
Sereia
Fandom: Naruto e sereias
Criado: 26/07/2026
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O Canto das Pérolas e o Píer Abandonado
O sol da Austrália não costumava ter piedade, mas naquela tarde de quinta-feira, a brisa que soprava do Mar de Coral trazia um alívio bem-vindo. O Píer de Point Nemo, uma estrutura de madeira velha e carcomida pelo sal que a maioria dos turistas ignorava, era o quartel-general oficial de Kuro, Nico e Emma.
Kuro estava jogado de costas nas tábuas quentes, com as mãos atrás da cabeça, exibindo o abdômen definido que ele fazia questão de manter à mostra, deixando a camisa aberta. Com seus 1,80m e o cabelo branco curto e repicado brilhando sob a luz forte, ele parecia um modelo de revista de surfe que deu errado.
— Eu estou dizendo, Nico — disse Kuro, fechando os olhos castanhos escuros e abrindo um sorriso malicioso —, se a gente der sorte, hoje o mar traz algo mais interessante do que sargaço e latinha de refrigerante. Quem sabe uma turista perdida precisando de respiração boca a boca?
Nico, que estava sentado na beirada com as pernas balançando sobre o abismo azul, soltou um suspiro pesado. Ele ajeitou o cabelo castanho claro que o vento teimava em bagunçar e ajustou o foco de seus olhos verdes no horizonte.
— Você é um caso perdido, Kuro — respondeu Nico, com a voz calma de quem já estava acostumado com as idiotices do amigo. — A gente vem aqui para relaxar, não para você ficar caçando problemas.
Emma, sentada entre os dois, conferia algo em sua mochila. A pele branca levemente bronzeada pelo sol australiano contrastava com o loiro liso de seus cabelos, que caíam como uma cascata até o meio das costas. Ela lançou um olhar severo de seus olhos azuis escuros para Kuro.
— Tenta manter o hormônio sob controle por pelo menos dez minutos, Kuro? — Emma pediu, embora houvesse um tom de brincadeira em sua voz. — O Píer é o único lugar onde o sinal de celular é ruim o suficiente para a gente realmente conversar.
— Conversar é para os fracos, Emma — Kuro brincou, sentando-se e passando a mão no cabelo branco. — Eu sou um homem de ação.
Mas a "ação" de Kuro foi interrompida por um som. Não era o barulho das ondas quebrando nos pilares, nem o grito das gaivotas. Era um riso. Um som melodioso, quase como o tilintar de sinos de cristal, vindo debaixo da estrutura do píer.
Os três se entreolharam. O Píer de Point Nemo era isolado; ninguém ia até lá àquela hora.
— Ouviram isso? — sussurrou Nico, ficando tenso.
Eles se arrastaram silenciosamente até a borda, espiando por entre as frestas das madeiras e por cima do corrimão. O que viram fez o ar fugir dos pulmões de Emma e Nico, enquanto os olhos de Kuro quase saltaram das órbitas.
Lá embaixo, em uma pequena enseada protegida pelas sombras das vigas, estava uma garota. Mas não uma garota comum. Ela tinha a pele parda, um tom quente que parecia brilhar mesmo na sombra. Seus cabelos eram pretos, longos e ondulados, descendo muito abaixo da cintura, adornados com dezenas de pequenas conchas brancas e pérolas que cintilavam a cada movimento.
Mas o que paralisou o trio foi o que estava abaixo da cintura dela. Onde deveriam estar pernas, havia uma cauda majestosa, coberta por escamas de um branco perolado que refletiam as cores do arco-íris conforme a água a banhava. Nos seios, ela usava duas grandes conchas brancas presas de forma natural.
— Caramba... — Kuro murmurou, a voz falhando. — Isso é... isso é uma sereia de verdade? E que sereia...
— Cala a boca, Kuro! — Emma sibilou, mas ela mesma não conseguia desviar o olhar.
A criatura, Tatsuyo, estava distraída tentando desenredar um pedaço de rede de pesca de uma estrela-do-mar. Quando ela finalmente conseguiu, soltou um pequeno grito de alegria, mas o som de uma madeira rangendo acima de sua cabeça a fez congelar.
Tatsuyo olhou para cima. Seus grandes olhos pretos encontraram os seis olhos humanos que a observavam do alto.
O pânico foi instantâneo. Ela tentou mergulhar, mas a maré estava baixa demais naquela parte da enseada e ela acabou batendo a cauda na areia rasa, espalhando água para todos os lados.
— Espera! Não foge! — Nico gritou, descendo apressadamente pela escada lateral de metal enferrujado. — A gente não vai te machucar!
— É, a gente é legal! — Kuro pulou logo atrás, caindo na areia com a agilidade de quem passava o dia na academia. — Especialmente eu!
Emma desceu por último, tentando manter a calma.
Tatsuyo se encolheu contra um dos pilares de madeira, a cauda branca batendo nervosamente na água rasa. Ela parecia pequena e vulnerável, apesar da beleza sobrenatural. Seus olhos pretos viajavam de Nico para Kuro, e então para Emma, cheios de um medo ancestral.
— Humanos... — ela sussurrou. A voz era doce, mas carregada de pavor. — Eu não deveria... a Rainha disse... humanos são perigosos.
— Perigosos? — Kuro deu um passo à frente, abrindo os braços e exibindo o sorriso mais charmoso que possuía. — Olha para mim, gracinha. Eu pareço perigoso? No máximo, eu sou perigosamente bonito.
Emma deu um tapa no ombro de Kuro.
— Ignora ele, ele é idiota — Emma disse, aproximando-se devagar e agachando-se para ficar na altura da sereia. — Eu sou a Emma. Esses são Nico e Kuro. Qual o seu nome?
A sereia hesitou, as pérolas em seu cabelo tilintando.
— Tatsuyo — respondeu ela, em voz baixa.
— Tatsuyo... nome bonito — Nico comentou, genuinamente fascinado. — Você mora aqui perto? No recife?
A partir daí, a barragem de perguntas começou. O choque inicial do grupo foi substituído por uma curiosidade frenética.
— Como você respira? — Nico perguntou, observando o pescoço dela em busca de guelras. — Você tem pulmões ou o quê?
— Por que você usa conchas? — Kuro perguntou, com um brilho malicioso nos olhos. — Elas não... caem? E como você faz para, sabe... ir ao banheiro?
— Kuro! — Emma e Nico gritaram em uníssono.
Tatsuyo parecia atordoada. Ela nunca tinha visto humanos de tão perto, muito menos humanos que falavam tão rápido e faziam perguntas tão bizarras.
— Eu... eu respiro como vocês quando estou fora da água, mas o mar me dá fôlego lá embaixo — ela explicou, a voz ganhando um pouco mais de confiança ao perceber que eles não tinham redes ou arpões. — E as conchas... elas são presas com a magia do coral. E eu não sei o que é "ir ao banheiro" do jeito que você falou, humano de cabelo branco.
Kuro soltou uma risada alta.
— "Humano de cabelo branco"! Gostei. Pode me chamar de Kuro, sua linda.
— E como é lá embaixo? — Emma perguntou, os olhos brilhando. — Existem cidades? Palácios de cristal?
— Existem as correntes quentes e as cavernas de luz — Tatsuyo respondeu, começando a se soltar. — Mas é proibido falar com vocês. Se o meu povo souber que eu fui vista... eles vão me proibir de chegar perto da superfície. Por favor... vocês não podem contar para ninguém.
Nico olhou seriamente para ela.
— Nós prometemos, Tatsuyo. É o nosso segredo. Certo, pessoal?
— Com certeza — disse Emma.
— Minha boca é um túmulo — afirmou Kuro, embora tenha acrescentado mentalmente que adoraria explorar mais aquele "túmulo" se fosse com ela.
Tatsuyo relaxou visivelmente, sua cauda branca parando de agitar a areia. Ela olhou para os objetos que o grupo carregava. Nico tinha um celular na mão, e Emma segurava uma garrafa térmica.
— O que é... essa coisa retangular de luz? — Tatsuyo apontou para o celular de Nico.
— Isso? É um celular — Nico explicou, aproximando-se. — Serve para falar com pessoas longe, tirar fotos... olha.
Ele virou a tela e mostrou uma foto que tinham tirado no dia anterior. Tatsuyo soltou um ganido de surpresa e recuou, batendo as costas no pilar.
— Magia negra! Vocês prenderam pessoas dentro de um vidro pequeno! Soltem-nas!
Kuro começou a gargalhar tanto que teve que segurar a barriga.
— Não é magia, Tatsuyo — explicou Emma, tentando não rir também. — É tecnologia. É como um espelho que guarda a imagem.
— Espelhos são perigosos — Tatsuyo murmurou, ainda desconfiada. — Eles roubam a alma se você olhar por muito tempo.
— E o que é aquilo? — Ela apontou para a garrafa térmica de Emma.
— É chá gelado — Emma abriu a garrafa e o cheiro de pêssego subiu. — Quer provar?
Tatsuyo aproximou o nariz, cheirando com cautela.
— Cheira a flores mortas e açúcar.
— É basicamente isso — Kuro comentou.
Ela deu um gole minúsculo e fez uma careta, cuspindo logo em seguida.
— É muito... seco! Como vocês bebem algo que não é água salgada?
— A gente se pergunta a mesma coisa sobre a água salgada, acredite — Nico riu.
O clima de tensão havia desaparecido completamente. Tatsuyo, agora curiosa, começou a tocar as roupas deles. Ela achou a textura da camiseta de algodão de Nico "estranha e áspera", e ficou fascinada com o zíper da mochila de Emma, abrindo e fechando o cursor repetidas vezes com um olhar de puro assombro.
— Isso é incrível! — Tatsuyo exclamou, os olhos pretos brilhando. — Um dente de tubarão que morde e solta o tecido!
— É só um zíper, Tatsuyo — Emma riu, achando a inocência da sereia adorável.
Kuro, vendo a oportunidade, sentou-se na areia bem perto dela, a apenas alguns centímetros de onde a cauda branca terminava e o tronco pardo começava.
— Sabe, Tatsuyo, no nosso mundo, quando as pessoas se tornam amigas, elas costumam dar um beijo no rosto — Kuro mentiu descaradamente, com a cara mais lavada do mundo.
Nico revirou os olhos.
— Kuro, não comece.
Tatsuyo inclinou a cabeça, as pérolas balançando.
— Um beijo? O que é isso?
Kuro se inclinou, apontando para a própria bochecha.
— É quando você encosta os lábios na pele de outra pessoa. É um sinal de... respeito profundo.
Tatsuyo, sem entender a malícia, olhou para Emma e Nico. Emma estava prestes a desmentir, mas Tatsuyo foi mais rápida. Ela se inclinou para frente, o cheiro de mar e jasmim emanando de sua pele, e encostou os lábios suavemente na bochecha de Kuro.
Kuro ficou estático. Ele esperava uma reação confusa, mas a suavidade da pele dela e a pureza do gesto o deixaram, pela primeira vez na vida, sem palavras.
— Assim, humano Kuro? — ela perguntou, voltando para sua posição original.
— É... — Kuro pigarreou, o rosto ficando levemente vermelho, algo raro para ele. — É, exatamente assim. Você aprende rápido.
Nico deu um tapa na nuca de Kuro.
— Deixa ela em paz, seu tarado.
Tatsuyo riu, o som ecoando pelas vigas do píer.
— Vocês são muito estranhos. Suas peles são secas, vocês usam "dentes de tubarão" para fechar bolsas e prendem pessoas em vidros. Como conseguem viver assim?
— A gente se vira — disse Nico, sorrindo. — Mas e você? Como é a sua vida? O que você faz o dia todo?
Tatsuyo começou a contar sobre as correntes migratórias das baleias, sobre como as pérolas eram colhidas em jardins subaquáticos protegidos por tubarões-lixa que ela chamava pelo nome, e sobre as canções que as sereias cantavam para acalmar as tempestades.
O trio ouvia hipnotizado. O mundo que ela descrevia era tão vasto e mágico que a Austrália parecia pequena em comparação.
— Eu queria poder mostrar para vocês — disse Tatsuyo, com uma ponta de tristeza. — Mas humanos não podem descer tanto. Seus pulmões são... fracos.
— Mas a gente pode vir aqui — Emma sugeriu prontamente. — A gente vem sempre a este píer. Podemos nos encontrar aqui.
Tatsuyo sorriu, e foi o sorriso mais bonito que Nico e Emma já tinham visto. Para Kuro, foi quase um golpe no peito.
— Eu gostaria disso. Mas lembrem-se da promessa. Se alguém vier atrás de mim... eu terei que partir para o oceano profundo e nunca mais voltar.
— Ninguém vai saber — Nico garantiu, olhando para os amigos. — Esse é o segredo do Píer de Point Nemo.
O sol começou a mergulhar no horizonte, pintando o céu de laranja e roxo. A maré começou a subir, a água agora cobrindo a cintura de Tatsuyo e dando a ela a mobilidade que precisava.
— Eu preciso ir — disse ela, fazendo um movimento gracioso com a cauda. — A lua está subindo, e as marés noturnas são fortes.
— Espera! — Kuro chamou. — Amanhã? No mesmo horário?
Tatsuyo olhou para ele, os olhos pretos refletindo as primeiras estrelas.
— Se o mar permitir, humano de cabelo branco.
Com um movimento rápido e elegante, ela mergulhou. A cauda branca deu um último adeus antes de desaparecer sob a superfície azul-escura.
Os três amigos ficaram em silêncio por um longo tempo, apenas ouvindo o som das ondas voltando a bater nos pilares.
— Cara... — Nico finalmente falou. — Isso realmente aconteceu?
— Se não aconteceu, a gente teve a mesma alucinação coletiva — Emma respondeu, sentando-se na areia, ainda processando tudo.
Kuro levou a mão à bochecha, onde Tatsuyo o havia tocado. Ele deu um sorriso, mas desta vez não era o seu sorriso malicioso de sempre. Era algo mais suave, quase sonhador.
— Ela é incrível — Kuro murmurou. — E eu vou precisar de muito mais "sinais de respeito" daquela sereia.
— Você não tem jeito, Kuro — Nico riu, levantando-se e batendo a areia do short. — Vamos embora. Amanhã a gente volta.
Enquanto caminhavam de volta pelo píer, sob o céu estrelado da Austrália, o mundo parecia diferente. O mar não era mais apenas uma massa de água para surfar ou nadar; era um reino, um mistério, e agora, o lar de uma nova amiga que eles estavam determinados a proteger.
Lá embaixo, nas profundezas, Tatsuyo nadava com o coração batendo rápido. Os humanos eram estranhos, sim. Eram barulhentos e secos. Mas, pela primeira vez em dezesseis anos, ela sentiu que a superfície não era um lugar de medo, mas um lugar onde, talvez, ela pudesse encontrar algo que o oceano nunca lhe dera: a curiosidade de descobrir um mundo totalmente novo.
