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Três gracas

Fandom: Três gracas

Criado: 24/07/2026

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Onde o Sangue Encontra o Mar

O vento soprava do sul, trazendo o cheiro de sal e a promessa de uma tempestade que ainda demoraria a chegar. Na varanda da casa de pedra, onde o silêncio costumava ser o único habitante além das memórias, um som novo agora preenchia as frestas das janelas: o choro rítmico e exigente de uma vida nova.

Gerluce, com seus cabelos escuros presos em um coque frouxo que deixava algumas mechas caírem sobre o rosto pálido, embalava o pequeno embrulho nos braços. Seus olhos, profundos e atentos, não saíam do rosto do bebê. Havia uma solenidade em seus gestos, uma reverência que apenas quem conheceu a crueza do mundo poderia dedicar à fragilidade de um recém-nascido.

— Ele finalmente adormeceu — sussurrou ela, sentindo o peso reconfortante em seu peito.

Arminda apareceu na porta da cozinha, enxugando as mãos em um pano de prato. Seus cabelos ruivos, como chamas domadas pela luz do entardecer, brilhavam sob o sol poente. Ela se aproximou com passos leves, o assoalho de madeira rangendo minimamente sob seus pés, um som que agora ela aprendera a evitar para não despertar o filho.

— Ele tem o seu gênio, Gerluce — disse Arminda, um sorriso suave brincando nos lábios. — Teimoso como uma mula quando decide que não quer dormir.

Gerluce soltou um riso baixo, quase inaudível.

— E tem o seu apetite. Não para de procurar o que comer nem quando está sonhando.

Arminda parou ao lado dela, passando o braço pela cintura da companheira. Elas ficaram ali por um longo tempo, observando o horizonte onde o azul do céu se fundia ao cinza do oceano. A jornada até aquele momento não tinha sido simples. Para as Três Graças, a vida nunca fora um caminho de pétalas, mas sim de espinhos e escolhas difíceis. Ter um filho, criar uma extensão de si mesmas em um mundo que tantas vezes tentara diminuí-las, era o ato final de rebeldia.

— Você acha que ele vai ser como nós? — perguntou Arminda, a voz subitamente séria.

— Em que sentido? — Gerluce desviou o olhar do bebê para encarar os olhos verdes de Arminda.

— Marcado. Pelas histórias, pelo passado. Pelas coisas que não pudemos deixar para trás.

Gerluce suspirou, ajeitando a manta de lã que protegia a criança.

— O sangue corre, Arminda. Não podemos filtrar o que ele herda. Mas podemos ensinar a ele como carregar o fardo. Ele não vai crescer no escuro, como nós crescemos.

Arminda encostou a cabeça no ombro de Gerluce. O contraste entre o ébano dos cabelos de uma e o fogo dos cabelos da outra criava uma imagem de equilíbrio perfeito, uma dualidade que sustentava aquela casa.

— Às vezes eu tenho medo — confessou Arminda em um sussurro. — De que o mundo o encontre. De que ele seja grande demais para esse esconderijo que construímos.

— O mundo sempre encontra quem vale a pena ser encontrado — respondeu Gerluce, com uma firmeza que não admitia contestações. — Mas até lá, ele é nosso. Só nosso.

O bebê se mexeu, soltando um pequeno suspiro de satisfação, e as duas mulheres prenderam a respiração, temendo que o momento de paz fosse interrompido. Quando ele se acalmou novamente, Arminda se afastou um pouco para olhar para a mesa posta no interior da casa.

— O jantar vai esfriar. Deixe-me colocá-lo no berço.

— Não — disse Gerluce, apertando o filho um pouco mais contra si. — Deixe-o aqui. Sinto que se eu o soltar agora, vou esquecer como é a sensação de ser completa.

Arminda sorriu, um brilho de compreensão nos olhos. Ela sabia o que Gerluce sentia. Para alguém que passara tanto tempo protegendo a própria alma com camadas de gelo e silêncio, o calor daquela criança era um sol permanente.

— Então eu trago os pratos para cá — decidiu Arminda. — Comeremos sob as estrelas.

— As estrelas ainda não saíram, Arminda.

— Elas estão esperando o sinal. Elas sempre esperam por você.

Arminda voltou para a cozinha, e Gerluce ficou sozinha com o filho por mais alguns instantes. Ela tocou a bochecha macia do bebê com a ponta dos dedos. Ele era uma mistura de ambas: a determinação silenciosa que Gerluce via no espelho todos os dias e a vivacidade indomável que Arminda exalava.

— Você vai ser o que quiser — murmurou Gerluce para o ouvido pequeno. — Mas, por enquanto, seja apenas o meu descanso.

Minutos depois, Arminda retornou com uma bandeja, equilibrando-a com a habilidade de quem já fizera aquilo mil vezes. Ela colocou a comida sobre a pequena mesa de ferro da varanda e serviu dois copos de vinho. O vinho era tinto, escuro como os cabelos de Gerluce.

— Um brinde — propôs Arminda, levantando o copo.

— A quê? — Gerluce perguntou, arqueando uma sobrancelha.

— À sobrevivência. E ao que floresce depois dela.

Os copos tilintaram suavemente. O som foi o sinal para que a primeira estrela surgisse no firmamento, um ponto solitário de luz sobre o mar revolto.

— Ele vai precisar de irmãos, você sabe — disse Arminda, após um gole longo, observando a reação de Gerluce com um olhar travesso.

Gerluce quase engasgou com o vinho, seus olhos arregalados de surpresa.

— Arminda, ele não tem nem dois meses!

— Eu sei. Mas olhe para esta casa. Ela é grande demais para apenas uma criança. E imagine só, Gerluce... mais um par de pés correndo por aqui. Talvez uma menina com os seus olhos.

Gerluce olhou para o berço improvisado nos seus braços e depois para a mulher ruiva à sua frente. A ideia, que antes pareceria um sacrifício impossível, agora soava como uma promessa de continuidade.

— Você quer me enlouquecer — disse Gerluce, embora houvesse uma doçura em sua voz que desmentia as palavras.

— Eu já enlouqueci você há muito tempo — rebateu Arminda, rindo. — Eu apenas estou expandindo o território.

— Uma coisa de cada vez — ponderou Gerluce, voltando sua atenção para o horizonte. — Primeiro, vamos ensiná-lo a falar. Quero que a primeira palavra dele seja o seu nome.

— Por quê? Para ele me culpar quando quebrar algo? — Arminda brincou.

— Não. Para que ele saiba quem é o coração desta casa.

Arminda sentiu a garganta apertar. Ela se inclinou e beijou a testa de Gerluce, e depois a do bebê. Naquele momento, o peso do passado, as perdas e as lutas das Três Graças pareciam distantes, como se pertencessem a outra vida, a outras pessoas. Ali, naquela varanda, o tempo havia parado para que o amor pudesse, finalmente, respirar.

— Ele vai ser forte — afirmou Arminda, retomando o lugar na cadeira.

— Ele já é — concordou Gerluce.

A noite caiu completamente, envolvendo a casa de pedra em um manto de veludo. O som das ondas batendo nos rochedos lá embaixo era uma canção de ninar natural, um lembrete constante de que a vida, assim como o mar, sempre encontra uma maneira de persistir, de moldar a rocha, de criar novos caminhos onde antes só havia resistência.

— Arminda? — chamou Gerluce, quando o silêncio se tornou profundo.

— Sim?

— Obrigada.

Arminda não precisou perguntar pelo quê. Ela apenas estendeu a mão e entrelaçou seus dedos nos de Gerluce, o calor da pele contra pele selando um pacto que não precisava de palavras. Elas eram as guardiãs daquele novo começo, as tecelãs de um destino que agora tinha um nome, um rosto e um futuro.

E enquanto o bebê dormia, alheio às tempestades do mundo e às glórias de sua linhagem, as duas mulheres vigiavam, prontas para enfrentar qualquer coisa que ousasse ameaçar a paz que haviam conquistado. Pois para Gerluce e Arminda, o amor não era apenas um sentimento; era a fortaleza que elas haviam construído com sangue, sombra e, agora, com a luz mais pura que já conheceram.

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