Fanfy
.studio
Imagem de fundo

rio de Janeiro

Fandom: Rio de janeiro

Criado: 23/07/2026

Tags

RomanceFatias de VidaFofuraHumorHistória DomésticaRealismoCenário CanônicoDor/ConfortoEstudo de PersonagemFilme de Amigos
Índice

Maresia e o Som do Obturador

O mormaço do Rio de Janeiro era algo que Alexander ainda estava aprendendo a processar. Em São Paulo, o cinza parecia filtrar o mundo, deixando tudo em um tom de urgência silenciosa. No Rio, a luz era tão forte que parecia invadir a pele, forçando qualquer um a sair da própria concha.

Alexander estava sentado em um banco de madeira na Praça XV, observando o movimento das barcas. Ele segurava um copo de mate com limão que estava suando tanto quanto ele. Se fosse há seis meses, ele estaria trancado no quarto, com as cortinas fechadas, ignorando as notificações de um celular que raramente vibrava. Mas ali estava ele, esperando o grupo que, por algum milagre estatístico, decidiu adotá-lo.

— Se você ficar encarando o mar desse jeito, vai acabar virando uma estátua de sal, moreno — a voz suave de Gael surgiu logo atrás dele.

Alexander sentiu um toque leve no ombro e, involuntariamente, relaxou. Gael se sentou ao seu lado, deixando as pernas balançarem. O cabelo loiro estava levemente bagunçado pelo vento úmido e ele exibia aquele sorriso calmo que parecia dizer que o mundo estava exatamente onde deveria estar.

— Só estou tentando entender como o ar aqui consegue ser tão pesado e leve ao mesmo tempo — Alex respondeu, oferecendo o mate para Gael sem nem pensar.

Gael aceitou, deu um gole longo e devolveu o copo. Era um gesto natural agora. Dividir comida, dividir o fone de ouvido, dividir o silêncio.

— É o sal, Alex. Ele limpa a alma, mas gruda na pele — Gael comentou, observando o horizonte. — Os meninos estão vindo. O Benício quase atropelou uma senhora com o skate perto do Paço Imperial, então o Dante parou para pedir desculpas enquanto o Ícaro tentava vender a ideia de que a culpa era da gravidade.

Como se tivessem sido invocados, o barulho de rodinhas de uretano contra o asfalto anunciou a chegada do resto do "Ameaça Pública". Benício vinha na frente, equilibrando-se no skate enquanto segurava um saco de biscoito Globo.

— Chegamos, família! — gritou Benício, fazendo algumas pessoas ao redor olharem com reprovação. — Alex, meu garoto paulista favorito, você não sabe o que o Ícaro acabou de sugerir.

Ícaro, que vinha logo atrás com uma expressão de gênio incompreendido, completou:

— Eu só acho que, se a gente pegar o VLT e descer em cada estação para tirar uma foto artística, a gente consegue criar um guia turístico alternativo e vender para a prefeitura. Dinheiro fácil.

Dante, que trazia sua câmera pendurada no pescoço como se fosse um órgão vital, apenas balançou a cabeça negativamente.

— A ideia é péssima porque o Ícaro quer que a "foto artística" seja o Benício fazendo manobra em cima dos bancos das estações. A gente vai ser expulso do Centro em dez minutos.

Dante se posicionou um pouco mais afastado. Ele não falava muito, mas sua lente estava sempre focada. O clique seco da câmera capturou Alexander sorrindo de lado para a discussão. Alex nem percebeu. Ele ainda não se via como parte daquelas fotos, mas o álbum de Dante dizia o contrário; lá, Alex já não era mais o garoto de ombros curvados que evitava o contato visual nas primeiras semanas de aula.

— Vamos para o Aterro? — sugeriu Benício, chutando o skate para cima e pegando-o com a mão. — O sol vai baixar daqui a pouco. Dá para jogar um vôlei e depois a gente decide quem vai pagar o açaí de quem.

— Eu não pago o do Ícaro nem se ele me der os direitos autorais do guia turístico dele — brincou Alex, levantando-se.

Enquanto caminhavam em direção ao metrô, o grupo se movia como uma massa caótica de energia. Ícaro e Benício iam na frente, provocando um ao outro e quase causando acidentes com pedestres. Dante vinha logo atrás, parando ocasionalmente para fotografar o reflexo do sol nas janelas dos prédios antigos do Centro.

Alex e Gael ficaram um pouco mais para trás. Sem que houvesse um convite formal, Gael deslizou a mão para o bolso do casaco de Alex — que ele insistia em usar apesar do calor — e puxou um dos lados do fone de ouvido que estava pendurado no pescoço do outro.

— O que você está ouvindo? — perguntou Gael, encaixando o fone no próprio ouvido.

— Uma playlist de "músicas para se sentir em um filme indie" — Alex admitiu, sentindo o rosto esquentar levemente. — É meio nostálgico.

— Combina com você. Você tem cara de quem vive em câmera lenta enquanto o resto do mundo está em 2x — Gael sorriu, aproximando-se um pouco mais enquanto caminhavam. — Mas o Rio combina com você também, sabia? Você está mais... colorido.

Alex olhou para as próprias mãos. Ele se lembrou de como, em São Paulo, sua rotina era um loop infinito de escola, quarto e silêncio. Ele tinha perdido amigos porque simplesmente parou de responder. Parou de sair. A solidão tinha se tornado um hábito confortável, mas sufocante. Ali, com o barulho do tráfego carioca de um lado e o riso escandaloso de Benício do outro, o silêncio parecia algo distante.

— É difícil não ficar colorido com vocês me puxando para todo canto — respondeu Alex em voz baixa.

No metrô, o vagão estava relativamente vazio. Ícaro decidiu que seria uma ótima ideia ver quem conseguia se equilibrar sem segurar em nada enquanto o trem se movia. Benício, claro, aceitou o desafio. Dante apenas suspirou e apontou a câmera para a cena tragicômica dos dois cambaleando a cada curva.

Alex e Gael sentaram-se nos bancos laterais. O balanço do metrô e o ar-condicionado gelado criavam uma bolha de tranquilidade. Naturalmente, a cabeça de Gael tombou para o ombro de Alex.

— Me acorda na Carioca? — pediu Gael, fechando os olhos.

— A gente desce na Cinelândia, loirinho — corrigiu Alex, mas não se moveu. Pelo contrário, ele inclinou a cabeça levemente para sentir o cheiro do shampoo de coco de Gael.

Era estranho. Em qualquer outro contexto, Alex estaria em pânico com a proximidade física. Mas com Gael, era como se o espaço pessoal de ambos tivesse se fundido em um só. Eles ainda não tinham dado nomes ao que estava acontecendo, mas o grupo já tinha. No WhatsApp, o nome do grupo "Ameaça Pública" frequentemente mudava para "Alex e Gael: Casamento em breve" quando Ícaro estava com tédio.

— Vocês dois são muito fofos, dá vontade de vomitar arco-íris — comentou Benício, parando de se equilibrar para olhar para eles. — Dante, tirou a foto?

— Tirei três — respondeu Dante, com um meio sorriso raro. — Uma delas vai para a moldura.

— Não comecem — resmungou Alex, embora não fizesse menção de se afastar de Gael.

Quando chegaram ao Aterro do Flamengo, o céu já estava começando a ganhar tons de laranja e violeta. O Pão de Açúcar ao fundo parecia uma pintura de cenário. Eles se acomodaram na grama, perto das quadras de vôlei. Benício e Ícaro logo se infiltraram em um jogo que já estava acontecendo, gritando como se estivessem em uma final de Olimpíada.

Dante se sentou um pouco afastado, trocando o rolo de filme (ou limpando o sensor digital, Alex nunca sabia ao certo). Alex e Gael ficaram na grama, observando o pôr do sol.

— Às vezes eu acho que ainda estou sonhando — disse Alex, a voz quase sumindo no vento. — No ano passado, eu odiava sair de casa. Eu achava que não tinha mais espaço para mim em lugar nenhum.

Gael se virou para ele, apoiando o queixo na mão.

— O Rio tem espaço para todo mundo, Alex. Especialmente para quem sabe apreciar o silêncio no meio da bagunça. Você não precisava mudar quem você era. Só precisava de pessoas que gostassem da sua versão silenciosa também.

Gael estendeu a mão e tocou a ponta do nariz de Alex.

— E, para constar, você é ótimo em ser barulhento quando quer. Eu vi você gritando com o videogame ontem na casa do Dante.

Alex riu, uma risada limpa e genuína.

— O Dante roubou no Mario Kart, não tive escolha.

— Sei — Gael sorriu, e por um momento, o tempo realmente pareceu desacelerar. — Alex?

— Oi.

— Você está feliz aqui?

Alex olhou para Benício levando um "bolada" na cara e Ícaro rindo alto enquanto tentava ajudá-lo. Olhou para Dante, que capturava exatamente aquele momento de caos. E depois olhou para Gael, cujos olhos refletiam as cores do entardecer.

— Sim — disse Alex, e pela primeira vez, a palavra não pareceu um esforço. — Eu estou em casa.

Gael não disse nada, apenas se aproximou e deitou a cabeça no colo de Alex. Alex, de forma automática, começou a passar os dedos pelos fios loiros do outro. Não era uma declaração de amor cinematográfica, não era um beijo sob os fogos de artifício. Era apenas o Rio, o verão que nunca acabava e a certeza de que, no dia seguinte, eles estariam juntos novamente, inventando algum plano idiota ou apenas dividindo um açaí de cinco reais.

Dante, de longe, ajustou o foco. O enquadramento era perfeito: o contraste entre o moreno pensativo e o loirinho solar, emoldurados pelo dourado do sol carioca.

Click.

Mais uma memória para o álbum. Mais um dia em que Alexander esquecia quem costumava ser para descobrir quem estava se tornando. No grupo do WhatsApp, a notificação vibrou no bolso de todos:

Ícaro: "Gente, tive uma ideia. E se a gente tentasse entrar no ensaio de uma escola de samba amanhã fingindo que o Alex é um turista suíço que não fala português?"

Alex revirou os olhos, mas sorriu. Ele já estava ansioso pelo caos do dia seguinte.

Índice

Quer criar seu próprio fanfic?

Cadastre-se na Fanfy e crie suas próprias histórias!

Criar meu fanfic