
d73
Fandom: record of ragnarok
Criado: 26/07/2026
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O Preço de um Trono de Veludo
A brisa noturna de Milão carregava um perfume de sofisticação que pouco combinava com a tensão silenciosa no saguão do hotel de luxo. Para a maioria dos presentes, aquela era apenas uma "viagem de integração" entre deuses e humanos, uma trégua necessária após os eventos do Ragnarok. Mas para o círculo interno de Helheim e do Olimpo, o cenário era outro.
Hades, o Rei do Submundo, ajustava os punhos de sua camisa social escura com uma calma gélida. Ao seu lado, Hermes mantinha o sorriso enigmático de sempre, enquanto Zeus, estranhamente sério, conferia as coordenadas em um dispositivo dourado. O mercado negro de itens celestiais havia crescido demais, e o rastro levava a um clube exclusivo no coração da cidade italiana.
— Onde ele está? — perguntou Hades, sua voz profunda ecoando com autoridade. — Já estamos atrasados para o reconhecimento de perímetro.
— O Imperador está terminando de se "ornamentar" — respondeu Hermes, com um brilho divertido nos olhos. — Eu tomei a liberdade de sugerir um traje mais... contemporâneo para a nossa isca.
A porta do elevador se abriu com um tilintar metálico. Qin Shi Huang saiu de lá caminhando como se o chão de mármore fosse uma extensão de seu palácio em Xianyang. No entanto, ele não usava suas túnicas imperiais ou sua armadura. Ele vestia uma calça boca de sino de cintura baixa que acentuava sua silhueta, uma blusa de manga longa propositalmente larga e tênis modernos. O cabelo estava preso de forma despojada, e a venda sobre os olhos havia sido substituída por óculos escuros de lentes translúcidas.
Ele parecia um jovem adulto influente, um herdeiro de alguma fortuna tecnológica, e não um homem que já havia governado a China milênios atrás.
— Por que todos estão me encarando? — perguntou Qin, abrindo um sorriso convencido. — Eu sei que a beleza do Rei é ofuscante, mas temos um cronograma, não?
— Você está... adequado — resumiu Hades, embora seus olhos analíticos demorassem um segundo a mais na linha da cintura do humano. — Hermes, explique o plano.
— É simples, Majestade — disse o mensageiro dos deuses. — O alvo é Lorenzo, o proprietário do clube L'Eclisse. Ele é o principal atravessador de relíquias divinas. Ele tem um fraco por rostos novos e figuras que exalam poder. Qin, você entrará, chamará a atenção dele e o manterá ocupado enquanto nós infiltramos o cofre no subsolo.
Qin cruzou os braços, a manga larga escorregando pelo pulso.
— Esperem um pouco. Eu serei a isca? E terei que dar em cima desse... sujeito? — O Imperador fez uma careta de desdém. — Por que não enviou o seu sobrinho, o Apollo? Ele adora ser o centro das atenções. Ou até mesmo o Hermes?
Hades deu um passo à frente, sua presença imponente fazendo a luz do saguão parecer diminuir.
— Porque Apollo brilha demais, literalmente. E Hermes é reconhecido em qualquer lugar — explicou o Rei do Submundo. — Você é o único que possui a arrogância necessária para o papel, mas que, com essas roupas, não parece um deus, nem uma criança, e muito menos alguém que já passou dos trinta. Você passa por um jovem aristocrata entediado perfeitamente.
Qin bufou, ajustando os óculos.
— O Rei faz o que quer, mas se isso for pelo bem da ordem... que assim seja. Mas vou cobrar caro por esse serviço de acompanhante.
O interior do L'Eclisse era um labirinto de luzes neon roxas e música eletrônica pulsante. Qin Shi Huang não teve dificuldade em entrar; ele apenas caminhou até a frente da fila e olhou para o segurança com tamanha superioridade que o homem abriu a corda de veludo sem sequer pedir identidade.
Ele se sentou no balcão do bar, pedindo um drink caro com um gesto displicente. Não demorou muito para que ele sentisse o peso de um olhar sobre si. No mezanino, um homem de meia-idade, com um terno sob medida e um relógio que custava mais que um apartamento, o observava. Era Lorenzo.
Qin sustentou o olhar. Ele não desviou. Em vez disso, inclinou a cabeça levemente e deu um gole em sua bebida, permitindo que um sorriso de canto de lábio aparecesse. Era o jogo da sedução, e embora Qin preferisse conquistar territórios com exércitos, ele sabia como conquistar uma sala com um único gesto.
Dez minutos depois, o homem estava ao seu lado.
— Nunca vi um rosto como o seu por aqui — disse Lorenzo, a voz carregada de um charme ensaiado.
— Eu não costumo frequentar lugares onde as pessoas precisam pedir permissão para entrar — respondeu Qin, a voz suave, mas carregada de orgulho. — Mas hoje eu estava... curioso.
— A curiosidade é uma virtude perigosa — Lorenzo se aproximou, sua mão deslizando pelo balcão. — Mas eu posso torná-la recompensadora.
Enquanto Qin mantinha o criminoso hipnotizado, em seus ouvidos um pequeno comunicador trazia o caos silencioso do restante da equipe.
— Entramos pela ventilação — a voz de Kojiro Sasaki sussurrava. — O Tesla está tentando desativar os lasers, mas ele não para de falar sobre as leis da termodinâmica...
— Cala a boca, Sasaki! — era a voz irritada de Leônidas. — Eu vou quebrar essa porta se o gênio não andar logo.
— Não quebre nada! — Hades interveio, sua voz firme no rádio. — Mantenham a discrição. Qin, como está a situação?
Qin não podia responder verbalmente, então deu uma risada leve para o flerte de Lorenzo, o que o homem interpretou como um sinal verde.
— Você é fascinante — disse Lorenzo, aproximando-se ainda mais. — Por que não saímos deste bar barulhento? Tenho uma área VIP com uma vista melhor e vinhos que você não encontraria em nenhum outro lugar da Europa.
— Onde o Rei vai, o luxo deve seguir — respondeu Qin, levantando-se.
Foi nesse momento que Lorenzo, sentindo-se vitorioso, deixou a mão descer e apertar com firmeza a nádega do Imperador, puxando-o para perto enquanto o guiava para a escada.
Qin sentiu um espasmo de irritação. Sua sinestesia toque-espelho o fez sentir a pressão da mão de Lorenzo como se ele mesmo estivesse se tocando, mas acompanhado de uma sensação de repulsa visceral. No entanto, ele manteve o sorriso. Pelo bem da missão — e pelo prazer de ver Hades ter que admitir sua eficiência depois —, ele continuaria.
Na área VIP, o ambiente era mais silencioso. Lorenzo sentou-se em um sofá de couro largo e, com um puxão possessivo, colocou Qin sentado em suas coxas.
— Qin, estamos no cofre. Onde você está? — a voz de Hades soou novamente, desta vez com um tom ligeiramente mais tenso.
Qin Shi Huang aproveitou que Lorenzo estava servindo dois copos de vinho e sussurrou rapidamente no microfone escondido na gola:
— Eu estou sentado no colo de um bandido gordo enquanto vocês brincam de espiões. Terminem logo com isso ou eu vou decapitar esse homem.
— Mantenha a calma, Imperador — respondeu Hades, e Qin jurou que podia ouvir um tom de diversão misturado com uma ponta de... ciúmes? — Estamos quase terminando. Apenas mais cinco minutos.
Qin voltou sua atenção para Lorenzo, que lhe entregava a taça.
— Você parece distante, tesouro — disse o traficante. — No que está pensando?
— No quanto você ficaria surpreso se soubesse quem eu realmente sou — Qin sorriu, passando a ponta dos dedos pelo colarinho do homem, um gesto que fez Lorenzo ofegar.
Eles trocaram flertes por mais alguns minutos, com Qin usando toda a sua lábia milenar para distrair o homem de qualquer barulho que pudesse vir do andar de baixo. Quando o sinal de Hermes finalmente soou — três bipes curtos —, Qin soube que era hora de partir.
— Eu preciso ir — disse Qin, levantando-se com uma agilidade que deixou Lorenzo confuso. — Meu tempo é precioso.
— Já? Mas mal começamos — Lorenzo tentou segurar seu pulso. — Deixe-me pelo menos ter o seu número. Ou um beijo de despedida.
Qin olhou para a porta e depois para o homem. Ele queria apenas sair dali, mas um bom ator termina sua performance com um grand finale. Ele se inclinou, segurando o rosto de Lorenzo, e selou seus lábios em um beijo rápido, mas intenso o suficiente para deixar o traficante atordoado.
— Meu número — disse Qin, pegando um guardanapo e escrevendo rapidamente. Ele entregou o papel e piscou. — Não me faça esperar.
Do lado de fora, em um beco escuro a duas quadras do clube, o grupo de deuses e humanos estava reunido em volta de uma van preta. Maletas contendo relíquias recuperadas estavam sendo guardadas.
Quando Qin apareceu, caminhando com seu estilo inconfundível e limpando os lábios com as costas da mão, a recepção foi imediata.
— Olha só quem voltou! — exclamou Buda, mastigando um chiclete. — E aí, Majestade? O beijo foi bom ou ele tinha gosto de crime organizado?
— O Imperador da China se rebaixando a ser um acompanhante de luxo... essa eu vou contar para as gerações futuras — riu Lu Bu, cruzando os braços.
— Eu achei a técnica de infiltração dele muito... orgânica — comentou Jack, o Estripador, com um brilho malicioso nos olhos.
Sasaki Kojiro e Raiden Tameemon caíram na risada, enquanto Nikola Tesla tentava explicar que, estatisticamente, o beijo foi a forma mais rápida de encerrar a interação social sem gerar suspeitas.
— Silêncio — ordenou Hades, saindo de trás da van. Ele olhou para Qin de cima a baixo. O Imperador parecia irritado, mas ileso. — Você cumpriu o seu papel. O cofre foi limpo e as provas foram enviadas para as autoridades locais.
— O Rei sempre cumpre o que promete — disse Qin, aproximando-se de Hades. — Mas da próxima vez, Zeus vai no meu lugar. Eu tive que suportar as mãos daquele homem em mim.
— Você passou o seu número para ele — observou Poseidon, encostado na parede com sua frieza habitual. — Por que faria algo tão estúpido?
Qin deu um sorriso travesso, tirando o guardanapo que Lorenzo pensava ter recebido (ele havia trocado por um vazio no último segundo).
— Eu passei o número da linha direta de denúncias da polícia internacional que o Hermes me deu antes de entrarmos. Ele vai ter uma surpresa quando tentar me ligar amanhã de manhã.
Hades soltou um suspiro curto, que em qualquer outro deus seria uma risada.
— Vamos embora. Ainda temos que lidar com o relatório de Odin.
Enquanto o grupo se dirigia para os veículos, Zeus se aproximou de Qin, dando um tapinha em suas costas.
— Mandou bem, garoto! Mas me diga, o que o Hades te falou para te convencer a usar essa calça?
Qin olhou para o Rei do Submundo, que já estava entrando no carro, mantendo sua postura nobre e inabalável.
— Ele disse que eu era o único que não parecia uma criança nem um velho de quarenta anos — respondeu Qin, alto o suficiente para Hades ouvir. — E que o meu brilho era o único capaz de cegar um ganancioso.
Hades parou com a mão na porta do carro, olhando por cima do ombro para o Imperador.
— Eu disse que você era adequado, Qin Shi Huang — corrigiu Hades, embora seus olhos dissessem algo muito mais profundo. — Agora entre no carro antes que eu decida que a missão ainda não acabou.
Qin sorriu, vitorioso. Ele sabia que, no fim das contas, até o Rei dos Mortos tinha que admitir: não havia trono, seja em Helheim ou em um clube noturno, que Qin Shi Huang não pudesse reivindicar para si.
