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Fandom: Sombras e ossos

Criado: 29/07/2026

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Sombras e Segredos no Palácio de Vidro

O ar de Os Alta estava impregnado com o cheiro de petrichor e o perfume pesado das flores de inverno, mas dentro dos aposentos reais, o aroma que dominava os sentidos de Clara era o de leite morno e lavanda. Ela embalava o pequeno Aleksander — um nome que ela sussurrava apenas na segurança do seu coração — contra o peito. O bebê, de bochechas fartas e pernas dobradinhas de gordura, soltou um pequeno suspiro enquanto dormia, o peso reconfortante de seu corpo sendo a única âncora que impedia Clara de desmoronar.

Ela se olhou no espelho de corpo inteiro. O vestido de seda azul-escuro, bordado com fios de prata, abraçava suas curvas de forma generosa. Como uma Sangria, ela sempre soube como o corpo humano funcionava, mas a maternidade havia transformado sua silhueta de uma forma que ela agora aprendia a amar. No entanto, o que a preocupava não era o ajuste do vestido, mas o que ele representava: sua volta oficial à corte, o fim de seu esconderijo.

— Ele tem os olhos dele, Clara. Mesmo fechados, a forma das pálpebras, o desenho do nariz... não há como negar. — A voz da Rainha, suave mas carregada de uma autoridade pragmática, veio da porta.

Clara se virou, apertando o filho um pouco mais forte.

— Eu sei, Majestade. Por isso tenho tanto medo. Se Kirigan colocar os olhos nele, ele saberá. E ele não o verá como um filho, mas como uma extensão de seu próprio poder. Uma ferramenta.

A Rainha aproximou-se, tocando levemente a mãozinha gordinha do bebê.

— Ele não chegará perto dos seus aposentos. Minha guarda pessoal está na porta. Mas hoje, a Conjuradora do Sol será apresentada formalmente a Ravka e ao mundo. O General exige que toda a corte Grisha e os protegidos da coroa estejam presentes. Se você se ausentar novamente, ele começará a fazer perguntas que não queremos responder.

Clara sentiu um aperto no peito. Lembrava-se de como era ser o segredo de Kirigan. Lembrava-se da possessividade dele, de como ele a mantinha trancada no Pequeno Palácio, alegando que seus dons de ler mentes e curar o sangue eram preciosos demais para serem expostos. Ela acreditara que era amor. Acreditara que o isolamento era proteção. Mas quando Alina Starkov chegou, a máscara caiu. O General que dizia venerá-la tornou-se um estranho frio, cujos olhos só brilhavam para a luz da Conjuradora.

— Eu vou — disse Clara, sua voz firme apesar do tremor nas mãos. — Mas assim que a cerimônia terminar, voltarei para ele.

Ela entregou o bebê à babá, uma mulher de confiança absoluta da Rainha. O coração de Clara doeu ao ver o filho ser levado para o berço. O menino era tão gordinho e cheiroso, um milagre de carne e osso nascido de um amor que se tornara cinzas.

— Cuide dele com sua vida — sussurrou Clara para a babá, antes de seguir a Rainha pelos corredores dourados do Grande Palácio.

O Grande Salão estava uma cacofonia de cores e sons. Keftas de todas as cores se misturavam aos uniformes militares e aos vestidos extravagantes da nobreza. Clara sentiu a pressão das mentes ao seu redor — um burburinho constante de inveja, luxúria, medo e tédio. Como uma Grisha capaz de ler mentes, ela costumava usar um bloqueio mental, mas hoje, sua própria ansiedade deixava as defesas baixas.

— Mantenha a cabeça erguida — instruiu a Rainha antes de ocupar seu lugar no trono.

Clara posicionou-se em um recuo lateral, parcialmente escondida por uma coluna de mármore, mas com visão clara do estrado.

As portas duplas se abriram com um estrondo. O silêncio caiu sobre o salão como um manto pesado.

Lá estava ele. O General Kirigan, o Darkling, vestindo seu kefta preto com bordados de ébano que pareciam absorver a luz ao redor. Ao seu lado, caminhava uma jovem que parecia pequena e deslocada em seu kefta dourado. Alina Starkov.

O coração de Clara parou. A presença de Kirigan era como um puxão gravitacional, uma força escura que ela conhecia intimamente. Ela sentiu a mente dele antes mesmo de ele olhar em sua direção — era uma vastidão fria, focada, cheia de planos e uma ambição que a assustava.

— Nobreza de Ravka, povo do Segundo Exército — a voz de Kirigan ecoou, profunda e magnética. — Hoje, a esperança deixa de ser um mito. Apresento-lhes a Conjuradora do Sol.

Enquanto ele falava, Clara tentou se encolher, mas foi tarde demais. O olhar de Kirigan varreu a multidão com a precisão de um falcão. Ele parou. Suas sobrancelhas se franziram imperceptivelmente. Ele a encontrou.

Clara sentiu a invasão mental dele — não uma leitura de pensamentos, mas um toque possessivo, uma pergunta silenciosa carregada de fúria e ressentimento. Onde você esteve? Por que fugiu de mim para os braços da Rainha?

Ela desviou o olhar, focando em Alina, mas a conexão não se quebrou. Kirigan continuou o discurso mecanicamente, mas sua atenção estava dividida. Para todos os outros, ele era o comandante inabalável. Para Clara, ele era o homem que a deixara murchar na solidão enquanto buscava o poder da luz.

Após a demonstração de Alina — um clarão cegante que fez os olhos de Clara arderem —, a recepção começou. Clara tentou se retirar discretamente, mas uma mão enluvada de preto segurou seu pulso com uma força que beirava a dor.

— Você mudou, Clara.

A voz dele estava tão perto de seu ouvido que ela sentiu o calor de sua respiração. Clara se forçou a não tremer.

— O tempo passa para todos, General — respondeu ela, tentando soltar o braço.

— Você está mais... cheia. Mais radiante, de uma forma que eu não esperava encontrar sob o teto da Rainha — disse ele, seus olhos escuros percorrendo o rosto dela, descendo pelo decote do vestido e parando na curva de seus quadris. — Por que fugiu? Eu ordenei que ficasse no Pequeno Palácio.

— Eu não sou sua prisioneira, Aleksander — ela usou o nome dele como uma arma, vendo-o estremecer levemente. — E eu não sou mais sua. Você encontrou sua Conjuradora. Deixe-me em paz.

Kirigan inclinou a cabeça, um sorriso frio brincando em seus lábios.

— Você sabe que eu nunca deixo o que me pertence. E há algo diferente em você. Seu cheiro... — ele se aproximou mais, aspirando o ar perto do pescoço dela. — É doce. Como leite e flores.

O pânico subiu pela garganta de Clara. Se ele continuasse a interrogá-la, ele sentiria a verdade através do sangue dela. Como Sangria, ela podia controlar o ritmo cardíaco dos outros, mas ele podia sentir a verdade no tremor de seu pulso.

— Eu estive doente — mentiu ela apressadamente. — A Rainha me cedeu os melhores curadores. Agora, se me der licença, preciso me retirar.

— Você não vai a lugar nenhum até que eu diga — rosnou ele, a possessividade brilhando em seus olhos. — Você me deve meses de ausência.

— Eu não lhe devo nada! — Clara sibilou, usando seu dom para enviar uma pontada de dor aguda à têmpora dele.

Kirigan soltou seu pulso por um segundo, surpreso pela audácia. Clara aproveitou a brecha e desapareceu entre a multidão de cortesãos, correndo em direção aos seus aposentos. Seus pulmões ardiam e o coração batia como o de um pássaro enjaulado.

Ao entrar no quarto, ela trancou a porta e encostou-se nela, tentando recuperar o fôlego. O bebê acordou com o barulho e começou a chorar.

Clara correu para o berço e o pegou nos braços.

— Shhh, meu pequeno, mamãe está aqui — ela soluçou, beijando a testa do filho.

— Ele é realmente a minha imagem, não é?

A voz veio das sombras do canto do quarto. Clara congelou. Kirigan estava parado ali, as sombras da sala parecendo se curvar em sua direção. Ele não havia seguido Clara pelo corredor; ele conhecia os atalhos do palácio melhor do que qualquer um.

Ele caminhou lentamente em direção à luz das velas. Seus olhos caíram sobre o bebê gordinho nos braços de Clara. O silêncio que se seguiu foi aterrorizante.

O General aproximou-se, sua expressão passando do choque para uma compreensão sombria e, finalmente, para uma possessividade avassaladora. Ele estendeu a mão, e Clara recuou até bater contra a parede.

— Não toque nele — ela avisou, sua voz carregada de poder Grisha.

Kirigan parou, mas seus olhos nunca deixaram a criança.

— Um filho... — sussurrou ele, e pela primeira vez em anos, Clara viu uma rachadura na máscara de ferro do Darkling. — Um herdeiro. E você achou que poderia escondê-lo de mim? No palácio daquela mulher fútil?

— Ele não é seu herdeiro — disse Clara, as lágrimas correndo pelo rosto. — Ele é apenas um bebê. Ele é meu. Você o transformaria em um monstro antes mesmo de ele aprender a andar.

— Ele é o meu sangue, Clara. — Kirigan deu um passo final, reduzindo a distância entre eles. Ele não tentou tirar o bebê dela, mas colocou a mão sobre a cabeça da criança, um gesto que era ao mesmo tempo uma bênção e uma reivindicação. — Olhe para ele. Ele tem a marca da linhagem Morozova. Ele será o Grisha mais poderoso que este mundo já viu, depois de mim.

Clara sentiu a mente de Kirigan se abrir para ela, não com ódio, mas com uma determinação feroz. Ele não estava mais interessado na Conjuradora do Sol naquele momento. Ele tinha algo muito mais real, algo que o ligava ao futuro de uma forma que a luz de Alina jamais conseguiria.

— Você tentou me deixar — disse ele, voltando o olhar para Clara, seus dedos agora acariciando a bochecha dela de forma quase terna, mas ainda assim assustadora. — Mas agora, você me deu um motivo para nunca mais deixá-la sair debaixo da minha sombra.

— A Rainha não vai deixar você levá-lo — desafiou Clara.

Kirigan soltou uma risada curta e sem humor.

— A Rainha é uma mortal brincando de política. Eu sou o destino de Ravka. E este menino... ele é o meu legado.

O bebê soltou um pequeno balbucio e agarrou o dedo de Kirigan. O General estancou, a surpresa cruzando seu rosto novamente. O pequeno Aleksander apertou o dedo do pai com força, suas bochechas gordinhas se contraindo em um quase sorriso.

Clara viu o perigo naquele momento. O vínculo estava selado. Ela vira o que Kirigan fazia com o que amava: ele destruía para possuir.

— Por favor — implorou ela. — Se você algum dia sentiu algo por mim, se realmente me venerava como dizia... deixe-nos ir.

Kirigan inclinou-se e beijou a testa de Clara, um gesto frio que selou seu destino.

— Eu nunca deixo o que é meu, Clara. Prepare suas coisas. Vocês voltam para o Pequeno Palácio ao amanhecer. E desta vez, não haverá portas que você possa abrir.

Ele se virou para sair, mas parou na porta, olhando uma última vez para o filho.

— Ele é gordinho — comentou ele, um traço quase humano de orgulho em sua voz. — Como a mãe.

Quando ele saiu, as sombras pareceram levar todo o calor do quarto. Clara abraçou seu filho, sentindo o cheiro de lavanda e leite, sabendo que a luz da Conjuradora do Sol era apenas uma distração. A verdadeira guerra, e o verdadeiro segredo, agora repousavam em seus braços, e o monstro que ela amava finalmente tinha o que precisava para nunca mais deixá-la partir.

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