Fanfy
.studio
Imagem de fundo

A outra mulher

Fandom: Estilhaça-me

Criado: 28/07/2026

Tags

DramaAngústiaDistopiaPós-ApocalípticoEstudo de PersonagemCiúmesDor/ConfortoRomancePsicológicoDismorfia Corporal
Índice

Ecos no Corredor de Vidro

O silêncio nos aposentos de Aaron Warner nunca havia sido tão barulhento. Clara Warner — ou simplesmente Clara, para o resto do Setor 45 — estava sentada na ponta da cama king-size, as mãos repousando sobre as coxas. Ela apertou o tecido da saia, sentindo a maciez do material contra sua pele. Clara sempre fora uma mulher de curvas generosas, de rosto redondo e sorriso fácil, o oposto exato da estética rígida e gélida que o Restabelecimento impunha.

Aaron a venerava por isso. Ou, pelo menos, costumava venerar.

Ele dizia que ela era seu porto seguro, a única coisa real em um mundo de simulações e tirania. Mas isso foi antes. Antes de ela chegar. Juliette Ferrars.

A porta do quarto se abriu com um clique suave. Aaron entrou, a postura impecável, o uniforme militar sem um único vinco. Seus olhos verdes, que costumavam suavizar-se instantaneamente ao encontrá-la, pareceram distantes, perdidos em algum cálculo mental que ela não conseguia decifrar.

— Você demorou — disse ela, a voz saindo mais baixa do que pretendia.

— Reuniões, Clara. O Setor 45 não se governa sozinho — respondeu ele, caminhando até o espelho para desabotoar os punhos da camisa.

Ele não se aproximou para beijá-la. Não tocou seu ombro. Não perguntou como tinha sido o dia dela.

— Aaron, amor... — Ela se levantou, caminhando até ele com uma hesitação que nunca sentira antes. — Você mal falou comigo desde que levaram a garota para a ala de contenção. A Juliette.

O corpo de Aaron ficou rígido ao ouvir o nome. Ele finalmente olhou para ela através do reflexo do espelho, mas seus olhos pareciam vidrados, como se estivesse vendo outra coisa.

— Ela é... uma peça importante, Clara. Uma arma. Preciso garantir que ela esteja sob controle.

— Sob controle ou sob sua proteção? — O pensamento escapou antes que ela pudesse contê-lo.

Aaron se virou lentamente. A expressão dele era uma máscara de frieza, a mesma que ele usava para seus soldados.

— O que você quer dizer com isso?

— Nada — mentiu ela, sentindo o peso do próprio corpo de uma forma negativa, algo que Aaron nunca a deixara sentir antes. — É só que... quase ninguém sabe sobre nós, Aaron. As pessoas sabem que temos uma ligação, que vivemos juntos, mas o segredo do nosso casamento parece cada vez mais uma parede entre nós dois do que uma proteção para mim.

— É para sua segurança — disse ele, a voz curta. — Se souberem que você é meu ponto fraco, usarão você contra mim.

— E se o seu ponto fraco tiver mudado de endereço? — sussurrou ela, mas ele já estava se dirigindo ao banheiro.

— Não seja ridícula. Vá dormir. Tenho relatórios para terminar.

Clara ficou parada no meio do quarto. O amor de Aaron sempre fora intenso, quase obsessivo, uma adoração que a fazia se sentir a mulher mais bonita e poderosa do mundo, independentemente do que a balança ou os espelhos diziam. Mas agora, o vácuo que ele deixava era frio o suficiente para congelar seus ossos.


No dia seguinte, os corredores da base pareciam mais estreitos. Clara caminhava em direção ao refeitório dos oficiais, tentando manter a cabeça erguida. Ela sabia o que diziam pelas costas. "A protegida do Comandante". "A mulher que ele mantém por perto por razões que ninguém entende".

Ao passar por um grupo de soldados de baixo escalão perto da ala médica, ela ouviu as risadas.

— ... vi o Comandante saindo da cela dela hoje cedo — dizia um deles, um rapaz jovem de olhos cruéis. — Ele parecia... diferente. Quase humano.

— Pudera — respondeu uma soldada, soltando uma fumaça de cigarro sintético. — Você viu a garota nova? Ela é como uma boneca de porcelana. Letal, mas linda. Magra, etérea... um tipo bem diferente daquela que ele mantém nos aposentos, não acha?

O riso que se seguiu foi como um tapa no rosto de Clara. Ela acelerou o passo, sentindo o rosto queimar. A insegurança, que Aaron passara anos ajudando-a a enterrar, brotou como uma erva daninha, sufocando sua confiança.

No refeitório, ela pegou sua bandeja e se sentou em uma mesa isolada. Mas a paz durou pouco. Delalieu, o braço direito de Aaron, aproximou-se com uma expressão de desculpas.

— Senhora Warner... — Ele sempre era educado, mas o título soava como um segredo proibido em seus lábios.

— Sim, Delalieu?

— O Comandante pediu para avisar que não almoçará hoje. Ele está... ocupado na ala de treinamento com a senhorita Ferrars.

Clara sentiu um nó na garganta.

— Ele poderia ter me mandado uma mensagem.

— Ele estava com pressa — disse o homem mais velho, evitando o olhar dela.

— Diga-me uma coisa, Delalieu — começou ela, a voz trêmula. — As pessoas estão comentando, não estão? Sobre ela. Sobre como ele olha para ela.

Delalieu suspirou, sentando-se por um momento na cadeira à frente dela.

— Aaron é um homem de obsessões, Clara. Você sabe disso melhor do que ninguém. Juliette é... uma anomalia. Ele está fascinado pelo poder dela. Não confunda fascinação científica com o que ele sente por você.

— Fascinação científica não faz um homem esquecer de beijar a esposa antes de sair de casa — rebateu ela, levantando-se. — Com licença.

Clara não voltou para os aposentos. Em vez disso, impulsionada por uma coragem dolorosa, ela caminhou até a ala de treinamento. As paredes de vidro reforçado permitiam que se visse o que acontecia lá dentro.

Ela parou na sombra de uma pilastra e olhou.

Lá estava ele. Aaron Warner, o homem que raramente permitia que alguém o tocasse, estava a centímetros de Juliette. A garota parecia assustada, mas Aaron... Aaron estava radiante. Havia um brilho nos olhos dele que Clara reconhecia. Era o brilho da descoberta, da adoração. Ele falava com ela em tons baixos, e embora Clara não pudesse ouvir, a linguagem corporal dizia tudo.

Ele estendeu a mão para ajustar uma mecha do cabelo de Juliette. O toque foi leve, quase reverente.

Clara sentiu o ar faltar. Ela olhou para as próprias mãos, para as curvas de seu corpo que Aaron sempre jurou amar, e de repente sentiu-se imensa, deslocada, errada. Juliette era pequena, frágil e possuía uma força que poderia destruir o mundo. Clara era apenas Clara.

— Ora, ora — disse uma voz arrastada atrás dela.

Clara virou-se rapidamente para encontrar Sonya e Sara, as gêmeas curandeiras que ocasionalmente trabalhavam na base. Elas tinham sorrisos que não chegavam aos olhos.

— Olhando o novo brinquedo do Comandante? — perguntou Sonya, cruzando os braços.

— Eu não sei do que você está falando — respondeu Clara, tentando manter a dignidade.

— Ah, por favor. Todo mundo vê — disse Sara, com uma falsa simpatia que doía mais do que um insulto direto. — Ele não tira os olhos dela. É uma atualização e tanto, não é? De... bem, de algo comum para algo extraordinário.

— Aaron me ama — afirmou Clara, embora a frase soasse como uma pergunta em sua própria mente.

— Talvez ele ame o conforto que você dá a ele — disse Sonya, aproximando-se. — Mas olhe para eles lá dentro. Ele não quer conforto agora. Ele quer fogo. E, convenhamos, querida... você é mais parecida com uma lareira mansa do que com um incêndio.

Clara não respondeu. Ela passou por elas, as lágrimas finalmente vencendo a barreira de seus olhos. Ela correu pelos corredores frios, ignorando os olhares curiosos dos soldados, até chegar à segurança de seu quarto.

Ela se trancou e desabou contra a porta.

Onde estava o Aaron que a acordava com beijos em cada centímetro de sua pele, dizendo que ela era a obra de arte mais perfeita que ele já vira? Onde estava o homem que ignorava as convenções de beleza do Restabelecimento para dizer que suas curvas eram o seu refúgio?

Ele estava lá embaixo, ensinando outra mulher a usar o poder que ele tanto cobiçava.

Horas se passaram até que a porta se abrisse novamente. Já era noite. Aaron entrou, parecendo exausto, mas com uma energia elétrica vibrando sob sua pele.

— Você não foi jantar — disse ele, jogando a jaqueta sobre uma poltrona.

— Eu não estava com fome.

— Você precisa comer, Clara. Não quero que fique doente.

Ele disse isso de forma automática, como se estivesse lendo um manual de instruções. Ele nem sequer olhou para ela.

— Aaron, olhe para mim — pediu ela, a voz embargada.

Ele parou e suspirou, finalmente voltando os olhos para ela.

— O que foi agora?

— Você ainda me acha bonita? — A pergunta saiu pequena, patética aos seus próprios ouvidos.

Aaron franziu a testa, uma expressão de impaciência cruzando seu rosto perfeito.

— Por que você está perguntando isso de novo? Já passamos por essa fase, Clara. Eu casei com você, não casei?

— Você casou comigo quando eu era a única coisa que você tinha. Agora você tem a Juliette. E eu vi como você olha para ela.

Aaron caminhou até ela, mas não para abraçá-la. Ele parou a um passo de distância, como se houvesse uma barreira invisível entre eles.

— Juliette é... diferente. Ela é necessária para os meus planos. O que eu sinto por ela não tem nada a ver com o que temos.

— O que temos? — Clara riu, um som amargo. — Temos um segredo, Aaron. Temos uma casa que ninguém visita, um casamento que ninguém reconhece. E agora tenho soldados rindo de mim nos corredores, dizendo que você finalmente encontrou alguém que está à sua altura.

— Eu não me importo com o que os soldados dizem! — ele explodiu, a voz ecoando pelas paredes de vidro.

— Mas eu me importo! — gritou ela de volta. — Eu me importo porque, pela primeira vez, eu começo a acreditar neles. Você se afastou. Você não me toca mais. Você mal me olha. Se eu sou o seu porto seguro, Aaron, por que sinto que estou afundando?

Aaron fechou os olhos por um momento. Quando os abriu, a frieza havia retornado.

— Eu tenho muito em que pensar, Clara. Pressões que você não entenderia. O mundo está mudando, e eu preciso mudar com ele. Se você não consegue lidar com a minha ausência temporária, talvez...

Ele parou, mas o dano estava feito.

— Talvez o quê? — desafiou ela, o coração batendo na garganta. — Talvez eu não seja mais útil? Talvez eu não combine mais com a imagem do novo Comandante Supremo?

— Eu não disse isso.

— Mas pensou.

Aaron passou a mão pelo cabelo, visivelmente irritado.

— Vou dormir no escritório hoje. Preciso de espaço para pensar.

Ele saiu sem olhar para trás.

Clara Warner sentou-se novamente na cama. O silêncio voltou, mas desta vez, ele trouxe consigo uma certeza devastadora. O amor de Aaron Warner era uma fortaleza, mas fortalezas também podiam se tornar prisões. E enquanto Juliette Ferrars era o sol que o atraía com sua luz perigosa, Clara sentia-se como a lua: invisível, pálida e prestes a ser esquecida com o amanhecer de uma nova era.

Ela olhou para o próprio reflexo no espelho da penteadeira. A mulher gordinha, de olhos tristes e pele macia, ainda estava lá. Mas o brilho que Aaron costumava colocar nela havia se apagado.

— Eu ainda sou Clara — sussurrou ela para o quarto vazio. — Mas não sei se ainda sou sua.

Lá fora, a neve começava a cair sobre o Setor 45, cobrindo tudo com um manto branco e frio, tão impenetrável quanto o coração do homem que ela chamava de amor. E Clara soube, naquele momento, que a batalha por Aaron Warner estava apenas começando, mas ela não tinha certeza se teria forças para lutar contra uma arma tão poderosa quanto o destino.

Índice

Quer criar seu próprio fanfic?

Cadastre-se na Fanfy e crie suas próprias histórias!

Criar meu fanfic