
Off campus
Fandom: Off campus
Criado: 27/07/2026
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O Gelo e a Fogo de Artifício
A arena de hóquei da Briar University estava mergulhada naquele cheiro característico de gelo raspado, suor e testosterona acumulada. Kuro Hatake deslizou pelo rinque com a facilidade de quem nasceu usando patins em vez de sapatos. Ele sentia o vento frio no rosto, bagunçando ainda mais seu cabelo branco curto e repicado, que brilhava sob os refletores.
Ele sabia que estava sendo observado. E, sendo Kuro, ele adorava isso.
Ao frear bruscamente perto da mureta, levantando uma nuvem de neve cristalizada que atingiu o plexiglas, ele abriu um sorriso de lado, exibindo aquela confiança irritante que fazia os treinadores suspirarem e as garotas perderem o fôlego. Com 1,80m de altura e um físico que era o resultado de anos de treinos pesados — e que seu uniforme de treino mal conseguia esconder —, Kuro era o centro das atenções.
Mas seus olhos castanhos escuros não estavam procurando a arquibancada lotada. Eles estavam fixos na pequena figura sentada na terceira fileira, segurando um caderno de anotações como se fosse um escudo.
Tatsuyo Nakamura não estava ali para ver o treino. Pelo menos, era o que ela dizia a si mesma. Com sua pele parda, traços delicados que denunciavam sua ascendência asiática e longos cabelos pretos que caíam em cascata pelas costas, ela parecia um ponto de serenidade em meio ao caos da universidade. Seus olhos pretos estavam atentos, mas não ao jogo, e sim aos cálculos de física que precisava terminar.
— Ei, Nakamura! — gritou Kuro, batendo o taco no gelo para chamar atenção. — Cuidado para não babar no caderno. Eu sei que meu backhand é uma obra de arte, mas a aula de artes é no bloco B.
Tatsuyo levantou o olhar, ajustando a postura. Ela tinha apenas 1,63m, mas sentada ali, com o queixo erguido, parecia ter dois metros de altura em pura desdenha.
— Hatake, se você gastasse metade da energia que usa para se exibir tentando realmente acertar o disco, talvez o time não estivesse em terceiro lugar na conferência — rebateu ela, a voz calma, mas afiada como uma lâmina de patim.
Kuro soltou uma risada curta, deslizando para mais perto da borda.
— Terceiro lugar é apenas um aquecimento. E você sabe que adora a vista. Admita, esse tanquinho aqui é melhor que qualquer diagrama de termodinâmica.
— O seu ego é tão grande que estou surpresa que você ainda consiga flutuar no gelo sem afundar a pista — disse ela, voltando a caneta para o papel.
— Isso foi uma piada? — Kuro fingiu um choque teatral, levando a mão ao peito protegido pela armadura. — A pequena e séria Tatsuyo Nakamura fez uma piada? O mundo realmente vai acabar.
Tatsuyo tentou ignorar o calor que subiu pelo seu pescoço. Kuro era o tipo de problema que ela evitava: barulhento, convencido e absurdamente atraente. O tipo de cara que achava que o mundo girava em torno do seu disco de hóquei. Mas, por algum motivo, ele não a deixava em paz desde que dividiram uma mesa na biblioteca no semestre passado.
O treino terminou dez minutos depois. Enquanto os outros jogadores se dirigiam ao vestiário empurrando uns aos outros, Kuro pulou a mureta com uma agilidade invejável e caminhou em direção a Tatsuyo, ainda usando seus patins, o que o deixava ainda mais alto sobre ela.
— O que você quer, Kuro? — perguntou ela, sem desviar os olhos do caderno.
— Preciso de um favor — disse ele, a voz perdendo um pouco do tom brincalhão e assumindo algo mais… insistente.
Tatsuyo finalmente olhou para cima. Kuro estava suado, alguns fios brancos grudados na testa, e o cheiro de esforço físico e perfume masculino era inebriante. Ela odiava o fato de que o abdômen dele, visível através da malha fina do uniforme de treino, era exatamente como ele descrevia: esculpido.
— Se for ajuda com a média de História da Arte, a resposta é não. Eu já tenho meus próprios trabalhos.
— Não é História da Arte. É… — Ele hesitou, passando a mão pelo cabelo. — É o jantar de caridade da fraternidade amanhã. O treinador disse que todos os jogadores titulares precisam levar uma acompanhante "respeitável". E, bem, você é a pessoa mais respeitável que eu conheço.
Tatsuyo soltou uma risada seca.
— Respeitável? Isso é um código para "alguém que não vai tentar me beijar no meio da sobremesa"?
— Também — admitiu ele, com um sorriso travesso. — Mas, seriamente, Tats. Eu não quero levar uma das garotas que ficam penduradas no vestiário. Eu quero alguém com quem eu possa conversar sem ter que explicar o que é um impedimento a cada cinco minutos.
— E por que eu aceitaria isso? — Ela fechou o caderno com um estalo.
Kuro se inclinou para frente, apoiando as mãos nos joelhos, ficando na altura dos olhos dela. O olhar castanho dele era intenso, desarmando as defesas que ela construía tão cuidadosamente.
— Porque se você for, eu prometo que faço as pazes com o seu irmão e paro de provocar ele nos treinos. E… eu te dou aquela edição limitada do livro de arquitetura que você comentou que estava esgotada.
Tatsuyo estreitou os olhos.
— Como você sabe do livro?
— Eu presto atenção — disse ele, a voz baixando um tom. — Mais do que você imagina.
O silêncio pairou entre eles, quebrado apenas pelo som distante das máquinas de limpeza do gelo. Tatsuyo olhou para aquele rosto bonito e irritante. Ela sabia que era uma má ideia. Kuro Hatake era sinônimo de complicação, festas universitárias e drama de atletas. Mas havia algo no brilho dos olhos dele, uma vulnerabilidade escondida atrás da máscara de palhaço da turma, que a intrigava.
— Sem beijos — disse ela, apontando a caneta para ele. — E você vai usar um terno de verdade, não aquela jaqueta de couro surrada.
— Sim, senhora! — Kuro fez uma saudação militar, o sorriso voltando a iluminar seu rosto. — Passo na sua casa às oito. Esteja pronta para ver o lado sofisticado do seu jogador favorito.
— Você não é meu jogador favorito, Hatake.
— Ainda não — disse ele, piscando antes de sair patinando de costas em direção ao vestiário.
Na noite seguinte, Tatsuyo se olhou no espelho e quase não se reconheceu. Ela havia deixado os cabelos pretos soltos, caindo em ondas lisas até a cintura. O vestido era de um tom verde-esmeralda que contrastava perfeitamente com sua pele parda. Ela não era de usar muita maquiagem, mas um pouco de delineador e um batom neutro destacavam seus olhos escuros.
Quando a campainha tocou, seu coração deu um salto traidor.
Ao abrir a porta, ela encontrou um Kuro Hatake completamente diferente. O cabelo branco estava penteado para trás, embora alguns fios rebeldes ainda insistissem em cair sobre a testa. Ele usava um terno preto sob medida que abraçava seus ombros largos e destacava sua postura atlética. Ele parecia um modelo de revista, e não o garoto que fazia piadas sujas no refeitório.
Kuro ficou parado por um momento, a boca levemente aberta.
— Uau — murmurou ele. — Nakamura, você está… hum…
— "Respeitável"? — sugeriu ela, com um meio sorriso.
— Eu ia dizer deslumbrante, mas respeitável também serve — disse ele, recuperando a compostura e oferecendo o braço a ela. — Pronta para ser a inveja de todas as mulheres da Briar?
— Pronta para garantir que você não passe vergonha — corrigiu ela, aceitando o braço dele.
O jantar foi surpreendentemente agradável. Kuro, apesar de sua fama de engraçadinho, sabia ser um cavalheiro quando queria. Ele a apresentou aos outros jogadores e aos doadores da universidade com um orgulho que a deixou desconcertada. Ele não a tratava como um troféu, mas como alguém cuja opinião ele valorizava.
— Você está muito quieta — comentou Kuro, enquanto se afastavam para a varanda do salão para fugir do barulho da banda.
— Só estou surpresa — admitiu Tatsuyo, sentindo a brisa fresca da noite. — Você não fez nenhuma piada sobre meu tamanho ou sobre física a noite toda.
Kuro encostou-se na balaustrada, olhando para o campus iluminado.
— Às vezes eu canso de ser o "Kuro, o palhaço do time". As pessoas esperam que eu esteja sempre fazendo graça, sabe? Mas com você… eu sinto que não preciso me esforçar tanto.
Tatsuyo olhou para ele, vendo a sinceridade em seu rosto sob a luz da lua.
— Por que você age assim, então? Por que a máscara?
Ele deu de ombros, os músculos do ombro tensionando o tecido do terno.
— É mais fácil. Se as pessoas estão rindo, elas não estão fazendo perguntas difíceis. Mas você… você faz as perguntas difíceis de qualquer jeito.
Tatsuyo deu um passo à frente, ficando perigosamente perto dele.
— Talvez seja porque eu prefiro o Kuro real ao personagem que você criou.
Kuro baixou o olhar para ela. A diferença de altura era notável, mas naquele momento, a conexão entre eles era elétrica. Ele estendeu a mão e tocou uma mecha do cabelo preto dela, enrolando-a entre os dedos.
— O Kuro real está bem ferrado agora — sussurrou ele.
— Por quê?
— Porque ele prometeu que não haveria beijos, mas é a única coisa em que ele consegue pensar desde que te viu naquele vestido.
Tatsuyo sentiu sua respiração falhar. Ela deveria se afastar. Ela deveria lembrar a ele sobre o acordo. Mas o calor que emanava dele, a firmeza de sua presença, era como um ímã.
— O acordo disse "sem beijos no meio da sobremesa" — disse ela, a voz quase um sussurro. — A sobremesa já acabou faz tempo.
Kuro não precisou de outro convite. Ele inclinou a cabeça, eliminando a distância entre eles. O beijo começou hesitante, quase uma pergunta, mas rapidamente se transformou em algo profundo e urgente. As mãos de Kuro desceram para a cintura de Tatsuyo, puxando-a para mais perto, enquanto as mãos dela subiram para o pescoço dele, os dedos se perdendo no cabelo branco e macio.
Era fogo e gelo. Era a precisão dela encontrando o caos dele.
Quando se separaram, ambos estavam arfantes. Kuro encostou a testa na dela, um sorriso genuíno — não o de exibicionista, mas um real — surgindo em seus lábios.
— Então… isso significa que eu sou seu jogador favorito agora? — perguntou ele, a voz rouca.
Tatsuyo soltou uma risada leve, revirando os olhos, mas sem se afastar do abraço.
— Não force a amizade, Hatake. Você ainda tem que me conseguir aquele livro.
— Feito — disse ele, beijando a ponta do nariz dela. — E depois disso, eu vou ter que te convencer a ir ao próximo jogo. Mas desta vez, sem cadernos de física.
— Veremos — respondeu ela, embora soubesse que, no fundo, já estava ansiosa para vê-lo no gelo novamente.
Kuro a abraçou com mais força, sentindo o perfume dela. Ele sabia que a vida na Briar University estava prestes a ficar muito mais interessante. Ele tinha o hóquei, tinha seus amigos, mas agora, ele tinha a única garota que conseguia deixá-lo sem palavras. E para alguém como Kuro Hatake, isso era o maior prêmio de todos.
— Vamos voltar? — perguntou Tatsuyo. — As pessoas vão começar a falar.
— Deixe que falem — disse Kuro, oferecendo o braço novamente. — Eles só estão com inveja porque eu estou com a garota mais inteligente e bonita da sala.
— Lá vai o ego de novo — provocou ela, mas segurou o braço dele com firmeza.
— É um ego justificado, Nakamura. É um ego justificado.
E enquanto caminhavam de volta para o salão iluminado, Kuro Hatake sabia que, pela primeira vez, ele não precisava de piadas para se sentir no topo do mundo. Ele só precisava da mão pequena de Tatsuyo Nakamura firme na sua, guiando-o através do gelo fino da vida universitária.
