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Aquela noite

Fandom: N tem

Criado: 26/07/2026

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Ecos do Silêncio e a Cor da Amizade

Tudo o que ela queria era esquecer seu passado. O problema das memórias, pensava Jade enquanto observava a chuva tamborilar contra a vidraça da cafeteria, é que elas não são como roupas velhas que você simplesmente joga fora ou doa para alguém. Elas são mais como manchas de tinta em uma tela branca; você pode pintar por cima, pode tentar raspar, mas a textura original sempre estará lá, escondida sob as camadas de presente.

Jade apertou a xícara de chocolate quente entre as mãos, sentindo o calor infiltrar-se em seus dedos gelados. O reflexo no vidro mostrava uma garota de dezoito anos com olhos que pareciam ter visto o dobro dessa idade. As cicatrizes que ela carregava não eram todas visíveis, mas as que estavam na superfície — um pequeno traço esbranquiçado no pulso e uma marca quase imperceptível perto da têmpora — serviam como lembretes constantes de uma época em que o medo era sua única companhia.

— Você está fazendo aquele olhar de novo — disse uma voz suave, interrompendo o fluxo de seus pensamentos.

Jade piscou, voltando a si. À sua frente, sentada no banco estofado do outro lado da mesa, estava Maya. Com seus cabelos cacheados volumosos e um sorriso que parecia irradiar luz própria, Maya era o oposto do cinza que Jade costumava carregar dentro de si.

— Que olhar? — perguntou Jade, tentando forçar um tom casual.

— O olhar de "estou em 2015 de novo" — respondeu Maya, inclinando a cabeça. — Jade, já conversamos sobre isso. O passado é um lugar horrível para se visitar sozinha.

Jade suspirou, deixando os ombros caírem.

— Eu sei. É só que... o cheiro da chuva hoje me lembrou daquela noite. A noite em que eu decidi que não aguentava mais.

O silêncio caiu sobre a mesa, mas não era um silêncio desconfortável. Era o tipo de silêncio que só existe entre pessoas que já viram as piores versões uma da outra e decidiram ficar.

— Mas você aguentou — interveio Leo, surgindo de repente com uma bandeja de cookies recém-saídos do forno. Ele se sentou ao lado de Maya, ocupando o espaço com sua energia inquieta. — E você não está mais lá. Olha em volta, Jade.

Jade olhou. A cafeteria "O Refúgio" era o quartel-general deles. As paredes eram cobertas por fotos de momentos que eles haviam construído juntos nos últimos três anos: viagens improvisadas à praia, noites de estudo que terminaram em batalhas de travesseiro e o dia em que Jade finalmente conseguiu dormir uma noite inteira sem ter pesadelos.

— Eu às vezes sinto que sou uma fraude — confessou Jade, a voz falhando levemente. — Todos vocês me veem como essa pessoa que "superou tudo", mas por dentro, às vezes, eu ainda sou aquela menina trancada no quarto, esperando o próximo grito.

Leo pegou um dos cookies e o dividiu ao meio, estendendo uma parte para ela.

— Superação não é apagar o que aconteceu, Jade — disse ele com uma seriedade rara. — É construir algo tão bonito por cima que o que veio antes deixa de ser o protagonista da história. Você não é a dor que te causaram. Você é a pessoa que sobreviveu a ela e ainda consegue ser gentil com a gente, o que, convenhamos, exige muita paciência.

Jade soltou uma risada curta, sentindo um peso sair de seu peito.

— Vocês são ridículos.

— Somos a sua família — corrigiu Maya, segurando a mão de Jade sobre a mesa. — E famílias não deixam ninguém para trás na chuva.

— Falando em chuva — disse Leo, mudando o tom para algo mais animado —, o pessoal está vindo para cá. O Lucas conseguiu passar no teste daquela escola de artes e a gente vai comemorar.

— Hoje? — Jade perguntou, surpresa. — Mas ele só ia saber o resultado amanhã.

— Ele não aguentou a ansiedade e ligou para a secretaria — explicou Maya, revirando os olhos com carinho. — Ele está vindo com a Bia.

Enquanto Maya e Leo discutiam sobre qual sabor de pizza pediriam mais tarde, Jade se permitiu observar os dois. Três anos atrás, ela não conseguia imaginar que teria amigos, muito menos uma vida que não fosse pautada pelo pânico. O trauma era um monstro persistente, sim, mas ele perdia a força diante da risada escandalosa de Leo e da empatia silenciosa de Maya.

A porta da cafeteria se abriu com um tilintar de sinos, e Lucas e Bia entraram, ambos ensopados pela chuva, mas com sorrisos que desafiavam o clima lá fora.

— Eu consegui! — gritou Lucas, levantando uma pasta de couro que provavelmente continha seus desenhos. — Jade, eu consegui!

Ele correu até a mesa e deu um abraço coletivo que quase derrubou o chocolate quente de Jade.

— Parabéns, Lucas! — disse Jade, sentindo uma alegria genuína borbulhar em seu peito. — Eu sabia que eles iam ver o seu talento.

— A gente precisa celebrar — disse Bia, tirando o casaco molhado e pendurando-o no encosto da cadeira. — E eu não aceito um "não" como resposta. Jade, você prometeu que íamos dançar na próxima vez que tivéssemos uma boa notícia.

Jade hesitou por um segundo. Multidões e lugares barulhentos ainda eram um desafio para ela. Mas, ao olhar para os rostos expectantes de seus quatro amigos, ela percebeu que não tinha mais medo de cair. Se ela tropeçasse, haveria oito mãos prontas para segurá-la.

— Tudo bem — cedeu ela, sorrindo. — Mas eu escolho a música.

— Justo — concordou Leo.

Eles passaram as horas seguintes planejando o resto da noite. Entre piadas internas e planos para o futuro, o passado de Jade começou a recuar para as sombras, onde pertencia. Não que ele tivesse desaparecido, mas ele não era mais o dono da casa.

— Sabe — disse Jade em um momento em que a conversa diminuiu —, eu passei muito tempo tentando esquecer tudo. Cada detalhe, cada palavra maldita que me disseram.

Os amigos pararam para ouvi-la.

— E agora? — perguntou Maya suavemente.

— Agora eu percebi que, se eu esquecesse tudo, eu também esqueceria o motivo de vocês serem tão importantes para mim — continuou Jade, sentindo as lágrimas arderem em seus olhos, mas desta vez eram lágrimas de alívio. — O escuro só me mostrou o quanto a luz de vocês é forte.

Lucas colocou a mão no ombro dela.

— Você é a nossa luz também, Jade. Você nos ensinou o que é coragem de verdade.

— Eu? — ela riu, limpando o rosto. — Eu só estava tentando sobreviver.

— E olha onde você chegou — disse Bia, apontando para o grupo. — Você não está apenas sobrevivendo. Você está vivendo.

A chuva lá fora continuava a cair, mas o ambiente dentro do "Refúgio" era quente e vibrante. Jade olhou para cada um deles — Maya, Leo, Lucas e Bia — e sentiu uma paz que antes parecia um conceito abstrato de livros de ficção.

Ela entendeu, finalmente, que a superação não era um destino final, mas um processo diário. Havia dias ruins, dias em que as sombras tentavam voltar, mas elas não tinham mais poder sobre ela.

— Então — disse Leo, levantando-se e batendo as mãos na calça —, quem está pronto para ver a Jade passar vergonha na pista de dança?

— Ei! — protestou ela, rindo. — Eu danço muito melhor que você, Leo.

— Isso é o que vamos ver — desafiou ele, piscando.

Enquanto saíam da cafeteria, Jade sentiu a brisa úmida no rosto. Ela não encolheu os ombros dessa vez. Ela caminhou de cabeça erguida, cercada por vozes que a amavam, deixando para trás os ecos do silêncio que um dia a definiram. O passado ainda estava lá, uma cicatriz na alma, mas o futuro... o futuro era uma tela em branco, e desta vez, ela tinha todas as cores do mundo para pintá-lo.

— Vamos logo! — gritou Maya lá na frente, correndo sob a chuva. — O último a chegar paga a primeira rodada de refrigerante!

Jade correu. Pela primeira vez na vida, ela não estava fugindo de algo. Ela estava correndo em direção a algo. E era a sensação mais maravilhosa que já experimentara.

— Esperem por mim! — gritou ela, a voz clara e firme, perdendo-se no som da chuva e misturando-se à alegria de estar, finalmente, em casa.

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