
sombras noturnas
Fandom: acotar
Criado: 24/07/2026
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Sombras e Jasmim
O ar nas montanhas de Illyria era tão cortante quanto uma lâmina de aço recém-forjada. Alyssa puxou sua capa de lã mais apertada contra o corpo, sentindo o frio penetrar até os ossos, mas não ousou recuar. Ela estava parada no parapeito de pedra de uma varanda esquecida em Velaris, a Cidade da Luz Estelar, mas naquela noite, a luz parecia ter sido drenada do mundo.
Ela sabia que ele viria. Ninguém entrava em Velaris com segredos tão pesados quanto os dela sem atrair a atenção do Mestre Espião da Corte Noturna.
O silêncio era absoluto, até que deixou de ser. Não houve som de passos, nem o roçar de tecido contra a pedra. Apenas uma mudança na densidade do ar, um perfume súbito de jasmim e fumaça fria que envolveu Alyssa como um abraço fantasmagórico.
— É imprudente para uma fada da sua linhagem esperar sozinha no escuro — disse uma voz profunda, arrastada, que parecia vibrar diretamente na base da coluna de Alyssa.
Ela se virou lentamente. Ele estava lá, encostado em uma coluna de mármore, quase fundido com as sombras que pareciam ganhar vida própria ao seu redor. Azriel. O encantador de sombras. Suas asas illyrianas estavam recolhidas, vastas e negras, e a luz da lua refletia-se timidamente na icônica Sifão azul que adornava o dorso de sua mão marcada por cicatrizes.
— Eu não estou sozinha — respondeu Alyssa, tentando manter a voz firme, apesar do coração martelar contra as costelas. — As sombras estão comigo. Elas me disseram que você estava vindo.
Azriel deu um passo à frente, saindo da escuridão total. Seu rosto era de uma beleza devastadora e fria, os olhos avelã observando-a com uma intensidade que parecia despir sua alma de qualquer mentira.
— Minhas sombras não costumam falar com estranhos — comentou ele, o tom de voz calmo, mas carregado de uma ameaça implícita. — E as sombras que te cercam... elas não pertencem a este lugar.
— Elas pertencem a quem as escuta, Azriel — disse ela, usando o nome dele com uma ousadia que o fez inclinar levemente a cabeça.
— Você sabe quem eu sou. Isso já era esperado — disse ele, aproximando-se mais. — Mas eu sei muito pouco sobre você, Alyssa. E na Corte Noturna, o que eu não sei, eu descubro. Geralmente de formas que as pessoas preferem evitar.
Alyssa sentiu o frio das sombras dele roçarem sua pele, uma sensação curiosamente familiar, como um eco de algo que ela mesma carregava dentro de si.
— Eu não vim aqui para causar problemas ao Grão-Senhor ou à sua corte — afirmou ela, dando um passo corajoso em direção a ele. — Eu vim porque tenho informações sobre o movimento nas terras humanas. Algo que nem mesmo os seus espiões conseguiram captar ainda.
Azriel soltou um riso curto, sem humor.
— Meus espiões estão em todos os lugares. Não há um sussurro nos reinos mortais que não chegue aos meus ouvidos em questão de horas.
— Então você já ouviu falar da Ordem da Cinza? — perguntou ela, arqueando uma sobrancelha.
O silêncio que se seguiu foi diferente. Foi tenso, carregado. Azriel não se moveu, mas Alyssa notou o leve estreitamento de seus olhos. Ele não sabia. Pela primeira vez em muito tempo, o Mestre Espião estava em desvantagem de informação.
— Prossiga — ordenou ele, a voz agora tão afiada quanto a adaga Reveladora da Verdade que pendia em seu cinto.
— Eles encontraram uma maneira de silenciar as sombras, Azriel — explicou ela, a voz baixando para um sussurro urgente. — Eles estão usando um tipo de metal antigo, algo que precede a Muralha. Quando eles o usam, você não consegue ver, não consegue ouvir. É como se o mundo simplesmente deixasse de existir para quem observa do escuro.
Azriel deu mais um passo, desta vez invadindo o espaço pessoal de Alyssa. Ele era alto, uma presença imponente que exalava poder e uma tristeza antiga e silenciosa.
— Por que você está me contando isso? — perguntou ele, os olhos fixos nos dela. — O que você quer em troca? Proteção? Ouro?
Alyssa sentiu o calor que emanava dele, contrastando com o ar gelado da noite. Ela estendeu a mão, mas hesitou antes de tocar o braço dele, as cicatrizes em suas mãos sendo um lembrete constante da dor que ele carregava.
— Eu quero que eles parem — disse ela, com sinceridade. — Eles destruíram minha vila tentando "testar" esse metal. Eu sou a única que sobrou porque as sombras me esconderam. Mas elas estão com medo, Azriel. Elas estão morrendo.
As sombras de Azriel agitaram-se nos ombros dele, como serpentes negras curiosas, e uma delas se esticou para tocar a ponta dos dedos de Alyssa. Ele observou a interação com uma expressão indecifrável.
— Você é uma Encantadora de Sombras — afirmou ele, não como uma pergunta, mas como uma constatação. — Eu pensei que...
— Que você era o único? — Alyssa completou com um sorriso triste. — O mundo é vasto, Mestre Espião. E o abismo tem muitos filhos.
Azriel permaneceu em silêncio por um longo tempo, processando as palavras dela. Ele olhou para a cidade de Velaris lá embaixo, as luzes brilhando como joias sobre o rio Sidra. Sua responsabilidade era proteger aquele brilho, custasse o que custasse.
— Se o que você diz for verdade — começou ele, voltando sua atenção para ela —, Prythian corre um perigo que não estamos preparados para enfrentar.
— É verdade — garantiu ela. — E eu posso levar você até onde eles estão forjando o metal. Mas precisamos ir agora, antes que a próxima lua se ponha.
Azriel estudou o rosto de Alyssa. Ele viu a dor, viu a determinação e, acima de tudo, viu o reflexo da mesma escuridão que ele carregava no peito. Ele não confiava nela, não totalmente, mas as sombras dele... elas pareciam confiar. Elas sussurravam canções de reconhecimento para a fêmea diante dele.
— Se isso for uma armadilha, Alyssa — disse ele, a voz baixa e perigosa —, você descobrirá por que sou chamado de o Mestre Espião da Corte Noturna. Minha paciência com traidores é inexistente.
— Eu não sou uma traidora — respondeu ela, sustentando o olhar dele sem vacilar. — Eu sou uma sobrevivente. E, no momento, somos os únicos que podem impedir que o resto do mundo se torne apenas cinzas e silêncio.
Azriel desembainhou Reveladora da Verdade apenas o suficiente para que o brilho sombrio da lâmina fosse visível.
— Venha comigo — disse ele. — Vamos falar com o Grão-Senhor.
— Rhysand não vai gostar de saber que há algo que ele não controla — comentou Alyssa, seguindo-o enquanto ele se afastava da varanda.
Azriel parou e olhou por cima do ombro, um esboço de um sorriso sombrio brincando em seus lábios.
— Rhysand gosta de surpresas tanto quanto gosta de vinho bom. Mas ele valoriza a sobrevivência acima de tudo.
Eles caminharam pelos corredores silenciosos da Casa do Vento, o som das botas de Azriel ecoando no mármore. Alyssa sentia o peso da presença dele ao seu lado, uma força da natureza contida em uma forma feérica.
— Seus irmãos — perguntou ela, quebrando o silêncio —, eles sabem que você está aqui?
— Cassian está ocupado demais treinando os novos recrutas, e Rhysand está com Feyre — respondeu Azriel, sem olhar para trás. — Eu sou o único que caminha onde os outros não podem ver.
— Deve ser solitário — disse ela, suavemente.
Azriel parou abruptamente e se virou para ela. Por um momento, a máscara de frieza dele vacilou, revelando uma centelha de algo cru e vulnerável.
— O silêncio não é solidão para quem sabe ouvir — retrucou ele, embora houvesse uma nota de hesitação em sua voz.
— Mas até as sombras precisam de descanso, Azriel — insistiu Alyssa. — Você carrega o peso do mundo nos ombros e espera que ninguém perceba que seus joelhos estão tremendo.
Ele soltou uma respiração pesada, o vapor condensando no ar frio.
— Meus joelhos nunca tremem — disse ele, voltando a caminhar, mas desta vez o ritmo era menos agressivo.
Eles chegaram a uma porta maciça de carvalho esculpido com constelações. Azriel parou e colocou a mão na maçaneta, mas antes de abrir, ele olhou para Alyssa uma última vez.
— O que você viu naquela vila... o que o metal fez... — Ele hesitou. — As sombras realmente morrem?
Alyssa sentiu uma pontada de tristeza. Ela sabia que, para Azriel, as sombras eram mais do que ferramentas; eram companheiras, talvez as únicas que nunca o julgaram.
— Elas não morrem exatamente — explicou ela. — Elas são apagadas. É como se a própria memória da escuridão fosse removida da existência.
Os dedos de Azriel apertaram a maçaneta com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
— Então não permitiremos que isso aconteça.
Ele abriu a porta, revelando o escritório iluminado por velas onde o Grão-Senhor da Corte Noturna aguardava. Rhysand estava sentado atrás de uma mesa de ébano, uma expressão de curiosidade divertida em seu rosto, que rapidamente se transformou em seriedade ao notar a tensão nas asas de Azriel.
— Azriel — disse Rhysand, sua voz como veludo e trovão. — Vejo que trouxe uma convidada.
— Rhys — disse Azriel, fazendo um gesto para Alyssa entrar. — Esta é Alyssa. E temo que as notícias que ela traz sejam o início de uma guerra que não podemos ver chegar.
Alyssa deu um passo à frente, sentindo o poder esmagador de Rhysand preencher a sala, mas ela se manteve ereta. Ela olhou para Azriel, que agora estava posicionado ao lado dela, uma sombra protetora e formidável.
— Grão-Senhor — começou ela, inclinando a cabeça respeitosamente. — O escuro está sendo caçado. E se as sombras caírem, a luz de Velaris será a próxima.
Rhysand trocou um olhar significativo com Azriel. O Mestre Espião apenas assentiu, um gesto sutil que comunicava mais do que mil palavras. Ele acreditava nela. Ou, pelo menos, acreditava no perigo que ela representava.
— Conte-me tudo — ordenou Rhysand, recostando-se na cadeira. — Começando pelo metal.
Alyssa começou a falar, descrevendo os horrores que vira e a tecnologia sombria que os humanos estavam desenvolvendo. Enquanto falava, ela sentia o olhar de Azriel sobre ela, constante e inabalável.
Pela primeira vez em muito tempo, Alyssa não se sentiu como uma fugitiva das sombras. Ela se sentiu como alguém que finalmente encontrara o único lugar no mundo onde a escuridão não era algo a ser temido, mas algo a ser honrado.
Ao final do relato, o escritório estava mergulhado em um silêncio pesado. Rhysand parecia estar calculando mil possibilidades por segundo, sua mente uma colmeia de estratégias.
— Azriel — disse o Grão-Senhor finalmente —, leve-a para um dos quartos de hóspedes. Dê a ela o que precisar. Amanhã, partiremos para as fronteiras.
Azriel fez uma breve reverência e sinalizou para que Alyssa o seguisse. Eles saíram do escritório e caminharam de volta pelo corredor, o silêncio da noite agora parecendo menos opressor.
— Você acredita que podemos pará-los? — perguntou Alyssa, quando pararam diante de uma porta ricamente decorada.
Azriel olhou para ela, e por um breve instante, a luz das tochas refletiu em seus olhos, revelando uma determinação feroz.
— Eu sou o Mestre Espião da Corte Noturna, Alyssa — disse ele, a voz baixa e firme. — Eu passei séculos aprendendo a dominar o que os outros temem. Se eles querem lutar contra as sombras, eles terão que passar por mim primeiro.
Ele estendeu a mão e, desta vez, não recuou quando ela a tocou. A pele dele era quente, as cicatrizes contando histórias de batalhas que ela mal podia imaginar.
— Obrigada, Azriel — sussurrou ela.
— Não me agradeça ainda — respondeu ele, embora houvesse uma suavidade inesperada em seu tom. — A noite é longa, e o amanhecer está longe. Descanse. Você precisará de todas as suas forças amanhã.
Ele esperou que ela entrasse no quarto e fechasse a porta. Azriel permaneceu no corredor por alguns minutos, as sombras sussurrando em seus ouvidos sobre a fêmea que dormia do outro lado da madeira.
Ela era um enigma, um perigo e, talvez, a única pessoa que entendia o que significava viver entre dois mundos. Ele respirou fundo, o cheiro de jasmim e fumaça ainda impregnado em sua capa, e então, com um bater silencioso de asas, desapareceu na noite, pronto para vigiar as fronteiras do reino que jurara proteger.
A guerra estava chegando, mas pela primeira vez, Azriel sentia que não teria que enfrentar o abismo sozinho. As sombras estavam inquietas, sim, mas elas também estavam esperançosas. E na Corte Noturna, a esperança era a arma mais poderosa de todas.
