
Amor
Fandom: Hóquei e mundi real
Criado: 28/07/2026
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Marcas sob o Gelo
O som do metal cortando o gelo era o único ritmo que Kuro Hatake realmente entendia. Como capitão do time de hóquei da escola, ele vivia para aquela velocidade, para o impacto dos corpos contra a barreira e para a precisão de um disco voando em direção à rede. Mas, naquela tarde, sua atenção não estava totalmente no treino. Através da grade de proteção do capacete, seus olhos castanhos buscavam constantemente as arquibancadas.
Lá estava ela. Tatsuyo Nakamura.
Sentada na terceira fileira, afastada do pequeno grupo de alunos que sempre ficava para assistir ao treino, Tatsuyo parecia um ponto de quietude em meio ao caos. Seus grandes fones de ouvido abafadores, de um tom cinza discreto, estavam firmemente posicionados sobre as orelhas. O cabelo preto, liso e longo, caía sobre os ombros como uma cortina protetora. Ela estava com um livro no colo, mas Kuro sabia que ela não estava lendo. Ela estava esperando o irmão.
— Hatake! Foco no disco! — gritou o treinador, mas Kuro já estava se recompondo, deslizando com agilidade para interceptar um passe.
Kuro era o tipo de cara que atraía olhares. Com 1,80m, o cabelo branco curto e repicado que contrastava com a pele clara e um físico construído por anos de esportes, ele costumava ser o centro das piadas no vestiário. Mas, por trás do jeito engraçadinho e do sorriso fácil, havia uma percepção aguçada que a maioria das pessoas ignorava. E ele vinha observando Tatsuyo há meses.
Ele sabia que ela era autista. Sabia que ela preferia o silêncio e que as luzes fortes do ginásio às vezes a faziam franzir o cenho. Mas, acima de tudo, ele via o que ninguém mais parecia notar: o modo como ela escondia as mãos sob as mangas do moletom quando o barulho ficava alto demais.
O treino terminou com o som estridente do apito. Kuro tirou o capacete, o suor fazendo com que os fios brancos grudassem na testa. Ele patinou até a borda, onde Nico Nakamura, o irmão mais novo de Tatsuyo, estava guardando o taco.
Nico tinha 16 anos e uma expressão que Kuro frequentemente tinha vontade de apagar com um empurrão bem dado contra o acrílico. Nico era talentoso, mas tinha uma impaciência cruel com a irmã.
— Ei, Nico — chamou Kuro, fingindo casualidade enquanto bebia água da garrafa. — Sua irmã está esperando há um tempão hoje. O treino se estendeu.
Nico sequer olhou para a arquibancada. Ele revirou os olhos, soltando um suspiro pesado.
— Ela sempre espera. Não é como se ela tivesse algum lugar melhor para ir ou amigos para sair. Tatsuyo é um peso, cara. Se eu não levar ela para casa, ela entra em curto-circuito.
Kuro sentiu um nó de raiva apertar seu peito.
— Ela é sua irmã, idiota. Ter um pouco de consideração não mata ninguém.
— Você fala porque não mora com ela — rebateu Nico, pegando sua bolsa de equipamentos. — É um saco ter que cuidar de alguém que não consegue nem aguentar o barulho de um vestiário.
Nico saiu do gelo sem esperar resposta. Kuro o seguiu com o olhar, mas logo sua atenção voltou para Tatsuyo. Ela havia se levantado. Seus movimentos eram rígidos, os ombros encolhidos. Kuro percebeu que o ginásio estava ficando barulhento; o time de basquete estava entrando para o treino seguinte, e o som das bolas quicando no chão de madeira adjacente era como tiros de canhão no ambiente fechado.
Ele viu quando aconteceu.
Tatsuyo parou no meio da escada da arquibancada. Seus olhos pretos estavam fixos em um ponto vazio, e ela começou a balançar levemente o corpo. Mas o que chamou a atenção de Kuro foram as mãos dela. Ela havia cruzado os braços, mas não para se aquecer. Suas unhas estavam enterradas na pele do antebraço oposto, e ele podia ver, mesmo de longe, a força que ela aplicava.
Ela estava tentando se aterrar. Tentando conter uma crise sensorial através da dor.
— Droga — sussurrou Kuro. Ele saltou por cima da mureta, esquecendo-se de tirar os patins com as proteções de borracha, e caminhou desajeitadamente em direção a ela.
Nico já estava perto da saída, gritando por cima do ombro:
— Vamos, Tatsuyo! Eu não tenho o dia todo! Esquece esses fones e anda logo!
O grito de Nico foi o gatilho final. O barulho das bolas de basquete, o eco das vozes e a impaciência do irmão colidiram. Tatsuyo se encolheu, as unhas agora rasgando a pele sensível do pulso. Ela não gritava, ainda não, mas seus olhos estavam cheios de lágrimas de puro pânico.
Kuro chegou até ela antes que Nico pudesse dizer mais alguma coisa estúpida. Ele se posicionou entre Tatsuyo e o resto do ginásio, usando seu corpo musculoso para criar uma barreira física, bloqueando a visão dela para o caos.
— Ei, Nakamura. Nico. Dá um tempo — disse Kuro, o tom de voz baixo, mas carregado de uma autoridade que fez o mais novo estacar.
— O que foi agora, Hatake? — Nico bufou.
— Vai para o carro. Eu levo ela.
— O quê? Você nem mora perto da gente.
— Eu disse que eu levo ela — repetiu Kuro, lançando um olhar tão frio que Nico apenas deu de ombros e saiu, resmungando algo sobre "loucos se entendendo".
Kuro voltou-se para Tatsuyo. Ele manteve uma distância respeitosa, sabendo que o toque físico sem aviso poderia piorar tudo. Ele se ajoelhou no degrau abaixo dela para não parecer tão alto e ameaçador.
— Tatsuyo — chamou ele suavemente. — Sou eu, o Kuro. Da sua sala.
Ela não respondeu. Suas unhas continuavam cravadas na pele, e Kuro viu um filete de sangue começar a escorrer por entre os dedos dela. O coração dele apertou.
— Tatsuyo, você está se machucando. Pode soltar um pouquinho? — Ele falou com uma calma que nem sabia que possuía. — O barulho vai parar. Eu vou tirar você daqui.
Ela soltou um soluço baixo, o peito subindo e descendo rapidamente.
— Dói... — sussurrou ela, a voz quase inaudível por trás do abafador de ruídos.
— Eu sei que dói. O barulho dói, né? — Kuro estendeu a mão, mas parou no ar, esperando a permissão silenciosa. — Mas você está machucando seus braços. Tenta apertar a minha mão em vez de se arranhar. Pode apertar com toda a força que quiser. Eu aguento.
Lentamente, Tatsuyo levantou os olhos. Eles estavam nublados pelo pânico, mas ela parecia ter ouvido. Com um movimento trêmulo, ela soltou o próprio braço, revelando marcas vermelhas e profundas. Ela estendeu a mão pequena e parda para ele.
No momento em que os dedos dela tocaram a palma de Kuro, ela apertou. Apertou tanto que as unhas dela começaram a marcar a pele dele, mas Kuro não desviou o olhar nem recuou. Ele apenas sorriu, aquele sorriso de canto que ele usava para acalmar o time antes de uma final.
— Isso. Assim está melhor. Foca na minha mão.
— O Nico... ele fica bravo — ela disse, a voz trêmula.
— O Nico é um idiota que não sabe a sorte que tem — Kuro respondeu com sinceridade. — Respira comigo. No três. Um... dois... três...
Eles ficaram ali por alguns minutos. Kuro ignorou os olhares curiosos dos jogadores de basquete e a frieza do gelo que ainda emanava da arena. Para ele, naquele momento, a única coisa que importava era garantir que Tatsuyo se sentisse segura.
Aos poucos, a respiração dela foi se normalizando. O aperto em sua mão relaxou ligeiramente, embora ela ainda não tivesse soltado.
— Você quer sair daqui? — Kuro perguntou. — Meu carro está logo ali fora. Posso te levar em casa, ou podemos ficar no estacionamento onde é silencioso até você se sentir pronta.
Tatsuyo limpou o rosto com a manga do moletom, parecendo subitamente muito consciente de quão próxima estava dele. Ela assentiu levemente.
— Por favor.
Kuro a ajudou a se levantar. Ele caminhou ao lado dela, mantendo-se como um escudo entre ela e qualquer pessoa que pudesse esbarrar neles. Quando chegaram ao vestiário, ele trocou os patins pelos tênis em tempo recorde, sem nunca tirar os olhos da porta onde ela esperava.
No carro, o silêncio era absoluto. Kuro não ligou o rádio. Ele apenas dirigiu com calma, sentindo o peso da responsabilidade. Tatsuyo estava sentada no banco do passageiro, olhando para as próprias mãos, que agora estavam repousadas no colo.
— Você faz isso sempre? — Kuro perguntou suavemente, parando em um sinal vermelho. — Se machucar para esconder a crise?
Tatsuyo encolheu os ombros, o cabelo preto escondendo seu perfil.
— É mais fácil. Se eu gritar, as pessoas olham. Se eu me machuco... ninguém vê. Ninguém se incomoda.
Kuro sentiu uma onda de tristeza misturada com uma proteção feroz.
— Eu vi — disse ele.
Ela se virou para ele, surpresa.
— E eu não me incomodei. Só fiquei preocupado. Você não precisa se machucar para ser aceita, Tatsuyo. Pelo menos não perto de mim.
Tatsuyo sentiu algo diferente. Pela primeira vez em muito tempo, alguém não estava olhando para ela como se ela fosse um problema matemático difícil de resolver ou um fardo a ser carregado. Kuro Hatake, o capitão popular do time de hóquei, estava olhando para ela como se ela fosse... importante.
— Por que você me ajudou? — ela perguntou, a curiosidade vencendo a timidez. — Você podia ter ido embora com seus amigos.
Kuro deu de ombros, voltando a acelerar quando o sinal abriu. Ele deu aquele sorrisinho engraçado que o tornava tão querido por todos.
— Digamos que eu prefiro a companhia de uma garota corajosa que enfrenta furacões sensoriais todos os dias do que a de um bando de marmanjos que só sabe falar de discos e tacos. E além do mais... — Ele hesitou por um segundo, a voz ficando mais séria. — Eu não gosto de ver ninguém sofrendo sozinho. Especialmente você.
Tatsuyo sentiu um calor estranho no peito, algo que não tinha nada a ver com suas crises. Ela olhou para a mão de Kuro no volante e viu as pequenas marcas vermelhas que suas próprias unhas haviam deixado ali.
— Eu machuquei você — ela disse, estendendo a mão para tocar levemente o dorso da mão dele.
— Isso? — Kuro riu baixo. — Eu jogo hóquei, Tatsuyo. Já levei discos na cara e fui jogado contra o muro por caras de cem quilos. Suas marcas são... medalhas de honra. Significa que eu pude ajudar.
Tatsuyo não sorriu, mas seus olhos brilharam de uma forma que Kuro nunca tinha visto antes. Ela relaxou contra o banco do carro, o silêncio agora não sendo mais um refúgio forçado, mas um espaço compartilhado.
Quando pararam em frente à casa dela, Nico estava na varanda, parecendo irritado. Mas antes que ele pudesse descer para reclamar, Kuro baixou o vidro.
— Nico! — gritou Kuro.
O mais novo parou.
— Amanhã, se eu vir você deixando sua irmã sozinha ou falando daquele jeito com ela de novo, você vai passar o treino inteiro limpando o gelo. Entendido, recruta?
Nico arregalou os olhos, vendo a seriedade no rosto do capitão. Ele apenas assentiu, subitamente intimidado.
Tatsuyo abriu a porta do carro, mas antes de sair, ela hesitou.
— Obrigada, Kuro. Por... por me ver.
Kuro piscou para ela, o brilho brincalhão voltando aos seus olhos.
— Te vejo amanhã na aula, Tatsuyo. E guarde um lugar para mim. Acho que estou precisando de um pouco de silêncio na hora do intervalo.
Ela saiu do carro com um pequeno aceno, e Kuro esperou até que ela entrasse em casa em segurança. Enquanto dirigia para longe, ele olhou para as marcas em sua mão. Ele sabia que não podia curar o autismo dela, nem queria — Tatsuyo era quem era. Mas ele podia ser o lugar seguro onde ela não precisaria mais cravar as unhas na própria pele.
Pela primeira vez, o capitão do time de hóquei tinha um objetivo muito mais importante do que ganhar o próximo campeonato.
