
Amor louco
Fandom: Estilhaça-me
Criado: 24/07/2026
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O Eco de um Coração Invisível
O cheiro de antisséptico e metal frio era a única constante na vida de Clara. Na enfermaria do Setor 45, as luzes fluorescentes zumbiam em um tom monótono que parecia ecoar a própria batida de seu coração: persistente, mas frequentemente ignorada. Ela ajustou o jaleco branco, sentindo o tecido apertar levemente em seus braços. Clara sempre desejou ser menor, ocupar menos espaço, fundir-se às paredes cinzas do Restabelecimento para que ninguém notasse suas inseguranças, mas havia uma pessoa que sempre a enxergava.
Ou, pelo menos, costumava enxergar.
Aaron Warner não era o monstro que o mundo pintava para ela. Para Clara, ele era o menino que escondia cicatrizes profundas sob uniformes impecáveis; o jovem que, em noites de insônia e desespero, buscava refúgio na enfermaria não por remédios, mas por silêncio e compreensão. Ela conhecia cada detalhe de sua história, desde os abusos de Anderson até o peso insuportável de liderar um exército que ele desprezava. Ela era o seu porto seguro, a única que ele permitia que visse sua vulnerabilidade.
Mas agora, tudo havia mudado.
Clara organizava os frascos de morfina quando a porta deslizou, revelando a figura alta e imponente de Warner. Por um segundo, o coração dela deu aquele salto familiar, uma esperança tola que ela odiava. Mas então ela viu os olhos dele. Eles não estavam frios, nem distantes. Estavam acesos com uma intensidade que ela nunca fora capaz de provocar.
— Você tem um momento? — perguntou ele, a voz suave, desprovida da autoridade cortante que usava com os soldados.
— Para você, Aaron? Sempre — respondeu Clara, forçando um sorriso que não chegou aos olhos. Ela se sentou em um dos bancos altos, limpando as mãos no jaleco. — Aconteceu algo? Outra dor de cabeça?
Warner caminhou pela sala, mas não se sentou. Ele parecia inquieto, uma energia vibrante emanando dele.
— Não é dor de cabeça. É... é ela, Clara.
O nome não precisava ser dito. Juliette. A garota com o toque letal, a prisioneira que se tornara a obsessão — e agora, o mundo — de Aaron. Clara sentiu uma pontada no peito, como se uma agulha fina estivesse perfurando seu pulmão, dificultando a respiração.
— Ela acordou? — perguntou Clara, mantendo a voz firme por puro instinto profissional.
— Sim. E ela falou comigo de um jeito... — Ele parou, olhando para o nada, um meio sorriso brincando em seus lábios. — Pela primeira vez, sinto que não estou mais sozinho no escuro. Você sempre esteve lá para me segurar, Clara, e eu sou eternamente grato por isso. Mas com ela... é como se eu estivesse finalmente respirando.
Clara desviou o olhar para um estetoscópio sobre a mesa. As palavras dele eram como golpes físicos. "Você sempre esteve lá para me segurar". Ela era o andaime, a estrutura de apoio que ele usava para se reconstruir, apenas para que ele pudesse caminhar em direção a outra pessoa.
— Fico feliz por você, Aaron — mentiu ela, a voz saindo um pouco mais rouca do que pretendia. — Você merece encontrar um pouco de paz.
Warner se aproximou e colocou a mão sobre a dela. O toque era quente, familiar, mas agora parecia carregado de uma despedida implícita.
— Eu sabia que você entenderia. Você é a única pessoa que realmente me conhece. Eu precisava te contar antes de qualquer coisa. Eu acho... eu acho que a amo.
O mundo de Clara desmoronou em silêncio. Ela queria gritar que o amava desde os quinze anos. Queria dizer que conhecia cada uma de suas dores de cabeça causadas pelo estresse, que sabia como ele gostava do café e como ele apertava os punhos quando pensava no pai. Ela queria perguntar por que a dedicação dela, a lealdade dela e o amor incondicional dela não eram suficientes. Por que ele precisava de uma garota que mal o conhecia para se sentir vivo?
— O amor é algo poderoso — disse ela, retirando a mão da dele com a desculpa de organizar alguns papéis. — Só tome cuidado. O Restabelecimento não é lugar para sentimentos assim. Seu pai...
— Eu não me importo com o meu pai — interrompeu ele, a determinação endurecendo suas feições. — Eu faria qualquer coisa por ela, Clara. Destruiria este lugar se fosse necessário.
— Eu sei que faria — sussurrou ela.
Houve um silêncio pesado entre eles. Warner a observou por um momento, as sobrancelhas levemente franzidas, como se estivesse tentando decifrar algo no rosto dela que ele nunca havia notado antes. Por um breve instante, Clara teve medo de que sua dor estivesse estampada em sua testa, que sua insegurança sobre seu corpo, sobre seu valor, estivesse gritando para ele.
— Você está bem? — perguntou ele, dando um passo à frente. — Parece pálida.
— É apenas o turno dobrado, Aaron. — Ela forçou uma risada seca. — Muita papelada e pouco sono. Nada que eu não esteja acostumada.
— Não se esforce demais — disse ele, voltando para a porta. — Preciso de você inteira. Você é a única pessoa em quem confio neste setor.
— Eu sei.
— Vejo você amanhã?
— Com certeza.
Quando a porta se fechou, o silêncio da enfermaria tornou-se ensurdecedor. Clara desabou na cadeira, as pernas tremendo. Ela olhou para o próprio reflexo em uma das superfícies metálicas: as bochechas redondas, os olhos cansados, a silhueta que ela sempre tentava esconder sob roupas largas. Ela se sentia pequena, apesar de saber que ocupava mais espaço do que Juliette.
Sentia-se invisível.
Ela pegou um prontuário médico, mas as letras dançavam diante de seus olhos embaçados pelas lágrimas. Ela era a melhor amiga, a confidente, a terapeuta informal. Ela era a pessoa que conhecia os segredos mais obscuros de Aaron Warner, mas nunca seria a pessoa que habitaria seus sonhos.
Horas depois, Clara ainda estava na enfermaria quando o alarme de intrusão soou. Ela sabia o que significava. Juliette. A confusão, a fuga, o caos que a garota trazia consigo. E ela sabia, com uma certeza dolorosa, que Aaron estaria no meio de tudo aquilo, arriscando a própria vida por um olhar daquela menina.
Ela saiu para o corredor, o coração acelerado. Soldados corriam de um lado para o outro, gritos ecoavam pelos dutos de ventilação. No final do corredor principal, ela o viu.
Warner estava de pé, observando a destruição que Juliette deixara em sua esteira. Ele não parecia zangado. Ele parecia maravilhado.
Clara se aproximou lentamente, parando a alguns metros de distância.
— Ela fugiu, não foi? — perguntou ela, embora já soubesse a resposta.
Warner se virou. Havia um corte em seu rosto, um rastro de sangue correndo pela bochecha, mas seus olhos brilhavam.
— Ela é incrível, Clara. Ela tem uma força que nem imagina.
— Ela te machucou — disse Clara, dando um passo à frente, o instinto de enfermeira falando mais alto. Ela estendeu a mão para tocar o ferimento, mas ele se esquivou suavemente.
— Não dói — disse ele, e a crueldade de sua indiferença ao próprio ferimento, comparada à sua obsessão por Juliette, foi o golpe final para Clara. — Nada disso dói agora.
— Aaron, você está perdendo o controle — avisou ela, a voz trêmula. — Se o seu pai descobrir que você facilitou isso, ou que está deixando seus sentimentos interferirem...
— Deixe que ele descubra. — Warner olhou para a saída, para o mundo exterior coberto de cinzas onde Juliette havia desaparecido. — Eu nunca me senti tão vivo.
Clara baixou a mão, sentindo o peso do vazio em seu peito. Ela percebeu, naquele momento, que não importava o quanto ela soubesse sobre ele, ou o quanto ela o tivesse apoiado nos momentos mais sombrios. Para Aaron, ela era uma parte do seu passado, uma âncora que o mantinha preso ao chão. Juliette era o céu, o perigo, o futuro que ele desejava desesperadamente, mesmo que isso o destruísse.
— Eu vou voltar para a enfermaria — disse Clara, sua voz quase um sussurro. — Tenho muitos feridos para cuidar.
Warner assentiu, já distraído, seus pensamentos claramente a quilômetros de distância.
— Sim, claro. Faça o seu trabalho, Clara. Você é excelente nisso.
Ela caminhou de volta pelo corredor frio, cada passo parecendo mais pesado que o anterior. Ela entrou na enfermaria e fechou a porta, encostando as costas na superfície de metal. As lágrimas finalmente caíram, quentes e silenciosas.
Ela era a melhor amiga de Aaron Warner. Ela sabia tudo sobre ele. Ela o amava com cada fibra de seu ser.
Mas para ele, ela era apenas a enfermeira que limpava suas feridas, enquanto outra pessoa era a razão pela qual ele estava disposto a sangrar.
Clara limpou o rosto com as costas da mão, respirando fundo. Ela olhou para as prateleiras de remédios, para as macas vazias, para o ambiente que era seu único domínio. Ela continuaria ali. Continuaria sendo a sua confidente, continuaria ouvindo sobre como Juliette era perfeita, continuaria curando-o sempre que ele voltasse quebrado.
Porque essa era a maldição de amar alguém como Aaron Warner: você se torna o cenário da vida dele, essencial para a composição da imagem, mas nunca o foco da pintura.
— Próximo — disse ela para a sala vazia, preparando-se para o fluxo de soldados feridos que certamente viria, enquanto seu próprio coração permanecia como o único paciente que ela nunca conseguiria curar.
