
Segunda chance
Fandom: Stranger Things
Criado: 28/07/2026
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O Fantasma na Sala de Espelhos
A mente de Vecna era um labirinto de carne pulsante e memórias em decomposição. Nancy Wheeler já estava acostumada com o terror, com o cheiro de ozônio e a visão de corpos flutuantes, mas desta vez, algo estava diferente. Enquanto Henry Creel — ou o que restara dele — tentava invadir seus pensamentos para torturá-la com o peso da culpa, uma rachadura se abriu na muralha mental dele.
Por um breve segundo, a névoa vermelha do Mundo Invertido se dissipou, dando lugar a uma imagem nítida, quase dolorosa de tão real.
Não era um laboratório frio ou uma cena de massacre. Era uma sala pequena, iluminada pela luz suave de um abajur. Nancy viu Henry, ainda em sua forma humana, com o uniforme branco imaculado do laboratório de Hawkins. Ele não parecia o monstro que ela conhecia. Seus olhos tinham um brilho que beirava a... humanidade.
Ele estava atrás de uma mulher. Ela estava sentada em uma poltrona, os cabelos castanhos caindo sobre os ombros. Ela era gordinha, com curvas suaves que pareciam convidar ao conforto, e usava um vestido simples. No pulso dela, Nancy viu a marca indelével: 002.
— Você está tensa, Clara — disse Henry na visão. A voz dele era um sussurro aveludado, desprovido da malícia que Nancy conhecia.
A mulher, Clara, inclinou a cabeça para trás, fechando os olhos enquanto as mãos de Henry massageavam seus ombros com uma delicadeza quase reverente.
— O papai está desconfiado, Henry — murmurou Clara, a voz embargada. — Ele sabe que o que temos não é apenas... cooperação entre experimentos.
— Ele não pode nos tocar — respondeu Henry, inclinando-se para beijar o topo da cabeça dela. — Você é a única coisa real neste lugar de plástico, Clara. Eu nunca deixaria nada acontecer com você.
A imagem se fragmentou como vidro quebrado. Nancy foi arremessada de volta à realidade fria da Mansão Creel, seu coração martelando contra as costelas. Vecna soltou um rugido de fúria, um som gutural que fez as paredes tremerem. Ele não queria que ela visse aquilo. Ele não queria que ninguém soubesse que o monstro já havia amado.
— Ela está viva — ofegou Nancy, assim que Dustin e Steve a ajudaram a se levantar. As luzes da casa ainda piscavam freneticamente. — Eu vi, Dustin. O 001... o Henry... ele tinha uma esposa.
— Uma o quê? — Steve franziu a testa, segurando o bastão com pregos. — Nancy, o cara é um polvo humanoide que vive em uma dimensão de pesadelo. Acho que o conceito de "até que a morte nos separe" não se aplica muito bem.
— Não, Steve, escute! — Nancy o agarrou pelos ombros, a urgência brilhando em seus olhos. — O nome dela é Clara. Ela era a número 002. Ele a amava. Mas a memória que ele deixou escapar... parecia que ele a estava escondendo. Ele acha que ela morreu no massacre, mas eu senti algo. Se o Vecna acredita que ela está morta, e o laboratório a ocultou, ela pode estar em perigo agora. Se ele descobrir que ela vive, ele vai atrás dela. Ou pior, o governo vai usá-la como isca.
Dustin trocou um olhar preocupado com Max.
— Se houve uma 002 e ela sobreviveu ao massacre de 79 — começou Dustin, o cérebro já trabalhando a mil por hora —, ela é a peça que falta. Mas Nancy, como você sabe que ela está em perigo?
— Porque ele a olhava como se ela fosse a única luz no mundo dele — explicou Nancy, a voz falhando levemente. — E o Vecna destrói tudo o que é luz. Temos que encontrá-la antes que ele a encontre através de mim.
A busca não foi fácil, mas Nancy Wheeler não era conhecida por desistir. Usando os arquivos que roubara do escritório de Brenner e os contatos de jornalismo que estava começando a cultivar, ela encontrou um rastro. Uma mulher chamada Clara Bennett, vivendo sob um pseudônimo em uma pequena cidade no interior de Illinois.
Nancy dirigiu sozinha. Ela precisava ver com os próprios olhos.
A casa era pequena, cercada por flores silvestres. Quando Nancy bateu à porta, o coração parecia querer saltar pela boca. A mulher que abriu a porta era exatamente como na visão, embora alguns anos mais velha. O rosto redondo era gentil, mas os olhos carregavam uma melancolia profunda, um peso que nenhuma vida pacífica poderia apagar.
— Clara? — perguntou Nancy, a voz quase um sussurro.
A mulher empalideceu, a mão subindo instintivamente ao pulso, onde uma pulseira larga de couro escondia a pele.
— Quem é você? — perguntou ela, a voz trêmula.
— Meu nome é Nancy Wheeler. Eu venho de Hawkins.
Clara recuou um passo, mas não fechou a porta. O nome "Hawkins" agia como um gatilho, uma chave para um porão escuro que ela tentava manter trancado.
— Eu não falo sobre aquele lugar — disse Clara, as lágrimas começando a nublar sua visão. — Todos morreram. Ele... ele morreu.
— Ele não morreu, Clara — Nancy disse, dando um passo à frente, a voz carregada de uma urgência dolorosa. — Henry está vivo. Mas ele mudou. Ele se tornou algo... terrível. E ele está vindo.
Clara soltou um soluço sufocado, cobrindo a boca com as mãos.
— Não... o massacre... eu vi o sangue. Eu estava escondida no duto de ventilação. Eu vi o que o pequeno Onze fez, eu vi o caos. Eu achei que Henry tinha sido destruído pelo poder dela.
— Ele foi enviado para outro lugar — explicou Nancy, entrando na casa conforme Clara cedia espaço, em choque. — Ele se tornou o Vecna. Ele está matando pessoas, Clara. Ele está usando a dor delas para abrir portais.
Clara sentou-se pesadamente em um sofá desgastado. Suas mãos tremiam violentamente.
— Henry... meu Henry nunca faria isso — murmurou ela, balançando a cabeça negativamente. — Ele era diferente comigo. Ele me protegia. No laboratório, quando os outros zombavam de mim por ser mais lenta, ou por não ter o mesmo controle que ele, Henry ficava ao meu lado. Ele dizia que eu era o seu equilíbrio. Que sem mim, o mundo era apenas ruído.
Nancy sentou-se à frente dela, sentindo uma pontada de pena. Era difícil conciliar a imagem do monstro que quebrava ossos com o homem que Clara descrevia.
— Ele acredita que você morreu, Clara. Ele carrega essa culpa. Ele acha que perdeu a única coisa que o mantinha humano. E é por isso que ele está tão perigoso. A dor dele se transformou em ódio puro.
— Eu tentei ir atrás dele — confessou Clara, fitando o chão. — Mas os homens de Brenner me pegaram antes que eu pudesse sair da cidade. Eles me disseram que ele tinha sido vaporizado. Eles me deram uma nova identidade e disseram que, se eu algum dia usasse meus dons ou falasse sobre o laboratório, eles matariam o que restasse da minha família. Eu vivi com medo por dez anos, Nancy. Medo e luto.
— Você tem que vir comigo — pediu Nancy. — Você é a única que pode alcançá-lo. Talvez, se ele souber que você está viva, possamos pará-lo sem mais derramamento de sangue.
Clara olhou para suas próprias mãos. Pequenas faíscas de energia azulada dançaram entre seus dedos por um breve momento antes de ela fechá-los em punhos.
— Eu o amava mais do que a minha própria vida — disse ela, a voz agora firme apesar das lágrimas. — Se o homem que eu amei ainda está em algum lugar dentro daquele monstro, eu preciso tentar. Mas você não entende, Nancy... Henry nunca se perdoaria por ter me deixado para trás. Ele sempre foi obcecado por controle. Se ele descobrir que foi enganado por todos esses anos, o mundo não vai apenas queimar. Ele vai explodir.
Enquanto isso, nas profundezas do Mundo Invertido, Vecna permanecia suspenso por gavinhas orgânicas. Sua mente, no entanto, não estava em Hawkins. Ele estava revisitando a falha que Nancy Wheeler causara.
A imagem de Clara. O toque dela. O cheiro de lavanda que ela sempre emanava, um contraste gritante com o cheiro de morte e podridão que agora o cercava.
— Clara... — o nome saiu como um chiado seco de sua garganta deformada.
Ele se lembrou do dia do massacre. Ele a tinha escondido, ou pelo menos achava que sim. Ele pretendia buscá-la depois de limpar o laboratório de suas "imperfeições". Mas a Onze o havia surpreendido. O confronto o jogou no abismo, e sua última visão consciente na Terra foi o reflexo do laboratório em chamas. Ele sentira a conexão psíquica com Clara se romper. Ele sentira o vazio onde o coração dela deveria estar.
Ou assim ele acreditava.
A dor de Vecna não era apenas física. Era a angústia de um deus que se sentia traído pelo destino. Ele nunca se perdoou. Ele acreditava que sua falha em protegê-la era a prova definitiva de que a humanidade era fraca e merecia ser erradicada.
De repente, seus olhos brancos se abriram, brilhando com uma intensidade renovada. Ele sentiu uma vibração na teia. Um eco de uma assinatura psíquica que ele não sentia há uma década. Era fraco, distante, mas era inconfundível.
Era o brilho azul da número 002.
— Você vive... — sussurrou ele, e pela primeira vez em anos, a voz de Vecna não continha apenas ódio, mas uma possessividade aterrorizante. — Eles a tiraram de mim. Eles me deixaram sofrer no escuro enquanto você respirava o ar deles.
As gavinhas ao redor dele começaram a pulsar violentamente. O Mundo Invertido respondeu à sua fúria.
— Eu vou buscá-la, Clara — prometeu ele, as palavras ecoando pelo vazio. — E desta vez, ninguém vai nos separar. Nem Brenner, nem a Onze, nem a morte.
De volta à pequena casa em Illinois, Clara sentiu um calafrio repentino que fez os pelos de seus braços se arrepiarem. Ela olhou para a janela, onde o céu da tarde parecia escurecer mais rápido do que o normal.
— Ele sabe — disse ela, a voz carregada de pavor.
— O quê? — Nancy perguntou, já pegando sua bolsa e a chave do carro.
— Ele me sentiu. — Clara olhou para Nancy com olhos arregalados. — Ele está vindo, Nancy. E ele não está vindo para conversar. Ele está vindo para reclamar o que ele acha que é dele.
— Então temos que sair daqui agora! — Nancy a puxou pelo braço.
— Não adianta correr de um fantasma que vive dentro da sua cabeça — disse Clara, embora tenha começado a se mover. — Mas se eu for morrer, que seja olhando nos olhos dele uma última vez. Eu preciso saber se o meu Henry ainda existe, ou se eu estou apenas apaixonada por um cadáver.
As duas saíram apressadamente, o motor do Chevy de Nancy roncando no silêncio da rua suburbana. Elas não viram, mas no asfalto, bem na frente da casa, uma pequena rachadura começou a se formar, expelindo uma fumaça negra e fria que cheirava a carne queimada e a um passado que se recusava a permanecer enterrado.
O massacre de Hawkins ainda não havia terminado. Para Clara e Henry, ele estava apenas entrando em seu segundo ato. E desta vez, o palco era o mundo inteiro.
