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Fandom: Nenhum

Criado: 25/07/2026

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Entre o Ódio Herdado e o Desejo Inevitável

O ar no estúdio de tatuagem era denso, impregnado com o cheiro de tinta, álcool e o som hipnótico das máquinas de tatuar que trabalhavam ao fundo. Emanuel estava sentado em sua mesa de carvalho escuro, observando alguns esboços, mas sua mente não estava na arte. Seus dedos tamborilavam sobre a superfície de madeira, um sinal claro de que a paciência estava no limite. Ele era um homem que construíra um império do nada, um nome respeitado de São Paulo a Londres, mas nada o irritava mais do que a sensação de que alguém estava tentando atingir o que era dele.

A porta do escritório se abriu e Sara entrou. Ela não apenas caminhava; ela desfilava. Com cinco meses de gravidez, a barriga de Valentina já se destacava sob o vestido justo de seda vermelha, mas ela não havia perdido nem um grama de sua postura imponente. O cabelo loiro estava perfeitamente ondulado e o batom combinava com a intensidade de sua presença.

— Você ainda está com essa cara, Emanuel? — Sara perguntou, jogando a bolsa de grife sobre o sofá de couro e caminhando até ele. — Vai acabar criando rugas antes dos trinta se continuar tentando resolver os problemas do mundo com esse cenho franzido.

Emanuel levantou o olhar, a expressão suavizando-se apenas o suficiente para ela.

— Aquela família, Sara. Os Albuquerque. Eles não desistem — ele disse, a voz rouca de cansaço e irritação. — O incidente na sua loja... o fornecedor cancelando em cima da hora depois de ser visto com o patriarca deles. Eu sei que foi uma jogada deles para te desestabilizar. E eu não admito que mexam com você. Especialmente agora.

Sara deu de ombros, soltando uma risada irônica. Ela se aproximou e sentou-se no colo dele, sentindo os braços fortes de Emanuel envolverem sua cintura por puro instinto protetor.

— Eles são patéticos, amor. Mas você sabe quem estava lá hoje, perto da loja? A filha deles. A tal Eduarda.

Emanuel sentiu o corpo retesar. O nome "Eduarda" era apenas um rótulo em sua cabeça: sinônimo de traição, de arrogância herdada, de uma linhagem que ele aprendera a detestar desde que era um aprendiz de tatuador limpando agulhas.

— Ela teve a coragem de aparecer lá? — Emanuel rosnou, a mão apertando levemente o quadril de Sara. — O que ela queria? Provocar?

— Na verdade, ela parecia perdida — Sara comentou, analisando as próprias unhas perfeitas. — Estava com um vestido de flores, segurando uns livros de arte. Ela não me pareceu a mente criminosa por trás do boicote, Emanuel. Ela parecia... frágil. E está grávida também. Uma barriga linda, um pouco menor que a minha.

— É uma fachada — Emanuel sentenciou, a mente lógica e defensiva trabalhando rápido. — Eles treinam os filhos para parecerem inofensivos. É assim que eles se infiltram. Mas eu vou resolver isso. Vou deixar bem claro que, se eles tocarem nos seus negócios de novo, eu destruo o que sobrou do nome deles.


Dois dias depois, o destino — ou talvez o subconsciente de Emanuel, que buscava um alvo para sua fúria — o levou até a frente da escola de ballet clássico no centro da cidade. Ele sabia que Eduarda dava aulas ali para crianças no final da tarde. Ele queria confrontá-la, dar um aviso que ela levaria de volta para os pais. Queria que ela sentisse o peso da autoridade dele.

Ele esperou encostado em seu carro preto fosco, uma figura intimidadora em suas roupas escuras, as tatuagens subindo pelo pescoço e cobrindo as mãos. Quando a porta da escola se abriu, ele se preparou para encontrar uma mulher altiva e sarcástica.

Mas quem saiu foi uma visão que o fez perder o fôlego por um segundo.

Eduarda caminhava devagar, segurando uma bolsa de dança. Ela usava um cardigã bege leve sobre um vestido de malha que abraçava a curva suave de sua barriga de cinco meses. O cabelo castanho estava preso em um coque frouxo, com alguns fios emoldurando o rosto de traços finos e pele alva. Ela parecia uma pintura renascentista que ele estudara em seus tempos de aprendizado, algo que não pertencia ao mundo bruto e cínico em que ele vivia.

Ao vê-lo, ela parou. Os olhos dela, grandes e expressivos, brilharam com uma mistura de surpresa e um medo instintivo.

— Você é o Emanuel, não é? — a voz dela era baixa, doce, e carregava uma nota de timidez que ele não esperava. Ela apertou a bolsa contra o corpo, um gesto de proteção quase infantil.

— Sou — ele disse, tentando manter o tom rígido, mas sentindo a própria determinação vacilar diante daquela doçura. — E você sabe exatamente por que eu estou aqui. Sua família cruzou a linha com a Sara.

Eduarda piscou, confusa. Ela deu um passo à frente, mas logo recuou, parecendo incerta se deveria se aproximar de um homem que emanava tanta tensão.

— Eu... eu não sei do que você está falando — ela sussurrou, e Emanuel notou que seus lábios tremiam levemente. — Eu não falo com meu pai sobre negócios. Eu mal falo com ele sobre qualquer coisa que não seja a Amélie.

— Amélie? — Emanuel perguntou, a guarda baixando sem que ele percebesse.

— Minha filha — ela respondeu, levando a mão à barriga de forma carinhosa. — Eu só quero paz, Emanuel. Eu sinto muito se algo aconteceu com a sua esposa, de verdade. Eu vi a Sara na rua outro dia, ela é linda. Eu nunca faria nada para machucar outra mulher grávida. Eu sei como é difícil... estar sozinha nisso.

Emanuel ficou em silêncio. A lógica dele dizia que era uma atuação, mas seus olhos, treinados para observar detalhes minuciosos em peles e formas, viam a verdade. Não havia malícia em Eduarda. Havia apenas uma solidão profunda e uma sensibilidade que parecia vibrar no ar entre eles. Ela era o oposto de tudo o que ele imaginava. Ela era o oposto de Sara, e, de alguma forma, isso o atingiu como um soco no estômago.

— Você está sozinha? — ele perguntou, a voz agora menos agressiva, quase curiosa.

— O pai dela não quis assumir — ela disse, desviando o olhar para o chão, as bochechas corando de vergonha. — Meus pais me apoiam, mas... no dia a dia, sou eu e ela. Eu sinto muito pela rivalidade das nossas famílias. Eu nunca entendi por que tanto ódio.

Emanuel sentiu um impulso estranho. Ele queria protegê-la. Era irracional. Ele deveria odiá-la. Mas a fragilidade de Eduarda despertava nele um instinto de cuidado que era tão forte quanto o que sentia por Sara, embora de uma natureza diferente.

— Eu te levo em casa — ele disse, não como um pedido, mas como uma ordem, embora o tom fosse mais suave.

— Não precisa, eu vou de ônibus...

— Eduarda — ele a interrompeu, dando um passo à frente. A proximidade permitiu que ele sentisse o perfume dela, algo que lembrava lavanda e sabonete neutro. — Está escurecendo. Você está grávida. Eu te levo.

Ela hesitou, olhando para ele com aqueles olhos que pareciam ler a alma dele. Por fim, assentiu levemente.


Naquela noite, Emanuel não conseguiu esconder nada de Sara. Eles estavam deitados na cama, o quarto iluminado apenas por abajures de luz quente. Sara estava lendo uma revista de moda enquanto ele acariciava a barriga dela, sentindo os chutes ocasionais de Valentina.

— Eu a vi hoje — Emanuel disse de repente.

Sara nem precisou perguntar quem. Ela fechou a revista e se virou para ele, os olhos astutos brilhando.

— E então? Ela tentou te envenenar com um olhar ou te bater com um sapato de ponta?

— Ela é diferente, Sara — Emanuel confessou, a voz carregada de uma confusão que ele raramente demonstrava. — Ela não sabia de nada. Ela é... doce. Manhosa. Parece que vai quebrar se você falar muito alto. O pai da criança a abandonou.

Sara observou o marido por um longo tempo. Ela conhecia Emanuel melhor do que ninguém. Viu a tensão nos ombros dele, mas também viu uma faísca nova em seus olhos. Uma faísca de interesse, de fascínio.

— Você gostou dela — Sara afirmou, não como uma acusação, mas como uma observação de fato.

Emanuel suspirou, sentando-se na cama e passando as mãos pelo cabelo curto.

— Eu não deveria. O sobrenome dela é um insulto para a minha família. Mas quando eu olhei para ela... eu senti que precisava cuidar dela. É absurdo. Eu amo você, Sara. Você é a minha vida.

Sara deu um sorriso de lado, tipicamente provocador, e se aproximou dele, segurando seu rosto com as mãos bem cuidadas.

— Emanuel, meu amor, você é um homem grande demais para um coração só. Você sempre foi intenso. Eu não sou uma mulher insegura, você sabe disso. Se essa menina é tão especial e se ela está sofrendo por causa daquela família de cobras e daquele idiota que a deixou... por que não?

Emanuel franziu o cenho, surpreso.

— O que você está dizendo?

— Eu estou dizendo que eu não me importo de compartilhar o que é meu, desde que eu continue sendo a rainha — ela piscou, rindo da expressão dele. — Se você quer a Eduarda, conquiste a Eduarda. Eu simpatizei com ela. Ela tem cara de quem precisa de um homem como você para protegê-la. E, sejamos sinceros, Valentina e Amélie poderiam ser ótimas irmãs, não acha?

— Você está falando sério? — Emanuel perguntou, a voz baixa.

— Eu nunca brinco com essas coisas. Vá atrás dela, Emanuel. Prove para aquela família que você pode tirar deles a única coisa boa que eles produziram. E traga ela para nós.


Eduarda estava em seu quarto, cercada por livros de História da Arte e esboços de figurinos para o próximo espetáculo de ballet, quando seu celular vibrou. Era um número desconhecido.

"Espero que tenha chegado bem. Se precisar de qualquer coisa para a Amélie, ou para você, me avise. Eu não sou seu inimigo, Eduarda. — Emanuel."

Ela leu a mensagem três vezes, o coração disparado contra as costelas. Ela deveria ignorar. Seus pais ficariam furiosos se soubessem que ela estava em contato com um homem daquela família. Mas ela se lembrou da forma como Emanuel a olhou — não com o ódio que ela esperava, mas com uma intensidade que a fez se sentir, pela primeira vez em meses, realmente vista.

Ele era um homem de mundos diferentes. Ele era tatuado, rico, poderoso e já tinha uma mulher. Mas Eduarda, em sua timidez e carência silenciosa, sentiu uma atração magnética por aquela força.

Alguns dias depois, eles se encontraram novamente. Desta vez, Emanuel a levou para jantar em um lugar reservado, longe dos olhos curiosos das famílias rivais. Eduarda estava nervosa, mexendo constantemente no guardanapo de pano.

— Por que você está fazendo isso? — ela perguntou, a voz quase um sussurro. — Você me odiava na semana passada.

Emanuel esticou a mão sobre a mesa, cobrindo a mão pequena e delicada de Eduarda com a sua, que era grande e marcada pela arte.

— Eu odiava uma ideia — ele explicou, os olhos fixos nos dela. — Mas a realidade é muito mais interessante. Eu não consigo parar de pensar em você, Eduarda. E eu não sou um homem que aceita ficar apenas no pensamento.

— Mas e a Sara? — Eduarda sentiu uma pontada de culpa. — Ela está grávida, Emanuel. Eu não quero ser alguém que destrói uma família.

Emanuel sorriu, um sorriso raro e de canto de boca que a fez estremecer.

— Sara sabe. Na verdade, foi ela quem me incentivou a falar com você. Nós não temos segredos, e ela quer que você faça parte da nossa vida.

Eduarda arregalou os olhos, a mente tentando processar aquela informação. Era tudo tão estranho, tão fora das normas que ela aprendera na faculdade ou com seus pais. Mas, ao olhar para Emanuel, ela viu uma segurança que nunca tivera. Viu um homem que poderia ser o porto seguro para ela e para sua filha.

— Eu... eu não sei se sei como fazer isso — ela admitiu, uma lágrima solitária escapando e rolando pelo rosto.

Emanuel limpou a lágrima com o polegar, o toque áspero e carinhoso ao mesmo tempo.

— Você não precisa saber. Eu cuido de tudo. Eu sempre cuido de tudo.

A rivalidade entre as famílias ainda queimava lá fora, um incêndio de décadas de orgulho ferido. Mas, dentro daquele restaurante, e mais tarde, dentro do coração de Emanuel, uma nova estrutura estava sendo montada. Ele tinha Sara, sua força e sua parceira de vida. E agora ele teria Eduarda, sua doçura e seu refúgio.

Ele era um colecionador de arte, um criador de marcas permanentes na pele. E ele estava decidido a marcar a vida daquelas duas mulheres com o seu amor, não importava o quanto o mundo — ou suas famílias — tentassem impedi-lo.

— Você é minha agora, pequena — Emanuel sussurrou quando a deixou na porta de casa naquela noite.

Eduarda não protestou. Ela apenas se inclinou, aceitando o beijo casto na testa, sentindo-se, pela primeira vez, protegida sob a asa de um homem que ela deveria temer, mas que aprendera a desejar. O império de Emanuel estava crescendo, e ele tinha espaço de sobra para todas as suas rainhas.

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