrio, observando como o líquido prateado reagia ao calor da chama azul.

Um som suave na porta — o arrastar de pés que ainda não haviam aprendido a total invisibilidade — interrompeu seu foco.

— A porta está aberta, Tyler. Sua hesitação é quase tão ruidosa quanto um desfile de carnaval — disse ela, sem se virar.

Tyler entrou, a silhueta emoldurada pela luz fraca do corredor. Ele vestia uma túnica de seda preta que pertencera a algum ancestral Addams de estatura semelhante. O tecido caía sobre seus ombros com uma elegância sombria, destacando a palidez de seu rosto e a nova nitidez em seu olhar.

— É difícil não hesitar quando se sente que cada passo pode acionar uma armadilha de urso — respondeu Tyler, sua voz carregando aquele tom sedutor que ele usava como uma luva, mas que agora estava impregnado com a ressonância profunda do Hyde. — Como você sabia que era eu?

— O seu cheiro — Wandinha finalmente se virou, deixando o conta-gotas de lado. — Uma mistura de pinheiro, café barato e a estática elétrica que o seu sistema nervoso emite desde a transfusão. Você é um rádio mal sintonizado, Tyler. Eu consigo ouvir sua frequência a quilômetros daqui.

Tyler caminhou até a mesa de carvalho, observando os instrumentos. Ele se aproximou o suficiente para que Wandinha sentisse o calor que emanava dele — um contraste gritante com a temperatura perenemente gélida de seu próprio corpo.

— Você disse que o meu sangue reconheceria a sua marca — ele disse, estendendo o pulso onde as veias ainda pareciam levemente mais escuras sob a pele. — Eu não sinto apenas a marca. Eu sinto a direção. Como se houvesse um fio de prumo ligando o meu esterno à sua mão. É... assustador.

— O medo é o subproduto da perda de autonomia — Wandinha comentou, aproximando-se dele com uma pequena lanterna de exame. — Abra os olhos.

Ele obedeceu. Wandinha segurou o queixo dele com os dedos firmes e frios, projetando a luz nas pupilas dele. O âmbar do Hyde não desaparecera totalmente; em vez disso, ele se instalara como um anel dourado ao redor da íris azul, uma eclipse permanente.

— A integração está ocorrendo mais rápido do que eu previ — murmurou ela, quase para si mesma. — O sangue Addams agiu como um catalisador, não apenas um estabilizador. O Hyde não está mais tentando suplantar a sua consciência; ele está se fundindo a ela.

— Eu sinto os pensamentos dele — Tyler sussurrou, e por um momento, a máscara de sedutor perigoso caiu, revelando o jovem vulnerável que ele fora um dia. — Ele não odeia você, Wandinha. Ele tem... uma reverência por você. Ele vê você como a única coisa no mundo que é mais letal do que ele.

— Uma observação astuta para uma besta irracional — Wandinha soltou o queixo dele, mas não recuou. — Mas não se engane. A reverência dele é baseada na minha capacidade de destruí-lo se ele falhar comigo. É um respeito puramente darwinista.

Tyler sorriu, um movimento lento que revelou dentes que pareciam ligeiramente mais pontiagudos do que o normal humano.

— Você adora racionalizar tudo, não é? Transforma um pacto de sangue e uma conexão psíquica em uma transação comercial. Mas eu vi como você me olhou na floresta. Você não estava apenas protegendo um investimento.

Wandinha sentiu uma pontada de algo irritante no peito — provavelmente uma leve arritmia causada pela falta de sono, ela decidiu.

— Minhas expressões faciais são muitas vezes mal interpretadas por aqueles que buscam significado onde só existe observação clínica — ela rebateu, sua voz mantendo a cadência seca. — Se você veio aqui em busca de uma validação romântica para a sua condição de servo, sugiro que procure o Mãozinha. Ele tem uma inclinação deplorável para melodramas.

Tyler riu, um som baixo e gutural que vibrou no ar pesado do laboratório.

— Você é impossível. E é por isso que eu não consigo ir embora. Mesmo que eu pudesse quebrar esse vínculo, eu não o faria. O vazio que você mencionou... ele é viciante.

Ele deu um passo à frente, invadindo o espaço que Wandinha normalmente reservava apenas para seus instrumentos de dissecação.

— O que você quer de mim, Wandinha? Além de uma arma. Além de um monstro na coleira.

Wandinha sustentou o olhar dele. Ela via o perigo ali — o Hyde estava à superfície, observando-a através dos olhos de Tyler, avaliando-a. O ar entre eles parecia saturado de ozônio, como o momento exato antes de um raio atingir o solo.

— Eu quero o que o mundo me negou — disse ela, sua voz baixando para um sussurro que era mais cortante do que um grito. — Eu quero o fim da mediocridade. Eu quero que aqueles que acreditam que podem ditar as regras da existência sintam o gosto da própria insignificância. E para isso, eu preciso de um parceiro que não tema o abismo, porque ele é o próprio abismo.

Ela estendeu a mão pálida e traçou a linha da mandíbula dele, um gesto que era simultaneamente uma carícia e uma ameaça.

— Você não é meu servo, Tyler. Servos são descartáveis. Você é meu cúmplice. E na hierarquia dos Addams, um cúmplice de sangue é mais sagrado do que qualquer amante.

Tyler fechou os olhos por um segundo, absorvendo o toque dela. O Hyde dentro dele ronronou, uma vibração que ele sentiu nos ossos.

— Cúmplices — ele repetiu, saboreando a palavra. — Eu gosto do som disso. Tem um toque de crime e eternidade.

— Exatamente — Wandinha retirou a mão e voltou-se para a mesa de trabalho, pegando um pequeno frasco de cristal contendo um líquido negro e viscoso. — Agora, beba isso. É um extrato de beladona refinado com veneno de escorpião-imperador. Vai ajudar a moderar a dor da transição óssea que você terá ao anoitecer.

Tyler pegou o frasco, olhando para o conteúdo com desconfiança.

— Isso vai me matar?

— Provavelmente não — respondeu Wandinha, voltando ao seu microscópio. — Mas se matar, pelo menos você terá morrido por uma causa esteticamente agradável.

Tyler virou o líquido de uma vez, fazendo uma careta quando o gosto amargo e metálico atingiu sua garganta. Ele sentiu um calor imediato espalhar-se por seu estômago, seguido por uma dormência estranhamente reconfortante.

— Sabe — disse ele, encostando-se na bancada de pedra —, meu pai sempre disse que eu acabaria me envolvendo com o tipo errado de pessoa. Ele só não imaginava que o "tipo errado" seria uma garota que me daria veneno no café da manhã e me chamaria de obra-prima.

— Seu pai tinha uma visão limitada da realidade — Wandinha disse, ajustando o foco da lente. — O conceito de "certo" e "errado" é uma construção social projetada para manter as massas dóceis. Nós operamos fora dessa construção.

— E para onde vamos agora? — perguntou Tyler, sua voz tornando-se mais séria. — Você mencionou o Círculo de Sangue. Você mencionou que eles viriam atrás de nós.

Wandinha parou o que estava fazendo. Seus olhos ficaram distantes, perdidos em alguma visão sombria que só ela conseguia acessar.

— O Círculo de Sangue é uma organização de puristas. Eles acreditam que o sobrenatural deve ser catalogado, controlado e, se necessário, erradicado para manter o equilíbrio. Eles veem o Hyde como uma falha biológica e a mim como uma anomalia perigosa. Eles não toleram o que não podem possuir.

— E como eles nos encontram? — Tyler perguntou, sentindo uma pontada de instinto predatório.

— Eles já nos encontraram — Wandinha disse calmamente, apontando para a janela alta do laboratório.

No parapeito, o corvo que estivera lá na noite anterior permanecia imóvel. Mas agora, Tyler conseguia ver algo que não notara antes: um pequeno anel de prata preso à pata do pássaro, gravado com um símbolo que parecia um olho chorando sangue.

— É um vigia — explicou Wandinha. — Eles estão avaliando nossa força. Estão esperando que o veneno de beladona que eu usei no Mustang enfraqueça o seu sistema. Eles não sabem que eu substituí a fraqueza pela minha própria linhagem.

Tyler olhou para o pássaro, e uma raiva fria e animal começou a borbulhar em seu peito. Seus dedos se curvaram, as unhas alongando-se levemente.

— Devo matá-lo?

— Não — Wandinha disse, caminhando até a janela. Ela abriu o vidro, e o ar frio de New Jersey invadiu a sala. O corvo não voou; ele apenas a encarou com olhos vítreos. — Eu quero que ele volte para seus mestres. Eu quero que ele leve uma mensagem.

Ela pegou uma pequena agulha de prata e, com uma rapidez impressionante, capturou o pássaro. O corvo grasnou, mas Wandinha o segurou com uma mão firme. Com a agulha, ela gravou uma pequena runa Addams no anel de prata que a ave carregava — o símbolo da família, uma mão segurando uma tocha invertida.

— Vá — ordenou ela, soltando o pássaro. — Diga a eles que a mansão Addams não aceita visitantes indesejados. E que, se eles buscam o monstro, encontrarão a mestre primeiro.

O corvo levantou voo, uma mancha negra contra o céu cinzento, desaparecendo entre as árvores retorcidas da propriedade.

Tyler observou a ave sumir, sentindo a conexão com Wandinha vibrar com uma nova intensidade.

— Você está declarando guerra — observou ele.

— Eu estou definindo os termos do noivado — corrigiu ela, fechando a janela com um estalo definitivo. — A guerra é apenas a consequência inevitável da nossa existência.

Ela virou-se para ele, e por um momento, a luz da manhã refletiu-se em seus olhos, criando um brilho que era quase inumano.

— Tyler, você sente a transformação chegando?

Ele parou, concentrando-se em seu próprio corpo. O calor do "tônico" de Wandinha estava mudando, tornando-se uma pulsação rítmica. Ele sentia seus ossos vibrando, mas não era a agonia de antes. Era uma antecipação. Uma fome.

— Sim — ele disse, sua voz agora um rosnado suave. — Eu sinto.

— Ótimo — Wandinha aproximou-se, sua expressão de uma seriedade mortal. — O laboratório está reforçado. Eu vou observar cada mudança, cada ruptura de fibra muscular, cada descarga sináptica. Você vai se transformar, mas desta vez, você não vai perder a consciência. Você vai olhar através dos olhos do Hyde e vai ver o que eu vejo.

Ela colocou a mão sobre o coração dele, sentindo as batidas aceleradas.

— Mostre a eles, Tyler. Mostre ao mundo que o que eles chamam de abominação é, na verdade, a evolução.

Tyler agarrou a mão dela, pressionando-a contra o peito. A força dele era imensa, mas Wandinha não recuou. Ela o encarou com uma coragem que beirava a loucura.

— Se eu perder o controle... — Tyler começou, mas ela o interrompeu.

— Você não vai. Porque se você tentar me atacar, eu vou abrir sua garganta com esta adaga de obsidiana e beber o resto do meu sangue de volta. E você sabe que eu sou perfeitamente capaz disso.

Tyler sorriu, o Hyde brilhando em seus olhos com uma alegria selvagem.

— É por isso que eu amo você, Wandinha Addams. Você é a única pessoa que me faz sentir medo e poder ao mesmo tempo.

— O amor é um erro químico que leva a decisões desastrosas — respondeu ela, embora não tenha retirado a mão. — Mas a obsessão... a obsessão é útil. E eu estou muito obcecada com o que você pode se tornar.

As sombras no laboratório pareceram se alongar, envolvendo os dois. Lá fora, o vento uivava entre as torres da mansão, como se a própria casa estivesse ansiosa pelo que estava por vir.

Naquela manhã, não houve sol para Wandinha e Tyler. Houve apenas o início de uma metamorfose que mudaria o destino de todos que ousassem cruzar o caminho daquela unidade indivisível. O monstro e a mestre estavam prontos. E o mundo, em sua arrogante ignorância, não tinha ideia do pesadelo que acabara de despertar.

Wandinha pegou seu caderno de notas e sentou-se em uma cadeira de veludo preto, observando Tyler começar a se contorcer sob a luz das lâmpadas de gás.

— Comece — ordenou ela. — E não economize nos detalhes. Eu quero sentir cada grama de escuridão que você liberar.

E enquanto os ossos de Tyler estalavam e sua forma humana se perdia na glória terrível do Hyde, Wandinha Addams começou a escrever a história de como eles incendiariam o mundo, uma sombra de cada vez.

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