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Fandom: Battman

Criado: 27/07/2026

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RomanceDramaAngústiaEstudo de PersonagemHistória DomésticaCenário CanônicoDor/Conforto
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O Gosto Amargo do Silêncio

A cozinha da Mansão Wayne era o único lugar onde Clara se sentia verdadeiramente no controle. O cheiro de manjericão fresco, o calor reconfortante do forno e o som rítmico da faca picando legumes eram sua meditação. Ali, entre as paredes de pedra e o aço inoxidável, ela não era apenas a mulher gordinha que passava despercebida pelos convidados da elite de Gotham; ela era a mestre do paladar do homem mais cobiçado do continente.

Mas, ultimamente, aquela cozinha parecia mais uma cela de luxo do que um refúgio.

Clara limpou o suor da testa com o antebraço, evitando olhar para a porta giratória que dava para a sala de jantar. Fazia três semanas. Três semanas desde a noite em que o protocolo foi quebrado, desde que as barreiras entre patrão e empregada ruíram sob o peso de uma tempestade elétrica e uma garrafa de vinho caríssimo que Bruce decidira compartilhar com ela na biblioteca.

Ela se lembrava das mãos dele — mãos calejadas, surpreendentemente ásperas para um bilionário — percorrendo suas curvas com uma fome que ela nunca imaginou despertar em ninguém, muito menos nele. Ele a chamara de "linda" entre sussurros urgentes. Ele a fizera sentir que seu corpo, tantas vezes julgado pela sociedade, era um banquete sagrado.

E então veio o amanhecer.

O Bruce que acordou ao lado dela não era o homem que a beijara com desespero. Era o Batman de terno — frio, calculista e distante.

— Isso foi um erro, Clara — dissera ele, sem sequer olhar em seus olhos enquanto abotoava a camisa de seda. — Um deslize momentâneo. Espero que possamos manter o profissionalismo. Alfred providenciará qualquer coisa que você precise, mas não deve se repetir.

As palavras dele foram como chicotadas. Ela não pediu joias, não pediu um lugar à mesa. Ela só queria que ele não a tratasse como um acidente geográfico que precisava ser contornado.

— Clara? — A voz de Alfred Pennyworth a tirou de seus devaneios.

— Sim, Alfred? — Ela forçou um sorriso, focando na massa de pão que sovava com mais força do que o necessário.

— O patrão Bruce solicitou que o jantar fosse servido mais cedo hoje. Ele tem uma reunião na Wayne Enterprises.

— O jantar dele já está quase pronto — respondeu ela, mantendo o tom neutro. — Frango com crosta de ervas e risoto de limão siciliano. Pode levar para ele assim que eu empratar.

— Ele sugeriu que você mesma servisse hoje, Clara — comentou o mordomo, com um brilho de preocupação nos olhos sábios. — Ele mencionou que queria dar um feedback sobre o novo menu.

Clara sentiu um aperto no peito. Indiferença era sua armadura, e ela não pretendia deixá-la cair.

— Sinto muito, Alfred, mas estou com o suflê no forno e não posso tirar os olhos dele. Você sabe como o tempo é traiçoeiro. Por favor, leve você.

Alfred suspirou, mas não insistiu. Ele sabia que algo havia mudado. Todos em Gotham viam Bruce Wayne como o herói filantropo, o playboy de coração de ouro que adotava órfãos e reconstruía hospitais. Mas só Clara conhecia o gelo que ele era capaz de projetar quando alguém chegava perto demais da sua armadura.

Minutos depois, Alfred voltou com o prato intocado.

— Ele não comeu? — perguntou Clara, franzindo a testa.

— Ele disse que perdeu o apetite — informou Alfred, guardando a bandeja. — E perguntou por que você o está evitando.

Clara soltou uma risada amarga, limpando as mãos no avental.

— Ele tem muita audácia, não acha? Ele pediu profissionalismo. Eu estou sendo a profissional mais eficiente desta casa. Faço o meu trabalho, não cruzo o caminho dele e não dou motivos para fofocas. É exatamente o que ele queria.

— Clara, o mestre Bruce é um homem complicado...

— Não, Alfred. Ele é um homem rico que teve o que quis e agora quer que eu finja que sou invisível para que ele não precise lidar com a própria culpa. Mas eu preciso deste emprego. Minha mãe depende dos remédios que esse salário paga. Então eu vou continuar cozinhando as melhores refeições da vida dele, mas não vou dar a ele o prazer de me ver chorar de novo.

Naquela noite, o silêncio da mansão parecia mais pesado. Clara decidiu terminar a limpeza da despensa tarde da noite, acreditando que Bruce já estaria patrulhando as ruas ou trancado em seu escritório.

Ela estava guardando os potes de especiarias quando a porta da cozinha se abriu. O som dos sapatos de couro no chão de mármore era inconfundível. Ela não se virou.

— O risoto estava excelente — disse a voz grave de Bruce, ecoando pelo ambiente vazio. — Embora Alfred tenha tido que o aquecer.

— Fico feliz que tenha gostado, senhor Wayne — respondeu ela, a voz desprovida de qualquer emoção. — Se precisar de algo para o café da manhã, deixe uma nota na bancada.

— Clara, olhe para mim.

— Estou ocupada, senhor. O inventário não se faz sozinho.

Ela sentiu a presença dele atrás dela. O calor que emanava de seu corpo era um lembrete cruel daquela noite na biblioteca. Bruce deu um passo à frente, forçando-a a se virar ou ficaria prensada contra a prateleira.

Ela se virou. O rosto dele estava marcado pelo cansaço, as sombras sob os olhos revelando o peso de suas noites insones. Por um segundo, a Clara apaixonada quis tocar seu rosto. A Clara que fora rejeitada apenas cruzou os braços sobre o peito.

— Por que você não me serve mais? — perguntou ele, a voz baixa, quase um sussurro. — Por que foge de cada cômodo em que eu entro?

— Eu não fujo, senhor Wayne. Eu apenas otimizo meu tempo. O senhor deixou bem claro que nossa... interação... foi um erro. Erros devem ser evitados, não é? Estou apenas garantindo que o senhor não precise se preocupar com minha presença inconveniente.

Bruce franziu o cenho, um lampejo de irritação — ou talvez dor — cruzando seus olhos azuis.

— Eu nunca disse que você era inconveniente.

— O senhor disse que foi um deslize — rebateu ela, sentindo as lágrimas queimarem, mas recusando-se a deixá-las cair. — Para você, foi uma noite de tédio curada com a cozinheira gordinha que estava à mão. Para mim, foi algo que eu pensei ser real. Mas eu aprendi a lição. O senhor é o patrão, eu sou a funcionária. A comida está na mesa, o resto é silêncio.

— Clara, não foi assim... eu só não posso... — Ele hesitou, as palavras morrendo em sua garganta. Bruce Wayne sabia enfrentar o Coringa, mas não sabia lidar com a vulnerabilidade de uma mulher que ele ferira.

— O senhor não pode o quê? Ser humano? — Ela deu um passo para o lado, tentando passar por ele. — Com licença, senhor Wayne. Meu turno acabou.

Bruce segurou o braço dela. Não com força, mas com uma insistência que a fez parar.

— Eu sinto falta da sua conversa. A mansão parece mais vazia sem o som da sua risada na cozinha.

Clara olhou para a mão dele em seu braço e depois diretamente nos olhos dele.

— O senhor não pode ter as duas coisas, Bruce. Não pode me expulsar da sua cama e da sua vida pessoal e esperar que eu continue sendo sua amiga e confidente durante o horário comercial. O senhor quer profissionalismo? Pois aqui está. O café será servido às sete. Com licença.

Ela se soltou com um movimento brusco e caminhou em direção aos seus aposentos nos fundos da casa. Enquanto se afastava, sentiu o olhar dele queimando em suas costas.

Bruce Wayne, o homem que tinha tudo, permaneceu sozinho na cozinha fria. Ele olhou para as mãos, as mesmas mãos que Clara agora evitava. Ele sabia que tinha quebrado algo precioso. Ele era o protetor de Gotham, mas tinha falhado miseravelmente em proteger o coração da única pessoa que o via sem a máscara.

No dia seguinte, Clara acordou antes do sol. Ela preparou os ovos exatamente como ele gostava, o café no ponto certo, as torradas levemente amanteigadas. Ela deixou tudo pronto na sala de jantar e voltou para a cozinha antes que ele descesse.

Quando Alfred entrou na cozinha, encontrou Clara lavando as panelas com uma ferocidade silenciosa.

— Ele perguntou por você novamente, querida — disse o velho mordomo, com tristeza.

— E o que você disse? — perguntou ela, sem parar o que estava fazendo.

— Eu disse que você estava cuidando do que era essencial.

Clara parou por um momento, olhando para o reflexo embaçado de seu próprio rosto em uma panela de cobre.

— O essencial para ele é a ordem, Alfred. E eu estou mantendo a ordem. Se ele quer o meu perdão, ele vai descobrir que isso é algo que o dinheiro dele não pode comprar, e que o Batman não pode exigir.

Ela voltou ao trabalho. O mundo via Bruce Wayne como um santo, um herói, um exemplo. Mas Clara sabia a verdade. Ele era apenas um homem que tinha medo do calor de um abraço real, e ela era a mulher que não se deixaria queimar duas vezes pela mesma chama.

A indiferença era sua nova receita, e ela a serviria fria, todos os dias, até que seu coração finalmente parasse de doer toda vez que ouvia o som dos passos dele no corredor.

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