
Ouro, Gelo e Algodão Doce
O flash das câmeras era quase tão frio quanto o gelo do ringue onde Kuro Hatake passava a maior parte de seus dias. O salão de festas do hotel cinco estrelas em Toronto estava saturado com o cheiro de perfumes caros, champanhe e a eletricidade da elite mundial. Atletas de elite com seus ternos de grife, modelos cujos vestidos pareciam desafiar as leis da física e atores de Hollywood circulavam pelo espaço como se estivessem em uma vitrine.
No centro de tudo, Kuro Hatake, o defensor estrela do Toronto Wolves, era o epicentro das atenções. Com 1,80m de altura, ombros largos que tencionavam o tecido da camisa social preta e um abdômen definido que mesmo o corte impecável da calça social não conseguia esconder totalmente, ele era o sonho de consumo da internet. Seu cabelo branco curto e repicado brilhava sob os lustres de cristal, e o sorriso brincalhão que ele ostentava nos lábios arrancava suspiros por onde passava.
No entanto, Kuro não estava olhando para as câmeras. Ele não estava olhando para os patrocinadores. Seus olhos castanhos escuros, intensos e carregados de uma adoração quase possessiva, não saíam da mulher ao seu lado.
Tatsuyo caminhava calmamente, ignorando os olhares de confusão ou desdém de algumas modelos ao redor. Ela não usava um vestido de seda com fendas profundas ou saltos agulha. Em vez disso, ela vestia uma camiseta de manga longa preta de gola alta por baixo de uma jardineira de cotelê verde musgo, que abraçava confortavelmente sua barriga de quatro meses, já levemente protuberante. Nos pés, um par de tênis confortáveis. Seus cabelos pretos e lisos caíam em cascatas pelas costas, contrastando lindamente com sua pele parda.
Ela era a antítese do "padrão" de esposa de jogador, e Kuro a achava a criatura mais fascinante do planeta justamente por isso.
— Você está encarando de novo, Kuro — murmurou Tatsuyo, ajeitando a alça da jardineira enquanto caminhava em direção ao buffet de canapés.
Kuro soltou uma risada curta, aquele som rouco que fazia suas fãs entrarem em colapso nas redes sociais, e passou o braço pela cintura dela, puxando-a para mais perto.
— Não consigo evitar. Você é a coisa mais linda desse salão, Tatsu. Esse verde faz seus olhos brilharem.
— Eu estou parecendo um brócolis gigante no meio de um jardim de orquídeas — ela brincou, embora houvesse um brilho de diversão em seu olhar. — As pessoas estão cochichando, Kuro. "Quem é essa garota comum que o deus do hóquei trouxe para a festa?".
Kuro parou de andar, forçando-a a parar também. Ele se inclinou, ignorando completamente os fotógrafos que disparavam flashes frenéticos à esquerda, e encostou a testa na dela. A mão dele desceu da cintura para o ventre dela, espalmando-se ali com uma proteção instintiva.
— Deixa eles falarem — ele sussurrou, a voz subitamente séria e carregada de uma obsessão doce. — Eles não sabem o que é ter sorte de verdade. Eles veem plástico e fachadas. Eu vejo você. E você é real, é minha, e é a mãe do meu filho. Se alguém aqui tiver um problema com o fato de você ser a mulher mais autêntica e maravilhosa do mundo, pode ir falar com o meu taco de hóquei.
Tatsuyo riu, sentindo o calor dele contra o seu corpo.
— Você é um bobo, Hatake. Vamos, eu preciso comer algo que não seja um mini-quiche de luxo. Aquele jornalista da ESPN está vindo para cá e eu não quero falar de estatísticas de defesa enquanto meu estômago reclama.
— Tarde demais — Kuro resmungou, mas manteve o sorriso enquanto um homem de terno cinza se aproximava.
— Kuro! Que prazer encontrá-lo — disse o homem, estendendo a mão. — E você deve ser a famosa Tatsuyo. A jornalista que roubou o coração do nosso defensor mais implacável.
— Tatsuyo Hatake — Kuro corrigiu imediatamente, enfatizando o sobrenome dela com um orgulho indisfarçável. — E sim, ela é a melhor jornalista esportiva que este país já viu, então meça suas perguntas, Miller.
Tatsuyo apertou a mão do colega de profissão com um sorriso educado.
— Prazer, Miller. Ignora o Kuro, ele é dramático por natureza.
— Eu imagino — Miller riu, mas seus olhos avaliaram o visual de Tatsuyo. — Um visual... interessante para uma gala dessa magnitude, Tatsuyo. Bem casual.
Kuro sentiu a mandíbula travar. Ele deu um passo à frente, sua presença física tornando-se subitamente intimidadora. O "engraçadinho" do time desapareceu, dando lugar ao homem que era conhecido por derrubar oponentes de cem quilos no gelo sem piscar.
— Ela está confortável — Kuro disse, a voz baixa e perigosa. — E ela não precisa de lantejoulas para ser a mulher mais poderosa nesta sala. A Tatsuyo dita as regras, Miller. Ela não segue as dos outros. Algum problema com isso?
O jornalista engoliu em seco, recuando um passo.
— Nenhum, Kuro. De forma alguma. Só... diferente. Com licença, vou falar com o técnico.
Assim que o homem se afastou, Tatsuyo deu um tapinha leve no peito musculoso de Kuro.
— Ei, tigre. Menos agressividade. Eu sei me defender, sabia?
— Eu sei que sabe — Kuro relaxou, voltando a ser o garoto de vinte anos apaixonado. — Mas eu odeio o jeito que esses idiotas olham para você como se você estivesse errada. Você é a única coisa certa na minha vida, Tatsu.
Ele a conduziu para um canto mais reservado do salão, perto de uma varanda que dava para as luzes da cidade. O ar frio da noite entrava por uma fresta, e Kuro imediatamente começou a esfregar os braços dela para aquecê-la.
— Está com frio? Quer meu paletó? — perguntou ele, já começando a desabotoar o botão da frente.
— Não, Kuro, eu estou bem. A jardineira é de veludo cotelê, é quente — ela sorriu, tocando o rosto dele. — Você está muito agitado hoje. O que foi? O jogo de ontem ainda está na sua cabeça?
Kuro suspirou, encostando-se na balaustrada e puxando-a para entre suas pernas, envolvendo-a em um abraço completo.
— Não é o jogo. É só que... às vezes eu olho para você e não acredito que você é real. A internet é um lugar tóxico, Tatsu. Eles postam fotos nossas, comparam você com as ex-namoradas de outros jogadores, dizem que você deveria se "cuidar" mais. E eu sinto vontade de quebrar tudo. Porque eles não veem a Tatsuyo que acorda comigo, que usa camisetas velhas do Star Wars e que me faz rir até minha barriga doer. Eles não merecem nem saber o seu nome.
Tatsuyo olhou nos olhos castanhos dele, vendo a vulnerabilidade escondida atrás daquela fachada de atleta de elite.
— Kuro, as pessoas sempre vão falar. Elas não entendem por que um cara que tem "o mundo aos seus pés" escolheria uma garota que prefere ler quadrinhos a ir ao salão de beleza. Mas a opinião delas não importa. Eu não preciso de botox, de vestidos de cinco mil dólares ou de uma máscara. Eu só preciso de você. E do nosso pequeno "brócolis" aqui dentro.
Ela pegou a mão dele e a colocou sobre o ponto onde o bebê havia chutado pela primeira vez naquela manhã. Kuro congelou, seu rosto iluminando-se com uma expressão de puro assombro.
— Ele se mexeu? — perguntou ele, a voz falhando.
— Ele ou ela — Tatsuyo corrigiu com um sorriso. — Sim, parece que gostou da música clássica da festa. Ou talvez esteja apenas reclamando da falta de comida de verdade.
Kuro se ajoelhou ali mesmo, no meio da festa de gala, ignorando o fato de que pelo menos cinquenta celulares estavam apontados para eles naquele momento. Ele encostou o ouvido na barriga de Tatsuyo, fechando os olhos.
— Ei, carinha — ele sussurrou para o ventre dela. — Aqui é o papai. Não escuta essas pessoas lá fora, tá? Escuta a mamãe. Ela é a pessoa mais incrível do mundo. E eu vou proteger vocês dois para sempre.
Tatsuyo sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos. Kuro era intenso, às vezes beirando o obsessivo, mas o amor dele era o porto seguro que ela nunca soube que precisava até conhecê-lo na faculdade. Enquanto outras mulheres buscavam o status dele, ela buscava o homem que deixava o último pedaço de pizza para ela e que decorava todas as suas falas favoritas de filmes do Studio Ghibli só para impressioná-la.
— Kuro, levanta — ela disse, rindo entre as lágrimas. — Você vai sujar sua calça caríssima.
— Que se dane a calça — ele disse, levantando-se e selando os lábios nos dela em um beijo profundo, lento e cheio de promessas.
O beijo foi interrompido pelo som de pigarros. Um grupo de modelos e influenciadores passava por perto, lançando olhares de desdém para a cena "doméstica" no meio do evento de luxo.
— Tão... pitoresco — comentou uma mulher loira, vestida em um Versace transparente. — Imagino que a vida em casa seja bem simples, não é, Kuro? Sem grandes produções.
Kuro se virou, mantendo o braço firmemente ao redor dos ombros de Tatsuyo. Ele deu aquele sorriso de lado, o que ele usava antes de marcar um gol decisivo.
— Sim, é maravilhosa — respondeu Kuro, a voz clara o suficiente para que todos ao redor ouvissem. — Sabe, depois de passar o dia cercado por pessoas que gastam quatro horas se pintando para parecerem algo que não são, chegar em casa e ver a beleza natural da minha esposa é a única coisa que me mantém lúcido. Ela não precisa de produção, porque a perfeição dela não sai com água e sabão.
A mulher ficou sem resposta, o rosto ficando vermelho sob a camada espessa de maquiagem. Kuro não esperou por uma tréplica.
— Tatsu, chega de festa? — ele perguntou, voltando toda a sua atenção para ela. — Eu sei um lugar que serve o melhor hambúrguer da cidade e eles ficam abertos até as três da manhã.
Os olhos de Tatsuyo brilharam.
— Você leu meus pensamentos. Eu estava prestes a começar a comer a decoração.
— Então vamos sair daqui.
Eles caminharam em direção à saída, Kuro caminhando com a confiança de um rei, guiando sua rainha de jardineira através da multidão. Na porta, os paparazzi avançaram, gritando perguntas sobre a gravidez, sobre o contrato de Kuro e sobre o estilo de Tatsuyo.
Kuro parou por um segundo, olhou diretamente para a câmera de um dos maiores portais de fofoca do país e apontou para Tatsuyo.
— Olhem bem para ela — ele disse, com um orgulho que beirava a arrogância. — Porque vocês nunca vão ver nada tão real e bonito quanto isso.
Ele abriu a porta do carro para ela, fechando-a com cuidado antes de dar a volta e assumir o volante. Assim que as portas se fecharam, o silêncio do carro luxuoso abafou o caos da rua.
Tatsuyo soltou um suspiro de alívio, tirando os tênis e colocando os pés no painel.
— Obrigada por me defender, Kuro. Mas você sabe que não precisava.
Kuro ligou o motor, mas antes de acelerar, ele se inclinou e beijou a palma da mão dela.
— Eu sei que não precisava, Tatsu. Mas eu precisava que eles soubessem. Eu sou o maior fã da Tatsuyo Hatake. O mundo precisa saber que o meu maior troféu não está em uma prateleira no clube, mas sentado bem aqui do meu lado, usando uma jardineira verde e esperando o meu filho.
Tatsuyo sorriu, recostando a cabeça no banco.
— Você é muito brega, sabia?
— Sou — ele admitiu, engatando a marcha e saindo do meio da confusão de flashes. — E sou louco por você. Agora, vamos buscar esse hambúrguer antes que o nosso pequeno brócolis decida que eu sou o jantar.
A noite em Toronto estava fria, mas dentro daquele carro, cercado pelo cheiro de couro e pelo calor de um amor que desafiava todas as convenções da fama, tudo estava perfeito. Kuro Hatake podia ser o ídolo de milhões, mas ali, ele era apenas um homem de vinte anos, musculoso, talentoso e completamente rendido à mulher que escolhera ser comum em um mundo de aparências. E para ele, não havia nada mais extraordinário do que isso.
