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Sereia

Fandom: Sereias

Criado: 26/07/2026

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O Canto do Sal e o Segredo de Prata

A brisa noturna soprava com uma leveza enganadora, trazendo consigo o cheiro forte de salitre e o som rítmico das ondas quebrando contra os pilares de madeira do velho píer. Kuro, Nico e Emma estavam sentados na ponta da estrutura, com as pernas balançando sobre o abismo escuro do oceano. O luar era a única lanterna de que dispunham, refletindo-se na pele alva de Kuro e destacando seu cabelo branco repicado, que parecia brilhar sob a luz prateada.

— Eu estou dizendo a vocês, esse lugar é o melhor para ver as estrelas... e talvez algumas gatas perdidas na areia — disse Kuro, abrindo um sorriso malicioso e passando a mão pelo abdômen definido, que aparecia discretamente sob a camisa aberta.

— Você não consegue passar cinco minutos sem ser um completo idiota, não é? — Emma revirou os olhos azuis escuros, ajeitando uma mecha de seu cabelo loiro que o vento insistia em jogar no rosto. — Viemos aqui para relaxar, não para ouvir suas cantadas baratas.

Nico, sempre o mais observador do grupo, não respondeu. Seus olhos verdes estavam fixos em um ponto próximo às rochas que cercavam a base do píer. Algo havia se movido ali. Algo que não parecia uma foca ou um peixe comum.

— Gente... — Nico murmurou, a voz baixa carregada de cautela. — Calem a boca um segundo.

— O que foi, Nico? Viu um fantasma? — Kuro riu, mas parou abruptamente quando um som peculiar ecoou.

Não era o som da água. Era um tilintar suave, como se pequenas joias estivessem batendo umas nas outras. E, então, um vulto emergiu da água.

Lentamente, uma figura subiu em uma das rochas planas que ficavam parcialmente submersas. À medida que a água escorria, a luz da lua revelou o impossível. Uma garota, aparentemente da idade deles, com a pele parda brilhando pela umidade. Seus cabelos pretos e ondulados eram tão longos que ultrapassavam a linha da cintura, adornados com dezenas de pequenas conchas brancas e pérolas que emitiam aquele som tilintante.

Mas o que paralisou o trio foi o que estava abaixo da cintura dela. Onde deveriam estar pernas, havia uma cauda majestosa, coberta por escamas de um branco perolado que refletiam todas as cores do prisma sob o luar. Dois pedaços de conchas brancas perfeitamente esculpidas cobriam seus seios.

— Pelos deuses... — sussurrou Emma, as mãos cobrindo a boca.

— Isso é... uma sereia? — Nico parecia ter esquecido como respirar.

Kuro, por outro lado, arregalou os olhos castanhos, mas não conseguiu evitar que seu instinto falasse mais alto.

— Uau... e que sereia! — Ele soltou um assobio baixo. — O mar realmente esconde os melhores tesouros.

A sereia deu um sobressalto, seus olhos pretos como a noite encontrando os três humanos no topo do píer. Ela não fugiu imediatamente, mas seu corpo tencionou, pronta para mergulhar a qualquer momento.

— Vocês... — A voz dela era melodiosa, mas carregada de um sotaque estranho, como se as palavras fossem moldadas pela água. — Vocês são as Criaturas de Terra?

— Criaturas de Terra? — Emma repetiu, aproximando-se da beirada com cuidado. — Sim, somos humanos. Eu sou a Emma. Aqueles são o Nico e o Kuro.

A sereia inclinou a cabeça, curiosa. As pérolas em seu cabelo balançaram.

— Emma. Nico. Kuro. — Ela repetiu os nomes como se testasse o sabor deles. — Eu sou Tatsuyo.

— Tatsuyo — Nico disse, tentando manter a voz calma para não assustá-la. — Você é real? Quer dizer, nós sempre ouvimos histórias, mas...

— Histórias? — Tatsuyo franziu a testa, subindo um pouco mais na rocha, revelando a extensão total de sua cauda branca. — Que tipo de histórias?

— Ah, você sabe — Kuro interveio, inclinando-se para frente com um olhar interessado. — Histórias sobre mulheres lindas que afogam marinheiros ou que cantam para nos levar à loucura. Se o seu plano era me levar à loucura, já está funcionando, gracinha.

Tatsuyo olhou para Kuro com uma expressão de pura confusão.

— Por que eu afogaria alguém? Isso parece um desperdício de energia. E por que você está olhando para a minha cauda desse jeito? É algum tipo de ritual de acasalamento da terra?

Nico deu um tapa na nuca de Kuro, fazendo o amigo resmungar.

— Desculpe por ele, Tatsuyo. O Kuro é um idiota em qualquer espécie — explicou Nico. — Nós estamos apenas chocados. Nunca vimos ninguém como você.

— E eu nunca vi nada como vocês — Tatsuyo admitiu, apontando para as roupas de Emma. — Por que você está enrolada nessas fibras coloridas? Não é difícil nadar com isso?

— Isso são roupas — Emma riu suavemente, sentando-se no chão do píer para ficar mais próxima do nível da sereia. — Nós as usamos para nos proteger do frio e... bem, por pudor.

— Pudor? — Tatsuyo inclinou a cabeça para o outro lado. — O que é pudor?

— É... — Emma hesitou, buscando palavras. — É quando sentimos que precisamos esconder partes do corpo.

Tatsuyo olhou para as próprias conchas no peito e depois para a cauda.

— Estranho. Na água, quanto menos coisas prendendo você, melhor. E por que vocês têm esses dois galhos compridos no lugar de uma cauda? Como vocês se movem sem se desequilibrar?

— Chamamos de pernas — explicou Nico, apontando para seus próprios membros. — Elas servem para andar sobre a terra firme. Nós não conseguimos respirar debaixo d'água como você.

Tatsuyo nadou um pouco mais para perto, apoiando os braços na base de madeira de um dos pilares do píer. Seus olhos pretos brilhavam com uma curiosidade quase infantil.

— Então vocês vivem o tempo todo no seco? Onde o sol queima? Como não secam como as algas mortas?

— Nós bebemos água — disse Kuro, exibindo seu melhor sorriso. — E usamos protetor solar. Mas se você quiser, eu posso te mostrar como a gente se diverte por aqui. Tem muita coisa que uma sereia linda como você adoraria conhecer.

— Kuro, pare de dar em cima de uma criatura mitológica! — Emma sibilou, antes de voltar sua atenção para Tatsuyo. — Você vive aqui perto? Há mais de vocês?

A expressão de Tatsuyo mudou instantaneamente. A curiosidade deu lugar a uma seriedade súbita, e ela olhou em volta, verificando se não havia mais ninguém nas sombras da praia.

— Sim, há muitos de nós. Mas não devemos ser vistos. Meu povo diz que os humanos são perigosos, que vocês caçam o que não entendem e que transformam a beleza em troféus.

— Nós não faríamos isso — Nico garantiu, sua voz soando sincera. — Jamais machucaríamos você.

Tatsuyo fixou seus olhos pretos nos verdes de Nico por um longo tempo, como se estivesse lendo sua alma. Depois, olhou para Emma e, por fim, para o ainda sorridente Kuro.

— Eu sinto que vocês não são caçadores — disse ela, finalmente. — Mas o segredo não é apenas sobre mim. Se o meu povo souber que eu falei com vocês, eu serei exilada para as correntes frias do abismo.

Ela estendeu uma mão delicada, cujos dedos eram levemente unidos por uma membrana quase invisível, e tocou a madeira do píer.

— Vocês precisam me prometer. Prometer pelo sal e pelo sangue. Não podem contar a nenhum outro humano sobre mim. Nem sobre as sereias.

— Eu prometo — Emma disse imediatamente, colocando a mão sobre o coração.

— Eu também prometo — Nico afirmou, solene.

Kuro hesitou por um segundo, olhando para Tatsuyo de cima a baixo. Ele era um paquerador inveterado, sim, mas havia algo na vulnerabilidade daquela criatura que o atingiu de forma diferente.

— Prometido, sereiazinha — disse ele, com um tom de voz mais suave do que o habitual. — Seu segredo está seguro com a gente. Eu não deixaria ninguém encostar um dedo em você.

Tatsuyo relaxou os ombros, e um pequeno sorriso surgiu em seus lábios.

— O que é aquilo que você tem no rosto? — Ela perguntou, apontando para os olhos de Kuro. — Eles são da cor da terra molhada. Os meus são apenas escuros como o fundo do oceano.

— São olhos castanhos — Kuro respondeu, sentindo-se estranhamente lisonjeado. — E os seus são lindos, Tatsuyo. Na verdade, tudo em você é... fascinante.

— Fascinante — Tatsuyo provou a palavra. — É uma palavra boa?

— É uma palavra ótima — Emma sorriu. — Significa que você é especial.

Tatsuyo pareceu satisfeita. Ela deu uma pirueta na água, fazendo sua cauda branca chicotear a superfície e lançar gotas de água fria nos três amigos. Kuro riu, limpando o rosto.

— Ei! Isso foi um ataque?

— Foi um presente — Tatsuyo riu, um som que lembrava o tilintar de cristais. — A água do mar cura as feridas dos humanos, não cura?

— Algumas delas, sim — Nico respondeu, observando como a luz da lua parecia dançar nas escamas dela. — Tatsuyo, como é lá embaixo? No fundo?

— É uma floresta de cores que vocês não conseguem imaginar — começou ela, os olhos brilhando ao descrever seu mundo. — Existem cidades feitas de coral que brilham com luz própria, e jardins de anêmonas que dançam quando a correnteza passa. Nós cavalgamos nas correntes quentes e conversamos com as baleias quando elas passam em suas migrações.

— Parece um sonho — Emma comentou, fascinada.

— E por que você subiu aqui hoje? — perguntou Nico.

Tatsuyo baixou o olhar para as pérolas em suas mãos.

— Eu ouvi o som de vocês. O riso de vocês era diferente do som das ondas. Eu queria saber se os humanos eram tão barulhentos quanto os golfinhos dizem.

— E somos? — perguntou Kuro.

— Vocês são mais estranhos do que barulhentos — admitiu ela. — Mas... eu gostei do jeito que vocês falam.

De repente, um som grave e profundo, como o sopro de uma grande concha, ecoou vindo das profundezas do mar. Tatsuyo empalideceu, ou o equivalente a isso para sua pele parda.

— Eu preciso ir. É o chamado da maré. Meu pai vai notar minha ausência.

— Você vai voltar? — Nico perguntou, sentindo uma urgência que não sabia explicar.

Tatsuyo mergulhou o corpo até a altura do queixo, deixando apenas os olhos pretos e o topo da cabeça adornado de pérolas visíveis.

— Talvez. Se as águas estiverem calmas e se vocês guardarem o segredo.

— Nós guardaremos! — Emma exclamou.

Com um último movimento gracioso, Tatsuyo impulsionou seu corpo para trás. Sua cauda branca emergiu uma última vez, brilhando como um diamante bruto, antes de desaparecer sob a superfície escura do oceano.

O silêncio voltou a reinar no píer, quebrado apenas pelo som das ondas. Kuro, Nico e Emma permaneceram imóveis por vários minutos, processando o que acabara de acontecer.

— Cara... — Kuro quebrou o silêncio, passando a mão pelo cabelo branco. — Eu ia fazer uma piada sobre como eu quase conquistei uma sereia, mas... isso foi bizarro. E incrível.

— Foi a coisa mais linda que eu já vi — Emma disse, limpando uma lágrima solitária do canto do olho. — Nós realmente não podemos contar para ninguém, gente. Imaginem o que fariam com ela.

— Nem pensar — Nico concordou, olhando para o horizonte onde a lua começava a descer. — Esse é o nosso segredo agora. O segredo de Tatsuyo.

Kuro olhou para a água uma última vez, um sorriso de canto surgindo em seu rosto.

— É, Nico. Mas eu ainda acho que ela gostou do meu tanquinho.

— Cala a boca, Kuro! — Emma e Nico gritaram em uníssono, mas ambos estavam sorrindo.

Enquanto caminhavam de volta para a areia, o trio sabia que suas vidas haviam mudado para sempre. O mar não era mais apenas uma massa de água azul; agora, ele tinha um rosto, um nome e um brilho perolado que nenhum deles jamais esqueceria. E, em algum lugar sob as ondas, uma sereia chamada Tatsuyo nadava de volta para casa, pensando nas estranhas criaturas de terra que tinham galhos no lugar de caudas e corações que pareciam, contra todas as expectativas, ser feitos de ouro.

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