
SPIDER-MAN
Fandom: Naruto
Criado: 24/07/2026
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Lentes e Olheiras
O sinal da Escola Secundária de Konoha tocou com um estridore que pareceu perfurar o crânio de Naruto Uzumaki. Ele não estava apenas cansado; ele sentia como se tivesse sido atropelado por um caminhão de entregas e, em seguida, o motorista tivesse dado marcha à ré. A realidade de ser o "amigão da vizinhança" em uma metrópole que nunca dormia era que, consequentemente, Naruto também não dormia.
Ele enterrou o rosto nos braços cruzados sobre a mesa de carvalho riscada, tentando ignorar o burburinho da sala de aula.
— Ei, acorda. Você parece um figurante de filme de terror — a voz preguiçosa de Shikamaru Nara veio ao seu lado.
Naruto resmungou algo inteligível, a bochecha amassada contra o braço do casaco laranja.
— Que problemático... — Shikamaru suspirou, folheando um caderno. — Você perdeu a explicação de física quase inteira. O Kakashi-sensei só não te deu uma advertência porque ele mesmo estava lendo um livro por trás do material didático.
Naruto finalmente levantou a cabeça. Seus olhos azuis estavam injetados e havia um corte fino, quase imperceptível, perto da têmpera.
— Eu tive um... problema com o despertador. De novo.
— Seu despertador tem garras e tenta assaltar caixas eletrônicos às três da manhã? — Shikamaru sussurrou, inclinando-se para frente. — Naruto, você precisa se organizar. Desse jeito, vai rodar de ano antes do final do semestre.
— Eu sei, Shika. Eu sei. É que... as coisas andam agitadas.
O barulho na sala aumentou. Um grupo de garotas no fundo, liderado por Ino Yamanaka, estava amontoado em volta de um celular. Os gritos de empolgação eram nítidos.
— Ai meu Deus, vocês viram o vídeo novo no "Spider-Watch"? — Sakura Haruno perguntou, os olhos brilhando. — Ele impediu aquele assalto na ponte ontem à noite. Olha aquele salto!
— O que eu queria mesmo era ver o que tem embaixo daquela máscara — Ino comentou, suspirando enquanto dava zoom em uma foto borrada. — Com aquele físico, ele deve ser a coisa mais linda de Konoha. Imagina se ele estuda aqui?
Naruto sentiu um frio na barriga. Ele se ajeitou na cadeira, tentando parecer o mais "comum" e "fracassado" possível. Ser comparado ao vigilante que todos amavam era um exercício diário de autodomínio. Para a escola, ele era apenas o órfão barulhento, meio desajeitado, que sempre chegava atrasado e tirava notas medíocres.
— Ele é um herói, Ino — Sakura pontuou, embora também sorrisse para a tela. — Mas admito, o mistério deixa ele dez vezes mais interessante.
Do outro lado do corredor da sala, sentado perto da janela, Sasuke Uchiha não parecia interessado na conversa. Ele estava limpando a lente de sua câmera reflex com um pano de microfibra, os movimentos precisos e calmos. Sasuke era o oposto de Naruto: organizado, silencioso e letalmente inteligente. Ele não era de se envolver em fofocas, mas o volume das vozes no fundo da sala parecia estar testando sua paciência.
— Eu daria tudo por um encontro com ele — continuou Ino, rindo. — Ele deve ser tão confiante e perfeito. Um verdadeiro espécime.
Sasuke parou de limpar a lente. Ele não levantou o olhar, mas sua voz cortou o ar com a frieza de uma lâmina de gelo.
— Vocês são patéticas.
O silêncio caiu sobre o grupo. Até Naruto parou de fingir que procurava um lápis na mochila para observar a cena.
— O que você disse, Sasuke-kun? — Sakura perguntou, meio sem jeito.
— Vocês falam dele como se ele fosse um produto em uma vitrine — Sasuke disse, finalmente guardando a lente e encarando as garotas com aqueles olhos escuros e profundos. — "Gostoso", "perfeito", "um espécime". Ele é uma pessoa.
— Ah, qual é, Sasuke! É só o Homem-Aranha — Ino retrucou, cruzando os braços. — Todo mundo comenta. Ele é a maior celebridade da cidade. É óbvio que a gente quer saber quem ele é.
— E por que ele deveria querer que vocês saibam? — Sasuke rebateu. — Se ele usa uma máscara, é porque quer ter uma vida fora disso. Vocês transformam o cara em um objeto de fetiche ou em um meme de internet e esquecem que, por trás daquilo, existe alguém que provavelmente está exausto, sangrando ou apenas querendo comer um lanche em paz sem ter um celular apontado para a cara.
Naruto sentiu o coração falhar uma batida. Ele olhou para Sasuke, chocado. Ninguém nunca falava assim. Todos falavam do Homem-Aranha como se ele fosse um personagem de videogame, uma entidade pública que pertencia à cidade. Ouvir Sasuke Uchiha — o cara mais distante e indiferente da escola — defender a humanidade do vigilante foi como levar um soco no estômago.
— Credo, que mau humor — resmungou Ino, voltando para o celular, embora o clima de empolgação tivesse murchado visivelmente.
Sasuke não respondeu. Ele apenas colocou a câmera na mochila, levantou-se e saiu da sala, já que o intervalo havia começado.
— Isso foi... intenso — Shikamaru comentou, observando a porta. — O Uchiha tem um ponto, embora seja um chato.
Naruto não conseguiu responder de imediato. Ele ficou parado, processando as palavras. "Alguém que provavelmente está exausto, sangrando...". Ele tocou o corte na têmpora, sentindo a ardência.
— Ei, Naruto? Terra chamando o loiro burro — Shikamaru estalou os dedos na frente do rosto dele.
— Hã? Ah, sim. Eu só... vou ao banheiro, Shika. Já volto.
Naruto saiu da sala apressado. Ele precisava de ar. Mas, mais do que isso, ele sentiu uma curiosidade estranha e magnética. Ele sempre achou que Sasuke o detestava — ou melhor, que nem o notava. O Uchiha era o gênio da fotografia, o primeiro da classe, o cara que parecia ter a vida sob controle. Naruto era o caos em forma de gente.
Ele encontrou Sasuke no pátio interno, um lugar mais reservado onde poucos alunos iam. O Uchiha estava sentado em um banco de pedra, observando as fotos na tela digital de sua câmera.
Naruto hesitou. Ele deveria apenas passar direto, mas sua impulsividade — sua maior virtude e seu pior defeito — falou mais alto.
— Ei, Sasuke!
O moreno nem sequer moveu a cabeça, mas seus ombros ficaram levemente mais tensos.
— O que você quer, Uzumaki?
— Aquilo que você disse na sala... — Naruto se aproximou, coçando a nuca, sentindo-se estranhamente nervoso. — Sobre o Homem-Aranha. Foi legal.
Sasuke finalmente levantou os olhos. Ele analisou Naruto de cima a baixo. O olhar dele era clínico, como se estivesse ajustando o foco de uma lente para capturar cada detalhe. Ele notou as olheiras profundas, o tremor leve nas mãos do loiro e, claro, o pequeno corte que Naruto tentava esconder com o cabelo rebelde.
— Não foi "legal" — Sasuke disse, voltando a atenção para a câmera. — Foi apenas lógico. As pessoas são superficiais. Elas amam o símbolo, mas não teriam estômago para a realidade da pessoa.
— Você... você tira fotos dele, não tira? — Naruto perguntou, sentando-se a uma distância segura no mesmo banco. — Eu vi algumas fotos no jornal da escola. São as melhores. Você sempre consegue ângulos que ninguém mais consegue.
Sasuke deu um meio sorriso, algo quase imperceptível, mas que não passou despercebido por Naruto.
— Eu não persigo ele, se é o que você está pensando. Eu só gosto de observar a cidade. O Homem-Aranha é apenas uma parte da paisagem urbana de Konoha. Às vezes ele entra no meu quadro.
— E o que você vê? — Naruto perguntou, a voz baixando de tom, genuinamente interessado. — Quando você olha pelas lentes... o que você vê nele?
Sasuke ficou em silêncio por um longo tempo. O som do vento balançando as árvores do pátio era a única coisa entre eles. Ele apertou um botão na câmera e virou a tela para Naruto.
Era uma foto de duas noites atrás. O Homem-Aranha estava sentado no topo de um reservatório de água, de costas para a câmera, observando as luzes da cidade. Não era uma foto de ação. Não havia teias, nem vilões, nem glória. Havia apenas uma silhueta curvada, que parecia pequena diante da imensidão dos prédios.
— Vejo alguém que carrega um peso maior do que as costas aguentam — Sasuke disse calmamente. — Vejo alguém que está sozinho, mesmo com a cidade inteira gritando o nome dele.
Naruto sentiu um nó na garganta. Era exatamente assim que ele se sentia. Sozinho no topo do mundo, cercado por milhões de pessoas que amavam a máscara, mas que não faziam ideia de que ele estava com fome, com frio e com saudades dos pais que nunca conheceu.
— Por que você se importa? — Naruto perguntou, a voz levemente embargada. — Quero dizer, você não é fã dele. Você disse que não acompanha.
— Eu não sou fã de ídolos, Uzumaki. Eu sou um observador. E como observador, eu odeio quando a verdade é ignorada em favor de uma fantasia conveniente.
Sasuke desligou a câmera e a guardou na mochila de couro. Ele se levantou, pronto para sair, mas parou por um segundo ao lado de Naruto. Sem olhar diretamente para ele, ele disse:
— Você devia cuidar desse corte na testa. Está começando a inflamar. E durma um pouco. Suas notas já são ruins o suficiente sem você parecer um zumbi.
Antes que Naruto pudesse formular uma resposta — ou uma desculpa esfarrapada sobre como ele tropeçou em um hidrante (sua desculpa padrão) — Sasuke já estava caminhando em direção ao prédio principal.
Naruto ficou ali, sentado no banco frio, sentindo o coração bater num ritmo descompassado. Ele sempre pensou em Sasuke como um rival arrogante, alguém que estava em um pedestal de perfeição. Mas, pela primeira vez, ele sentiu que Sasuke o "viu". Não o Homem-Aranha, mas o Naruto. Ou talvez, a linha que dividia os dois estivesse começando a ficar perigosamente borrada.
— Idiota... — Naruto murmurou para o vazio, um sorriso involuntário surgindo em seus lábios. — Ele é um completo idiota.
No andar de cima, na sala do clube de fotografia, Sasuke Uchiha descarregava as fotos no computador. Ele passou pelas imagens do vigilante saltando entre prédios, mas parou em uma foto que tirou naquela manhã, antes da primeira aula.
Era uma foto de Naruto Uzumaki dormindo na mesa da sala de aula, com a luz do sol batendo em seu cabelo loiro bagunçado.
Sasuke ampliou a imagem. Ele focou no corte na têmpora de Naruto. Depois, voltou para a foto do Homem-Aranha no reservatório de água. Naquela noite, o vigilante tinha sido atingido de raspão por um estilhaço de vidro durante o combate na ponte. Exatamente no mesmo lugar.
O Uchiha encostou-se na cadeira, cruzando os braços. Sua mente trabalhava rápido, conectando os pontos que sua intuição já vinha sussurrando há semanas. As ausências, os machucados, o cansaço crônico, o altruísmo quase irritante de Naruto.
— Uzumaki... — Sasuke sussurrou para a tela escura. — Você é péssimo em esconder segredos.
Mas ele não sentiu vontade de rir. Ele sentiu uma pontada de algo que não conseguia identificar. Era uma mistura de respeito e uma estranha preocupação que ele não deveria ter por alguém que mal conhecia.
Sasuke fechou o arquivo e apagou a foto de Naruto. Ele não precisava de provas digitais. Ele tinha seus olhos. E, por enquanto, ele manteria aquele segredo guardado tão bem quanto o próprio Naruto tentava esconder.
Afinal, como ele mesmo disse: todo mundo amava o herói, mas ninguém se importava com o garoto.
E Sasuke sempre preferiu o que era real.
Enquanto isso, no corredor, Naruto corria para a próxima aula, esbarrando em Kiba e pedindo desculpas aos gritos, sem saber que a pessoa que ele mais temia que o descobrisse era, na verdade, a única que realmente começava a entendê-lo.
O jogo de sombras em Konoha estava apenas começando, e o fio da teia que os unia estava ficando cada vez mais curto. Naruto continuaria caindo, e Sasuke, sem que nenhum dos dois admitisse, estava começando a preparar o lugar para ele pousar.
Mas, por enquanto, eram apenas dois estudantes em uma cidade grande. Um tentando salvar o mundo, e o outro tentando entender por que aquele mundo era tão pesado para um garoto de dezessete anos.
— Problemático... — a voz de Shikamaru ecoou em sua mente quando Naruto entrou na sala de aula, tropeçando nos próprios pés.
Sim, era muito problemático. E estava prestes a ficar muito mais.
