
Wrong Number
Fandom: Famosos Percy Jackson
Criado: 27/07/2026
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Eco de Vozes e Números Errados
O silêncio do quarto de Raíssa era interrompido apenas pelo som rítmico da chuva batendo contra a vidraça de seu apartamento em Vancouver. Ela encarava o celular, o brilho da tela refletindo nos olhos levemente inchados. Fazia seis meses. Seis meses desde que o mundo tinha ficado um pouco mais cinza, desde que o riso contagiante de Autumn tinha se calado para sempre devido àquela falha súbita e cruel no coração.
Raíssa desbloqueou o aparelho e abriu a conversa que nunca saía do topo. Não havia balões azuis ou cinzas de resposta. Havia apenas uma trilha interminável de áudios dela.
Ela pressionou o ícone do microfone.
— Oi, Aut... — A voz de Raíssa falhou, mas ela continuou. — Hoje o ensaio foi difícil. Eu consegui o papel naquela série que te falei, lembra? "Percy Jackson". Eu devia estar pulando de alegria, mas a primeira coisa que eu quis fazer foi te ligar. Eu ainda sinto que você vai atender e dizer que já sabia que eu conseguiria. Sinto sua falta. Todos os dias.
Ela soltou o botão. A mensagem foi enviada. "Entregue".
Raíssa não sabia que, a quilômetros dali, em um trailer de set de filmagem, um aparelho de última geração vibrou sobre uma mesa de madeira.
Charlie Bushnell terminou de prender o cabelo para sua caracterização como Luke Castellan quando ouviu o alerta. Ele pegou o celular novo, comprado apenas três dias atrás para substituir o que quebrara durante um treino de dublês.
Havia uma nova mensagem de voz. De novo.
Ele hesitou. Nos últimos dois dias, ele recebera quatro áudios. No primeiro, pensou ser um engano comum. No segundo, percebeu que a garota do outro lado — dona de uma voz doce, mas carregada de uma melancolia profunda — estava falando com alguém que já não estava mais aqui.
Charlie sentou-se na cadeira, o peso do roteiro em seu colo esquecido. Ele não deveria ouvir. Era uma invasão de privacidade, um segredo que não lhe pertencia. Mas havia algo naquela voz... uma sinceridade que o desarmava.
Ele apertou o play.
— ...Sinto sua falta. Todos os dias. — A voz dela terminou em um sussurro quebrado.
Charlie fechou os olhos. Ele sentiu um aperto estranho no peito. Ele não conhecia o rosto dela, não sabia seu nome, mas sentia que conhecia sua alma. Como ele poderia responder? "Ei, esse número agora é meu, por favor, pare de lamentar a morte da sua amiga"? Seria cruel demais. Então, ele fez a única coisa que pareceu certa: guardou o celular no bolso e decidiu que seria o guardião silencioso daquelas memórias.
Enquanto isso, em uma cafeteria movimentada perto dos estúdios da Disney, o destino operava de forma mais caótica.
Raíssa estava na fila, distraída, quando uma garota ao seu lado pediu exatamente o mesmo que ela: um latte de baunilha com leite de aveia e um toque extra de canela.
As duas se entreolharam e riram simultaneamente.
— Escolha impecável — disse a desconhecida. Ela era linda, com olhos que brilhavam com uma inteligência viva e um sorriso que parecia iluminar o ambiente.
— Eu diria o mesmo — Raíssa sorriu, sentindo uma leveza que raramente experimentava ultimamente. — Sou Raíssa.
— Heloísa. Mas pode me chamar de Helô.
Elas se sentaram em uma mesa de canto. A conversa fluiu como se se conhecessem há anos. Heloísa era atriz, inteligente, rápida nas piadas e tinha uma curiosidade genuína sobre o mundo.
— Você precisa me passar seu número! — Heloísa exclamou, pegando o celular. — Temos que comemorar quando começarmos a gravar. Ouvi dizer que você também está no elenco de apoio da série!
— Com certeza! — Raíssa ditou o número rapidamente, mas, no meio da digitação, seus dedos tropeçaram. A emoção de ter encontrado uma nova amiga a fez trocar o "7" final por um "1".
Horas depois, em seu hotel, Walker Scobell estava jogado no sofá, tentando se concentrar nas falas de Percy, quando seu celular apitou.
"Oi! Aqui é a Heloísa, da cafeteria. O café de hoje foi incrível, espero que a gente se veja no set amanhã! :)"
Walker franziu a testa. Ele não conhecia nenhuma Heloísa e certamente não tinha ido a nenhuma cafeteria naquele dia; ele passara a tarde toda treinando com a espada de borracha.
— Acho que você mandou mensagem para o número errado — ele digitou, pronto para bloquear e voltar ao trabalho.
Mas, antes que pudesse, outra mensagem chegou.
"Ai meu Deus, sério? Que mico! Eu devo ter anotado errado. Desculpa mesmo, moço do número desconhecido."
Walker sorriu. Havia algo de engraçado e leve naquela resposta.
— Tudo bem, acontece com os melhores. Mas agora estou curioso... o café era realmente tão bom assim?
"O melhor da cidade. E a companhia era melhor ainda, embora ela tenha me dado o número errado, pelo visto."
Walker riu alto, jogando a cabeça para trás.
— Sabe de uma coisa? Não vamos dizer quem somos. Vamos fazer um pacto. Sem nomes reais, sem fotos de perfil. Só... conversa. O que acha?
Do outro lado, Heloísa, sentada em sua cama, mordeu o lábio inferior, achando a ideia intrigante e terrivelmente divertida.
— Aceito o desafio, Estranho do Número Errado. Me conta uma coisa que você nunca contou para ninguém.
Walker ficou sério por um momento. Ele pensou na pressão de carregar uma franquia gigante nos ombros, no medo de não ser o que os fãs esperavam.
— Eu tenho medo de que as pessoas só gostem da versão de mim que elas veem na tela, e não de quem eu sou quando as câmeras desligam.
Heloísa sentiu um frio na barriga. Aquilo era real. Aquilo era profundo.
— Eu entendo — ela respondeu. — Às vezes eu sinto que sou inteligente demais para o meu próprio bem, e que as pessoas se afastam porque eu analiso tudo. É bom falar com alguém que não me conhece.
E assim, sem saberem, dois fios de conexão começaram a se entrelaçar no tapete da fama que estava prestes a ser estendido.
Meses se passaram. As gravações da primeira temporada de Percy Jackson e os Olimpianos estavam a todo vapor. Raíssa e Heloísa haviam se tornado inseparáveis, a "dupla dinâmica" que todos adoravam no set. Raíssa era a doçura e a empatia, enquanto Heloísa era a mente estratégica e o humor ácido.
Charlie Bushnell passava os dias gravando cenas com Walker, mas suas noites eram dedicadas a ouvir a evolução de Raíssa. Ele ouviu quando ela contou para "Autumn" sobre a nova amiga, Heloísa.
— Autumn... não fica brava comigo, tá? — A voz de Raíssa no áudio soava tímida. — Eu conheci uma menina chamada Heloísa. Acho que você ia amar ela. Ela tá se tornando uma pessoa muito importante pra mim. Ela me faz rir de novo.
Charlie, deitado em sua cama, sentiu uma pontada de ciúme de um tipo que ele nunca sentira: ciúme da vida que ela estava construindo e da qual ele tecnicamente não fazia parte, mas conhecia cada detalhe. Ele estava perdidamente apaixonado por uma voz. Por uma garota que chorava por sua melhor amiga e que tentava, passo a passo, ser feliz novamente.
Já Walker vivia em uma bolha de antecipação. Suas conversas com a "Garota do Café" eram o ponto alto de seu dia. Ele sabia sobre seus sonhos de ganhar um Oscar, sobre seu amor por livros clássicos e sobre como ela se sentia protegida quando estava com sua melhor amiga, Raíssa.
Walker gelou quando leu o nome "Raíssa" pela primeira vez nas mensagens. Ele olhou para a garota que estava sentada no refeitório do set, rindo com Heloísa.
— Não pode ser — ele sussurrou para si mesmo.
Ele olhou para Heloísa. Ela estava gesticulando animadamente, explicando algo para Leah e Aryan. Walker sentiu o coração disparar. A garota com quem ele falava todas as noites, a garota que o entendia como ninguém, estava a dez metros de distância dele.
Mas como ele poderia contar? "Oi, eu sou o Walker, o protagonista da série, e eu menti para você por meses, fingindo ser um estranho qualquer". Ela o odiaria.
A premiere da primeira temporada em Nova York foi um borrão de luzes, gritos de fãs e tapetes vermelhos. Raíssa e Heloísa estavam deslumbrantes.
Quando o elenco se reuniu para as fotos em grupo, o encontro foi inevitável.
Charlie foi o primeiro a se aproximar de Raíssa. Quando seus olhos se encontraram, ele sentiu um choque elétrico. Ele reconheceu o brilho triste que ainda restava no fundo das pupilas dela. Ele reconheceu o jeito que ela mexia no anel de amizade no dedo anelar — um detalhe que ela mencionara em um áudio meses atrás.
— Oi — disse Charlie, sua voz saindo mais rouca do que o pretendido. — Eu sou o Charlie. É um prazer finalmente conhecer você, Raíssa.
— O prazer é meu, Charlie — ela sorriu, e Charlie sentiu que poderia desmaiar. — Eu adorei seu trabalho como Luke. Você trouxe uma vulnerabilidade incrível para ele.
— Eu tento... — Charlie engoliu em seco — ...entender o que as pessoas sentem por baixo da superfície.
Ao lado deles, Walker tentava manter a calma perto de Heloísa.
— Walker Scobell — ele se apresentou, estendendo a mão com um sorriso charmoso que escondia seu nervosismo.
— Heloísa Simão — ela respondeu, apertando a mão dele. — Você é bem mais engraçado pessoalmente do que nas entrevistas, Walker.
— Você não faz ideia — Walker piscou para ela, e por um segundo, o tom de voz dele fez Heloísa franzir a testa. Era familiar. Era... idêntico ao tom que ela imaginava quando lia as mensagens do Estranho do Número Errado.
Durante as semanas seguintes, os quatro se tornaram um grupo fechado. Jantares, idas ao cinema e viagens de divulgação os uniram de uma forma que ninguém poderia prever. O elenco de Percy Jackson era uma família, e Raíssa e Heloísa eram as peças que faltavam.
Mas o peso do segredo era uma bomba-relógio.
Na festa de encerramento da segunda temporada, onde Raíssa e Heloísa haviam feito participações especiais como ninfas na Ilha de Circe, a tensão atingiu o ápice.
Charlie e Raíssa estavam em um canto da varanda, o ar frio da noite soprando entre eles.
— Você tem sido um apoio incrível, Charlie — disse Raíssa, olhando para as estrelas. — Às vezes eu sinto que você me conhece melhor do que eu mesma. É estranho, mas eu me sinto segura com você.
Charlie sentiu a culpa corroê-lo. Ele não podia mais fazer aquilo. Ele a amava, e o amor não podia ser construído sobre uma mentira de omissão.
— Raíssa, eu preciso te contar uma coisa. Sobre o seu número antigo... o número da Autumn.
Raíssa paralisou. O nome da amiga, saindo da boca de Charlie, soou como um trovão.
— O que tem o número dela?
— Sou eu — Charlie disse, a voz trêmula. — Eu comprei o chip novo logo depois que comecei a gravar. Eu ouvi tudo, Raíssa. Cada áudio, cada choro, cada segredo que você contou para ela... eu ouvi.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. O rosto de Raíssa passou do choque para a compreensão, e então para uma dor pura e cortante.
— Você... você ouviu minhas mensagens de luto? — As lágrimas começaram a cair. — Você me deixou falar com o vazio enquanto você escutava do outro lado como se fosse um show?
— Não! Nunca foi um show! — Charlie tentou se aproximar, mas ela recuou como se tivesse levado um tapa. — Eu me apaixonei por você através daquelas mensagens. Eu não queria interromper seu processo de cura...
— Você invadiu o meu santuário, Charlie! — ela gritou, a voz embargada. — Aquilo era a única coisa que eu tinha dela. E você transformou em uma mentira.
Enquanto isso, dentro do salão, Walker e Heloísa viviam seu próprio desastre.
Walker tinha acabado de confessar, rindo nervosamente, que ele era o "Estranho do Número Errado". Ele achou que ela acharia romântico. Ele achou que ela riria e diria que o destino era incrível.
Mas Heloísa o encarava com uma frieza que o gelou até os ossos.
— Então, todas as vezes que eu te contei sobre minhas inseguranças no set, você estava lá, me olhando nos olhos e fingindo que não sabia de nada? — perguntou Heloísa, a voz baixa e perigosa.
— Helô, eu só queria que você gostasse de mim pelo que eu sou, não pelo Walker Scobell!
— Mas eu gostava de você! — ela exclamou. — E você transformou nossa amizade em um experimento social. Você me fez de boba, Walker. Eu confiei em um estranho e descobri que o estranho era um mentiroso profissional ao meu lado.
Naquela noite, a família se quebrou.
Dois anos se passaram.
A fama do quarteto era global. Eles eram ícones da Geração Z, mas a relação entre eles era estritamente profissional. Nos grupos de WhatsApp do elenco, eles eram cordiais. Nas entrevistas, sorriam e faziam piadas ensaiadas. Mas, assim que as câmeras desligavam, o gelo voltava.
Charlie via Raíssa em eventos, muitas vezes acompanhada de um novo namorado, um modelo que mal parecia saber o nome da série em que ela trabalhava. Ele via como o rapaz a ignorava durante as festas, preferindo falar com produtores enquanto Raíssa ficava em um canto, bebendo champanhe com um olhar distante.
"Ela merece o mundo", pensava Charlie, o peito ardendo de ciúmes e arrependimento. "Ela merece alguém que saiba exatamente o que ela gosta de ouvir quando está triste, porque ele ouviu sua alma por meses."
Walker sofria da mesma forma. Heloísa estava namorando um investidor de tecnologia, um homem sério que raramente ria das piadas dela e que parecia achar a carreira de atriz uma futilidade.
Em uma festa pós-Emmy, Walker viu o namorado de Heloísa dar as costas para ela no meio de uma frase para atender um telefonema. Ele viu a expressão de Heloísa murchar por um nanossegundo antes de ela colocar sua máscara de confiança novamente.
Walker não aguentou. Ele se aproximou.
— Ele não te merece — Walker disse, parando ao lado dela.
Heloísa não olhou para ele de imediato.
— E você merece o meu perdão, Walker? Depois de tanto tempo?
— Eu não estou aqui para pedir perdão — Walker disse, com uma sinceridade que a fez finalmente encará-lo. — Eu estou aqui para dizer que eu sinto falta da garota que me perguntou qual era o meu maior medo. E eu sinto muito por ter tido medo de perder você antes mesmo de te ter.
Do outro lado do salão, Charlie encontrou Raíssa. Ela estava sozinha na varanda, a mesma cena de anos atrás, mas desta vez ela não estava chorando. Ela parecia apenas... exausta.
— Eu ainda tenho o número — Charlie disse, aproximando-se lentamente.
Raíssa virou-se, surpresa.
— O quê?
— O número da Autumn. Eu nunca cancelei a linha. Às vezes, quando eu sinto muito a sua falta... eu ligo para o meu próprio número só para ouvir a sua saudade gravada na minha memória. Eu sei que errei, Raíssa. Eu sei que tirei de você algo sagrado. Mas eu passaria o resto da minha vida tentando construir um novo santuário para você. Um onde você não precise falar com quem já foi, porque eu estarei aqui para ouvir.
Raíssa olhou para Charlie. Ela viu o homem que ele se tornara — mais maduro, com o olhar carregado de uma paciência que ela não notara antes.
O caminho para a reconciliação seria longo. A confiança, uma vez quebrada, não se reconstrói com uma única conversa. Mas, ali, sob as luzes de Los Angeles, o gelo começou a apresentar as primeiras rachaduras.
— Charlie... — ela começou, a voz baixa.
— Não precisa dizer nada agora — ele a interrompeu suavemente. — Eu posso esperar. Eu sou bom em escutar, lembra?
Pela primeira vez em anos, Raíssa deu um sorriso que chegou aos olhos. Um sorriso que Autumn, onde quer que estivesse, certamente aprovaria.
A segunda chance estava ali, escondida entre áudios antigos e números errados, esperando apenas o momento certo para se tornar a história certa.
