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Vegdhh

Fandom: 50 tons de cinza

Criado: 29/07/2026

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O Eco de um Sobrenome

O vento de Seattle soprava cortante, carregando consigo o cheiro de chuva iminente e a promessa de lembranças que Clara Park preferia manter enterradas em Boston. Ela ajustou o sobretudo de lã, sentindo o tecido abraçar suas curvas. Clara sempre fora uma mulher volumosa, orgulhosa de seu corpo, e Christian, à sua maneira possessiva e sombria, sempre fora obcecado por cada centímetro dela.

Ao entrar no imponente saguão da Grey House, o tilintar de seus saltos no mármore anunciou sua chegada. Ela não vinha ali apenas como uma visitante; ela detinha vinte por cento das ações da empresa, um presente — ou talvez uma algema de ouro — que Christian lhe dera no segundo ano de casamento.

— Bom dia, Sra. Grey. É um prazer tê-la de volta — disse a recepcionista, com um sorriso que misturava reverência e curiosidade.

Clara forçou um sorriso gentil, embora o coração desse um solavanco ao ouvir o nome.

— Obrigada, mas é Clara Park agora, lembra? — corrigiu ela, pela milésima vez nos últimos anos.

— Oh, sinto muito. O hábito, a senhora sabe como é. O Sr. Grey a aguarda na sala de conferências.

Clara assentiu e seguiu para o elevador. O "hábito" não era apenas da recepcionista. Era de toda a cidade, de toda a estrutura da Grey Enterprises. Para o mundo, ela ainda era a mulher que domou o leão, mesmo que o leão tivesse escolhido a liberdade em vez da paternidade.

O divórcio não fora por falta de amor. Longe disso. Christian a amava com uma intensidade que beirava a loucura, uma obsessão que a sufocava e a encantava simultaneamente. Mas quando Clara engravidou, o muro intransponível de Christian se ergueu. Ele não queria ser pai; ele não queria dividir a atenção dela com ninguém, nem mesmo com um filho. A pressão e o medo dele acabaram por quebrar o que parecia inquebrável. Clara perdeu o bebê meses depois do divórcio, um segredo que ela guardava a sete chaves em Boston, e desde então, o vazio deixado por Christian nunca fora preenchido.

As portas do elevador se abriram no andar da diretoria. Clara respirou fundo, endireitou a postura e caminhou. Ela era uma profissional impecável, respeitada no mercado financeiro, e não deixaria suas emoções transparecerem.

Ao entrar na sala, o ar pareceu ficar mais denso. Christian estava lá, de pé junto à janela, a silhueta impecável em um terno feito sob medida. Ao lado dele, uma jovem de aparência frágil e olhos azuis curiosos: Anastácia Steele.

— Você está atrasada três minutos — a voz de Christian ecoou, fria e familiar, enviando arrepios pela espinha de Clara.

Ele se virou, e o olhar dele a percorreu com uma fome que ele não conseguia esconder totalmente. Não era o olhar que ele direcionava a Anastácia; era algo mais profundo, mais antigo e muito mais perigoso.

— O trânsito de Seattle continua o mesmo, Christian — respondeu ela, caminhando até a mesa e colocando sua pasta de couro sobre a superfície polida. — Olá, você deve ser a Anastácia.

A jovem se levantou, parecendo um pouco intimidada pela presença imponente de Clara.

— Sim, prazer. Eu sou a assistente pessoal do Christian... e namorada — completou Anastácia, com uma ponta de timidez.

Clara sentiu uma pontada de tristeza, mas manteve a máscara. Anastácia claramente não sabia de nada. Para ela, Clara era apenas uma acionista importante, uma peça no tabuleiro dos negócios de Grey.

— É um prazer, Anastácia. Eu sou Clara Park.

— Sra. Grey, os documentos para a votação da fusão estão aqui — interrompeu Andrea, a secretária, entrando na sala e entregando uma pasta a Clara.

Anastácia franziu a testa, confusa.

— Sra. Grey? — sussurrou ela, olhando de Clara para Christian.

Christian endureceu os ombros, seu olhar fixo em Clara, ignorando a pergunta da namorada.

— Podemos começar? — perguntou ele, a voz ríspida. — Clara tem um voo de volta para Boston à noite e não quero perder tempo.

— Na verdade, Christian — disse Clara, sentando-se e cruzando as pernas com elegância —, eu decidi ficar por alguns dias. Tenho outros assuntos a tratar na cidade.

O brilho nos olhos de Christian foi momentâneo, mas Clara o notou. Era possessividade pura. Ele odiava que ela estivesse fora de seu alcance, mesmo que ele mesmo tivesse provocado a separação.

A reunião prosseguiu por duas horas excruciantes. Clara era brilhante, questionando cada cláusula com uma precisão cirúrgica. Anastácia observava tudo em silêncio, visivelmente desconfortável com a dinâmica entre o namorado e aquela mulher que todos insistiam em chamar pelo sobrenome dele.

Quando a reunião finalmente terminou, Anastácia se retirou para buscar alguns cafés, deixando os dois sozinhos. O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado de anos de palavras não ditas.

— Você continua a mesma, Clara — disse Christian, aproximando-se da mesa. — Sempre tentando me desafiar na frente dos meus funcionários.

— Eu não te desafio, Christian. Eu protejo meus investimentos — respondeu ela, sem desviar o olhar. — E você deveria ensinar seus funcionários a usarem meu nome correto. É desrespeitoso com a sua... namorada.

Christian soltou uma risada seca, um som sem alegria.

— Eles sabem quem você é. Eles sabem que ninguém ocupará o seu lugar nesta empresa. Ou na minha vida.

— Não diga bobagens. Você tem a Anastácia agora. Ela parece... doce.

Christian deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Clara. O perfume dele, aquela mistura de sândalo e luxo, a envolveu, despertando memórias de noites em que o mundo lá fora não existia.

— Ela é um passatempo, Clara. Uma distração para o silêncio que você deixou — ele sibilou, a voz baixa e perigosa. — Você ainda usa o anel que eu te dei?

Clara sentiu o peso do anel de diamantes guardado em uma corrente sob sua blusa, tocando sua pele. Ela nunca conseguiu se desfazer dele.

— Isso não é da sua conta. Nós seguimos em frente, Christian. Você deixou claro o que queria quando assinamos os papéis.

— Eu deixei claro que não queria uma criança! — ele explodiu, batendo com a mão na mesa. — Eu nunca disse que não queria você.

— Você não pode ter uma sem a outra, e você fez sua escolha.

A porta se abriu e Anastácia voltou com os cafés, parando bruscamente ao sentir a tensão elétrica na sala. Christian se afastou imediatamente, voltando à sua postura gélida.

— Aqui está — disse Anastácia, entregando um copo a Clara. — Sra. Park... desculpe, eu ouvi a secretária chamá-la de Sra. Grey novamente lá fora. Vocês são parentes?

Clara olhou para Christian. Ele estava pálido, a mandíbula cerrada. Ele não tinha contado a ela. O grande Christian Grey, que exigia honestidade absoluta, estava escondendo um casamento inteiro de sua nova submissa.

— Somos velhos conhecidos, Anastácia — disse Clara, com a voz suave, poupando a menina por enquanto. — Trabalhamos juntos há muito tempo. O sobrenome... bem, as pessoas em Seattle têm memórias longas e imaginativas.

Anastácia pareceu aceitar a explicação, embora a dúvida ainda brilhasse em seus olhos.

— Eu preciso ir — disse Clara, pegando sua pasta. — Christian, nos vemos na reunião de acionistas em seis meses. Ou talvez antes, se eu decidir visitar minhas propriedades aqui.

— Clara — chamou ele, quando ela já estava na porta.

Ela parou e olhou para trás.

— O jantar de caridade da família Grey é amanhã à noite. Minha mãe faz questão da sua presença. Ela ainda te considera uma filha.

Clara sentiu um aperto no peito. Grace Grey fora a única mãe que ela realmente conhecera.

— Eu vou pensar no assunto.

Ao sair da sala, Clara não olhou para trás. Ela sabia que os olhos de Christian estavam cravados nela, possessivos, famintos e cheios de um arrependimento que ele jamais admitiria em voz alta. Ela caminhou pelo corredor, o som de seus saltos ecoando como um lembrete: ela podia ter saído da vida dele, mas ele nunca sairia da dela. E, por mais que tentasse mentir para si mesma em Boston, ela ainda era, em cada fibra de seu ser, a mulher de Christian Grey.

No elevador, ela finalmente permitiu que uma lágrima caísse. Ela era a ex-esposa, a acionista, a mulher gordinha que ele adorava despir com os olhos, a profissional de sucesso. Mas, acima de tudo, ela era a única pessoa que realmente conhecia o monstro por trás da máscara de ferro, e o monstro ainda a chamava de lar.

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