
Entre a Chuva e a Obsessão
O pátio da escola estava quase vazio, restando apenas o cheiro de terra molhada e o som rítmico das gotas pesadas que batiam contra o telhado de zinco. Samara suspirou, ajeitando a alça da mochila no ombro. Ela tinha 1.70m de pura hesitação, os cabelos castanhos cacheados, geralmente volumosos e vibrantes, pareciam murchar com a umidade. Seus olhos, aquele tom de castanho esverdeado que costumava brilhar sob o sol, agora refletiam apenas o cinza do céu. Ela odiava a chuva, não pelo fenômeno em si, mas porque morria de medo de escorregar ou ficar doente, e seu orgulho a impedia de ligar para casa pedindo carona.
— Sabe, o tempo não vai abrir tão cedo. — Uma voz grave e levemente rouca ecoou atrás dela.
Samara deu um pulinho, o coração disparando. Ela se virou e deu de cara com Kauê. Ele era alto, muito alto, com seus 1.85m que a faziam ter que inclinar a cabeça para trás. Os cabelos pretos, curtos e cacheados, brilhavam mesmo sem a luz direta, e aqueles olhos pretos profundos pareciam perfurá-la. Durante anos, eles mal haviam trocado três frases, geralmente limitadas a "passa a caneta" ou "qual é o tema do trabalho?".
— Eu... eu sei. Só estou esperando diminuir um pouco — ela respondeu, a timidez travando sua língua.
— Você não gosta de se molhar. Nem de ficar com os pés úmidos. Prefere o calor, não é? — Kauê deu um passo à frente, entrando no seu espaço pessoal.
Samara franziu a testa, surpresa. Como ele sabia daquilo?
— É, prefiro o sol. Como você sabe?
Kauê deu um sorriso de lado, algo que beirava o predatório, mas que Samara, em sua inocência, achou apenas "engraçadinho".
— Eu presto atenção, Samara. Em tudo.
Aquele foi o início. O que começou como uma troca de olhares nos corredores tornou-se uma presença constante. Kauê estava em todo lugar. Se ela ia à biblioteca, ele estava na mesa ao lado. Se ela comprava um suco de uva — seu favorito — na cantina, ele já estava lá com a moeda na mão para pagar antes dela. Ele sabia que ela detestava cebola, que sua cor favorita era o azul-marinho e que ela costumava usar aquele moletom cinza quando estava triste, embora ela tentasse esconder a tristeza com sorrisos gentis para os outros.
Com o tempo, a timidez de Samara com ele evaporou, dando lugar a uma amizade elétrica. Ela se sentia confortável para falar seus palavrões quando algo dava errado, e ele apenas ria, achando graça no contraste entre a doçura dela e sua boca suja. Mas havia algo mais. Uma possessividade que crescia a cada dia. Kauê não gostava quando outros garotos se aproximavam. Seus olhos pretos ficavam ainda mais escuros, e ele sempre encontrava um jeito de passar o braço pelo ombro dela, marcando território.
Os selinhos começaram no fundo da sala, entre uma aula e outra. Eram toques rápidos, quase brincadeiras, onde os lábios dele apenas roçavam os dela, provocando uma fome que nenhum dos dois sabia como saciar.
O ápice, no entanto, aconteceu no clube de campo que a escola havia alugado para o evento de encerramento do semestre. O dia estava quente, e Samara sentia-se confiante. Ela usava um biquíni preto sob um short curto e uma blusa transparente que deixava suas curvas em evidência. Ela estava, nas palavras de Kauê, insuportavelmente gostosa.
Enquanto ela conversava e ria com um colega de classe sobre uma piada de física, sentiu um olhar queimando suas costas. Quando se virou, Kauê não estava sorrindo. Ele estava encostado em uma árvore, os braços cruzados, observando-a com uma intensidade que a fez estremecer.
Minutos depois, quando ela foi ao banheiro interno do clube para tirar o excesso de cloro do rosto, a porta foi aberta e trancada rapidamente atrás dela.
— Puta que pariu, Kauê! Você quer me matar do coração? — ela exclamou, levando a mão ao peito.
Ele não respondeu com palavras. Em dois passos, ele a prensou contra a parede de azulejos frios. Suas mãos grandes seguraram o rosto dela com uma urgência quase dolorosa.
— Eu não aguento mais, Samara — ele sussurrou contra os lábios dela, a respiração pesada. — Ver você rindo para aquele idiota... Ver todo mundo olhando para o que é meu. Dói. Dói aqui dentro.
— Kauê... — ela tentou falar, mas ele a calou com um beijo.
Não foi um selinho. Foi um beijo voraz, possessivo, carregado de uma obsessão que ele vinha guardando há meses. Ele a beijava como se estivesse morrendo de sede e ela fosse a única fonte de água no deserto. Samara sentiu suas pernas fraquejarem. Ela o amava, amava aquele jeito intenso, mesmo que às vezes a assustasse um pouco. Ela retribuiu com a mesma intensidade, as mãos se perdendo nos cachos pretos dele.
— Você é minha — ele murmurou entre os beijos no pescoço dela. — Só minha. Eu sei cada detalhe seu, Samara. Eu amo cada centímetro desse corpo, cada palavrão que você solta, até o jeito que você chora escondida para não preocupar ninguém. Eu vejo tudo.
Samara paralisou por um segundo.
— Você sabe que eu...
— Eu sei. E eu estou aqui para você. Sempre. Mas não me peça para ser paciente quando outros homens tocam no que pertence a mim.
Daquele dia em diante, o relacionamento deles tornou-se um segredo compartilhado em lugares proibidos. Eles se pegavam fervorosamente nos intervalos de troca de professores, escondidos atrás das cortinas do auditório. Durante as aulas de Educação Física, enquanto os outros jogavam vôlei, eles escapavam para o depósito de materiais, onde o cheiro de borracha e suor se misturava ao desejo latente.
O pedido de namoro oficial veio pouco depois, com Kauê lhe dando um anel que ele mesmo havia escolhido, sabendo exatamente o tamanho do seu dedo sem precisar perguntar.
Um ano se passou. O amor deles, que já era uma chama alta, tornou-se um incêndio incontrolável. Eles estavam sozinhos na casa de Kauê, os pais dele haviam viajado. O quarto estava na penumbra, iluminado apenas por alguns fios de luz que atravessavam a persiana.
Samara estava sentada na cama, o coração martelando contra as costelas. Kauê estava parado à sua frente, retirando a camisa lentamente, revelando o peito largo e os músculos definidos pelo tempo que passava pensando nela e descontando a energia nos treinos.
— Você tem certeza, meu amor? — ele perguntou, sua voz descendo uma oitava, tornando-se um rosnado suave e carinhoso. — Eu não quero te assustar. Você sabe como eu sou... eu quero tudo de você.
Samara se levantou, ficando na ponta dos pés para selar seus lábios nos dele.
— Eu também quero tudo, Kauê. — Ela sorriu, aquele brilho esverdeado nos olhos desafiando-o. — E para de falar e me fode logo, por favor.
Ele soltou uma risada curta, carregada de desejo, e a jogou sobre os lençóis macios.
— Seus desejos são ordens, porra.
O que se seguiu foi uma dança de descobertas e entregas. Kauê a tratava como se ela fosse feita de porcelana, mas a possuía com a força de quem finalmente alcançava seu tesouro mais precioso. Cada toque dele era mapeado, cada gemido dela era uma sinfonia para os ouvidos dele. Ele conhecia o ponto exato atrás da orelha que a fazia estremecer, e a forma como suas mãos apertavam os lençóis quando ele chegava perto do limite.
— Você é tão linda — ele ofegou, o suor brilhando em sua pele enquanto se movia contra ela de forma rítmica e quente. — Minha Samara. Minha.
— Sim... sua... — ela respondeu, a voz falhando enquanto o prazer a envolvia como uma onda.
Naquela noite, sob o teto daquele quarto, não havia mais timidez, não havia mais choro escondido. Havia apenas a consumação de uma obsessão que se transformou em um amor profundo, visceral e, acima de tudo, inevitável. E enquanto o sol começava a surgir no horizonte, iluminando os cabelos castanhos espalhados pelo travesseiro, Kauê apenas a observava dormir, decorando mais uma vez cada detalhe da mulher que ele sempre soube que seria sua.
