
Deuses
Fandom: Naruto e Deuses Gregos
Criado: 24/07/2026
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O Sangue entre os Destroços
O sol castigava a Ilha dos Despojos com uma crueldade que parecia pessoal. O lugar era um cemitério de civilizações, um amontoado de escudos rachados, espadas enferrujadas e carcaças de navios que outrora carregaram heróis. O ar ali tinha cheiro de ferro e morte, o domínio absoluto de Ares, o deus da guerra.
Tatsuyo, conhecida nos salões do Olimpo como Afrodite, mal conseguia sentir o calor das pedras sob seu corpo. Sua pele parda, antes radiante como o entardecer, estava pálida e coberta por uma fina camada de poeira e salitre. Seus longos cabelos pretos e ondulados, que costumavam ser adornados com pérolas e ouro, estavam emaranhados, servindo apenas como um lençol insuficiente para o pequeno ser que repousava sobre seu peito.
Fazia três dias. Três dias desde que Zeus a expulsara após ela se recusar a cometer o ato impensável. Ele queria que o fruto daquela violência, daquele pecado que ele mesmo impusera à própria filha, fosse apagado da existência. Mas Tatsuyo, embora fosse a deusa do amor e da beleza, descobriu em si uma força que nem mesmo o raio de seu pai poderia destruir: o instinto de mãe.
— Me perdoa... — sussurrou ela, a voz não passando de um estalido seco na garganta. — Por favor, meu pequeno... me perdoa por não ter leite... por não ter nada...
O bebê, um pequeno embrulho de vida teimosa, soltou um choro fraco, um som que rasgava o coração de Tatsuyo mais do que qualquer lâmina. Ele tentava mamar, mas não havia nada. Ela sentia a vida se esvaindo, a consciência oscilando como uma vela sob o vento.
Com as últimas forças que lhe restavam, ela se ajeitou sobre os destroços de uma biga quebrada, colocando o filho em uma posição onde ele ficasse protegido do sol pelo seu próprio corpo. Ela queria que, se o fim chegasse, ele estivesse confortável. Seus olhos pretos se fecharam, e a escuridão finalmente a acolheu.
A alguns quilômetros dali, caminhando entre pilhas de elmos gregos e armaduras persas, Kuro assobiava uma melodia de marcha militar. Ele era Ares, o senhor daquela ilha, mas ali, com seu cabelo branco curto e repicado e seus olhos castanhos escuros brilhando com uma curiosidade quase infantil, ele parecia apenas um guerreiro jovem e atlético. Ele tinha 1,80m de pura energia contida.
— Eu te disse, Shin — comentou Kuro, chutando um pedaço de escudo —, depois de grandes batalhas, a maré sempre traz os melhores brinquedos. Podemos encontrar algum metal estelar aqui hoje.
Ao seu lado, Shin, um semideus que servia como seu braço direito e confidente, mantinha os olhos atentos ao horizonte de metal.
— O senhor sempre diz isso, Kuro-sama, mas o que eu vejo é apenas lixo e... — Shin parou abruptamente. — O que é aquilo?
Kuro seguiu o olhar do amigo. No meio de um vale de destroços, algo que não pertencia àquele cenário de ferrugem brilhava fracamente. Eles apertaram o passo, saltando sobre vigas de madeira podre e pilhas de lanças.
Ao chegarem perto, o humor de Kuro mudou instantaneamente. O sorriso brincalhão desapareceu, substituído por uma expressão de choque puro.
— Pelos deuses... — murmurou Kuro, reconhecendo a forma caída. — Tatsuyo?
Ele se ajoelhou rapidamente ao lado dela. A visão da deusa da beleza naquele estado, jogada como descarte de guerra, enviou uma onda de fúria pelo sangue de Ares. O bebê, sentindo a presença de estranhos, soltou um grito agudo, embora rouco pela desidratação.
— Ela está viva, mas por um fio — disse Shin, pegando o bebê com cuidado extremo, como se segurasse um cristal precioso. — O pequeno também está mal. Precisamos sair daqui agora.
Kuro não hesitou. Ele passou os braços por baixo dos joelhos e das costas de Tatsuyo, levantando-a no estilo noiva. Ela era leve, assustadoramente leve.
— Segure o garoto firme, Shin! — ordenou Kuro, seus olhos castanhos agora faiscando com uma intensidade divina. — Vamos para o Palácio de Ferro. Se alguém pode salvá-los, é ela.
Eles correram. Kuro atravessou o terreno acidentado com a velocidade de um raio, ignorando o cansaço. Cada gemido fraco que saía dos lábios de Tatsuyo era como um soco em seu estômago.
O Palácio de Ares não era um lugar de conforto para a maioria, mas era uma fortaleza impenetrável. Ao cruzarem os portões de bronze, Kuro gritou a plenos pulmões:
— Mãe! Reia! Preciso de ajuda! Agora!
Uma figura feminina de presença esmagadora surgiu no topo da escadaria. Reia, a Grande Mãe, a matriarca que vira gerações de deuses nascerem e caírem, desceu os degraus com uma elegância severa. Seus olhos viram a cena e, em um segundo, ela compreendeu tudo.
— Traga-os para a câmara de cura — ordenou ela. — Shin, leve a criança para as servas. Elas têm leite de cabra sagrada e ambrosia diluída. Kuro, coloque-a no leito de seda.
As horas seguintes foram um borrão de néctar, panos úmidos e orações silenciosas. Reia trabalhou com a paciência de quem molda a terra, limpando as feridas de Tatsuyo e infundindo-lhe vida através de essências divinas.
Quando Tatsuyo finalmente recuperou a consciência, a primeira coisa que sentiu foi o pânico. O cheiro de incenso e ferro era estranho. Onde ela estava? Onde estava seu filho?
Seus olhos pretos se abriram bruscamente, as pupilas dilatadas pelo terror. Ela tentou se levantar, mas o corpo protestou com uma onda de tontura.
— Meu bebê... — ela soluçou, a voz ainda falha. — Onde ele está? O que vocês fizeram com ele?
Ela olhou ao redor e viu três figuras. No pé da cama, o homem de cabelos brancos e olhos castanhos — Kuro. Ao lado dele, o jovem semideus que ela não conhecia. E, sentada em uma cadeira próxima, a figura imponente de Reia.
Para Tatsuyo, todos eram ameaças. Zeus a enviara para a ilha de Ares para morrer. Ares era o deus da guerra, o destruidor. Ele certamente terminaria o serviço de seu pai.
— Fique longe de mim! — gritou ela, encolhendo-se contra a cabeceira da cama, as lágrimas escorrendo livremente. — Por favor, não o matem... eu imploro... matem a mim, mas deixem ele viver!
Kuro deu um passo à frente, as mãos erguidas em um gesto de paz, algo que raramente fazia.
— Ei, calma, Tatsuyo. Ninguém vai matar ninguém aqui — disse ele, tentando usar seu tom mais suave, embora sua voz ainda tivesse a ressonância do trovão. — Você está segura. No meu palácio.
— No seu palácio? — Ela soluçou, o peito arfando. — Você é Ares... o carrasco de Zeus! Ele me mandou para o seu domínio para que você nos eliminasse! Onde está o meu filho?
Reia se aproximou, sua aura emanando uma calma ancestral que forçou o ambiente a desacelerar.
— Minha criança, olhe para mim — disse Reia, sua voz como o som de águas profundas. — Eu sou Reia. Seu filho está no quarto ao lado, dormindo. Ele foi alimentado e está bem. Ninguém aqui seguirá as ordens de Zeus.
Tatsuyo olhou para a mulher mais velha, a desconfiança ainda lutando com a exaustão.
— Ele... ele está vivo? — perguntou ela, a voz quebrada.
— Sim — respondeu Shin, o semideus, dando um passo à frente com um pequeno sorriso. — Ele é um lutador, como a mãe. Bebeu quase um jarro inteiro de leite.
Kuro cruzou os braços, encostando-se em uma coluna de mármore negro. Ele observava Tatsuyo com uma mistura de admiração e uma raiva latente pelo que Zeus fizera.
— Eu posso ser o deus da guerra, Tatsuyo — começou Kuro —, mas não sou um monstro que mata bebês e mães exaustas. Zeus perdeu o juízo se achou que eu faria o trabalho sujo dele.
Tatsuyo começou a chorar novamente, mas desta vez não era apenas de medo; era o alívio esmagador que quebrava as barreiras de sua alma. Ela escondeu o rosto nas mãos, os ombros sacudindo violentamente.
— Ele queria que eu o matasse... — ela confessou entre soluços. — Ele disse que era uma abominação. Mas ele é apenas um bebê... meu bebê...
Kuro sentiu um nó na garganta. Ele nunca fora muito bom com emoções que não envolvessem fúria ou adrenalina, mas ver a deusa do amor naquele estado de vulnerabilidade despertava nele um tipo diferente de proteção.
— Ele não é uma abominação — disse Kuro, sua voz agora firme e séria. — Ele é um convidado do meu reino. E, nesta ilha, a única palavra que vale é a minha. Nem mesmo o "Grande Pai" ousa ditar regras dentro das minhas muralhas de ferro.
Tatsuyo olhou para ele, os olhos pretos ainda úmidos, mas agora focando na figura de Kuro com uma nova perspectiva. O deus da guerra tinha a reputação de ser impulsivo e violento, mas ali, sob a luz das tochas de seu palácio, ela via algo diferente. Havia uma honestidade bruta naquele olhar castanho.
— Por que está fazendo isso? — perguntou ela. — Você sabe que Zeus ficará furioso se souber que nos acolheu.
Kuro deu de ombros, um sorriso de canto de boca surgindo em seu rosto, o tipo de sorriso que mostrava que ele não tinha medo de uma boa briga.
— Digamos que eu nunca fui o filho favorito mesmo — brincou ele. — E, honestamente? Eu adoro contrariar aquele velho. Além disso... — ele fez uma pausa, olhando para a porta por onde o bebê fora levado — ...ninguém merece ser deixado para morrer na lama. Nem mesmo um deus.
Reia colocou a mão sobre a de Tatsuyo, transmitindo calor.
— Descanse agora, Tatsuyo. Você precisa recuperar suas forças. Quando estiver pronta, traremos o pequeno para você.
— Eu quero vê-lo agora — pediu ela, a urgência materna suplantando a dor física. — Por favor. Eu preciso sentir que ele é real, que não é um sonho antes da morte.
Reia acenou para Shin, que saiu silenciosamente e retornou momentos depois com um pequeno embrulho de mantas macias. Ele o entregou a Tatsuyo com uma reverência respeitosa.
Ao sentir o peso do filho em seus braços, Tatsuyo soltou um suspiro que pareceu carregar toda a dor dos últimos dias para longe. O bebê estava quente, a pele não estava mais tão pálida, e ele dormia com os punhos cerrados, um pequeno guerreiro em repouso.
— Ele é lindo — murmurou Kuro, aproximando-se apenas um pouco, mantendo uma distância respeitosa. — Ele tem os seus olhos, eu acho. Ou vai ter.
Tatsuyo olhou para Kuro e, pela primeira vez, não viu o deus da guerra, mas sim o homem, Kuro, que a resgatara do esquecimento.
— Obrigada... — disse ela, a palavra carregada de um significado que ia além da gratidão comum. — Obrigada por nos ver.
Kuro apenas acenou com a cabeça, o cabelo branco brilhando sob a luz.
— Não agradeça ainda. Zeus vai descobrir eventualmente. E quando ele vier cobrar explicações... — Kuro estalou os dedos, e uma lança de bronze surgiu em sua mão, vibrando com poder — ...ele vai lembrar por que eu sou o dono desta ilha.
O ambiente no palácio mudou. O medo que antes sufocava Tatsuyo começou a ser substituído por uma centelha de esperança. Ela não estava mais sozinha. No lugar mais improvável do mundo, cercada por armas e lembranças de batalhas, a deusa do amor encontrara um santuário de ferro.
— Você vai ficar bem, Tatsuyo — disse Shin gentilmente. — Kuro-sama pode ser um idiota às vezes, mas ele nunca quebra uma promessa de proteção.
— Ei! — exclamou Kuro, fingindo ofensa. — Eu estou bem aqui, sabia?
O pequeno momento de leveza fez Tatsuyo esboçar um sorriso mínimo, o primeiro em muito tempo. Ela olhou para o filho e depois para os seus salvadores. A guerra contra o Olimpo poderia estar no horizonte, mas, por aquela noite, sob o teto de Ares, o amor e a vida estavam seguros.
— Qual o nome dele? — perguntou Reia, observando a criança.
Tatsuyo acariciou a bochecha do bebê.
— Ele ainda não tem um nome de deus — disse ela. — Mas, como humano... quero que ele se chame Eros. Para que ele lembre que, mesmo no meio da destruição, o amor sempre encontra um jeito de sobreviver.
Kuro olhou para o bebê e depois para Tatsuyo, sentindo algo estranho em seu peito — algo que não era sede de sangue, mas um desejo fervoroso de garantir que aquele sorriso de alívio nunca mais desaparecesse do rosto dela.
— Eros... — repetiu Kuro. — Um bom nome. Soa como alguém que vai causar muitos problemas. Eu gosto.
E assim, entre os destroços de uma ilha esquecida e as paredes de um palácio de guerra, uma aliança improvável nasceu, forjada não pelo ódio, mas pela recusa de deixar a tirania de um rei esmagar a inocência de um novo começo.
