
Magia
Fandom: Harry Potter e Naruto
Criado: 24/07/2026
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Sombras e Prateado
O Salão Comunal da Corvinal era conhecido por seu silêncio acadêmico e pela busca incessante pelo conhecimento, mas para Tatsuyo Uchiha, aquele lugar era apenas um campo de batalha silencioso. Sentada em um canto isolado, perto de uma das janelas que davam para as montanhas geladas de Hogwarts, ela mantinha os olhos fixos em seu livro de Poções. Seus longos cabelos pretos e ondulados caíam como uma cortina sobre os ombros, escondendo seu rosto e, ela esperava, sua existência.
— Olha só, se não é a "prodígio silenciosa" — uma voz estridente ecoou, vinda de um grupo de garotas do quinto ano que passava por ali.
Tatsuyo não levantou a cabeça. Ela sentiu o impacto de uma bolinha de papel molhada atingir seu pescoço, mas apenas apertou mais forte as bordas do livro. Ser descendente de japoneses em um mundo onde ela já se sentia uma estranha era difícil; ser uma Uchiha em uma casa que valorizava a eloquência quando ela mal conseguia gaguejar um "olá" era um martírio.
— Ela é tão inteligente que esqueceu como se fala? — outra voz riu, acompanhada pelo som de livros sendo derrubados da mesa de Tatsuyo.
— Deixem ela em paz — uma voz masculina, vinda da entrada do Salão, tentou intervir, mas sem muita convicção.
Tatsuyo apenas se abaixou para recolher seus pertences, sentindo o rosto queimar. Ela odiava a fraqueza que sentia. Ela odiava o fato de que, por mais que soubesse feitiços complexos que muitos ali nem sonhavam, sua timidez a paralisava.
Enquanto isso, no Salão Principal, a atmosfera era o oposto. Kuro Hatake estava sentado à mesa da Grifinória, rindo de alguma piada que seu colega de time de quadribol acabara de contar. Com seus 1,80m de altura, cabelos brancos espetados que pareciam desafiar a gravidade e um sorriso que derretia metade das garotas da escola, Kuro era a definição de popularidade. Ele era o batedor do time, rápido, ágil e, acima de tudo, carismático.
No entanto, seus olhos castanhos escuros não estavam focados na comida ou nos amigos. Eles vagavam pela mesa da Corvinal, procurando por uma silhueta específica.
— Ei, Kuro! Você ouviu o que eu disse? — perguntou um garoto sentado ao lado dele, dando-lhe um empurrão no ombro.
— Hã? Ah, claro, o treino de amanhã. Estarei lá — mentiu Kuro, voltando a atenção para o grupo por um segundo antes de seus olhos escaparem novamente.
Ele a viu. Tatsuyo estava entrando no Salão Principal, tentando passar despercebida. Ela parecia menor do que realmente era, encolhida em suas vestes azuis e bronze. Kuro sentiu aquele aperto familiar no peito. Havia algo nela, algo que ele não conseguia explicar. Talvez fosse a inteligência afiada que ela demonstrava nos trabalhos em dupla que faziam ocasionalmente em Defesa Contra as Artes das Trevas, ou talvez fosse a maneira como ela mordia o lábio inferior quando estava concentrada.
— Olha lá a Uchiha — disse um dos batedores reservas da Grifinória, com um tom de deboche. — Por que ela sempre parece que acabou de ver um fantasma?
Kuro fechou o semblante imediatamente.
— Talvez porque pessoas como você não calam a boca — respondeu Kuro, sua voz perdendo o tom brincalhão.
O outro garoto recuou, surpreso. Kuro raramente ficava sério, mas quando ficava, sua presença era intimidadora.
— Relaxa, cara. Só estava brincando.
— Não é engraçado — Kuro murmurou, levantando-se da mesa. — Perdi o apetite. Vejo vocês na aula.
Ele saiu do Salão Principal, mas não foi para a sala de aula. Ele esperou no corredor, encostado em uma armadura, até que viu Tatsuyo sair apressada. Ela estava indo em direção à biblioteca, o único refúgio que parecia lhe restar.
Kuro a seguiu a uma distância segura. Ele sabia que ela tinha medo de interações sociais, e ele não queria assustá-la. Mas, ao virar o corredor do segundo andar, ele ouviu vozes que o fizeram estacar.
— Devolve, Uchiha! — um aluno do sexto ano da Sonserina, acompanhado por dois amigos, segurava o pergaminho de Tatsuyo acima da cabeça. — Vamos ver se essa sua inteligência toda consegue fazer você pular alto o suficiente para pegar.
Tatsuyo estava parada, os olhos fixos no chão, as mãos tremendo levemente ao lado do corpo.
— Por favor... é o meu ensaio de Transfiguração — ela disse, a voz tão baixa que era quase um sussurro.
— O quê? Não ouvi! Fala mais alto, bonequinha de porcelana — o garoto riu, empurrando o ombro dela.
Tatsuyo tropeçou para trás, colidindo com a parede de pedra fria. Foi quando Kuro decidiu que já tinha visto o suficiente.
— Ei! — a voz de Kuro ecoou pelo corredor, vibrante e autoritária. — Acho que ele pediu o pergaminho de volta.
Os três garotos se viraram. Ao verem Kuro Hatake, o batedor estrela da Grifinória e alguém que ninguém queria ter como inimigo em um duelo, a expressão de deboche desapareceu.
— Hatake, não se mete. É só uma brincadeira — disse o líder, tentando manter a pose.
— Engraçado — Kuro deu alguns passos à frente, o sorriso habitual substituído por um olhar gélido —, eu não estou rindo. Devolve o pergaminho. Agora.
O garoto da Sonserina hesitou, olhou para os amigos e, vendo que nenhum deles estava disposto a enfrentar Kuro, jogou o pergaminho no chão antes de sair apressado pelo corredor.
Kuro suspirou e se aproximou de Tatsuyo. Ela ainda estava encolhida contra a parede, os olhos arregalados de surpresa e algo que parecia... vergonha. Ele se abaixou, pegou o pergaminho e limpou um pouco da poeira antes de estendê-lo para ela.
— Aqui. Espero que não tenha amassado muito — disse ele, voltando ao seu tom suave e brincalhão.
Tatsuyo olhou para o pergaminho e depois para Kuro. O contraste entre eles era gritante: ele, radiante como o sol com seus cabelos brancos e aura de confiança; ela, uma sombra que tentava se fundir às paredes.
— Obrigada... Kuro-kun — ela sussurrou, pegando o papel com as pontas dos dedos, evitando o contato físico.
Kuro sentiu um calafrio ao ouvir seu nome sair da boca dela. Era a primeira vez que ela o chamava de algo que não fosse "Hatake-san" em um contexto formal de sala de aula.
— Não precisa agradecer. Aqueles caras são idiotas. Você não deveria deixar que eles falassem assim com você — ele disse, coçando a nuca, um hábito que tinha quando ficava nervoso.
Tatsuyo deu um meio sorriso triste, abaixando a cabeça para que o cabelo cobrisse seu rosto.
— Eu não sou como você, Kuro. Eu não sou... importante.
Aquelas palavras atingiram Kuro como um balaço no peito.
— Do que você está falando? — ele perguntou, dando um passo para mais perto, quebrando a barreira de espaço pessoal que ela tentava manter. — Você é a pessoa mais inteligente do nosso ano. Eu vi você realizar aquele feitiço de convocação sem varinha na semana passada. Foi incrível.
Tatsuyo finalmente levantou os olhos, encontrando os dele. Havia uma sinceridade tão profunda no olhar de Kuro que ela sentiu o coração acelerar.
— Você viu? — ela perguntou, a voz falhando.
— Eu sempre vejo você, Tatsuyo — ele confessou, antes que pudesse se conter.
O silêncio que se seguiu foi denso. Tatsuyo sentiu o rosto esquentar. Ela não podia acreditar naquelas palavras. Kuro Hatake, o garoto que todos amavam, o garoto que poderia ter qualquer pessoa em Hogwarts, estava dizendo que a observava?
— Você não deveria — ela disse, de repente, a voz carregada de uma súbita amargura defensiva. — Eu sou apenas o alvo das piadas. Gostar de mim... ou até mesmo ser visto comigo... vai estragar sua reputação.
Kuro soltou uma risada curta, mas não era de deboche.
— Minha reputação? Tatsuyo, eu sou um batedor da Grifinória. Minha reputação é ser um idiota que voa em vassouras e faz piadas ruins. Se alguém me ver com você, a única coisa que vão pensar é que eu finalmente encontrei alguém que pode me ensinar a ser uma pessoa melhor.
Tatsuyo balançou a cabeça, as lágrimas começando a embaçar sua visão.
— Você não entende. Eu não sou digna de alguém como você. Você é... luz. E eu...
— E você é o mistério que eu quero resolver desde o primeiro ano — Kuro a interrompeu, estendendo a mão e, desta vez, ele não recuou. Ele tocou levemente o queixo dela, forçando-a a olhar para ele. — Não diga que não é digna. O mundo de Hogwarts pode ser cruel, mas eu não sou o mundo. Eu sou apenas o Kuro. E o Kuro gosta muito da Tatsuyo.
Tatsuyo sentiu uma lágrima escapar e escorrer pela bochecha. O toque de Kuro era quente, reconfortante. Ela queria acreditar nele. Ela queria desesperadamente que aquilo fosse verdade, mas o medo cultivado por anos de bullying era uma raiz profunda.
— Por que eu? — ela perguntou em um soluço sufocado.
— Porque quando você sorri — Kuro disse, aproximando o rosto do dela, o tom de voz caindo para um sussurro confidencial —, mesmo que seja apenas para um livro na biblioteca, é a coisa mais bonita que eu já vi nesta escola. E eu já vi o teto do Salão Principal em noite de gala.
Tatsuyo soltou uma risada trêmula através das lágrimas.
— Isso foi muito brega.
— Eu sou um cara brega — ele admitiu, sorrindo de orelha a orelha, feliz por ter arrancado um som de alegria dela. — Mas sou sincero.
Ele limpou a lágrima do rosto dela com o polegar.
— O que você acha de irmos até as cozinhas? Os elfos domésticos me devem um favor por eu ter ajudado a esconder umas tortas extras semana passada. Podemos pegar alguns bolinhos de chocolate e você pode me explicar aquela teoria sobre a transubstanciação de objetos inanimados que eu não entendi nada.
Tatsuyo hesitou. Ir às cozinhas com Kuro significava ser vista. Significava que as pessoas falariam. Mas, ao olhar para os olhos castanhos dele, que brilhavam com uma expectativa genuína e um carinho que ela nunca pensou merecer, ela sentiu uma pequena centelha de coragem despertar em seu peito.
— Eu... eu gostaria disso — ela disse, sua voz ganhando um pouco mais de firmeza.
Kuro estendeu o braço para ela, como um cavalheiro de antigas histórias.
— Então, vamos, milady Uchiha. Temos um banquete clandestino nos esperando.
Tatsuyo timidamente entrelaçou seu braço no dele. A diferença de altura era notável, e ela se sentia pequena ao lado dele, mas, pela primeira vez em muito tempo, ela não se sentia desprotegida.
Enquanto caminhavam pelos corredores, alguns alunos passavam e olhavam com estranheza. Alguns cochichavam, outros apontavam. Tatsuyo sentiu a vontade de se encolher retornar, mas Kuro apenas apertou o braço dela contra o dele e começou a contar uma história absurda sobre como ele quase caiu da vassoura porque tentou acenar para uma coruja que se parecia com o Professor Snape.
— Você não fez isso — ela disse, rindo baixinho.
— Eu juro! A coruja tinha exatamente a mesma expressão de decepção constante. Eu achei que era um sinal do destino.
Ao chegarem ao quadro da fruteira que dava acesso às cozinhas, Kuro parou e olhou para ela.
— Sabe, Tatsuyo... eu não me importo com o que eles dizem. E eu não vou deixar que ninguém te machuque de novo. Eu sei que você é forte o suficiente para se defender, mas você não precisa lutar sozinha o tempo todo.
Tatsuyo olhou para as próprias mãos, sentindo o calor das palavras dele se espalhar por seu corpo.
— Eu nunca tive ninguém que quisesse lutar por mim — ela confessou, com a voz baixa.
— Bem, agora você tem — Kuro disse com convicção. — E eu sou muito insistente. Pergunte ao meu capitão de quadribol. Eu nunca desisto de um alvo.
— Eu não sou um alvo, Kuro-kun — ela brincou, sentindo-se um pouco mais ousada.
— Não — ele concordou, os olhos suavizando —, você é o prêmio.
Eles entraram na cozinha, onde o aroma de pão fresco e açúcar os envolveu. Entre os elfos domésticos correndo de um lado para o outro e o som de chaleiras fervendo, Tatsuyo Uchiha sentiu, pela primeira vez em cinco anos em Hogwarts, que talvez, apenas talvez, ela pertencesse a algum lugar. E esse lugar era exatamente onde Kuro Hatake estivesse.
Eles se sentaram em um canto aconchegante, cercados por cestas de frutas e sacos de farinha. Enquanto Kuro devorava um bolinho de abóbora e gesticulava animadamente, Tatsuyo começou a falar. Ela falou sobre sua família, sobre o Japão, sobre como os livros eram seus únicos amigos. E Kuro ouviu. Ele ouviu cada palavra como se fosse o segredo mais precioso do mundo bruxo.
Naquela noite, as sombras que perseguiam Tatsuyo pareciam um pouco menos escuras, iluminadas pelo prateado constante do garoto que decidiu que ela era digna de ser vista. E Kuro, por sua vez, descobriu que a inteligência de Tatsuyo era apenas a superfície; seu coração era um labirinto vasto e fascinante, e ele estava ansioso para passar o resto de seus dias em Hogwarts explorando cada centímetro dele.
