
Amorés interrompidos
Fandom: Sombras e ossos
Criado: 29/07/2026
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O Eco do que Fomos
As paredes de quartzito do Pequeno Palácio costumavam emanar um calor reconfortante para Clara, mas agora pareciam frias e impessoais, como o gelo que cercava as fronteiras de Ravka. Ela caminhava pelos corredores com as mãos escondidas nas mangas largas de sua kefta azul, o bordado prateado dos Sangradores brilhando sob a luz dos candelabros.
Clara não era como as outras Grishas que desfilavam elegância pelas salas de jantar. Ela tinha curvas acentuadas, um rosto redondo e braços macios que Aleksander — o General Kirigan — costumava dizer que eram o seu refúgio. Ela era uma raridade, uma Sangradora que também possuía o dom perigoso e exaustivo de ler pensamentos, uma interface entre o corpo e a mente. E foi essa singularidade que a aproximou do Darkling.
Meses atrás, o relacionamento deles era um segredo compartilhado entre lençóis de seda e sussurros na madrugada. Ele havia se aberto para ela de uma forma que não fizera com ninguém em séculos. Clara conhecia o monstro por trás da máscara de herói; ela sabia sobre a Dobra, sobre a sede de poder e sobre a solidão avassaladora que o consumia. E, mesmo assim, ela o amou.
— Que eu te beijei foi melhor do que eu imaginei — sussurrou ela para o vazio do seu quarto, lembrando-se da primeira vez em que ele rompeu a barreira da autoridade. — Se eu soubesse, tinha feito antes. Fomos bons amantes, Aleksander.
Mas então, a Conjuradora do Sol chegou.
Alina Starkov era tudo o que Clara não era: magra, pálida, envolta em uma profecia de luz que cegava a todos, inclusive ao General. Desde que a menina de Keramzin pisou no palácio, o mundo de Clara desmoronou em silêncio.
Naquela noite, ela o encontrou no corredor que levava aos aposentos dele. O General caminhava com pressa, as sombras dançando ao redor de seus ombros como capas vivas.
— Aleksander — chamou ela, a voz falhando levemente.
Ele parou, mas não se virou imediatamente. Quando o fez, seus olhos, que antes brilhavam com uma possessividade terna quando a viam, estavam opacos, focados em mapas mentais e estratégias que não a incluíam mais.
— Clara — disse ele, o tom de voz tão formal quanto se estivesse falando com um soldado raso. — O que faz fora de seus aposentos a esta hora?
Clara sentiu um aperto no peito, como se suas próprias habilidades de Sangradora estivessem voltando-se contra seu coração.
— Você mal fala comigo há semanas. Eu sei o que está tentando fazer com a Conjuradora, eu sei o que você planeja para a Dobra... você me contou tudo, lembra?
— As coisas mudaram — retrucou ele, dando um passo à frente, entrando no círculo de luz de uma tocha próxima. — O destino de Ravka está em jogo. Não tenho tempo para distrações sentimentais.
— Distrações? — Clara sentiu uma lágrima quente escorrer por seu rosto redondo. — Éramos mais do que isso. Você me disse que eu era a única que realmente o via.
Aleksander aproximou-se, mas não para abraçá-la. Ele inclinou a cabeça, observando-a com uma curiosidade clínica que a fez estremecer.
— Você vê o que eu permito que veja, Clara. Agora, volte para o seu quarto. Temos muito trabalho pela frente com a expansão do exército Grisha.
Ele passou por ela, o cheiro de sândalo e sombras deixando um rastro amargo. Clara fechou os olhos e tentou ler a mente dele, um último esforço desesperado, mas tudo o que encontrou foi um muro de escuridão fria e a imagem persistente de Alina Starkov.
Os meses se passaram como um inverno rigoroso que se recusava a ceder. O palácio estava em polvorosa com os preparativos para a demonstração de poder na Dobra. Clara via Aleksander de longe, sempre ao lado da Conjuradora do Sol, guiando-a, moldando-a, seduzindo-a com as mesmas promessas de "não estarmos mais sozinhos" que um dia sussurrara no ouvido de Clara.
Certa noite, pouco antes da partida para a Dobra, Clara o encontrou nos jardins de inverno. A neve caía levemente através do teto de vidro. Ela não aguentava mais o silêncio. Ela precisava saber se ainda restava algo do homem que a abraçava com tanta força que parecia querer fundir suas almas.
— Aleksander? — Ela se aproximou, a kefta azul apertada contra o corpo para protegê-la do frio que vinha de dentro.
Ele se virou, e por um breve segundo, a máscara caiu. Ele parecia exausto. Mas, assim que a reconheceu, a frieza retornou.
— Clara. Pensei ter deixado claro que não deveríamos ser vistos juntos com frequência.
Ela caminhou até ele, ignorando o aviso. Ela estendeu a mão e tocou o rosto dele. A pele dele era fria, mas não era a frieza do inverno; era a frieza de alguém que já havia partido.
— Estranhos — murmurou ela, a voz embargada. — Você beija minha boca, mas ela parece estranha para você agora. Seu carinho... parece que arranha.
Ela deslizou a mão para o peito dele, sentindo os batimentos cardíacos lentos e constantes sob o tecido negro.
— Seu abraço é tão solto agora — continuou ela, olhando fixamente nos olhos cinzentos dele. — Não consegue mais me prender. Hoje, Aleksander... hoje eu desconheci você.
O General segurou o pulso dela, afastando a mão de seu peito. Não foi um gesto bruto, mas foi definitivo.
— O que tivemos foi necessário para aquele momento, Clara. Você me deu conforto quando eu precisei de um âncora. Mas a Conjuradora do Sol é o futuro. Eu não posso me dar ao luxo de olhar para trás.
— Eu não sou o passado, eu sou a pessoa que conhece a sua verdade! — exclamou ela, as lágrimas agora fluindo livremente. — Ela ama o herói que você finge ser. Eu amo o monstro que você é. Como isso pode não significar nada?
— Porque monstros não amam, Clara — disse ele, a voz desprovida de qualquer emoção. — Eles apenas possuem. E eu já possuo o que preciso.
Ele se inclinou e, por um reflexo de hábito ou talvez um resquício de crueldade, beijou a testa dela. Foi um beijo desprovido de paixão, um beijo de despedida para um objeto que não tinha mais utilidade.
— Fique no palácio quando partirmos. Você estará segura aqui.
Clara ficou parada no jardim enquanto ele se afastava. O poder de ler pensamentos, que ela sempre considerara um dom, era agora sua maior maldição. Ela podia sentir o eco da indiferença dele vibrando no ar. Ele não estava nem mesmo pensando nela enquanto caminhava; seus pensamentos já estavam na luz de Alina, em como usá-la, em como dobrar o mundo à sua vontade.
Ela olhou para suas próprias mãos. Ela era uma Sangradora. Ela podia parar o coração dele com um pensamento se quisesse. Ela podia sentir o fluxo sanguíneo dele, o ritmo de suas artérias. Mas o que adiantava dominar o corpo se a alma dele era um abismo onde ela não tinha mais lugar?
— Fomos bons amantes — repetiu ela, a voz sumindo na neve.
Naquela noite, Clara entendeu que o homem que ela amara nunca existira de fato, ou talvez fosse apenas uma faceta que ele descartara como uma roupa velha. O General Kirigan era uma sombra, e sombras não podem ser seguradas.
Dias depois, quando os navios de areia partiram em direção à Dobra das Sombras, Clara assistiu da varanda mais alta. Ela viu a kefta negra dele ao lado da kefta dourada de Alina. O contraste era perfeito, uma imagem de destino e poder.
Ela sentiu um puxão em sua mente, um vislumbre fugaz dos pensamentos dele enquanto ele se afastava. Não havia arrependimento. Não havia saudade. Havia apenas a determinação implacável de quem estava disposto a queimar o mundo para governar as cinzas.
Clara tocou os próprios lábios, ainda sentindo o fantasma do toque dele.
— Estranhos — disse ela para o vento de Ravka.
Ela se virou e caminhou de volta para as sombras do Pequeno Palácio. Ela não era mais a amante do General. Ela era apenas mais uma Grisha, uma peça no tabuleiro, esperando para ver se o mundo seria salvo pela luz ou consumido pela escuridão que ela, melhor do que ninguém, sabia o quão profunda era.
A dor em seu peito era um lembrete constante de que, no jogo dos santos e dos monstros, o coração humano era sempre a primeira baixa. E enquanto ela se perdia nos corredores de quartzito, Clara soube que, embora ele tivesse esquecido o calor do seu abraço, ela passaria o resto de seus dias tentando esquecer o frio que ele deixou em seu lugar.
