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Fandom: House of the dragons
Criado: 28/07/2026
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O Equilíbrio das Sombras e das Chamas
O sol poente tingia as pedras de Pedra do Dragão com tons de âmbar e carmim, uma paleta que parecia refletir a natureza indomável da Casa Targaryen. No terraço voltado para o Mar Estreito, o vento soprava com o cheiro de sal e enxofre, agitando os cabelos prateados de Daemon enquanto ele observava o horizonte. Ele era um homem que vivia entre dois mundos, entre duas forças que, embora distintas, compunham a totalidade de sua alma.
Atrás dele, o som suave de passos sobre a pedra anunciou a chegada de Alicent. Ela caminhava com a graça de uma corça, os vestidos de seda verde-musgo roçando o chão. Nos braços, ela carregava a pequena Helaena, que escondia o rosto no pescoço da mãe, os dedos pequeninos agarrados ao tecido do corpete de Alicent.
— Ela finalmente se acalmou — sussurrou Alicent, aproximando-se de Daemon. Seus olhos verdes eram poços de serenidade, embora houvesse um rastro de cansaço neles. — O barulho dos dragões a assustou durante a tarde.
Daemon virou-se, um sorriso de lado suavizando suas feições angulares e perigosas. Ele estendeu a mão, acariciando as costas da filha com uma delicadeza que poucos acreditariam que o Príncipe Canalha possuía.
— Ela tem o sangue do dragão, Alicent. Mais cedo ou mais tarde, aprenderá que o rugido deles é a música da nossa família.
— Talvez — respondeu Alicent, com um sorriso triste. — Mas, por enquanto, ela prefere o silêncio e o meu colo.
Daemon envolveu a cintura de Alicent com o braço livre, puxando-a para perto. Ele amava a paz que ela trazia, a forma como ela conseguia transformar o caos de sua vida em algo ordenado e gentil. Alicent era seu porto seguro, a mulher que o amava sem exigir que ele queimasse o mundo, mas que estava pronta para curar suas feridas quando ele o fazia.
— Onde está Laena? — perguntou Alicent, o tom de voz carregado de uma preocupação genuína que Daemon sempre achava fascinante e, às vezes, dolorosa.
— Com Baela. Ela está no pátio inferior, treinando a menina a observar os céus — Daemon suspirou, a expressão obscurecendo-se levemente. — Ela está inquieta hoje.
Alicent assentiu, compreendendo o que ele não dizia. O jantar seria servido em breve, e as refeições em família tornaram-se o campo de batalha silencioso de uma guerra que ela nunca quis lutar.
— Vou levar Helaena para o berçário e depois descerei. Talvez... talvez eu devesse levar algumas das flores que colhi hoje para os aposentos dela. Como um gesto de paz.
Daemon segurou o queixo de Alicent, obrigando-a a olhá-lo nos olhos.
— Você tem um coração bom demais para este lugar, minha doce Alicent. Laena é como Vhagar; ela não aceita oferendas de paz facilmente. Ela quer o que não posso dar por inteiro.
— Ela quer você, Daemon. E eu não a culpo por isso — disse ela, com a voz firme apesar da doçura. — Mas somos uma família. E eu não desistirei dela, mesmo que ela me rejeite mil vezes.
O grande salão estava iluminado por tocheiros de ferro forjado em forma de dragões. O jantar transcorria sob um silêncio tenso, quebrado apenas pelo som dos talheres contra a porcelana e o balbuciar ocasional do pequeno Aegon, que tentava imitar os movimentos do pai com uma colher de prata.
Laena Velaryon estava sentada à direita de Daemon, sua postura era a de uma rainha em exílio. Seus cabelos prateados estavam presos em tranças elaboradas que exibiam seu pescoço longo e elegante. Seus olhos violetas, no entanto, estavam fixos em seu prato, evitando deliberadamente o olhar de Alicent, que se sentava à esquerda de Daemon.
— O vinho de Árvore está excelente este ano — comentou Alicent, tentando quebrar o gelo que parecia congelar até as chamas das velas. — Não acha, Laena? Lorde Hightower enviou uma remessa especial para o seu aniversário de casamento com Daemon.
Laena ergueu o olhar lentamente. Havia um brilho de ressentimento que Alicent conhecia bem, mas que ainda a feria.
— É um vinho doce — disse Laena, a voz fria como o aço valiriano. — Doce até demais. Prefiro as coisas que têm um sabor mais... autêntico. Menos fabricado para agradar.
O insulto velado pairou no ar. Daemon, percebendo a tensão, colocou a mão sobre a de Laena, apertando-a com firmeza.
— É um presente, Laena. Um gesto de cortesia.
— Cortesia é o que usamos quando não temos honestidade, Daemon — retrucou ela, desviando a mão. — Alicent é sempre tão cortês. Tão paciente. Tão perfeita em seu papel de esposa dedicada.
Alicent sentiu o rosto esquentar, mas não recuou. Ela respirou fundo, buscando a paciência que cultivara desde a infância.
— Laena, eu sei que a minha presença aqui é um fardo para você. Mas eu amo Daemon. E eu respeito você, não apenas como a mãe da filha dele, mas como a mulher que ele escolheu primeiro. Eu não desejo tirar nada de você.
Laena soltou uma risada amarga, levantando-se da mesa. A altura dela a tornava imponente, uma visão de fúria valiriana.
— Você não entende, não é? Você fala de respeito e de compartilhar, como se o coração de um homem fosse um pedaço de terra que pudesse ser dividido em lotes iguais. Toda vez que ele olha para você com essa ternura, toda vez que ele corre para consolar sua filha tímida, ele está tirando algo de mim. Ele está tirando o que deveria ser exclusivo.
— Laena, chega — ordenou Daemon, sua voz baixando para aquele tom perigoso que costumava silenciar campos de batalha.
— Não, Daemon! Não chega! — Laena olhou para ele, e por um momento, a máscara de orgulho caiu, revelando a dor crua por baixo. — Você diz que nos ama igualmente, mas o amor não é uma conta matemática. Você a ama pela paz que ela te dá, e a mim... você me ama porque somos iguais. Mas eu não quero ser metade de um todo. Eu prefiro ser nada a ser metade.
Ela se virou e saiu do salão, seus passos ecoando com uma força que denunciava sua agitação. Baela, a filha de um ano, começou a chorar no colo da ama, assustada pela explosão da mãe.
Daemon fechou os olhos por um momento, a mandíbula contraída. Ele sentia o peso de suas escolhas. Ele não era um homem de arrependimentos, mas ver as duas mulheres que amava se destruindo lentamente era um tipo de tortura que ele não sabia como combater com uma espada.
— Vá atrás dela — disse Alicent suavemente.
Daemon olhou para ela, surpreso.
— Alicent...
— Ela precisa de você agora mais do que eu. Ela está sofrendo, Daemon. O ciúme dela não vem do ódio por mim, mas do amor imenso que ela tem por você. Vá. Eu cuidarei das crianças.
Daemon inclinou-se e beijou a testa de Alicent. Era um beijo cheio de gratidão e de uma tristeza silenciosa. Ele se levantou e seguiu pelo mesmo caminho que Laena tomara.
Ele a encontrou nas ameias, onde o vento soprava com mais força. Laena estava de pé, as mãos agarradas à pedra fria, olhando para o mar escuro onde a silhueta de Vhagar podia ser vista como uma montanha de sombras na praia.
Daemon aproximou-se sem fazer barulho e envolveu-a por trás, enterrando o rosto em seu pescoço. Ela estava rígida, mas não se afastou.
— Eu não posso deixar de ser quem eu sou, Laena — murmurou ele contra a pele dela. — E eu não posso deixar de amá-la. Mas isso não diminui o que sinto por você. Você é o meu sangue, a minha chama. Você é a mulher que cavalga dragões comigo.
— E ela é a mulher que te dá o descanso que eu não sei dar — disse Laena, a voz embargada. — Eu o vejo com ela, Daemon. Vejo como você suaviza os ombros. Comigo, você está sempre pronto para a guerra. Com ela, você está em casa.
— Você também é minha casa — declarou ele, virando-a para que ela o encarasse. — Uma casa diferente, talvez. Uma casa de fogo e de glória. Eu preciso das duas. Se eu perder uma de vocês, eu me tornarei o monstro que o mundo acredita que eu sou.
Laena encostou a testa no peito dele, deixando as lágrimas finalmente caírem.
— É egoísmo seu. É uma crueldade que só um Targaryen poderia cometer.
— Talvez seja — admitiu ele, segurando o rosto dela com as duas mãos. — Mas eu não vou mudar. Eu vou lutar por você, Laena. Vou lutar contra o seu próprio ressentimento se for preciso.
Enquanto isso, no salão agora silencioso, Alicent terminava de acalmar a pequena Baela, balançando-a junto com Helaena. Aegon brincava no chão, alheio aos dramas dos adultos.
Alicent olhou para a porta por onde Daemon saíra. Ela sabia que, naquela noite, ele não voltaria para o seu leito. E, embora houvesse uma pontada de solidão em seu peito, ela não sentia raiva. Ela sentia apenas uma profunda esperança de que, um dia, Laena pudesse ver que elas não eram inimigas, mas duas mulheres presas na órbita de um homem que era grande demais para uma vida comum.
Ela começou a cantar uma canção de ninar antiga, uma melodia que falava de flores e de verões eternos, tentando abafar o som do vento e o rugido distante dos dragões. Alicent sabia que o papel dela naquela família era ser a cola que mantinha os pedaços unidos, mesmo quando as chamas de Laena e a impulsividade de Daemon ameaçavam reduzir tudo a cinzas.
No dia seguinte, Alicent acordou cedo. Ela colheu um buquê de jasmins brancos nos jardins internos, onde o solo era protegido do salitre. Com passos decididos, ela caminhou até os aposentos de Laena.
A porta foi aberta por uma serva, que hesitou ao ver a segunda esposa do príncipe.
— Diga à Lady Laena que eu trouxe algo para perfumar o quarto dela — disse Alicent, mantendo o tom de voz calmo e o sorriso gentil.
Lá de dentro, a voz de Laena soou, menos ríspida do que na noite anterior, mas ainda carregada de cautela.
— Deixe-a entrar.
Alicent entrou. O quarto estava na penumbra. Laena estava sentada diante de um espelho de prata, penteando os cabelos. Daemon não estava lá; ele provavelmente já estava no pátio, cuidando de Caraxes.
Alicent colocou as flores em um vaso de cristal sobre a mesa.
— Elas floresceram esta manhã — disse Alicent. — O cheiro me lembrou de Driftmark. Dizem que o jasmim lá é o mais doce de Westeros.
Laena parou de pentear os cabelos. Ela olhou para as flores pelo reflexo do espelho.
— Por que você faz isso, Alicent? Por que continua tentando, depois de tudo o que eu disse ontem?
Alicent aproximou-se, parando a uma distância respeitosa.
— Porque eu não tenho irmãs, Laena. E porque nossos filhos crescerão juntos. Aegon, Helaena e Baela são sangue do mesmo sangue. Eu não quero que eles cresçam em uma casa dividida por muros que nós mesmas construímos.
Laena virou-se, observando Alicent com uma intensidade nova. Ela viu a sinceridade nos olhos verdes da outra mulher, a ausência total de artifício ou de malícia. Era irritante, de certa forma, encontrar tamanha pureza em um lugar como aquele.
— Você é irritantemente paciente — comentou Laena, embora o canto de sua boca tenha esboçado um movimento que quase poderia ser um sorriso.
— É a minha única arma — respondeu Alicent, com leveza. — Eu não sei montar dragões, nem manejar espadas. Eu só sei cuidar. E eu gostaria de cuidar de você também, se você permitir.
Laena suspirou, o peso de sua armadura emocional parecendo ceder apenas alguns milímetros.
— Não espere que eu te chame de irmã tão cedo, Alicent. O fogo e a água não se misturam facilmente.
— Eu sei — disse Alicent, recuando para a porta. — Mas eles podem coexistir no mesmo jardim.
Ao sair, Alicent sentiu um pequeno triunfo. Não era a paz total, nem a amizade que ela sonhava, mas era um começo. No pátio, ela viu Daemon observando-a de longe. Ele tinha um meio sorriso nos lábios, um olhar de admiração que ele raramente dirigia a qualquer pessoa.
Ele sabia o que ela estava tentando fazer. E, pela primeira vez em muito tempo, o Príncipe Canalha sentiu que, talvez, o equilíbrio impossível que ele criara pudesse realmente sobreviver. Entre a chama de Laena e a serenidade de Alicent, ele encontrava a sua própria redenção.
A vida em Pedra do Dragão continuaria sendo um desafio, um jogo de sombras e luz, mas enquanto houvesse o jasmim de Alicent e o fogo de Laena, a Casa do Dragão permaneceria unida, sustentada pelo amor complexo e multifacetado de um homem que se recusava a viver pela metade.
