
O Peso da Tinta e a Leveza do Traço
O estúdio principal de Emanuel, localizado na cobertura de um dos prédios mais luxuosos de São Paulo, exalava o cheiro característico de tinta, antisséptico e couro caro. Ele estava sentado em sua cadeira de design, os olhos fixos em um tablet onde passavam as métricas de vendas da última semana da Glow, a loja de Sara. Os números não mentiam: a queda fora brusca. E o motivo tinha nome, rosto e uma delicadeza que Emanuel passara a detestar antes mesmo de ver pessoalmente.
— Ela destruiu o contrato da temporada, Manu — a voz de Sara veio do sofá de veludo no canto da sala.
Ela estava magnífica, como sempre. Usava um vestido justo de seda azul que marcava a barriga de cinco meses da pequena Valentina. Sara não era o tipo de grávida que se escondia em roupas largas; ela exibia sua maternidade como um troféu de ouro.
— A marca concorrente usou aquela garota, aquela bailarina... a tal da Eduarda. O conselho da rede de shoppings disse que a imagem dela trouxe uma "aura de pureza e sofisticação" que a minha coleção não acompanhou. — Sara bufou, pintando as unhas de um vermelho vibrante. — Pura bobagem. Ela é só uma menina com cara de quem chora se o leite ferver.
Emanuel sentiu o maxilar travar. Ele era um homem de lógica e proteção. Se algo afetava Sara, afetava a ele. Se essa Eduarda tinha sido a peça-chave para humilhar o esforço de sua mulher, então ele já a considerava uma adversária.
— Eu vou resolver isso, Sara — disse ele, a voz grave e autoritária. — Ninguém entra no caminho do que é nosso e sai ileso. Vou descobrir quem é o agente dela. Se ela quer jogar no mundo dos grandes, precisa aguentar o tranco.
Dois dias depois, o destino pregou uma peça que Emanuel não estava preparado para encenar.
Ele precisava contratar novos modelos para a campanha de sua nova linha de joias masculinas e estúdios internacionais. O diretor de arte insistiu que precisavam de um contraste: a força das tatuagens de Emanuel contra a leveza de alguém clássico. Quando as portas do estúdio se abriram para o teste final, o ar pareceu fugir dos pulmões de Emanuel.
Eduarda entrou na sala como se pedisse desculpas por ocupar espaço.
Ela usava um vestido de algodão branco, leve e fluido, que caía suavemente sobre a barriga de cinco meses, tão evidente quanto a de Sara, mas carregada de uma forma diferente. Enquanto Sara era explosiva, Eduarda era um sussurro. O cabelo castanho escuro estava preso em um coque frouxo, e os olhos grandes e expressivos brilhavam com uma mistura de timidez e ansiedade.
Emanuel, que estava com os braços cruzados, exibindo as tatuagens que subiam pelo pescoço, sentiu uma estranha onda de calor percorrer sua espinha. A "vilã" de seus pensamentos era, na verdade, uma menina que parecia feita de porcelana.
— Bom dia... — a voz dela era baixa, doce. Ela apertou as mãos na frente do corpo, um gesto claro de insegurança. — Eu sou a Eduarda. Fui chamada para o teste de contraste.
Emanuel não respondeu de imediato. Ele a observou com um rigor que beirava a crueldade, tentando encontrar o rastro de malícia que justificasse seu ódio. Mas não havia nada. Ela parecia cansada, as olheiras leves denunciando as noites de estudo da faculdade de História da Arte ou, talvez, o peso da gravidez solitária.
— Você é a garota da campanha da Belle Époque? — perguntou Emanuel, a voz mais dura do que pretendia.
Eduarda encolheu os ombros, desviando o olhar para os próprios pés calçados com sapatilhas simples.
— Sim, senhor. Foi meu primeiro grande trabalho. Eu... eu precisava muito, por causa da Amélie. — Ela tocou a barriga com um carinho tão genuíno que o coração de Emanuel deu um solavanco descompassado.
— Você sabe que aquela campanha destruiu o lançamento de uma marca rival? — Ele deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela. — Que você foi usada para desbancar uma mulher que trabalhou meses em uma coleção?
Eduarda arregalou os olhos. Uma lágrima solitária e rápida brilhou em seu cílio inferior antes de ela piscar.
— Eu... eu não sabia. — Sua voz tremeu, tornando-se um fiozinho agudo. — O fotógrafo disse que era uma campanha sobre "renascimento". Eu só dancei. Eu não conheço as marcas, eu só precisava do dinheiro para o enxoval. O pai da minha filha foi embora e eu...
Ela parou de falar, a respiração ficando curta. Eduarda era manhosa por natureza, buscava conforto quando se sentia acuada, e ali, diante daquele homem alto, tatuado e imponente, ela sentiu que ia desabar.
Emanuel, o homem racional e controlador, sentiu o instinto de proteção rugir dentro de si. Foi um curto-circuito. Ele deveria odiá-la. Ele deveria expulsá-la dali. Mas, em vez disso, ele deu um passo à frente e segurou o braço dela com firmeza, mas sem machucar.
— Respire — ordenou ele, mas o tom não era mais de ameaça, e sim de comando protetor. — Ninguém vai te bater, Eduarda.
— Desculpe — ela soluçou, escondendo o rosto no ombro dele, um movimento instintivo de quem busca abrigo na montanha mais próxima. — Eu não quis prejudicar ninguém. Eu juro.
O cheiro dela — baunilha e algo que lembrava bebê — atingiu Emanuel em cheio. Ele sentiu a maciez da pele dela contra o tecido de sua camiseta preta. A fragilidade de Eduarda era magnética para um homem que vivia cercado de armaduras.
Naquela noite, Emanuel voltou para casa em silêncio. Ele morava em uma mansão cinematográfica com Sara. Quando entrou, encontrou-a provando novos sapatos, cercada de sacolas.
— E então? — perguntou Sara, sem olhar para ele. — Conheceu a "destruidora de negócios"? Deu um susto nela?
Emanuel sentou-se na beira da cama, retirando as botas. Ele suspirou, o rosto cansado refletindo o conflito interno.
— Ela não é o que a gente pensou, Sara.
Sara parou o que estava fazendo e o encarou, arqueando uma sobrancelha perfeitamente desenhada.
— Como assim?
— Ela é uma menina, Sara. Está grávida, sozinha, estuda história da arte e dá aula de ballet para sobreviver. Ela nem sabia quem você era. Ela é... doce. Frágil demais para o mundo em que a gente vive.
Sara soltou uma risada curta, mas não era de escárnio. Ela conhecia Emanuel melhor do que ninguém. Ela viu o brilho diferente nos olhos dele, a forma como ele falava da garota com um tom de reverência que ele raramente usava.
— Você está encantado por ela, não está? — Sara aproximou-se, sentando-se no colo dele, passando os braços pelo seu pescoço.
Emanuel hesitou, a honestidade sendo sua única saída.
— Eu não consigo parar de pensar nela. Senti uma vontade absurda de protegê-la de tudo. Até de mim mesmo. Mas eu amo você, Sara. Isso não mudou nada.
Sara sorriu, um sorriso enigmático e confiante. Ela não via Eduarda como uma ameaça; via-a como algo que Emanuel precisava para equilibrar a própria intensidade. Sara era fogo, e talvez Emanuel precisasse de um pouco de água para não se queimar por completo.
— Manu, meu amor — disse ela, acariciando a nuca dele —, você tem um coração grande e muito dinheiro. Eu não sou uma mulher pequena, você sabe disso. Se essa menina é tão especial e se ela te faz sentir esse instinto, por que vamos lutar contra?
Emanuel franziu a testa, confuso.
— O que você está dizendo?
— Estou dizendo que, se você a quer, você deve tê-la. E eu quero conhecê-la. Se ela for tudo isso que você diz, talvez Valentina e Amélie possam crescer juntas. Eu não me importo de compartilhar você, desde que eu continue sendo sua rainha. E eu sei que sou.
Emanuel puxou Sara para um beijo intenso, sentindo um alívio imenso. O problema era que a parte fácil — convencer Sara — estava feita. A parte difícil seria convencer a delicada e assustada Eduarda de que o homem que a olhou com ódio no primeiro encontro agora a queria em sua vida de forma permanente.
Alguns dias depois, Emanuel convidou Eduarda para ir ao seu estúdio principal sob o pretexto de assinar os papéis do novo contrato. Ele fez questão de que fosse um horário calmo.
Quando ela chegou, parecia ainda mais tímida. Usava um cardigã rosa claro sobre um vestido floral.
— Oi, Emanuel — ela disse, usando o nome dele pela primeira vez. O som fez o estômago dele revirar.
— Sente-se, Eduarda. — Ele apontou para a cadeira diante de sua mesa. — Eu queria pedir desculpas pela forma como te tratei no outro dia. Eu fui injusto.
Eduarda olhou para as próprias mãos, brincando com um anel de prata.
— Tudo bem. Eu entendo que você protege quem você ama. Eu também faria tudo pela Amélie.
Emanuel levantou-se e contornou a mesa, agachando-se na frente dela para ficar na mesma altura.
— Eu quero cuidar de você também, Eduarda.
Ela o olhou com confusão, os olhos úmidos.
— O quê? Mas... você tem a Sara. Ela é linda, ela é... tudo o que eu não sou.
— Você é exatamente o que falta — disse ele, a voz rouca. — Eu conversei com a Sara. Ela sabe o que eu sinto. Ela quer que você faça parte da nossa vida.
Eduarda sentiu o coração disparar. Para uma menina que fora abandonada pelo pai da filha, que se sentia pequena diante do mundo, aquela proposta soava como um conto de fadas perigoso.
— Eu não sei se consigo... eu tenho medo — ela sussurrou, a natureza manhosa vindo à tona, buscando a proteção que o olhar dele oferecia.
— Você não precisa ter medo de nada. — Emanuel pegou a mão dela e a beijou delicadamente. — Eu sou um homem que consegue tudo o que quer, Eduarda. E agora, eu quero você. Quero a Sara, a Valentina e a Amélie. Quero o meu império completo.
Eduarda olhou para as tatuagens nos braços dele, símbolos de uma vida dura e de conquistas, e depois olhou para o rosto dele, que agora suavizava apenas para ela.
— E se as pessoas falarem? — perguntou ela, a insegurança ainda presente.
— Deixe que falem. Enquanto você estiver sob a minha proteção, ninguém vai encostar um dedo em você ou na sua filha.
Naquele momento, a porta do escritório se abriu e Sara entrou. Ela estava deslumbrante em um conjunto vermelho, um contraste vívido com a suavidade de Eduarda. Eduarda encolheu-se na cadeira, mas Sara caminhou até ela com um sorriso aberto.
— Então você é a famosa Eduarda? — Sara analisou a jovem, notando a pele macia e o olhar doce. — Realmente, Emanuel tem bom gosto. Você é uma boneca.
— S-Sara... — Eduarda gaguejou, levantando-se devagar.
Sara tocou o ombro de Eduarda, um gesto de posse e boas-vindas.
— Não precisa tremer, querida. Eu não mordo... a menos que você peça. O Manu me contou que você está sozinha nessa gravidez. Isso acaba hoje. Se você aceitar, terá o melhor homem do mundo cuidando de você, e a melhor aliada que poderia imaginar.
Eduarda olhou de Sara para Emanuel. Ela via a força dele e a confiança dela. Era um mundo novo, intenso e assustador, mas pela primeira vez em meses, ela não se sentiu sozinha.
— Eu... eu gostaria de tentar — disse Eduarda, a voz ganhando um pouco de firmeza, embora ainda fosse suave.
Emanuel sorriu, um sorriso raro que iluminou seu rosto severo. Ele puxou Eduarda para perto, enquanto Sara se aninhava do outro lado. Ali, no topo de seu império, ele percebeu que a lógica nem sempre explicava tudo. Às vezes, o controle significava saber exatamente quando deixar o coração ser invadido por duas forças opostas, mas que juntas, formavam o equilíbrio perfeito de sua vida.
A tinta de Emanuel agora escreveria uma história diferente, onde a delicadeza do ballet de Eduarda e a força administrativa de Sara se fundiriam sob o seu comando protetor. E a pequena Amélie e a pequena Valentina teriam tudo o que o dinheiro e o amor de um homem intenso poderiam proporcionar.
