
Ítaca
Fandom: Naruto e A odisseia
Criado: 24/07/2026
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O Eco das Ondas e o Peso da Coroa
O sol se punha sobre o Mar Jônico, tingindo as águas de Ítaca com tons de ouro e sangue. No alto do terraço do palácio, Rin Uchiha observava o horizonte com uma melancolia que nem mesmo a coroa de ouro em sua cabeça conseguia ocultar. Aos trinta e sete anos, a rainha mantinha a beleza que outrora encantara o general mais forte de Agamenon; sua pele branca contrastava com os cabelos castanhos ondulados que dançavam suavemente com a brisa marinha.
— Ele voltará, mamãe. Eu sinto isso.
Rin virou-se e sorriu ao ver Tatsuyo. A filha era a imagem viva de Obito, com a pele parda e os cabelos negros e ondulados que caíam até a cintura, mas possuía a doçura do olhar da mãe. Aos dezessete anos, Tatsuyo não era apenas a herdeira do trono; era a joia de Ítaca, uma guerreira em ascensão cuja beleza era cantada pelos poetas e cobiçada pelos lobos que se vestiam de nobres.
— Eu sei que sim, minha querida — Rin suspirou, acariciando o rosto da filha. — Os mercadores dizem que as muralhas de Troia estremecem. Quatro anos é muito tempo para um coração esperar, mas seu pai é um Uchiha. Ele prometeu voltar para nós.
A conversa foi interrompida pelo som metálico de espadas colidindo no pátio abaixo. Tatsuyo inclinou-se sobre o parapeito, um sorriso travesso surgindo em seus lábios ao ver a cabeleira branca de Kuro Hatake se movendo com agilidade contra um dos instrutores veteranos.
— Kuro está ficando mais rápido — comentou Tatsuyo, os olhos brilhando.
— Ele leva a sério a promessa que me fez — disse Rin, sua expressão tornando-se mais séria. — Quando seu pai partiu, ele confiou a segurança deste lar aos que ficaram. Kuro é jovem, mas tem o espírito de um guardião. E você sabe, Tatsuyo... com os pretendentes aumentando a cada dia, você precisa de alguém em quem possa confiar cegamente.
Tatsuyo bufou, a menção aos pretendentes azedando seu humor.
— Eles não são pretendentes, são abutres. Estão esperando que o mar engula meu pai para que possam despedaçar o que ele construiu. Especialmente Antinous.
— Mantenha a calma, minha filha — aconselhou a rainha. — A diplomacia é uma arma tão letal quanto a espada que você carrega na cintura. Enquanto seu pai não cruza os portões, somos nós que mantemos a ordem.
Tatsuyo assentiu, embora a vontade de desembainhar sua lâmina contra os nobres fosse quase incontrolável. Ela desceu as escadarias de pedra em direção ao pátio de treinamento, onde Kuro acabara de finalizar seu treino.
O jovem Hatake, de vinte e um anos, limpava o suor da testa com o antebraço. Seus cabelos brancos estavam desgrenhados e seus olhos castanhos escuros encontraram os de Tatsuyo imediatamente. Com 1,80m de altura e uma agilidade invejável, Kuro era o tipo de homem que atraía olhares, mas sua atenção era exclusivamente voltada para a princesa.
— Você está atrasada para o nosso treino, Vossa Alteza — provocou Kuro, abrindo um sorriso convencido.
— Estava apreciando a vista, Kuro. E vendo como sua guarda esquerda continua aberta — rebateu Tatsuyo, pegando uma espada de madeira.
Kuro riu, um som leve que parecia desarmar a tensão do ambiente.
— Minha guarda está exatamente onde precisa estar. Venha, tente me acertar se for capaz.
Os dois começaram a circular um ao outro. O treinamento entre eles era quase uma dança, um entendimento mútuo que vinha de anos de convivência. Obito, antes de partir para a guerra, havia passado tardes ensinando Kuro, vendo no rapaz um potencial que poucos possuíam. Quando o sorteio de Agamenon poupou Kuro de ir para o campo de batalha, Rin viu nisso uma bênção dos deuses: sua filha teria um protetor fiel.
— Soube que Antinous trouxe novos presentes para o palácio hoje — disse Kuro, enquanto bloqueava um golpe descendente de Tatsuyo.
— Ele trouxe seda e joias — Tatsuyo girou, tentando atingir o flanco de Kuro. — Como se eu pudesse ser comprada com futilidades. Ele quer o trono de Ítaca, Kuro. Ele quer o lugar do meu pai.
— Ele terá que passar por cima do meu cadáver primeiro — respondeu Kuro, a voz perdendo o tom de brincadeira —. Eu jurei à Rainha Rin e ao General Obito. Ninguém toca em você ou na coroa enquanto eu respirar.
— Eu sei se cuidar, Kuro — disse ela, embora seu coração tivesse acelerado com a intensidade das palavras dele.
— Eu sei que sabe — ele sorriu de canto —, mas é bom ter um reforço.
A sessão de treino foi interrompida pela entrada abrupta de um homem alto, de vestes luxuosas e um olhar de superioridade que fazia o estômago de Tatsuyo revirar. Era Antinous, o líder informal dos nobres que infestavam o palácio.
— Que cena adorável — exclamou Antinous, sua voz carregada de sarcasmo —. A futura rainha de Ítaca desperdiçando seu tempo com o filho de um clã decadente, brincando com gravetos como se fosse uma camponesa.
Tatsuyo abaixou a espada de madeira, seus olhos pretos faiscando de ódio.
— O treinamento militar é uma tradição da minha linhagem, Antinous. Algo que você não entenderia, já que prefere o conforto dos vinhos e das intrigas de corredor.
Antinous se aproximou, ignorando a presença de Kuro, que deu um passo à frente, colocando-se sutilmente entre o nobre e a princesa.
— A guerra em Troia está no fim, Tatsuyo — disse Antinous, ignorando a hostilidade —. Mas os mares são traiçoeiros. Muitos heróis não voltam. Ítaca precisa de estabilidade. Sua mãe se recusa a aceitar o óbvio, mas você... você é jovem, inteligente. Um casamento fortaleceria sua posição antes que os outros nobres percam a paciência.
— Meu pai está vivo — afirmou Tatsuyo, cada palavra saindo como um decreto. — E enquanto ele for o Rei, e minha mãe a Rainha, não há lugar para você no trono. Agora, saia do meu campo de treino antes que eu decida usar uma lâmina de ferro em vez de madeira.
Antinous estreitou os olhos, lançando um olhar de puro desprezo para Kuro.
— Você protege uma causa perdida, Hatake. Quando o poder mudar de mãos, os cães de guarda serão os primeiros a serem sacrificados.
— Eu prefiro morrer como um cão de guarda do que viver como um verme que espera a ausência de um leão para atacar — retrucou Kuro, mantendo a mão no punho de sua espada real.
Antinous soltou uma risada seca e se retirou, mas o veneno de suas palavras permaneceu no ar. Tatsuyo sentiu um tremor involuntário nas mãos. A pressão sobre sua família era imensa. Rin governava com perfeição, mas a ausência de Obito criava um vácuo que os gananciosos tentavam preencher a todo custo.
— Não dê ouvidos a ele — disse Kuro, aproximando-se e colocando uma mão firme no ombro de Tatsuyo. — Seu pai é Obito Uchiha. O homem que sobreviveu a mil batalhas. Ele vai voltar e colocar cada um desses ratos em seus devidos lugares.
— E se demorar demais, Kuro? — Tatsuyo olhou para o mar, onde a escuridão da noite começava a engolir o azul. — Minha mãe está exausta, embora não admita. Ela sorri para o povo, mas à noite, eu a ouço sussurrar o nome dele para as estrelas.
— Então nós seremos a força dela — afirmou Kuro com convicção. — Você e eu.
Naquela noite, o banquete no grande salão foi tenso. Rin sentava-se ao centro, majestosa em sua túnica púrpura. Ao seu lado, o lugar de Obito permanecia vazio, um símbolo constante de sua espera fiel. Ela observava os nobres se banquetearem com os recursos de Ítaca, agindo como se já fossem donos da casa.
— Rainha Rin — começou um dos nobres, levantando uma taça —. Os relatos dizem que Ulisses e Agamenon já planejam a partilha dos espólios. Se Obito ainda não enviou um mensageiro pessoal, devemos considerar a possibilidade de...
— O General Obito Uchiha não precisa de mensageiros para provar que está vivo — interrompeu Rin, sua voz calma, mas cortante como gelo. — Ele é a tempestade que Troia não conseguiu conter. Enquanto eu ocupar este trono, Ítaca esperará por seu Rei. E qualquer um que duvidar disso é livre para deixar meu palácio imediatamente.
O silêncio caiu sobre o salão. Tatsuyo, sentada à direita da mãe, sentiu um orgulho imenso. Rin era pequena em estatura comparada aos guerreiros, mas sua presença preenchia o ambiente.
Do canto do salão, encostado em uma coluna, Kuro observava tudo. Ele não tinha permissão para sentar-se à mesa real durante os banquetes oficiais, mas sua função de guarda pessoal de Tatsuyo permitia que ele estivesse sempre por perto. Seus olhos não saíam de Antinous, que cochichava com outros três nobres no fim da mesa.
Após o jantar, Tatsuyo escapou para os jardins suspensos, buscando um pouco de ar puro. Kuro a seguiu, como sempre fazia.
— Eles estão tramando algo — sussurrou Tatsuyo, assim que ficaram longe de ouvidos curiosos. — Antinous não aceitou a resposta da minha mãe.
— Eu vi as trocas de olhares — concordou Kuro. — Eles sabem que, se o seu pai não voltar nos próximos meses, a pressão popular por um novo governante vai aumentar. Eles vão tentar forçar a mão da sua mãe através de você.
Tatsuyo parou diante de uma estátua de mármore que representava seu pai. Obito era retratado em sua glória, musculoso, com o olhar determinado e as cicatrizes de guerra que ele carregava com honra. Ela tocou o mármore frio.
— Eu queria que ele estivesse aqui. Ele saberia o que fazer. Ele apenas olharia para eles com aquele Sharingan e todos recuariam.
— Você tem o sangue dele, Tatsuyo — disse Kuro, aproximando-se. — E você tem a inteligência da sua mãe. Você é a herdeira de Ítaca por um motivo.
Os dois ficaram em silêncio por um longo tempo, observando as luzes distantes das vilas de pescadores. A conexão entre eles ia além da amizade de infância; era um vínculo forjado na lealdade e no medo compartilhado de perder o mundo que conheciam.
— Kuro? — chamou ela baixinho.
— Sim?
— Obrigada por não ter ido para a guerra. Eu sei que, no fundo, você queria ter ido provar seu valor ao lado dos grandes generais.
Kuro olhou para as próprias mãos, depois para a princesa.
— No começo, eu me senti um covarde por ter sido sorteado para ficar. Mas agora... olhando para você e vendo o que está em jogo aqui... eu percebo que minha guerra não é em Troia. Minha guerra é proteger o que o General Obito mais ama. Se eu puder garantir que você e a Rainha Rin estejam seguras quando ele voltar, então eu terei vencido minha própria batalha.
Tatsuyo sorriu, um sorriso genuíno que iluminou seu rosto pardo. Ela se aproximou e, por um breve momento, esqueceu-se das etiquetas de princesa. Ela segurou a mão de Kuro.
— Ele vai ficar orgulhoso de você.
— Eu só espero estar vivo para ouvir isso dele — brincou Kuro, embora houvesse uma nota de seriedade em sua voz.
Enquanto isso, nos aposentos reais, Rin Uchiha abria a janela para deixar o ar da noite entrar. Ela olhou para a aliança em seu dedo e fechou os olhos, concentrando-se.
— Onde quer que você esteja, Obito... — sussurrou ela para o vento — ... volte para casa. Ítaca está resistindo, mas nosso coração está cansado de esperar.
Longe dali, em uma praia cercada por destroços de navios e o cheiro de fumaça, um homem alto, de cabelos pretos repicados e ombros largos, observava as estrelas. Suas mãos estavam calejadas, sua pele parda marcada por novas batalhas, mas seus olhos pretos brilhavam com uma determinação inabalável.
Obito Uchiha ajustou a capa sobre sua armadura pesada e olhou para o oeste. Ele sentia o chamado de Ítaca. Ele sentia o chamado de Rin e o crescimento de sua filha, Tatsuyo, como um puxão em sua própria alma.
— Só mais um pouco, Rin — murmurou o general, sua voz rouca pela guerra. — Eu estou voltando. E que os deuses tenham piedade daqueles que tentaram tomar o que é meu.
A guerra de Troia estava chegando ao fim, mas para a família Uchiha, a verdadeira batalha pela sobrevivência de Ítaca estava apenas começando. Entre pretendentes gananciosos, promessas de lealdade e a esperança que se recusava a morrer, o destino da ilha repousava sobre os ombros de uma rainha resiliente, uma princesa guerreira e um jovem de cabelos brancos que daria a vida por ambas.
O eco das ondas continuava a bater contra as rochas, contando histórias de heróis que partiram e de um rei que, contra todas as probabilidades, já estava a caminho de casa.
